Abelhas Solitárias: As Polinizadoras que Vivem Sozinhas

Quando pensamos em abelhas, é natural imaginar uma colmeia cheia de operárias, uma rainha e reservas de mel. No entanto, essa imagem representa apenas uma parte da enorme diversidade destes insetos. Muitas das abelhas solitárias em Portugal seguem uma estratégia completamente diferente: cada fêmea constrói e abastece o seu próprio ninho, sem depender de uma grande colónia.

Portugal possui uma fauna de abelhas particularmente rica. O atual Plano de Ação para a Conservação e Sustentabilidade dos Polinizadores refere 746 espécies de abelhas descritas no país. Muitas são abelhas selvagens com ciclos de vida, locais de nidificação e preferências florais muito diferentes da conhecida abelha-do-mel.

Estas pequenas polinizadoras podem instalar-se no solo, em cavidades existentes na madeira, em caules ocos e noutros espaços protegidos. Conhecer o seu ciclo de vida ajuda a perceber por que razão um jardim aparentemente “desarrumado” pode ser um excelente habitat para a biodiversidade.

Índice

  1. O que são abelhas solitárias
  2. Abelhas solitárias e abelhas-do-mel: principais diferenças
  3. A diversidade das abelhas em Portugal
  4. Onde constroem os ninhos
  5. O ciclo de vida de uma abelha solitária
  6. O que acontece no outono e no inverno
  7. A importância das abelhas solitárias como polinizadoras
  8. Como criar habitat no jardim
  9. Hotéis de insetos: quando são úteis
  10. A importância do solo nu
  11. Perguntas frequentes
  12. Conclusão

O que são abelhas solitárias?

O termo “abelha solitária” descreve principalmente uma estratégia de reprodução.

Ao contrário das espécies altamente sociais, uma fêmea solitária normalmente constrói o seu próprio ninho e prepara individualmente as células onde deposita os ovos. Cada célula recebe alimento, geralmente uma mistura ou provisão de pólen e néctar, que será consumida pela larva durante o desenvolvimento.

Não existe uma grande população permanente de operárias dedicada a alimentar a descendência ou defender uma colmeia.

A realidade, contudo, é um pouco mais complexa. Entre as abelhas selvagens existem diferentes graus de organização social. Algumas espécies consideradas geralmente solitárias podem nidificar em agregações e outras apresentam comportamentos sociais intermédios.

Um trabalho da Universidade de Lisboa sobre abelhas que nidificam no solo chama precisamente a atenção para esta diversidade, explicando que o termo “abelhas solitárias” não deve ser utilizado como sinónimo perfeito de todas as abelhas que não sejam domésticas ou abelhões.

Abelhas solitárias e abelhas-do-mel: qual é a diferença?

A abelha-do-mel, Apis mellifera, vive numa sociedade altamente organizada.

Uma colónia possui uma rainha reprodutora e numerosas operárias que realizam tarefas como recolher alimento, cuidar das crias, construir favos, regular as condições internas da colmeia e defender a colónia.

A colónia funciona, portanto, como uma unidade social.

Uma abelha solitária típica segue outra estratégia. Depois de acasalar, a fêmea procura ou constrói um local adequado para nidificar. Recolhe materiais quando necessário, visita flores para obter pólen e néctar, prepara uma provisão alimentar, deposita um ovo e fecha a célula.

Repete este processo enquanto consegue produzir novas células.

A descendência desenvolve-se sem a estrutura social característica de uma colmeia de abelhas-do-mel.

É também por isso que encontrar uma abelha a entrar num pequeno buraco no solo não significa necessariamente que exista uma colmeia subterrânea cheia de milhares de indivíduos.

A extraordinária diversidade das abelhas em Portugal

Portugal possui centenas de espécies de abelhas.

O Plano de Ação para a Conservação e Sustentabilidade dos Polinizadores em Portugal, desenvolvido através do projeto PolinizAÇÃO em articulação com instituições científicas e o ICNF, indica atualmente 746 espécies de abelhas descritas no território português.

