Nas poças de maré mais iluminadas, algumas anémonas parecem ter recebido uma camada de verde diretamente das algas que crescem nas rochas. Na anémona-serpente, porém, parte dessa aparência está ligada a uma relação muito mais íntima.
A Anemonia viridis vive em associação com pequenos dinoflagelados fotossintéticos alojados nos seus próprios tecidos. Tradicionalmente conhecidos como zooxantelas e associados ao grupo Symbiodinium em muitos estudos clássicos, estes organismos utilizam a luz para realizar fotossíntese e transferem parte dos compostos orgânicos produzidos para o hospedeiro. A anémona, por sua vez, oferece abrigo e disponibiliza recursos inorgânicos utilizados pelos simbiontes.
É essencialmente o mesmo princípio biológico que tornou famosa a associação entre corais tropicais e as suas algas simbióticas.
Mas existe uma diferença imediatamente visível: a anémona-serpente não constrói um recife calcário. É um cnidário de corpo mole que vive agarrado às rochas e mantém longos tentáculos expostos à água, onde continua a capturar alimento.
Esta combinação entre fotossíntese e alimentação animal ajuda a explicar tanto a preferência por ambientes iluminados como a extraordinária biologia desta espécie.
Índice
- Como reconhecer a anémona-serpente
- As algas que vivem dentro de um animal
- O que cada parceiro recebe da simbiose
- A comparação com os corais
- Por que a anémona-serpente procura zonas iluminadas
- A importância das poças de maré
- A anémona também precisa de comer
- Como funcionam os tentáculos
- O que a anémona-serpente come
- A diferença em relação à anémona-vermelha
- Territorialidade e competição entre anémonas
- Como observar sem perturbar
- FAQ
- Conclusão
Como reconhecer a anémona-serpente
A anémona-serpente, Anemonia viridis, é uma anémona-do-mar encontrada no Atlântico oriental e no Mediterrâneo. Pode ocorrer na zona intertidal, especialmente em poças, e também em habitats permanentemente submersos pouco profundos.
Uma das características mais evidentes são os tentáculos compridos e flexíveis.
Em muitos indivíduos, apresentam tonalidades verdes ou castanhas, por vezes com extremidades arroxeadas. Ao contrário de algumas outras anémonas costeiras, os tentáculos permanecem frequentemente muito expostos e não são habitualmente recolhidos de forma completa durante a observação normal.
A aparência verde não deve, contudo, ser interpretada simplesmente como pigmento de uma planta.
Dentro dos tecidos existe outra forma de vida.
As algas que vivem dentro de um animal
As chamadas zooxantelas são organismos unicelulares fotossintéticos.
Historicamente, muitos destes simbiontes foram agrupados sob o nome Symbiodinium. A classificação moderna dos dinoflagelados simbióticos tornou-se mais detalhada, mas “zooxantelas” continua a ser um termo útil em divulgação para descrever estes simbiontes fotossintéticos.
Na Anemonia viridis, encontram-se alojados em células da gastroderme, uma das camadas de tecido da anémona. Não estão simplesmente agarrados à superfície externa. Vivem efetivamente dentro dos tecidos do hospedeiro.
Isto transforma dois organismos muito diferentes numa unidade ecológica extremamente integrada.
Um é um animal.
O outro realiza fotossíntese.
Não são algas que a anémona está a digerir
Esta distinção é fundamental.
Quando uma anémona captura uma presa, o alimento é conduzido até à boca e posteriormente digerido.
As zooxantelas não estão ali como alimento temporário.
São parceiros simbióticos mantidos nos tecidos e participam numa troca metabólica contínua com o hospedeiro.
É por isso que esta relação é descrita como endossimbiose: um dos parceiros vive dentro dos tecidos do outro.
O que cada parceiro recebe da simbiose
Durante a fotossíntese, os simbiontes utilizam energia luminosa para produzir compostos orgânicos.
Parte do carbono orgânico resultante pode ser transferida para a anémona e utilizada pelo hospedeiro.
Em sentido contrário, o animal fornece aos simbiontes um ambiente relativamente protegido e disponibiliza compostos inorgânicos que podem ser utilizados no metabolismo e na fotossíntese, incluindo fontes de carbono, azoto e fósforo.
Existe, portanto, uma troca.
A alga recebe habitat e recursos.
A anémona recebe produtos da fotossíntese.
É uma associação mutualista, embora a fisiologia real seja muito mais complexa do que uma simples troca direta de “comida por abrigo”.
Uma parceria metabolicamente integrada
A relação tornou-se tão importante para a investigação que Anemonia viridis é utilizada como organismo modelo em estudos de simbiose entre cnidários e dinoflagelados.
