Cagarra: A Ave Que Só Regressa a Terra à Noite

Durante o dia, quem observa o Atlântico a partir de um cabo ou de uma ilha portuguesa pode ver uma grande ave marinha deslizar sobre as ondas quase sem bater as asas. É a cagarra (Calonectris borealis), uma das aves mais características do oceano português.

Mas existe outra face desta espécie que muitos nunca chegam a conhecer. Durante a época de reprodução, as cagarras regressam às suas colónias principalmente ao anoitecer e durante a noite. É então que falésias e encostas aparentemente silenciosas começam a encher-se das suas vocalizações inconfundíveis.

Este comportamento noturno não é acidental. Para uma ave extremamente adaptada a voar e procurar alimento no oceano, estar em terra representa uma fase de maior vulnerabilidade. A escuridão ajuda a reduzir alguns riscos associados ao regresso às áreas de nidificação.

Portugal possui algumas das mais importantes áreas de reprodução da espécie no Atlântico, incluindo Açores, Madeira, Selvagens e Berlengas. Conhecer o comportamento da cagarra é também perceber por que razão proteger pequenas ilhas e falésias pode ter importância para uma ave que passa grande parte da vida sobre o mar.

Índice

  1. Conhecer a cagarra
  2. Onde nidifica em Portugal
  3. Porque regressa às colónias principalmente à noite
  4. Uma ave magnífica no mar, vulnerável em terra
  5. Como são os ninhos das cagarras
  6. Porque os predadores introduzidos são tão perigosos
  7. O exemplo da recuperação ecológica das Berlengas
  8. Outras ameaças às cagarras
  9. Como visitar uma colónia de forma responsável
  10. Perguntas frequentes
  11. Conclusão

Conhecer a cagarra

A cagarra pertence à família Procellariidae, grupo que inclui várias aves marinhas altamente adaptadas à vida oceânica.

Em Portugal, também pode ser conhecida por outros nomes regionais, incluindo cagarro e pardela-de-bico-amarelo. Atualmente, a população atlântica é geralmente tratada como Calonectris borealis.

A sua aparência combina perfeitamente com o modo de vida pelágico.

As asas longas permitem alternar batimentos com extensos períodos de voo planado. Sobre o oceano, a ave aproveita o vento e desloca-se com uma eficiência que contrasta profundamente com aquilo que acontece quando chega a terra.

A alimentação inclui sobretudo organismos marinhos, como peixes e cefalópodes. As aves reprodutoras podem abandonar a colónia e percorrer extensas áreas oceânicas em busca de alimento antes de regressarem ao ninho.

É precisamente esta alternância entre oceano e terra que define grande parte do seu ciclo de vida.

Onde nidifica a cagarra em Portugal

Portugal possui uma responsabilidade particularmente importante na conservação desta ave marinha.

Existem colónias reprodutoras nos arquipélagos dos Açores e da Madeira, incluindo as Selvagens, e também nas Berlengas, ao largo de Peniche.

Nos Açores, a cagarra é uma presença particularmente característica durante a época de reprodução. As aves utilizam diferentes ilhas e ilhéus, e as suas vocalizações noturnas fazem parte da paisagem sonora costeira em vários locais.

Na Madeira e nas Selvagens existem igualmente colónias importantes.

Em Portugal continental, as Berlengas constituem uma área especialmente relevante. O ICNF confirma a presença de populações nidificantes de Calonectris borealis na Berlenga e nos Farilhões.

A espécie permanece ligada a estas áreas terrestres essencialmente durante a reprodução.

Fora dessa necessidade, é uma ave do oceano.

Uma exceção interessante nas Selvagens

Dizer que a cagarra “só regressa a terra à noite” é uma boa forma de descrever o comportamento normalmente observado nas colónias, mas biologicamente necessita de uma pequena ressalva.

Documentação portuguesa mais antiga já descrevia a espécie como presente em terra sobretudo durante o período noturno, apontando as Selvagens como exceção, onde as aves podiam começar a chegar ao entardecer. Observações atuais na Selvagem Grande também mostram cagarras em terra durante o dia, embora a chegada aumente fortemente ao pôr do sol.

Portanto, a atividade noturna é um padrão dominante, não uma regra sem exceções.

Porque regressa às colónias principalmente à noite

Passar o dia no oceano e regressar ao ninho quando escurece oferece uma vantagem importante às cagarras: reduzir a exposição a ameaças em terra e nas proximidades da colónia.

Este padrão é comum em várias aves marinhas que nidificam em cavidades.

Durante a noite, a menor visibilidade pode dificultar a deteção das aves por alguns predadores visualmente orientados.

