Abelha-Europeia e Abelhão: Diferenças e Identificação

A abelha-europeia e o abelhão são dois visitantes frequentes das flores e dois dos grupos de polinizadores mais reconhecíveis nos jardins. À primeira vista podem parecer semelhantes, sobretudo porque ambos apresentam o corpo coberto de pelos e procuram néctar e pólen. No entanto, existem diferenças importantes no tamanho, aparência, organização das colónias, locais de nidificação e até nas técnicas utilizadas para recolher pólen.

Compreender as diferenças entre abelha-europeia e abelhão ajuda não apenas na identificação, mas também a perceber por que razão ambos são importantes para os ecossistemas e para muitas plantas cultivadas. A abelha-europeia, Apis mellifera, vive em colónias altamente organizadas e pode reunir dezenas de milhares de indivíduos. Já o termo abelhão refere-se às espécies do género Bombus, cujas colónias são geralmente menores e, nas espécies de clima temperado, apresentam habitualmente um ciclo anual.

Em Portugal existem várias espécies de abelhas selvagens, para além da conhecida abelha-do-mel. Um estudo realizado na Tapada da Ajuda, em Lisboa, registou 66 espécies de abelhas, sendo Apis mellifera e Bombus terrestris duas das espécies encontradas com maior frequência.

Abelha-europeia e abelhão não são o mesmo inseto

A primeira distinção importante é taxonómica.

A abelha-europeia, também chamada abelha-do-mel, corresponde à espécie Apis mellifera. É uma das espécies de abelhas mais conhecidas do mundo devido à apicultura e à produção de mel.

Os abelhões pertencem ao género Bombus. Existem numerosas espécies, pelo que nem todos os abelhões apresentam exatamente o mesmo tamanho, padrão de cores ou comportamento.

Ambos pertencem à família Apidae e partilham várias características, incluindo a utilização de néctar e pólen e uma importante função como polinizadores.

Por isso, um abelhão também é uma abelha. A diferença está no grupo a que pertence.

Características físicas da abelha-europeia

A Apis mellifera apresenta um corpo relativamente esguio quando comparado com a maioria dos abelhões.

Corpo e tamanho

Uma operária da abelha-europeia mede normalmente pouco mais de um centímetro, embora o tamanho varie.

O corpo divide-se nas três regiões características dos insetos: cabeça, tórax e abdómen.

O tórax apresenta pelos que ajudam na recolha e transferência de pólen. O abdómen é mais alongado e mostra diferentes tonalidades de castanho, dourado e escuro, dependendo da população e linhagem.

A aparência real não corresponde necessariamente ao padrão amarelo vivo e preto frequentemente utilizado em desenhos de abelhas.

As patas

As operárias possuem estruturas especializadas para transportar pólen.

Nas patas posteriores existe uma área conhecida como corbícula, ou cesta de pólen. Durante as visitas às flores, a abelha reúne grãos de pólen e transporta-os nestas estruturas de volta à colónia.

É possível observar pequenas massas amarelas, alaranjadas ou de outras cores nas patas posteriores de abelhas que regressam de flores.

Como identificar um abelhão

Quem pretende identificar um abelhão deve observar principalmente a robustez e pilosidade do corpo.

Corpo robusto

Os abelhões parecem geralmente maiores e mais volumosos do que as operárias da abelha-europeia.

O tórax e o abdómen estão cobertos por pelos densos, criando a aparência característica de um inseto “felpudo”.

O tamanho varia bastante consoante a espécie, o sexo e a casta. As rainhas podem ser consideravelmente maiores do que as operárias.

Padrões de cor

Não existe um único padrão que permita identificar todos os Bombus.

Consoante a espécie, podem apresentar combinações de preto, amarelo, laranja, castanho ou branco.

Alguns possuem bandas muito distintas; outros são predominantemente escuros.

Por isso, identificar um abelhão apenas pela cor pode conduzir a erros. Tamanho, pilosidade, padrão abdominal e localização devem ser considerados em conjunto para chegar à espécie.

Organização social da abelha-europeia

Uma das maiores diferenças entre abelha-europeia e abelhão encontra-se na estrutura e duração das colónias.

