Cágados no Inverno: Porque Se Enterram na Lama

Quando as temperaturas descem e o inverno chega a Portugal, os cágados parecem desaparecer de muitos charcos, lagoas, ribeiras e tanques. Não migraram necessariamente para outro local nem deixaram de estar presentes. Em condições suficientemente frias, estes répteis podem reduzir drasticamente a atividade e permanecer durante longos períodos debaixo de água, protegidos entre vegetação aquática, sedimentos e lama.

Este período de dormência é frequentemente chamado hibernação, embora, no caso dos répteis, também seja utilizado o termo brumação. Durante a cágados hibernação inverno, a temperatura corporal acompanha a do ambiente, o metabolismo abranda e as necessidades energéticas diminuem significativamente.

Em Portugal, porém, o comportamento não é exatamente igual em todas as regiões, espécies ou invernos. O cágado-mediterrânico (Mauremys leprosa), por exemplo, pode entrar em dormência nas zonas mais frias, mas permanecer ativo durante parte ou mesmo todo o inverno em regiões mais amenas.

Compreender esta estratégia ajuda também a perceber por que razão limpar ou esvaziar completamente um lago durante o inverno pode perturbar animais que aparentemente “desapareceram”.

Índice

  1. O que acontece aos cágados no inverno
  2. Hibernação ou brumação
  3. Porque se enterram na lama
  4. Como conseguem permanecer tanto tempo debaixo de água
  5. Os cágados nativos de Portugal
  6. Espécies introduzidas e invasoras
  7. Cágados num lago de jardim durante o inverno
  8. O que evitar durante a estação fria
  9. O despertar na primavera
  10. FAQ
  11. Conclusão

O que acontece aos cágados quando chega o inverno?

Os cágados são animais ectotérmicos. Ao contrário dos mamíferos e das aves, não mantêm uma temperatura corporal elevada e relativamente constante através da produção interna de calor.

A sua atividade depende fortemente da temperatura ambiental.

Durante a primavera e o verão é frequente observá-los a apanhar sol nas margens, troncos, pedras ou outros locais expostos. O aquecimento permite-lhes elevar a temperatura corporal e desempenhar atividades como deslocar-se, alimentar-se e digerir.

Quando a água e o ar arrefecem no final do outono, este sistema deixa de funcionar da mesma maneira.

A atividade diminui progressivamente, assim como o metabolismo e a necessidade de alimento. Um investigador do CIIMAR, citado pelo Jardim Gulbenkian num artigo dedicado precisamente aos cágados no inverno em Portugal, explica que as duas espécies nativas e o cágado-da-Flórida reduzem fortemente a atividade e o metabolismo durante os períodos de frio intenso.

Não existe, contudo, uma data fixa para este processo.

Um outono particularmente quente pode prolongar a atividade. Num inverno suave, sobretudo em zonas mais quentes de Portugal, determinados indivíduos podem voltar a movimentar-se durante períodos favoráveis.

Hibernação ou brumação: qual é o termo correto?

Na linguagem comum, diz-se frequentemente que os cágados “hibernam”. O próprio termo hibernação é utilizado em literatura científica e técnica sobre tartarugas de água doce.

No contexto dos répteis, contudo, é também comum falar em brumação, uma dormência associada à descida das temperaturas em animais ectotérmicos.

A brumação répteis aquáticos não deve ser imaginada como um sono absolutamente contínuo.

O metabolismo fica extremamente reduzido e o animal pode permanecer quase imóvel durante longos períodos, mas o grau de dormência depende da espécie, da temperatura da água, da disponibilidade de oxigénio e das condições meteorológicas.

No cágado-de-carapaça-estriada (Emys orbicularis), por exemplo, estudos e orientações zoológicas descrevem um período anual de atividade seguido por uma fase de letargia ou hibernação, cuja duração depende das condições climáticas.

Por isso, neste artigo usamos “hibernação” no sentido corrente e “brumação” para descrever mais especificamente a dormência sazonal dos répteis.

Porque é que os cágados se enterram na lama?

O fundo lodoso de uma massa de água oferece algo extremamente valioso durante o inverno: um microambiente relativamente protegido das oscilações rápidas que ocorrem à superfície.