Isso é especialmente importante porque uma cagarra que se aproxima do ninho não possui no solo a mesma capacidade de fuga que demonstra no ar.

O comportamento deve, contudo, ser entendido dentro do contexto evolutivo das colónias insulares.

Muitas aves marinhas evoluíram reproduzindo-se em ilhas onde originalmente existiam poucos ou nenhuns mamíferos predadores terrestres. Os ninhos no solo e a atividade noturna funcionavam num ambiente muito diferente daquele criado posteriormente pela introdução humana de ratos, gatos e outros mamíferos.

Quando esses novos predadores chegam a uma ilha, a escuridão deixa de proporcionar a mesma segurança.

Uma ave magnífica no mar, vulnerável em terra

Observar uma cagarra sobre o oceano pode dar a impressão de uma ave extremamente ágil.

E é verdade.

No seu ambiente principal, está magnificamente adaptada.

As asas favorecem um voo eficiente sobre grandes extensões de água. O corpo e as patas também estão adaptados à vida marinha e à deslocação na água.

Mas estas mesmas características não produzem uma ave particularmente ágil quando precisa de caminhar pelo solo.

A SPEA descreve a cagarra como extremamente ágil no mar, mas muito desajeitada em terra.

As patas estão posicionadas de uma forma adequada à propulsão na água, não a longas deslocações terrestres eficientes.

Quando uma cagarra chega à colónia, precisa de pousar, deslocar-se até à cavidade e eventualmente permanecer exposta durante algum tempo.

É um período muito diferente da sua vida habitual.

Porque as ilhas eram locais tão seguros

Antes da introdução humana de mamíferos terrestres em muitas ilhas oceânicas, este comportamento apresentava menos riscos.

Uma ave podia nidificar no solo, dentro de uma cavidade ou numa toca sem enfrentar os mesmos predadores existentes num continente.

Esse isolamento ajudou a transformar as ilhas em importantes refúgios de reprodução para aves marinhas.

O problema começou quando seres humanos transportaram outras espécies para esses ecossistemas.

Algumas foram introduzidas deliberadamente. Outras chegaram acidentalmente em embarcações.

Para aves que não evoluíram perante esses predadores, as consequências podem ser graves.

Como são os ninhos das cagarras

A cagarra não constrói normalmente um ninho aberto e elaborado como muitas aves terrestres.

Procura proteção.

Pode utilizar fendas entre rochas, cavidades naturais, buracos no solo e outros espaços protegidos. Em determinados locais, as próprias aves conseguem também utilizar ou adaptar cavidades disponíveis.

O ICNF descreve ninhos em cavidades naturais do solo e fendas rochosas, sendo muito menos habitual a nidificação completamente exposta.

Nas Berlengas existe ainda uma história ecológica particularmente interessante.

Os coelhos introduzidos utilizavam tocas e competiam com as cagarras por espaços adequados à nidificação. O problema não era apenas a presença de outro animal na ilha: existia uma sobreposição direta na utilização de um recurso essencial.

O regresso ao mesmo mundo subterrâneo

Uma colónia pode parecer quase vazia durante o dia.

Muitas aves estão no mar e aquelas que permanecem associadas aos ninhos encontram-se escondidas nas cavidades.

Quando anoitece, a situação muda.

As vocalizações tornam-se uma das formas mais evidentes de perceber a presença das aves.

A própria SPEA destaca que as vocalizações podem ser ouvidas durante a noite quando as cagarras visitam as colónias.

É uma experiência fascinante, mas também uma razão para evitar perturbar estes locais depois do pôr do sol.

Porque os predadores introduzidos são tão perigosos

Um dos problemas mais sérios enfrentados por aves marinhas insulares é a introdução de mamíferos predadores.

Ratos podem consumir ovos ou atacar crias. Gatos assilvestrados conseguem matar aves juvenis e adultas. Outros predadores introduzidos podem entrar nas áreas de nidificação e provocar mortalidade ou abandono dos ninhos.

Na Madeira, por exemplo, existem impactos documentados associados a gatos, roedores e furões. A SPEA refere que gatos assilvestrados podem predar ovos, crias e adultos durante a época reprodutora.

O furão constitui outro exemplo.

Trabalho de campo recente na Madeira encontrou evidências de furões em áreas de nidificação e de predação sobre crias de cagarra, levando a medidas específicas de monitorização e mitigação.

Para uma espécie adaptada historicamente a ilhas com reduzida pressão de mamíferos terrestres, estas introduções alteram profundamente as condições de reprodução.

O exemplo da recuperação ecológica das Berlengas

As Berlengas mostram que algumas destas ameaças podem ser reduzidas através de conservação ativa.