Investigações genéticas e fisiológicas mostram que os tecidos do hospedeiro apresentam adaptações relacionadas com a manutenção dos simbiontes e com as condições particulares criadas pela fotossíntese dentro das próprias células.
Isto significa que as zooxantelas não funcionam como pequenos painéis solares simplesmente colocados dentro da anémona.
Existe comunicação fisiológica entre os parceiros.
A comparação com os corais
A associação é particularmente interessante porque lembra diretamente os corais tropicais.
Muitos corais construtores de recifes vivem em simbiose com dinoflagelados fotossintéticos da família Symbiodiniaceae.
Tal como acontece na anémona-serpente, esses simbiontes vivem dentro dos tecidos do cnidário e realizam fotossíntese.
A relação entre animal e simbionte desempenha um papel central no metabolismo dos corais e ajuda a explicar por que muitos recifes tropicais se desenvolvem em águas rasas e muito iluminadas.
Estudos fisiológicos chegaram a comparar diretamente Anemonia viridis com corais simbióticos para compreender mecanismos celulares relacionados com a fotossíntese.
Uma anémona não é um coral com tentáculos maiores
Apesar da semelhança simbiótica, existem diferenças importantes.
Corais e anémonas pertencem ambos aos Anthozoa, mas representam grupos distintos.
A anémona-serpente possui corpo mole e não produz a estrutura calcária colonial responsável pela formação dos grandes recifes de coral.
Portanto, a comparação deve concentrar-se na simbiose.
Em ambos os casos existe um animal cnidário associado intimamente a microrganismos fotossintéticos.
É esse sistema animal-alga, e não a construção de recifes, que aproxima as duas histórias.
Por que a anémona-serpente procura zonas iluminadas
Uma anémona com parceiros fotossintéticos possui uma necessidade ecológica que uma espécie completamente heterotrófica não apresenta da mesma maneira.
Os simbiontes precisam de luz.
Sem radiação suficiente, a fotossíntese diminui e a contribuição energética desta associação também se altera.
Isto ajuda a explicar a associação da Anemonia viridis com ambientes relativamente rasos e iluminados.
A Marine Life Information Network descreve a espécie sobretudo na zona intertidal, incluindo poças a partir dos níveis intermédios da maré, além de zonas submersas pouco profundas. Outra síntese ecológica indica especificamente preferência por áreas abertas à luz.
A cor também pode revelar a influência da luz
A relação entre luz e aparência oferece uma pista interessante.
A informação ecológica compilada pela MarLIN refere que indivíduos mantidos em condições com pouca ou nenhuma luz podem apresentar-se mais pálidos.
Isso não significa que qualquer anémona pálida esteja necessariamente doente ou que a cor possa ser usada isoladamente para diagnosticar a condição do animal.
A pigmentação depende de vários componentes, incluindo proteínas do próprio hospedeiro e os simbiontes.
Ainda assim, a associação entre esta anémona e organismos fotossintéticos torna a disponibilidade de luz biologicamente importante.
A importância das poças de maré
Uma poça suficientemente profunda para permanecer cheia durante a maré baixa cria uma pequena janela para o mundo submerso.
A luz consegue alcançar facilmente o fundo.
Algas cobrem as rochas, pequenos peixes circulam entre fendas e diferentes invertebrados permanecem submersos mesmo quando o mar recua.
Para Anemonia viridis, estes ambientes podem reunir dois elementos importantes: substrato onde se fixar e boa disponibilidade de luz para os simbiontes.
Mas uma poça de maré também é um ambiente variável.
Temperatura, salinidade, oxigénio e exposição podem mudar ao longo do ciclo da maré e conforme as condições meteorológicas.
A presença de uma espécie nestes locais significa, portanto, lidar com muito mais do que simplesmente receber luz.
A anémona também precisa de comer
A fotossíntese não elimina a alimentação animal.
Anemonia viridis é mixotrófica.
Isso significa que combina diferentes fontes de energia e nutrientes: recebe produtos provenientes da atividade fotossintética dos simbiontes e continua simultaneamente a capturar alimento do ambiente. Estudos isotópicos confirmam esta combinação entre contribuição autotrófica dos simbiontes e alimentação heterotrófica do hospedeiro.
Esta flexibilidade é uma parte importante da sua ecologia.
A anémona não precisa de escolher entre “alimentar-se como animal” e “beneficiar da fotossíntese”.
Faz ambas as coisas.
Como funcionam os tentáculos
Os tentáculos compridos que dão à anémona-serpente a sua aparência característica são estruturas de captura.
Tal como outros cnidários, as anémonas possuem células especializadas capazes de produzir estruturas urticantes.