O cágado pode refugiar-se no fundo, entre sedimentos, raízes, folhas submersas e vegetação aquática. O Emys orbicularis é conhecido por utilizar habitats de inverno subaquáticos e pode enterrar-se no lodo quando as temperaturas descem.

Estudos de locais de invernada desta espécie encontraram indivíduos em zonas pouco profundas com fundos de lama e abundante cobertura vegetal. Também foram observados movimentos verticais dentro do substrato relacionados com alterações da temperatura.

A lama funciona como abrigo

A água e os sedimentos amortecem as oscilações térmicas que ocorrem no ar.

Isto não significa que todos os cágados passem obrigatoriamente o inverno completamente enterrados. Alguns podem permanecer sobre o fundo, parcialmente cobertos, entre plantas ou matéria vegetal submersa.

A estratégia depende do habitat e da espécie.

Esta nuance é importante: dizer simplesmente que “todos os cágados se enterram na lama durante todo o inverno” seria uma generalização excessiva.

Como conseguem permanecer tanto tempo debaixo de água?

Esta é uma das adaptações mais fascinantes das tartarugas de água doce.

À medida que a temperatura corporal desce, o metabolismo diminui drasticamente. Consequentemente, também diminui a quantidade de oxigénio necessária para manter as funções vitais.

O ritmo respiratório torna-se muito reduzido e os períodos sem respirar através dos pulmões podem tornar-se extraordinariamente longos.

Algumas tartarugas aquáticas conseguem ainda realizar trocas gasosas através de superfícies vascularizadas do corpo quando estão submersas. A importância desses mecanismos, assim como a tolerância a baixos níveis de oxigénio, varia consideravelmente entre espécies.

Estudos fisiológicos mostram que certas tartarugas de água doce de climas temperados conseguem sobreviver durante períodos prolongados em água pobre em oxigénio ou mesmo em condições praticamente anóxicas graças a adaptações metabólicas especializadas.

Outras espécies mantêm parte importante das suas necessidades através de respiração aquática enquanto permanecem submersas em água muito fria.

Isto não significa, contudo, que qualquer cágado possa sobreviver indefinidamente num pequeno lago estagnado sem oxigénio. A fisiologia varia entre espécies e as condições de uma massa de água artificial podem ser muito diferentes das encontradas num habitat natural.

As duas espécies de cágados nativos de Portugal

Portugal continental possui duas espécies nativas de cágados de água doce particularmente importantes.

Cágado-mediterrânico — Mauremys leprosa

O cágado-mediterrânico é uma espécie autóctone e residente em Portugal. O ICNF identifica-o como Mauremys leprosa e atribui-lhe estatuto nacional de “Pouco Preocupante” (LC) nos dados de referência apresentados para a espécie.

Pode ocupar diferentes massas de água doce ou de baixa salinidade, incluindo charcos, represas, lagoas, canais, albufeiras e zonas de rios e ribeiros com corrente lenta.

O comportamento invernal é particularmente interessante porque evidencia a influência do clima português.

Nas zonas frias, pode entrar em hibernação; nas regiões mais quentes pode permanecer ativo durante o inverno.

Assim, observar um cágado-mediterrânico ao sol num dia ameno de inverno não significa necessariamente que exista algum problema.

Cágado-de-carapaça-estriada — Emys orbicularis

A segunda espécie nativa é o cágado-de-carapaça-estriada, Emys orbicularis.

A situação desta espécie é mais delicada. O Cadastro Nacional dos Valores Naturais Classificados do ICNF apresenta-a com estatuto nacional EN — Em Perigo — enquanto o cágado-mediterrânico surge como LC.

O ICNF refere também que, em Portugal, o Emys orbicularis é mais raro e menos abundante do que o cágado-mediterrânico, com populações pequenas e relativamente isoladas.

O seu desaparecimento temporário durante o inverno não deve, portanto, ser confundido com ausência da espécie numa zona húmida.

Espécies nativas e cágados introduzidos não são a mesma coisa

Além das duas espécies autóctones, existem em Portugal tartarugas aquáticas provenientes de outras regiões do mundo.