Esta diversidade pode passar despercebida porque muitas espécies são pequenas e discretas.

Um estudo realizado em hortas urbanas no centro de Lisboa encontrou 58 espécies pertencentes a cinco famílias e 20 géneros apenas nas áreas amostradas. A maioria das espécies identificadas era solitária e apresentava uma dieta de pólen generalista.

Outro levantamento realizado na Tapada da Ajuda registou 867 exemplares, representando 66 espécies de abelhas, incluindo algumas consideradas raras em Portugal.

Estes resultados mostram que mesmo os espaços verdes urbanos podem albergar uma diversidade surpreendente de abelhas selvagens.

Nem todas têm o mesmo aspeto

As abelhas solitárias também não formam um grupo visualmente uniforme.

Algumas são pequenas e escuras. Outras são robustas, peludas ou apresentam cores metálicas. Existem espécies que podem ser facilmente confundidas com pequenas vespas ou moscas por quem não está habituado a observá-las.

Entre os grupos presentes em Portugal encontram-se géneros como Andrena, Lasioglossum, Halictus, Anthophora, Eucera e Osmia.

Esta variedade também se reflete na forma como constroem os ninhos.

Onde vivem as abelhas sem colmeia?

Uma das ideias mais importantes para quem pretende ajudar estes polinizadores é compreender que muitas espécies não utilizam hotéis de insetos.

Uma grande parte das abelhas selvagens nidifica diretamente no solo.

Informação técnica portuguesa sobre jardins favoráveis aos polinizadores destaca géneros como Andrena, Lasioglossum, Halictus, Anthophora e Eucera entre as abelhas que utilizam este tipo de habitat.

As fêmeas podem escavar pequenos túneis e construir células subterrâneas onde a descendência se desenvolve.

Outras espécies utilizam cavidades.

Podem aproveitar pequenos espaços já existentes na madeira, caules ocos ou outras estruturas estreitas. Algumas espécies transportam materiais vegetais ou lama para separar e fechar as células do ninho.

Esta diversidade significa que proteger as abelhas não consiste apenas em colocar uma caixa de madeira cheia de tubos no jardim.

É necessário oferecer diferentes tipos de habitat.

O ciclo de vida de uma abelha solitária

O ciclo varia entre espécies, mas existe um padrão geral que ajuda a compreender estas abelhas.

Quando uma fêmea adulta está ativa, procura um local adequado para o ninho. Depois começa a visitar flores.

O pólen não é recolhido apenas para alimentação imediata. Uma parte é transportada até ao ninho e colocada numa célula juntamente com néctar.

Quando existe alimento suficiente, a fêmea deposita um ovo.

Depois fecha essa célula e começa a preparar outra.

Quando o ovo eclode, a larva encontra a provisão preparada pela mãe e alimenta-se dela. Após completar o crescimento larvar, entra numa fase de transformação que acabará por produzir o adulto.

A duração de cada etapa depende da espécie e das condições ambientais.

Algumas espécies completam mais do que uma geração num ano, enquanto outras possuem apenas uma geração anual.

O que acontece no outono e no inverno?

No final da época de atividade, muitas abelhas deixam praticamente de ser visíveis no jardim.

Isso não significa que tenham desaparecido.

Dependendo da espécie, a nova geração pode permanecer protegida no ninho durante meses, passando o período desfavorável numa determinada fase do desenvolvimento.

Algumas passam o inverno como larvas ou pré-pupas. Outras podem já ter atingido a fase adulta, mas permanecem dentro do ninho até que as condições ambientais favoreçam a emergência.

Por isso, uma haste aparentemente seca ou uma pequena cavidade fechada pode conter uma futura geração de polinizadores.

Este facto tem uma consequência prática importante: a limpeza excessivamente intensa do jardim durante o outono e o inverno pode destruir locais de desenvolvimento sem que o jardineiro perceba.