Quando pequenos organismos entram em contacto com os tentáculos, estas estruturas ajudam na captura e imobilização. Movimentos dos tentáculos conduzem depois o alimento em direção à boca, situada no centro do disco oral.
A mesma região que parece uma coroa de longos fios verdes é, portanto, uma superfície de alimentação.
Tentáculos que raramente desaparecem
Uma característica visual de Anemonia viridis é que os tentáculos permanecem frequentemente estendidos.
Na anémona-vermelha, abordada noutro artigo do Tesouros do Jardim, o corpo pode assumir uma aparência muito diferente quando os tentáculos são completamente recolhidos.
Na anémona-serpente, a massa de tentáculos longos e ondulantes costuma permanecer evidente.
Isto ajuda a distinguir as duas espécies durante uma observação cuidadosa.
O que a anémona-serpente come
A dieta pode incluir pequenos organismos capturados pelos tentáculos e partículas alimentares disponíveis no ambiente.
Como predador bentónico, a anémona permanece fixa ao substrato e deixa que o movimento da água traga potenciais alimentos ao alcance das estruturas de captura.
A alimentação externa complementa aquilo que recebe dos simbiontes.
Essa combinação ajuda a explicar por que é incorreto descrever a anémona simplesmente como um animal “alimentado pelo sol”.
A luz fornece energia aos dinoflagelados.
Os dinoflagelados contribuem para a nutrição do hospedeiro.
Mas a anémona continua equipada com um sistema de captura de presas perfeitamente funcional.
A diferença em relação à anémona-vermelha
A comparação com a anémona-vermelha, ou beadlet anemone, é particularmente útil porque mostra como espécies aparentemente semelhantes podem desenvolver estratégias ecológicas diferentes.
A anémona-vermelha é conhecida pelo seu comportamento territorial e pelas interações agressivas que podem ocorrer quando indivíduos de diferentes grupos entram em contacto.
A anémona-serpente também compete por espaço no fundo, mas a característica central deste artigo é outra: a associação fotossintética.
Em Anemonia viridis, a luz não é apenas algo que ilumina o animal.
Alimenta um parceiro microscópico que vive dentro dele.
Territorialidade e competição entre anémonas
Uma rocha costeira oferece uma quantidade limitada de superfície adequada.
Anémonas, algas, cracas, mexilhões e muitos outros organismos precisam de espaço.
No artigo sobre o comportamento territorial da anémona-vermelha, esta competição torna-se especialmente evidente através de interações entre indivíduos.
A anémona-serpente oferece outro ângulo para compreender a mesma comunidade.
Além de espaço físico, a posição pode determinar acesso à luz.
Uma localização sombreada por uma rocha, uma alga grande ou outro organismo não é equivalente a uma superfície exposta num habitat onde os simbiontes fotossintéticos fazem parte do orçamento energético do animal.
Assim, numa poça de maré, centímetros podem separar micro-habitats ecologicamente muito diferentes.
Como observar a anémona-serpente
A melhor forma de observar uma anémona é deixá-la exatamente onde está.
Durante a maré baixa, procure poças que permaneçam submersas e observe primeiro a partir da margem.
Os tentáculos podem revelar movimentos da água quase impercetíveis.
Também é possível observar pequenos organismos que vivem próximos ou associados às anémonas.
Não introduza dedos entre os tentáculos para provocar uma reação.
As células urticantes fazem parte do sistema natural de captura e defesa do animal, e o contacto não acrescenta informação necessária à observação.
Não deslocar para uma poça mais iluminada
Uma anémona encontrada numa fenda ou zona parcialmente sombreada não precisa de ser “ajudada” colocando-a ao sol.
O animal escolheu ou manteve-se naquele micro-habitat em função de múltiplas condições.
Descolar uma anémona da rocha pode danificar o pé e os tecidos.
Da mesma forma, não tente transportá-la para outra poça para conseguir uma fotografia com melhor luz.
Fotografe o comportamento e o habitat que encontrou.
FAQ
A anémona-serpente tem realmente algas dentro do corpo?
Sim. Anemonia viridis mantém dinoflagelados fotossintéticos simbióticos dentro das células da gastroderme. Estes organismos são tradicionalmente chamados zooxantelas.
As zooxantelas são plantas?
Não no sentido tradicional. Os simbiontes estudados nesta associação são dinoflagelados unicelulares fotossintéticos.
O que a anémona recebe das algas?
Recebe compostos orgânicos derivados da fotossíntese. Em troca, o hospedeiro oferece abrigo e recursos inorgânicos utilizados pelos simbiontes.
É a mesma relação que existe nos corais?