As colónias de Apis mellifera são altamente organizadas e, em condições favoráveis, persistem de um ano para o outro.

A rainha

Uma colónia funcional possui normalmente uma rainha reprodutora.

A sua principal função é a postura de ovos. É maior e possui um abdómen mais alongado do que uma operária.

As operárias

As operárias são fêmeas e realizam a maior parte das tarefas necessárias ao funcionamento da colónia.

Consoante a idade e as necessidades da colónia, podem limpar células, alimentar larvas, produzir cera, defender a entrada e procurar água, néctar, pólen e outros recursos.

Os zangãos

Os machos são conhecidos como zangãos.

A sua principal função biológica está relacionada com a reprodução e o acasalamento com rainhas.

Uma colónia forte de abelhas-do-mel pode reunir muitos milhares de indivíduos, criando uma sociedade muito maior do que uma colónia típica de abelhões.

Organização social dos abelhões

Os abelhões também são insetos sociais, mas o ciclo das colónias de muitas espécies temperadas é diferente.

A rainha inicia a colónia

Depois de sobreviver ao período desfavorável, uma rainha fecundada procura um local adequado para estabelecer o ninho.

Começa então a produzir a primeira geração de operárias.

Quando essas operárias se tornam ativas, passam a procurar alimento e a desempenhar outras tarefas, permitindo que a rainha se concentre progressivamente na reprodução.

Uma colónia geralmente anual

Ao longo da estação, a colónia aumenta.

Mais tarde são produzidos novos indivíduos reprodutores, incluindo machos e futuras rainhas.

Nas espécies com este ciclo anual, a colónia original termina no final da estação. As novas rainhas fecundadas sobrevivem separadamente e poderão fundar novas colónias no ciclo seguinte.

Esta dinâmica contrasta com Apis mellifera, cuja colónia pode sobreviver durante vários anos.

Onde nidifica a abelha-europeia

Na natureza, a abelha-europeia procura normalmente uma cavidade protegida.

Cavidades em árvores são exemplos clássicos, mas também podem ser utilizados outros espaços suficientemente protegidos e com volume adequado.

Na apicultura, as colónias vivem em colmeias concebidas para permitir a gestão pelo apicultor.

Dentro da colónia, as operárias constroem favos de cera constituídos por numerosas células hexagonais. Estas células são utilizadas para criação das larvas e armazenamento de mel e pólen.

Onde nidificam os abelhões

Os locais escolhidos pelos Bombus podem ser bastante diferentes.

Muitas espécies nidificam perto ou abaixo do nível do solo, utilizando cavidades existentes. Antigos ninhos de pequenos mamíferos podem proporcionar espaços adequados.

Outras espécies podem utilizar cavidades acima do solo, dependendo das suas preferências ecológicas.

A diversidade dos hábitos de nidificação das abelhas selvagens é significativa. Investigação da Universidade de Lisboa destaca precisamente a importância de preservar habitats e estruturas adequadas à nidificação das diferentes espécies de abelhas.

Por isso, um jardim favorável aos polinizadores não depende apenas da presença de flores. Locais de nidificação e abrigo também fazem parte do habitat.

Abelha-europeia e abelhão como polinizadores

Tanto Apis mellifera como Bombus desempenham funções importantes na transferência de pólen entre flores.

O ICNF considera a conservação dos polinizadores uma questão de relevância ecológica e socioeconómica em Portugal, tendo desenvolvido iniciativas específicas destinadas à sustentabilidade destes organismos.

O trabalho da abelha-europeia

As operárias de Apis mellifera podem realizar numerosas viagens entre a colónia e as fontes de alimento.

Ao visitar flores para recolher néctar e pólen, os grãos ficam presos nos pelos do corpo e podem ser transportados para outras flores.

A dimensão das colónias significa que muitos indivíduos podem estar simultaneamente ativos numa determinada paisagem.

A importância desta atividade é evidente também na agricultura. Documentação do ICNF relativa à Vespa velutina, predadora de abelhas, refere explicitamente as consequências que a diminuição da atividade das abelhas pode ter para a polinização vegetal.