Historicamente, a Berlenga tinha mamíferos introduzidos, incluindo rato-preto e coelho.

O rato-preto representava uma ameaça direta para aves marinhas através da predação de ovos e crias. Os coelhos, por sua vez, alteravam a vegetação e competiam com as cagarras pela utilização das tocas.

O projeto LIFE Berlengas desenvolveu ações para recuperar os habitats terrestres e remover estes mamíferos introduzidos.

Segundo o ICNF, a ilha da Berlenga encontra-se atualmente livre de roedores. A remoção produziu benefícios suficientemente importantes para permitir que outra pequena ave marinha, o roque-de-castro, voltasse a reproduzir-se na ilha.

Este caso demonstra um princípio fundamental da conservação insular.

Eliminar ou controlar uma espécie invasora não beneficia apenas uma espécie-alvo. Pode permitir a recuperação de todo um conjunto de relações ecológicas.

Outras ameaças às cagarras

Predadores introduzidos não são o único problema.

A cagarra passa grande parte da vida no oceano e enfrenta ameaças tanto no mar como quando regressa às colónias.

A captura acidental em determinadas artes de pesca é uma delas. A SPEA identifica também perda de habitat e poluição luminosa entre as ameaças relevantes.

A iluminação artificial merece atenção especial porque interfere precisamente com a dimensão noturna da vida destas aves.

Quando a luz artificial transforma a noite

As cagarras juvenis deixam os ninhos e dirigem-se para o oceano durante a noite.

Luzes artificiais intensas podem desorientá-las, fazendo com que algumas se aproximem de zonas urbanizadas e acabem no solo.

Na Madeira existem campanhas destinadas a localizar e recuperar aves desorientadas durante este período, ao mesmo tempo que são recolhidos dados úteis para estudar o impacto da poluição luminosa.

Reduzir iluminação desnecessária perto das colónias e corredores de voo é, portanto, uma verdadeira medida de conservação.

Como visitar uma colónia de forma responsável

Uma colónia de cagarras não é apenas um local interessante para fotografar aves.

É uma área de reprodução.

A prioridade deve ser evitar qualquer alteração do comportamento dos animais.

Em áreas protegidas, permaneça sempre nos caminhos autorizados e cumpra as indicações existentes. Nas Berlengas, por exemplo, o ICNF determina que os visitantes não devem abandonar os trilhos.

Nunca introduza mãos, câmaras ou outros objetos nas cavidades.

Um buraco aparentemente vazio pode conter uma ave, um ovo ou uma cria fora do campo de visão.

Também não tente fazer uma cagarra sair do ninho para obter uma fotografia.

Reduza luz e ruído durante a noite

Se estiver numa zona onde seja permitida presença noturna, evite iluminar diretamente as aves.

Lanternas fortes, flashes repetidos e iluminação prolongada podem perturbar um ambiente onde as cagarras dependem naturalmente da escuridão.

Mantenha também o ruído reduzido.

Ouvir as vocalizações à distância é muito menos perturbador do que aproximar-se dos ninhos para localizar cada indivíduo.

Cães e outros animais domésticos devem ficar afastados

Nunca permita que um cão explore uma área de nidificação.

Mesmo um animal doméstico que normalmente não caça pode cheirar uma cavidade, escavar ou provocar a saída de uma ave.

Em ilhas e outras áreas protegidas, devem ser cumpridas integralmente as regras locais relativas à entrada de animais.

Nunca deixe alimentos ou resíduos

Restos de comida podem favorecer animais oportunistas e contribuir para alterações ecológicas numa colónia.

Tudo aquilo que entra numa área natural deve sair novamente sempre que as regras locais assim o determinarem.

Em ecossistemas insulares, impedir novas introduções biológicas é igualmente essencial. Equipamentos, embarcações e cargas podem transportar inadvertidamente organismos capazes de causar problemas ecológicos.

Uma vida dividida entre dois mundos

A cagarra mostra como uma espécie pode ser extraordinariamente competente num ambiente e surpreendentemente vulnerável noutro.

No mar, percorre grandes distâncias e enfrenta vento e ondas.

Em terra, procura a segurança de uma pequena cavidade.

Durante o dia, pode desaparecer no horizonte.

À noite, regressa à colónia e enche a escuridão com vocalizações.

Essa dependência simultânea do oceano e de pequenas áreas terrestres explica por que a conservação da espécie não pode limitar-se à proteção do mar.

Uma colónia segura é tão importante como águas onde exista alimento.

Perguntas frequentes

Onde existem cagarras em Portugal?