O princípio fundamental é muito semelhante. Muitos corais também mantêm dinoflagelados fotossintéticos nos tecidos e trocam recursos com eles. A anémona, contudo, não constrói o esqueleto calcário típico dos corais formadores de recifes.
Por que a anémona-serpente prefere águas rasas?
Uma das razões é a necessidade de luz dos simbiontes fotossintéticos. A espécie é particularmente associada a ambientes rasos e iluminados, incluindo poças intertidais.
A anémona consegue viver apenas da fotossíntese?
Não deve ser descrita dessa maneira. É mixotrófica: recebe carbono proveniente dos simbiontes e continua a obter alimento externamente.
Para que servem os tentáculos?
Participam sobretudo na captura de alimento e defesa. Possuem células especializadas que ajudam a imobilizar presas, que são depois conduzidas à boca.
A anémona-serpente é igual à anémona-vermelha?
Não. São anémonas distintas, com aparência e ecologia diferentes. A anémona-vermelha é particularmente interessante pelo seu comportamento territorial, enquanto Anemonia viridis é um excelente exemplo de simbiose fotossintética em águas temperadas.
Conclusão
A anémona-serpente parece um único animal, mas biologicamente representa uma parceria.
Dentro dos seus tecidos vivem dinoflagelados fotossintéticos tradicionalmente conhecidos como zooxantelas. Recebem abrigo e recursos do hospedeiro e, através da fotossíntese, produzem compostos orgânicos dos quais uma parte fica disponível para a anémona.
É uma relação que aproxima esta espécie dos famosos corais simbióticos.
A diferença é que Anemonia viridis não constrói um recife calcário. Permanece um cnidário de corpo mole, agarrado ao substrato, com longos tentáculos preparados para capturar alimento.
Essa combinação é fundamental.
A anémona beneficia da luz através dos seus simbiontes, mas continua a alimentar-se como predador. É um organismo mixotrófico que combina energia derivada da fotossíntese com nutrientes obtidos através da alimentação heterotrófica.
A presença dos simbiontes também ajuda a compreender por que esta anémona está tão associada a ambientes rasos e iluminados. Uma poça de maré aberta ao sol não é apenas um recipiente natural cheio de água. É um espaço onde a luz consegue alimentar diretamente uma parceria microscópica escondida dentro dos tecidos de um animal.
Ao lado dela, outras anémonas revelam estratégias diferentes. A anémona-vermelha, abordada noutro artigo, demonstra como a competição por espaço pode produzir comportamentos territoriais surpreendentes.
A anémona-serpente acrescenta outra dimensão.
Numa única poça, espaço, luz, alimento, competição e simbiose encontram-se ligados.
E aquilo que parece simplesmente uma anémona verde sobre uma rocha é, na realidade, uma pequena comunidade biológica em funcionamento.
Sugestões de links internos
- Artigo sobre o comportamento territorial da anémona-vermelha
Âncora sugerida: comportamento territorial da anémona-vermelha
Melhor localização: secção “A diferença em relação à anémona-vermelha”. Este é o interlink principal, porque permite contrastar duas estratégias ecológicas entre anémonas costeiras. - Como a Estrela-do-Mar Come Sem Engolir a Presa
Âncora sugerida: outras estratégias alimentares surpreendentes dos invertebrados costeiros
Melhor localização: secção sobre captura e digestão de alimento. - O Peixe de Poça de Maré Que Sobrevive Fora de Água
Âncora sugerida: adaptações dos animais das poças de maré portuguesas
Melhor localização: secção sobre habitat intertidal.
Fontes externas autoritativas recomendadas
- Marine Life Information Network (MarLIN)
Tipo de fonte: identificação, distribuição, habitat intertidal, preferência por locais iluminados e características gerais de Anemonia viridis. - Departamentos universitários de biologia marinha e fisiologia de cnidários
Tipo de fonte: investigação sobre localização das zooxantelas nos tecidos, transferência de nutrientes e mecanismos celulares da simbiose entre Anemonia viridis e dinoflagelados. - Instituições de investigação sobre corais e simbioses marinhas
Tipo de fonte: estudos comparativos entre anémonas simbióticas e corais, úteis para explicar as semelhanças fisiológicas sem confundir os dois grupos. - Centros de ecologia e biogeoquímica marinha
Tipo de fonte: investigação sobre mixotrofia, contribuição da fotossíntese dos simbiontes e alimentação heterotrófica de Anemonia viridis. - Departamentos universitários de zoologia de invertebrados
Tipo de fonte: anatomia dos cnidários, estrutura dos tentáculos, células urticantes, captura de presas e funcionamento geral das anémonas-do-mar.