O trabalho dos abelhões

Os abelhões apresentam algumas características que os tornam especialmente eficientes em determinadas flores.

Uma das mais interessantes é a chamada polinização por vibração, ou “buzz pollination”.

Neste processo, o inseto agarra-se à flor e utiliza os músculos de voo para produzir vibrações que ajudam a libertar o pólen das anteras.

Um trabalho académico da Universidade do Porto dedicado à importância dos Bombus na polinização destaca esta capacidade e refere a sua relevância em plantas como tomateiros e mirtilos.

Nem todas as abelhas utilizam esta técnica.

É uma das razões pelas quais diferentes grupos de polinizadores podem complementar-se em vez de serem simplesmente substitutos uns dos outros.

Polinizadores nos jardins portugueses

Um jardim com diversidade floral pode receber muito mais do que abelhas-do-mel.

Portugal possui uma diversidade considerável de abelhas selvagens. No estudo realizado na Tapada da Ajuda foram recolhidos 867 exemplares pertencentes a cinco famílias, 21 géneros e 66 espécies. Apis mellifera, Xylocopa violacea e Bombus terrestris estavam entre as espécies mais frequentes.

Este exemplo demonstra por que razão falar de polinizadores de jardim em Portugal não significa falar exclusivamente da abelha-europeia.

Abelhões, abelhas solitárias e muitos outros insetos participam nas redes de polinização.

Manter diversidade de plantas com diferentes períodos de floração e reduzir intervenções que eliminem indiscriminadamente insetos pode contribuir para conservar esta comunidade.

O próprio ICNF alerta contra a utilização doméstica indiscriminada de armadilhas para vespas, porque dispositivos pouco seletivos podem capturar e matar polinizadores e outros insetos nativos importantes para os ecossistemas e agricultura.

Qual apresenta maior risco de picada?

Tanto a abelha-europeia como os abelhões possuem mecanismos de defesa, mas nenhum deve ser encarado como um inseto que procura deliberadamente atacar pessoas.

O comportamento depende principalmente do contexto.

Picada da abelha-europeia

As operárias de Apis mellifera podem picar quando se sentem ameaçadas, sobretudo na defesa da colónia.

O ferrão das operárias possui estruturas que podem fazer com que fique preso na pele de mamíferos. Nessa situação, a abelha geralmente não sobrevive após a picada.

O risco aumenta quando uma colmeia é perturbada.

Uma abelha isolada a recolher néctar numa flor representa normalmente uma situação muito diferente de uma pessoa que se aproxima ou interfere diretamente com uma colónia.

Picada do abelhão

As fêmeas dos abelhões também podem picar.

Ao contrário das operárias da abelha-do-mel, o ferrão de um abelhão não funciona da mesma forma na pele humana e pode permitir mais do que uma picada.

Ainda assim, os abelhões que estão simplesmente a visitar flores tendem a concentrar-se na procura de alimento.

O risco é maior quando são agarrados, esmagados ou quando o ninho é perturbado.

Como agir perto destes insetos

A melhor atitude é permitir que continuem a atividade normalmente.

Não é necessário bater, soprar ou tentar afastar cada abelha que aparece numa flor.

Se existir uma colónia num local problemático, especialmente uma colónia de abelhas-do-mel, deve procurar-se aconselhamento especializado em vez de aplicar inseticida ou destruir o ninho.

Abelhão não é uma vespa

O corpo robusto e o voo ruidoso dos abelhões podem causar alguma preocupação, mas não devem ser confundidos com vespas.

Os abelhões apresentam geralmente uma cobertura de pelos muito mais evidente.

Esta pilosidade está diretamente relacionada com a sua ecologia como visitantes de flores e facilita o transporte de pólen.

As vespas apresentam, em geral, uma aparência diferente, frequentemente com menos pilosidade visível e uma silhueta mais marcada entre tórax e abdómen.

A identificação correta é especialmente importante antes de tomar qualquer medida de controlo.

Como distinguir rapidamente abelha-europeia e abelhão

A observação deve combinar várias características.