A cagarra reproduz-se em diferentes áreas insulares portuguesas, incluindo Açores, Madeira, Selvagens e Berlengas. Nas Berlengas, existem populações nidificantes na Berlenga e nos Farilhões.

A cagarra só vem a terra durante a noite?

O comportamento típico nas colónias é fortemente noturno, mas não é uma regra absoluta. Na Selvagem Grande, por exemplo, podem existir aves em terra durante o dia, embora o número de regressos aumente ao entardecer.

Porque as cagarras são desajeitadas em terra?

A sua anatomia está fortemente especializada para a vida marinha, incluindo voo oceânico e deslocação na água. Essa especialização não favorece uma locomoção terrestre tão eficiente.

Onde fazem o ninho?

Utilizam principalmente cavidades, fendas rochosas, buracos e outros locais protegidos. Ninhos completamente expostos são muito menos característicos.

Os ratos são perigosos para as cagarras?

Sim. Predadores introduzidos, incluindo determinados roedores, podem consumir ovos e atacar crias. Nas Berlengas, o rato-preto foi identificado como predador de ovos e crias de aves marinhas.

Os gatos também representam uma ameaça?

Sim. Em ilhas onde gatos assilvestrados conseguem chegar às colónias, podem predar ovos, crias e aves adultas. Existem impactos documentados na Madeira.

Porque a iluminação artificial é perigosa?

As luzes artificiais podem desorientar sobretudo juvenis durante os primeiros voos para o oceano, levando algumas aves a cair em zonas urbanizadas.

Posso aproximar-me de uma toca para fotografar?

Não é recomendável. Nunca perturbe uma cavidade ocupada e cumpra sempre as restrições das áreas protegidas. Fotografar à distância reduz o risco de interferir com a reprodução.

Conclusão

A cagarra é uma ave construída para o oceano.

As suas asas permitem-lhe deslizar sobre o Atlântico com uma eficiência impressionante, e grande parte da sua existência decorre longe de terra firme. Mas todos os anos a reprodução obriga-a a regressar a ilhas, falésias e cavidades costeiras.

E esse regresso acontece predominantemente sob a proteção da noite.

A escuridão ajuda estas aves marinhas a aproximarem-se das colónias reduzindo determinados riscos, mas não consegue protegê-las de todas as ameaças modernas. Ratos, gatos, furões e outros mamíferos introduzidos alteraram profundamente algumas ilhas onde aves marinhas evoluíram sem predadores terrestres semelhantes.

Projetos de conservação demonstram que é possível inverter parte desse impacto. Nas Berlengas, a remoção de mamíferos introduzidos ajudou a recuperar o ecossistema terrestre e eliminou importantes pressões sobre aves que nidificam na ilha.

Para quem visita estas colónias, a contribuição é muito mais simples: permanecer nos trilhos, manter distância das cavidades, reduzir luz e ruído, não deixar resíduos e nunca perturbar uma ave para conseguir uma fotografia.

Durante o dia, uma colónia pode parecer apenas uma encosta rochosa diante do Atlântico. Depois do pôr do sol, as vocalizações revelam aquilo que estava escondido.

É nesse momento que a cagarra abandona temporariamente o mundo para o qual está melhor adaptada e regressa ao lugar mais vulnerável — mas indispensável — do seu ciclo de vida: a terra.

Sugestões de links internos

  1. Artigo sobre focas nas Berlengas
    Âncora sugerida: “a extraordinária vida selvagem das Berlengas”

Melhor localização: na secção sobre as colónias portuguesas, quando são apresentadas as Berlengas como importante área de reprodução.

  1. Artigo sobre aves ou outros animais ativos durante a noite
    Âncora sugerida: “como os animais se adaptam à vida noturna”

Melhor localização: na secção que explica o regresso noturno às colónias.

  1. Artigo sobre fauna costeira portuguesa
    Âncora sugerida: “descobrir a fauna da costa portuguesa”

Melhor localização: na introdução ou na secção dedicada à distribuição em Portugal.

Fontes externas autoritativas recomendadas

  1. Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) — informação oficial sobre a Reserva Natural das Berlengas, Zonas de Proteção Especial, colónias reprodutoras e gestão das áreas protegidas.
  2. Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) — ecologia da cagarra, ameaças, monitorização de colónias, poluição luminosa e projetos de conservação.
  3. BirdLife International — estatuto de conservação, distribuição e ameaças às aves marinhas.
  4. Autoridades ambientais dos Açores e da Madeira — informação regional sobre colónias, áreas protegidas e campanhas de proteção das cagarras.
  5. Universidades e centros de investigação em ecologia marinha — estudos sobre migração, alimentação, reprodução, seguimento por GPS e utilização do oceano pelas cagarras.