No outono, observar um esquilo transportar uma bolota, enterrá-la rapidamente e desaparecer entre as árvores pode parecer apenas uma pequena cena de preparação para o inverno. Mas por trás desse comportamento existe um sistema de armazenamento e recuperação de alimento que tem despertado o interesse de investigadores da cognição animal.
Muitos esquilos que armazenam alimento utilizam uma estratégia conhecida como armazenamento disperso, ou scatter-hoarding. Em vez de colocarem todas as sementes num único esconderijo, distribuem-nas por numerosos locais. Mais tarde, precisam de voltar a encontrar pelo menos uma parte dessas reservas.
A memória espacial dos esquilos desempenha um papel importante nesse processo. Experiências comportamentais indicam que estes animais conseguem recordar localizações de alimento e não dependem simplesmente de procurar ao acaso. Isso não significa, porém, que exista uma explicação cognitiva única ou que todas as espécies utilizem exatamente a mesma estratégia.
E existe uma consequência fascinante para o ecossistema: algumas sementes nunca são recuperadas. Uma bolota esquecida pelo esquilo pode acabar por fazer aquilo para que evoluiu — germinar.
Índice
- Por que os esquilos enterram alimento
- O que é o armazenamento disperso
- Como os esquilos voltam a encontrar as reservas
- O que a investigação revela sobre memória espacial
- Escolher e organizar esconderijos também faz parte da estratégia
- Esquilos e gaios: duas formas de resolver um problema semelhante
- Por que algumas bolotas nunca são recuperadas
- De alimento armazenado a nova árvore
- Como os esquilos sobrevivem ao inverno
- Como apoiar esquilos no jardim de forma responsável
- Portugal e Brasil: atenção às espécies locais
- Perguntas frequentes
- Conclusão
Por que os esquilos enterram alimento
Uma árvore carregada de sementes oferece uma oportunidade extraordinária, mas temporária.
Bolotas, avelãs, nozes e outras sementes podem estar abundantemente disponíveis durante determinada fase do ano e tornar-se muito mais difíceis de encontrar posteriormente.
Alguns esquilos resolvem esse problema armazenando alimento.
Em vez de consumirem imediatamente tudo o que encontram, transportam parte das sementes para locais onde poderão recuperá-las posteriormente.
O comportamento funciona como uma transferência de recursos no tempo: alimento disponível agora é reservado para uma época em que encontrar comida poderá ser mais difícil.
Mas esconder alimento cria outro problema.
É preciso encontrá-lo novamente.
O que é o armazenamento disperso
Existem diferentes estratégias de armazenamento de alimento no mundo animal.
Uma delas consiste em concentrar grande quantidade de recursos num único local. Outra é distribuir pequenas quantidades por vários esconderijos.
Esta segunda estratégia é chamada armazenamento disperso.
Diversas espécies de esquilos utilizam este método.
Um animal pode recolher uma semente, transportá-la para outro ponto, abrir uma pequena cavidade no solo, depositá-la e cobrir cuidadosamente o local.
Depois repete o comportamento noutra parte do território.
Ao longo de uma estação, isso pode resultar numa rede extensa de reservas distribuídas pela paisagem.
A escala varia conforme a espécie, disponibilidade de alimento, habitat e época do ano. Por esse motivo, não é correto atribuir um número fixo de esconderijos a “um esquilo” como se todos se comportassem da mesma maneira.
O princípio, contudo, é consistente: espalhar reservas reduz o risco de perder todo o alimento de uma só vez.
Por que não guardar tudo no mesmo sítio?
Imagine um único depósito cheio de sementes.
Se outro animal o encontrar, pode consumir grande parte das reservas.
Ao espalhar o alimento, o esquilo distribui esse risco.
Um esconderijo descoberto não significa necessariamente a perda de todos os outros.
A desvantagem é evidente: o próprio proprietário precisa de gerir muitas localizações.
É aqui que a memória espacial se torna especialmente importante.
Como os esquilos voltam a encontrar as reservas
Durante muito tempo, seria fácil imaginar que o esquilo simplesmente farejava o solo até localizar sementes enterradas.
O olfato certamente pode contribuir para encontrar alimento, sobretudo quando o animal já está próximo de uma reserva.
Mas experiências comportamentais sugerem que a recuperação não depende apenas disso.
Os esquilos conseguem utilizar informação espacial para regressar a áreas onde esconderam alimento.
Estudos clássicos com esquilos demonstraram que indivíduos recuperavam as suas próprias reservas de forma consistente com o uso de memória espacial, em vez de dependerem exclusivamente do cheiro ou de buscas aleatórias.
Isto muda a interpretação do comportamento.