A abelha-europeia tende a apresentar corpo mais pequeno e relativamente esguio, abdómen mais definido e uma aparência menos felpuda. Vive em grandes colónias permanentes e é a espécie tradicionalmente mantida em colmeias para produção de mel.

O abelhão tende a ser mais robusto, volumoso e densamente coberto de pelos. As suas colónias são normalmente menores e, em muitas espécies de clima temperado, têm um ciclo anual.

Também possui capacidades de polinização particularmente interessantes, incluindo a polinização por vibração em várias espécies.

Estas diferenças tornam a identificação relativamente simples quando os insetos podem ser observados com calma.

FAQ sobre abelha-europeia e abelhão

O abelhão é uma espécie de abelha?

Sim. Os abelhões pertencem ao género Bombus e à família Apidae. São parentes da abelha-europeia, mas pertencem a um género diferente.

Qual é maior, a abelha-europeia ou o abelhão?

Em geral, um abelhão apresenta uma aparência maior e mais robusta do que uma operária de Apis mellifera. Contudo, o tamanho varia entre espécies, sexos e castas.

Os abelhões fazem mel?

Os abelhões armazenam alimento para sustentar a colónia, mas não acumulam grandes reservas de mel comparáveis às produzidas por Apis mellifera. As suas colónias possuem uma organização e um ciclo diferentes.

Os abelhões picam?

As fêmeas podem picar quando ameaçadas ou quando o ninho é perturbado. Um abelhão que está simplesmente a alimentar-se numa flor tende a estar concentrado na procura de recursos.

A abelha-europeia morre depois de picar?

Uma operária pode morrer depois de picar um ser humano ou outro mamífero quando o ferrão fica preso na pele e é arrancado do corpo.

O abelhão consegue picar mais de uma vez?

Sim. O ferrão das fêmeas não fica necessariamente preso da mesma forma que o de uma operária de Apis mellifera, pelo que podem picar repetidamente.

Qual dos dois é melhor polinizador?

Não existe uma resposta única. Ambos são excelentes polinizadores, mas possuem características diferentes. Abelhões conseguem realizar polinização por vibração, particularmente importante para certas plantas, enquanto as grandes colónias de Apis mellifera mobilizam numerosos indivíduos para procurar alimento.

Como tornar o jardim mais favorável aos abelhões?

Diversidade de flores, disponibilidade de recursos ao longo de diferentes épocas e preservação de locais adequados para abrigo e nidificação ajudam a criar condições mais favoráveis. Também é importante evitar armadilhas indiscriminadas que possam capturar polinizadores.

Conclusão

Conhecer as diferenças entre abelha-europeia e abelhão permite olhar para estes insetos como dois grupos distintos que desempenham funções complementares nos ecossistemas.

A abelha-europeia, Apis mellifera, apresenta um corpo relativamente esguio e vive em colónias grandes e altamente organizadas que podem persistir durante vários anos. Os abelhões do género Bombus são normalmente mais robustos e densamente cobertos de pelos, formando colónias menores que, em muitas espécies de regiões temperadas, completam o seu ciclo numa única estação.

As diferenças também se refletem na polinização. A abelha-europeia mobiliza numerosas operárias para visitar flores, enquanto os abelhões conseguem utilizar técnicas como a polinização por vibração, particularmente eficazes em certas plantas.

Ambos podem picar quando ameaçados, sobretudo junto aos ninhos, mas indivíduos que estão simplesmente a visitar flores devem ser observados sem interferência.

Num jardim português, a presença de diferentes tipos de abelha é um sinal da diversidade de polinizadores que sustenta a reprodução de numerosas plantas silvestres e cultivadas. Proteger essa diversidade significa preservar flores, habitats de nidificação e condições que permitam a coexistência das diferentes espécies.

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Fontes

ICNF — Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas: informação institucional sobre conservação dos polinizadores em Portugal e proteção de insetos nativos.

Universidade do Porto: trabalho académico sobre a importância dos Bombus spp. na polinização, incluindo polinização por vibração e a importância de Bombus terrestris.

Universidade de Lisboa: investigação sobre diversidade de abelhas na Tapada da Ajuda e estudos dos hábitos de nidificação das abelhas selvagens.