O exemplo mais conhecido é Trachemys scripta, associada ao comércio de animais de companhia e a libertações indevidas.

O ICNF documenta populações introduzidas desta espécie e identifica a sua origem fora da Europa. Trachemys scripta encontra-se também na lista de espécies exóticas invasoras que suscitam preocupação na União Europeia.

Porque é importante distinguir espécies?

Uma tartaruga observada num lago urbano não deve ser automaticamente identificada como uma das tartarugas de água doce Portugal nativas.

Espécies exóticas libertadas na natureza podem competir por recursos, ocupar locais de exposição solar e criar outros problemas ecológicos.

O ICNF alerta que espécies exóticas invasoras podem afetar as espécies indígenas através da competição por recursos, transmissão de doenças, predação e outros mecanismos. A prevenção da libertação é, por isso, essencial.

Nunca se deve libertar num rio, charco, lago ou parque um cágado mantido como animal de companhia.

A legislação portuguesa estabelece restrições específicas para espécies incluídas na Lista Nacional de Espécies Invasoras, incluindo proibições relacionadas com introdução na natureza, detenção, cedência, venda e transporte, com condições particulares aplicáveis a determinados animais de companhia anteriormente adquiridos.

Cágados num lago de jardim durante o inverno

Um cágados lago jardim necessita de uma abordagem cuidadosa durante o inverno, sobretudo quando o espaço é utilizado por animais selvagens que entraram naturalmente no jardim.

A primeira regra é simples: não transformar uma limpeza de inverno numa destruição do habitat de dormência.

Não drenar completamente o lago

Esvaziar totalmente um lago no inverno pode remover precisamente a água, os sedimentos e os abrigos que um cágado está a utilizar.

No caso de Emys orbicularis, estudos de invernada mostram que alterações do nível da água durante o inverno podem ameaçar os animais que utilizam esses habitats.

Se for necessária manutenção, é preferível planear intervenções profundas fora do período de dormência e ter em consideração toda a fauna presente.

Num lago de jardim onde surgiram cágados selvagens, uma intervenção importante deve ser avaliada com especial cuidado e, quando necessário, com aconselhamento de uma entidade de conservação ou especialista em fauna selvagem.

Manter diferentes micro-habitats

Um lago biologicamente interessante não precisa de parecer uma piscina esterilizada.

Vegetação aquática, zonas de profundidades diferentes, margens estruturadas e alguma matéria vegetal podem criar refúgios importantes para numerosos organismos.

No entanto, isto não significa deixar acumular indefinidamente enormes quantidades de matéria orgânica em decomposição num tanque pequeno. A decomposição consome oxigénio, e um sistema artificial muito pequeno pode desenvolver condições diferentes das de uma lagoa natural.

O equilíbrio é mais importante do que a limpeza absoluta ou o abandono total.

Evitar perturbar a lama durante o frio

Remexer profundamente o fundo de um lago no meio do inverno pode desalojar animais dormentes.

Um cágado retirado do seu abrigo fica subitamente exposto a temperaturas, predadores e condições para as quais não estava preparado.

Por isso, dragagens, remoção extensa de sedimentos ou grandes remodelações são operações que devem ser planeadas tendo em conta a fauna existente.

O que evitar durante a estação fria

O primeiro erro é assumir que um cágado imóvel no fundo está necessariamente morto.

Durante a brumação, a atividade pode ser extremamente reduzida.

Também não se deve retirar um cágado selvagem do lago simplesmente porque chegou o inverno e colocá-lo numa divisão aquecida. Uma alteração brusca da temperatura interfere com o ciclo sazonal e pode provocar uma ativação metabólica num momento inadequado.

Outro erro grave consiste em libertar animais de companhia num lago porque parecem estar mais “naturais” nesse ambiente. Uma espécie exótica continua a ser exótica mesmo quando consegue sobreviver e reproduzir-se no novo habitat.

Finalmente, não se deve aplicar uma única receita de inverno a todos os cágados. Espécie, idade, condição física, clima, profundidade da água e características do habitat influenciam a dormência.

Quando termina a brumação?

Com o aumento gradual das temperaturas no final do inverno e início da primavera, o metabolismo volta a acelerar.