Quando um esquilo enterra uma bolota junto de uma raiz, pedra ou determinada estrutura do terreno, não está necessariamente a criar conscientemente uma “morada” como faria uma pessoa.
Mas o animal consegue codificar informação sobre a localização e utilizar pistas do ambiente para regressar à zona.
O que a investigação revela sobre memória espacial
Uma espécie de mapa mental?
A expressão “mapa mental” é tentadora, mas deve ser utilizada com cuidado.
Os investigadores podem testar aquilo que um animal consegue recordar através do comportamento. É muito mais difícil determinar exatamente como essa informação é representada internamente.
Experiências controladas mostram que esquilos podem aprender e recordar posições onde existe alimento.
Também há evidências de que a organização espacial das reservas não é necessariamente aleatória.
Alguns trabalhos sugerem que determinados esquilos podem distribuir alimentos de maneiras relacionadas com características das sementes, comportamento por vezes descrito como chunking — uma organização espacial por categorias.
Isso é extremamente interessante do ponto de vista cognitivo.
Ainda assim, não devemos concluir que todos os esquilos organizam conscientemente uma “despensa” com secções equivalentes às categorias humanas.
A investigação demonstra padrões comportamentais. O mecanismo mental exato continua a ser uma questão científica mais complexa.
Marcos visuais também podem ajudar
Árvores, raízes, pedras, troncos e outras estruturas estáveis podem fornecer informação espacial.
O esquilo pode combinar memória de localização com pistas disponíveis quando regressa ao local.
Quando chega suficientemente perto, outros sentidos, incluindo o olfato, podem tornar-se úteis.
Assim, a recuperação provavelmente não depende de uma única capacidade isolada.
É mais seguro pensar num sistema que combina aprendizagem, memória espacial, pistas ambientais e procura local.
Escolher e organizar esconderijos também faz parte da estratégia
O comportamento começa antes da recuperação.
Um esquilo precisa primeiro de decidir o que fazer com o alimento encontrado.
Consumir imediatamente?
Transportar?
Onde esconder?
A qualidade da semente pode influenciar essas decisões em algumas espécies estudadas. Certos esquilos manipulam ou inspecionam alimentos antes de os armazenar, e o tamanho ou valor percebido do item pode afetar a forma como é transportado e escondido.
Existe também competição.
Outros esquilos podem observar onde uma reserva foi colocada e tentar roubá-la.
Por isso, alguns comportamentos associados ao armazenamento parecem estar relacionados com o risco de pilhagem.
Esquilos podem transportar alimentos para longe de zonas disputadas ou alterar o comportamento quando existem potenciais competidores nas proximidades.
Mais uma vez, devemos evitar atribuir intenções humanas demasiado específicas.
O que podemos afirmar é que o armazenamento disperso não consiste simplesmente em enterrar sementes aleatoriamente.
Esquilos e gaios: duas formas de resolver um problema semelhante
Quem acompanha o Tesouros do Jardim poderá recordar o nosso artigo sobre gaios e bolotas.
A comparação é fascinante.
Gaios e esquilos pertencem a grupos animais completamente diferentes — aves e mamíferos — mas ambos podem enfrentar o mesmo problema ecológico:
como aproveitar uma abundância temporária de sementes e guardá-la para depois?
O gaio também depende da memória
Diversos gaios e outros corvídeos são conhecidos pelo armazenamento de sementes.
Tal como os esquilos, podem transportar alimento e distribuí-lo por diferentes locais, regressando posteriormente para recuperar parte das reservas.
Os corvídeos tornaram-se particularmente importantes na investigação sobre memória e armazenamento de alimentos, porque algumas espécies apresentam capacidades sofisticadas de recuperação e gestão de reservas.
Esquilos oferecem uma solução mamífera para um desafio semelhante.
Isso não significa que a memória de um esquilo funcione exatamente como a de um gaio.
Comparações diretas entre espécies devem ser feitas com cuidado, especialmente quando os estudos utilizam tarefas experimentais diferentes.
O ponto mais interessante é a convergência ecológica.
Duas linhagens muito diferentes desenvolveram estratégias que envolvem transportar, esconder e posteriormente localizar alimento.
Por que algumas bolotas nunca são recuperadas
Um sistema de memória eficiente não precisa de ser perfeito.
Algumas reservas deixam de ser recuperadas.
Isso pode acontecer por várias razões.
O esquilo pode não regressar ao local. Pode morrer, deslocar-se ou encontrar alimento suficiente noutros lugares. A paisagem pode mudar. Outro animal pode encontrar a reserva primeiro.
E algumas localizações podem simplesmente não ser recuperadas com sucesso.