Remover todas as hastes secas, mobilizar continuamente todo o solo ou manipular estruturas ocupadas pode eliminar ninhos.

Porque são importantes como polinizadoras?

Ao visitar flores para recolher pólen e néctar, as abelhas transportam grãos de pólen entre estruturas florais.

Este processo permite a reprodução de numerosas plantas.

Os polinizadores são fundamentais tanto para plantas selvagens como para diversas culturas agrícolas. O projeto português PolinizAÇÃO destaca precisamente o papel essencial destes animais na biodiversidade, no funcionamento dos ecossistemas e na polinização de plantas silvestres e cultivadas.

As abelhas selvagens complementam o trabalho realizado pelas abelhas-do-mel.

Diferentes espécies possuem tamanhos corporais, comportamentos, períodos de atividade e preferências florais distintos. Consequentemente, uma comunidade diversificada de polinizadores consegue visitar uma gama maior de plantas e responder de formas diferentes às condições ambientais.

Proteger apenas a abelha-do-mel não equivale, portanto, a proteger toda a diversidade de abelhas.

Como criar habitat para abelhas solitárias no jardim

Um jardim favorável aos polinizadores precisa sobretudo de duas coisas: alimento e locais adequados para completar o ciclo de vida.

As flores fornecem pólen e néctar. Idealmente, devem existir diferentes plantas com florações distribuídas ao longo das épocas em que os adultos estão ativos.

Plantas autóctones podem ser especialmente úteis porque fazem parte das comunidades ecológicas às quais os polinizadores locais estão adaptados.

Mas as flores são apenas metade da solução.

Também é necessário permitir que existam locais de nidificação.

Deixar pequenas áreas de solo disponíveis

Para espécies que nidificam no solo, uma pequena área não coberta permanentemente por relva densa, plástico ou pavimento pode fazer uma grande diferença.

Estudos portugueses mostram que fatores como cobertura vegetal e textura do solo podem influenciar a escolha dos locais de nidificação por abelhas que escavam o terreno.

Isso não significa transformar todo o jardim numa área de terra descoberta.

Algumas pequenas zonas adequadas podem ser suficientes para aumentar a variedade de micro-habitats.

Evitar mobilizar repetidamente áreas onde se observam pequenos orifícios utilizados por abelhas também ajuda a preservar os ninhos existentes.

Hotéis de insetos para abelhas

Os chamados hotéis de insetos tornaram-se populares nos jardins.

Quando corretamente concebidos, podem fornecer cavidades artificiais para determinadas espécies, especialmente algumas abelhas que naturalmente procuram orifícios estreitos.

Em Portugal, estudos com ninhos artificiais já registaram espécies do género Osmia. Investigação mais recente em pomares portugueses também tem estudado a colonização espontânea de estruturas artificiais por populações selvagens de Osmia.

Contudo, um hotel de insetos não deve ser visto como solução universal.

As estruturas demasiado grandes e densas podem concentrar muitos indivíduos num único ponto. Orientações portuguesas para jardins favoráveis aos polinizadores recomendam limitar a dimensão e a frequência dessas estruturas para reduzir o risco de se tornarem focos de doenças e parasitas.

Pequenas estruturas bem mantidas são geralmente mais sensatas do que enormes “hotéis” decorativos.

Não mexer constantemente nos ninhos

Outro princípio importante é a estabilidade.

Quando uma estrutura de nidificação é ocupada, deve permanecer o mais tranquila possível.

As recomendações portuguesas salientam que estruturas de apoio devem ser mantidas com pouca manipulação, uma vez que os insetos podem permanecer instalados fora das épocas em que vemos adultos ativos.

Um tubo fechado não está necessariamente abandonado.

Pode conter larvas, pupas ou adultos em desenvolvimento.

Um jardim ligeiramente menos arrumado pode ser melhor

A tendência para deixar o jardim completamente limpo durante o inverno pode eliminar recursos importantes.