Os animais tornam-se mais ativos e regressam progressivamente à superfície. A exposição solar assume novamente um papel importante na termorregulação.

O momento exato varia de ano para ano.

Um inverno curto e ameno no sul de Portugal pode produzir um padrão muito diferente do observado numa região interior mais fria. Esta flexibilidade explica por que razão a “hibernação” dos cágados portugueses não deve ser representada como um período rígido com início e fim definidos pelo calendário.

FAQ — Cágados e hibernação no inverno

Os cágados hibernam em Portugal?

Sim, as espécies nativas podem reduzir profundamente a atividade durante períodos frios. Contudo, a intensidade e duração da dormência dependem do clima e da espécie. O cágado-mediterrânico pode permanecer ativo durante invernos mais amenos.

Qual é a diferença entre hibernação e brumação?

“Hibernação” é amplamente utilizado, inclusive em literatura sobre tartarugas. “Brumação” é um termo usado especificamente para descrever a dormência sazonal de répteis ectotérmicos. Durante este período, metabolismo e atividade diminuem fortemente.

Os cágados ficam completamente enterrados na lama?

Nem sempre. Podem enterrar-se parcial ou totalmente, permanecer sobre o substrato ou procurar abrigo entre vegetação e matéria orgânica. Emys orbicularis utiliza frequentemente ambientes subaquáticos com fundos lodosos e vegetação densa durante o inverno.

Como respiram debaixo de água durante tanto tempo?

A baixa temperatura reduz drasticamente o metabolismo e, consequentemente, as necessidades de oxigénio. As tartarugas aquáticas apresentam ainda adaptações fisiológicas para longos períodos submersas, embora a capacidade de tolerar pouco oxigénio varie bastante entre espécies.

Devo esvaziar um lago de jardim no inverno?

Não se houver possibilidade de existirem animais a utilizá-lo como refúgio. Alterar drasticamente o nível da água ou remover os sedimentos durante a dormência pode destruir locais de invernada. A manutenção profunda deve ser planeada noutra época e adaptada à fauna presente.

Quais são os cágados nativos de Portugal?

São o cágado-mediterrânico (Mauremys leprosa) e o cágado-de-carapaça-estriada (Emys orbicularis). Ambos são espécies residentes e autóctones.

O cágado-da-Flórida é nativo de Portugal?

Não. Trachemys scripta é uma espécie exótica, com populações introduzidas fora da sua distribuição natural, e encontra-se abrangida pela regulamentação relativa a espécies exóticas invasoras.

Posso libertar o meu cágado de estimação num lago?

Não. A libertação de animais exóticos pode prejudicar a fauna nativa e, no caso das espécies invasoras regulamentadas, existem proibições legais específicas. O ICNF sublinha que evitar novas libertações é uma das medidas fundamentais para impedir a propagação de invasoras.

Conclusão

A cágados hibernação inverno é uma extraordinária adaptação à vida num ambiente cuja temperatura muda ao longo do ano. Quando o frio chega, estes répteis podem reduzir profundamente o metabolismo, deixar de se alimentar e permanecer praticamente imóveis durante períodos prolongados.

A lama, os sedimentos, a vegetação submersa e a própria massa de água podem proporcionar um micro-habitat protegido. No entanto, nem todos os indivíduos permanecem completamente enterrados, nem todos os cágados portugueses passam o inverno exatamente da mesma forma.

Essa diferença é particularmente importante em Portugal. O cágado-mediterrânico pode manter alguma atividade em regiões ou períodos mais amenos, enquanto o cágado-de-carapaça-estriada, uma espécie nacionalmente ameaçada, depende de zonas húmidas adequadas para completar o seu ciclo anual.

Nos lagos de jardim, preservar esta dinâmica significa evitar esvaziamentos e limpezas profundas durante o período de dormência quando há fauna presente. Um fundo aparentemente silencioso pode estar a funcionar como abrigo de inverno.

Finalmente, reconhecer a diferença entre espécies nativas e introduzidas é essencial. Portugal possui duas espécies autóctones de cágados, enquanto tartarugas exóticas como Trachemys scripta representam uma realidade distinta e nunca devem ser libertadas na natureza.