Também é possível que determinados alimentos armazenados deixem de ter prioridade quando outros recursos estão disponíveis.
O resultado é sempre semelhante:
uma semente permanece no solo.

De alimento armazenado a nova árvore
Para uma bolota, ser enterrada pode ser uma oportunidade.
Sementes deixadas completamente expostas na superfície podem secar, ser comidas ou encontrar condições inadequadas para germinar.
Quando um esquilo transporta uma bolota para longe da árvore-mãe e a enterra num local favorável, está potencialmente realizando duas funções importantes para a planta:
dispersão e enterramento.
Se essa reserva não for recuperada e as condições forem adequadas, a bolota pode germinar.
É por isso que animais que armazenam sementes podem contribuir para a regeneração das florestas.
Não significa que cada bolota esquecida se transforme numa árvore.
Muitas sementes não germinam, e muitas plântulas não sobrevivem.
Mas, à escala de uma paisagem, o transporte realizado por animais pode ajudar determinadas árvores a colonizar novos espaços e manter processos naturais de regeneração.
Como os esquilos sobrevivem ao inverno
A imagem do esquilo que passa todo o inverno a dormir é demasiado simplificada.
O comportamento varia bastante entre espécies.
Algumas espécies de esquilos terrestres podem entrar em períodos prolongados de hibernação ou apresentar reduções profundas da atividade.
Muitos esquilos arborícolas, porém, continuam ativos durante o inverno.
Em períodos de mau tempo, podem permanecer protegidos durante mais tempo em ninhos ou cavidades, reduzindo temporariamente a atividade.
Quando as condições permitem, voltam a sair para procurar alimento.
É aqui que as reservas armazenadas anteriormente se tornam importantes.
Sementes enterradas durante períodos de abundância funcionam como recursos distribuídos pela área utilizada pelo animal.
A sobrevivência também depende de abrigo, condição corporal, clima e disponibilidade de outras fontes de alimento.
Portanto, não existe uma única “estratégia de inverno dos esquilos”.
Como apoiar esquilos no jardim de forma responsável
Um jardim favorável aos esquilos não precisa de transformar estes animais em dependentes de alimentação humana.
Na maioria das situações, a melhor ajuda é proporcionar habitat.
Preserve árvores e arbustos adequados
Árvores maduras oferecem alimento, abrigo e rotas de deslocação.
Espécies vegetais locais que produzem sementes, frutos ou estruturas utilizadas pela fauna são particularmente valiosas.
Sempre que possível, prefira diversidade vegetal e plantas adequadas ao ecossistema regional.
Evite pesticidas desnecessários
Produtos aplicados indiscriminadamente podem afetar muito mais organismos do que a espécie que se pretendia controlar.
Um jardim com maior diversidade de plantas, invertebrados, fungos e sementes sustenta uma rede alimentar mais complexa.
Permita alguma naturalidade
Nem todas as folhas precisam de desaparecer imediatamente.
Nem todas as sementes caídas precisam de ser recolhidas.
Uma zona menos intensamente arrumada pode fornecer oportunidades de alimentação e abrigo para diferentes animais.
Evite alimentação direta habitual
Oferecer continuamente alimentos concentrados pode alterar padrões naturais, reunir animais em espaços pequenos e aumentar conflitos ou risco de transmissão de doenças.
Também pode aproximar esquilos excessivamente das pessoas e habitações.
Criar habitat é geralmente uma forma mais sustentável de apoio do que tentar alimentar cada visitante.
Proteja aquilo que realmente precisa de proteger
Esquilos podem desenterrar bolbos, explorar vasos ou visitar árvores de fruto.
Quando isso acontece, prefira barreiras físicas e proteção localizada em vez de métodos que possam ferir os animais.
Uma rede ou proteção adequada sobre determinada área pode resolver um problema sem transformar todo o jardim num ambiente hostil à vida selvagem.
Portugal e Brasil: não estamos necessariamente a observar o mesmo esquilo
É especialmente importante evitar generalizações geográficas.
Portugal possui espécies e populações de esquilos diferentes das encontradas no Brasil.
Mesmo dentro da Europa, a distribuição do esquilo-vermelho e de esquilos introduzidos varia regionalmente.
Por isso, este artigo deve ser lido em conjunto com o nosso guia anterior sobre identificação de esquilos vermelhos e cinzentos, no qual explicamos por que cor, distribuição e características físicas precisam de ser consideradas cuidadosamente.
No Brasil, a situação é ainda mais distinta.
O país possui esquilos nativos adaptados a ecossistemas sul-americanos, e não devemos assumir que todos apresentam exatamente as mesmas estratégias documentadas em estudos com espécies europeias ou norte-americanas.