Algumas hastes secas podem proporcionar cavidades. Pequenas zonas de solo exposto podem servir para nidificação. Flores espontâneas podem fornecer alimento.

Também é importante reduzir a utilização desnecessária de inseticidas e outros produtos capazes de afetar insetos não alvo.

O objetivo não precisa de ser abandonar a manutenção do jardim.

Uma abordagem equilibrada consiste em manter as áreas utilizadas pelas pessoas enquanto se reservam pequenos espaços onde os ciclos naturais possam continuar com menos perturbação.

Perguntas frequentes

As abelhas solitárias produzem mel?

Não produzem reservas de mel comparáveis às colónias de Apis mellifera.

As fêmeas fornecem alimento à descendência através de provisões de pólen e néctar colocadas nas células dos ninhos.

As abelhas solitárias vivem todas debaixo da terra?

Não.

Muitas espécies nidificam no solo, mas outras utilizam cavidades em madeira, caules e diferentes estruturas naturais.

É precisamente esta diversidade que torna importante disponibilizar vários tipos de habitat.

Um hotel de insetos ajuda todas as abelhas?

Não.

Um hotel com cavidades beneficia principalmente espécies capazes de utilizar esse tipo de ninho. Muitas abelhas nidificam no solo e nunca utilizarão uma estrutura deste género.

Para essas espécies, preservar pequenas zonas adequadas de terreno pode ser mais útil.

O que existe dentro dos tubos fechados de um hotel de insetos?

Dependendo da espécie e da época do ano, podem existir células contendo ovos, larvas, pupas ou indivíduos em fases mais avançadas de desenvolvimento.

Por isso, tubos ocupados não devem ser abertos simplesmente para verificar o interior.

Onde estão as abelhas solitárias durante o inverno?

Depende da espécie.

Muitas passam os meses frios protegidas dentro dos locais onde se desenvolveram, em diferentes fases do ciclo de vida. A emergência dos adultos acontece quando chega a época adequada para cada espécie.

As abelhas solitárias são importantes em cidades?

Sim.

Estudos realizados em Lisboa demonstram que hortas e outros espaços verdes urbanos podem sustentar comunidades bastante diversas de abelhas selvagens. Um levantamento em três hortas urbanas registou 58 espécies, sendo a maioria das espécies identificadas solitária.

Como posso ajudar as abelhas solitárias no meu jardim?

A melhor estratégia é combinar alimento e habitat.

Manter uma diversidade de plantas floridas, conservar algumas áreas de solo adequadas à nidificação, preservar certas hastes e cavidades naturais, evitar perturbar ninhos e reduzir o uso desnecessário de pesticidas cria um ambiente mais favorável.

Um pequeno hotel de insetos pode complementar estas medidas, mas não deve substituí-las.

Conclusão

As abelhas solitárias em Portugal representam uma parte fascinante da biodiversidade que existe mesmo nos jardins, hortas e espaços verdes urbanos.

Ao contrário da abelha-do-mel, muitas não possuem uma colónia permanente organizada em torno de uma rainha e milhares de operárias. Cada fêmea assume grande parte do trabalho de construir ou escolher o ninho, recolher alimento e preparar as células onde a descendência irá desenvolver-se.

A investigação realizada em Portugal mostra que esta diversidade pode ser considerável mesmo dentro das cidades. Também confirma que diferentes espécies precisam de diferentes locais para nidificar, desde cavidades até áreas específicas de solo.

Ajudá-las não exige necessariamente grandes estruturas. Pequenas mudanças podem ser mais importantes: flores disponíveis ao longo das estações, zonas de solo não perturbado, algumas hastes preservadas, menor utilização de pesticidas e pequenos ninhos artificiais quando apropriado.

Um jardim pensado desta forma deixa de oferecer apenas flores. Passa também a fornecer os locais onde uma nova geração de polinizadores pode nascer, desenvolver-se, atravessar o inverno e regressar às flores na estação seguinte.