O armazenamento de alimento, dieta, atividade sazonal e uso do habitat podem variar entre espécies.
Quando quiser identificar um comportamento específico, comece sempre pela espécie presente na sua região.
Perguntas frequentes
Os esquilos realmente lembram onde enterraram as bolotas?
Sim. Estudos comportamentais fornecem evidências de que a memória espacial participa na recuperação das reservas em espécies de esquilos estudadas. Isso não significa que encontrem todas as sementes ou que o mecanismo cognitivo seja completamente compreendido.
Eles encontram as bolotas apenas pelo cheiro?
Não parece ser esse o caso. O olfato pode ajudar durante a procura local, mas experiências indicam que informação espacial também desempenha um papel importante.
Quantas bolotas um esquilo consegue esconder?
Não existe um número universal adequado para todas as espécies e condições. A quantidade armazenada varia com disponibilidade de alimento, espécie, habitat, competição e estação.
Os esquilos encontram todas as sementes que enterram?
Não. Algumas reservas são recuperadas pelo próprio animal, outras são encontradas por competidores e algumas permanecem no solo.
As bolotas esquecidas realmente podem produzir carvalhos?
Sim, quando permanecem viáveis e encontram condições adequadas para germinação e estabelecimento. Nem todas sobreviverão, mas o armazenamento disperso pode contribuir para a dispersão e regeneração de árvores.
O gaio tem memória melhor do que o esquilo?
Não existe uma resposta simples. Ambos apresentam capacidades relacionadas com armazenamento e recuperação de alimento, mas pertencem a grupos diferentes e são estudados através de métodos diferentes. Comparações de “inteligência” ou memória precisam de tarefas experimentais diretamente comparáveis.
Os esquilos hibernam?
Depende da espécie. Alguns esquilos terrestres apresentam verdadeira hibernação, enquanto muitos esquilos arborícolas permanecem ativos durante o inverno, alternando procura de alimento com períodos de abrigo.
Devo deixar comida para os esquilos no inverno?
Na maioria dos jardins, é preferível apoiar recursos naturais através de árvores, arbustos, sementes e habitat apropriado. Alimentação artificial regular pode concentrar animais e alterar comportamentos naturais.
Conclusão
Quando vemos um esquilo enterrar uma bolota, estamos a observar muito mais do que uma tentativa improvisada de esconder comida.
O armazenamento disperso permite distribuir recursos por numerosos pontos da paisagem. Para que esta estratégia funcione, o animal precisa posteriormente de localizar uma parte significativa dessas reservas, e a investigação comportamental mostra que a memória espacial desempenha um papel real nesse processo.
Isso não significa que o cérebro do esquilo funcione como um GPS perfeito.
O animal pode combinar memória, pistas visuais, características do ambiente e olfato. Alguns estudos sugerem ainda formas interessantes de organização das reservas, mas os mecanismos cognitivos exatos continuam a ser investigados.
O mais curioso é aquilo que acontece quando o sistema falha.
Uma bolota não recuperada deixa de ser simplesmente alimento esquecido. Se permanecer viável e encontrar condições adequadas, pode germinar. Ao transportar sementes para longe das árvores e enterrá-las, esquilos tornam-se participantes involuntários na dispersão e regeneração das florestas.
Gaios conseguem produzir um efeito ecológico semelhante através da sua própria estratégia de armazenamento.
Assim, quando um esquilo atravessa o jardim com uma bolota na boca, talvez esteja a preparar uma refeição futura.
Ou talvez, sem saber, esteja a plantar uma árvore.
Sugestões de links internos
- Artigo anterior sobre como distinguir o esquilo-vermelho do esquilo-cinzento — inserir na secção sobre diferenças regionais e identificação das espécies.
- Artigo sobre o gaio e a dispersão de bolotas — ligar na secção “Esquilos e gaios”, permitindo comparar as estratégias de armazenamento das duas espécies.
- Guia sobre como criar um jardim favorável à vida selvagem — inserir na secção dedicada a árvores, arbustos, abrigo e alimentação natural.
Tipos de fontes externas autoritativas recomendadas
- Departamentos universitários de psicologia comparada, cognição animal e comportamento animal que estudem memória espacial e armazenamento de alimento.
- Departamentos universitários de ecologia, zoologia e biologia evolutiva com investigação sobre esquilos e dispersão de sementes.
- Organizações reconhecidas de conservação da vida selvagem com informação regional sobre espécies de esquilos.
- Institutos florestais e universidades que estudem regeneração de carvalhais e dispersão de sementes por animais.
- Artigos científicos revistos por pares sobre scatter-hoarding, recuperação de reservas e cognição espacial em roedores.