Como a Estrela-do-Mar Come Sem Engolir a Presa

Uma estrela-do-mar pousada sobre uma rocha parece um animal simples. Não tem cabeça evidente, não possui mandíbulas e desloca-se tão lentamente que dificilmente transmite a imagem de um predador. No entanto, algumas estrelas-do-mar utilizam uma das estratégias de alimentação mais extraordinárias do oceano: colocam parte do estômago para fora do corpo e começam a digerir a presa externamente.

Este mecanismo permite-lhes alimentar-se de animais que dificilmente poderiam engolir inteiros. Quando uma estrela-do-mar predadora encontra um mexilhão ou outro bivalve adequado, pode agarrar as duas valvas com os numerosos pés ambulacrários. Depois de conseguir uma pequena abertura, o estômago cardíaco pode ser evertido através da boca e colocado em contacto com os tecidos moles da presa.

A digestão começa, portanto, antes de grande parte do alimento entrar no corpo.

Esta capacidade é apenas uma das características peculiares dos equinodermes, grupo que também inclui ouriços-do-mar, pepinos-do-mar e ofiúros. O seu plano corporal, sistema ambulacrário e simetria adulta distinguem-nos profundamente da maioria dos animais que encontramos nas poças de maré portuguesas.

Índice

  1. Uma boca sem mandíbulas
  2. Como funciona a eversão do estômago
  3. Como uma estrela-do-mar consegue comer um mexilhão
  4. Por que a digestão externa permite atacar presas grandes
  5. A anatomia invulgar das estrelas-do-mar
  6. Um plano corporal com uma história evolutiva antiga
  7. Estrelas-do-mar são realmente “fósseis vivos”
  8. O que comem as estrelas-do-mar
  9. Como funcionam os pés ambulacrários
  10. A ligação entre estrelas-do-mar e ouriços-do-mar
  11. Estrelas-do-mar na costa portuguesa
  12. Como observá-las sem causar danos
  13. FAQ
  14. Conclusão

Uma boca sem mandíbulas

Vire mentalmente uma estrela-do-mar ao contrário.

No centro da superfície inferior, conhecida como superfície oral, encontra-se a boca. A partir dela, o sistema digestivo estende-se pelo disco central e pelos braços.

Não existem dentes ou mandíbulas comparáveis aos de um peixe.

Para determinadas espécies predadoras, isso não constitui um grande problema.

A estrela-do-mar possui um estômago dividido em regiões especializadas. Uma delas é o estômago cardíaco, situado imediatamente acima da boca. Mais acima encontra-se o estômago pilórico, ligado a estruturas digestivas que se prolongam pelos braços.

A característica extraordinária está no primeiro.

O estômago cardíaco consegue sair temporariamente pela boca.

Como funciona a eversão do estômago

O processo chama-se eversão.

Imagine virar parcialmente uma bolsa flexível do avesso. A estrela-do-mar realiza algo funcionalmente semelhante com o estômago cardíaco.

Durante a alimentação, músculos e mecanismos nervosos controlam o relaxamento necessário para que essa região do estômago seja projetada através da boca. Estudos fisiológicos realizados em estrelas-do-mar mostram que neuropeptídeos participam diretamente no controlo da eversão e posterior retração do estômago.

Uma vez fora do corpo, a superfície digestiva entra em contacto com a presa.

Enzimas começam a decompor os tecidos.

Parte do alimento liquefeito ou parcialmente digerido pode então ser absorvida e encaminhada para outras regiões do aparelho digestivo. Quando a alimentação termina, o estômago é retraído para dentro do corpo.

Digestão extra-oral

Este processo é conhecido como digestão extra-oral porque uma parte importante da digestão acontece fora da cavidade corporal.

Estudos anatómicos de Asterias rubens confirmam que, durante a alimentação, o estômago cardíaco evertido permanece diretamente em contacto com os tecidos moles da presa e liberta enzimas digestivas.

Para a estrela-do-mar, isso resolve um problema fundamental.

A presa não precisa de caber inteira dentro da boca.

Como uma estrela-do-mar consegue comer um mexilhão

Um mexilhão parece uma presa particularmente difícil.

As partes moles estão protegidas por duas valvas calcárias e músculos mantêm a concha fechada.

A estrela-do-mar não precisa de partir a concha.

Em espécies especializadas neste tipo de alimentação, os pés ambulacrários agarram as valvas e exercem uma força persistente. Quando surge uma abertura suficiente, a estrela introduz parte do estômago cardíaco no espaço disponível.

Não é necessário abrir completamente o mexilhão.

O estômago alcança os tecidos protegidos no interior e inicia a digestão.

É uma estratégia muito diferente da utilizada por um predador equipado com dentes ou pinças.

A estrela-do-mar transforma o próprio sistema digestivo numa ferramenta externa de alimentação.

Por que este mecanismo permite atacar presas grandes

O tamanho da boca deixa de representar o mesmo limite quando o órgão digestivo consegue envolver ou penetrar parcialmente numa presa.

Uma estrela-do-mar pode começar a processar tecidos que seriam demasiado volumosos para serem ingeridos intactos.

Isso não significa que todas as estrelas-do-mar utilizem exatamente a mesma estratégia.

A diversidade de Asteroidea inclui diferentes métodos de alimentação. Algumas espécies conseguem ingerir determinadas presas inteiras, enquanto outras são particularmente conhecidas pela eversão do estômago.

O tipo de alimento também varia muito entre espécies.

Por isso, a imagem clássica de uma estrela-do-mar abrindo um mexilhão é um excelente exemplo da biologia do grupo, mas não representa obrigatoriamente todas as espécies existentes.

A anatomia invulgar das estrelas-do-mar

Uma estrela-do-mar típica possui um disco central do qual partem braços.

Cinco braços são comuns, mas o número não é universal.

O corpo adulto apresenta normalmente uma organização radial associada ao padrão pentâmero característico dos equinodermes. Internamente existe ainda um endoesqueleto formado por pequenas estruturas calcárias chamadas ossículos.

Os órgãos não ficam todos confinados ao centro.

Partes importantes do sistema digestivo e reprodutor estendem-se pelos braços.

Na face inferior encontram-se filas de pés ambulacrários, associados a outro sistema característico dos equinodermes: o sistema vascular aquífero.

Um animal radial que começa bilateral

Existe uma particularidade evolutiva especialmente interessante.

As estrelas-do-mar adultas apresentam organização radial, mas as larvas dos equinodermes possuem simetria bilateral. Durante o desenvolvimento ocorre uma transformação profunda até surgir a organização corporal típica do adulto.

Este detalhe ajuda a perceber que o corpo de uma estrela-do-mar não deve ser interpretado simplesmente como uma forma “primitiva”.

É o resultado de uma história evolutiva complexa.

Um plano corporal com uma história evolutiva antiga

Os equinodermes representam uma linhagem animal muito antiga.

O grupo inclui atualmente estrelas-do-mar, ouriços-do-mar, ofiúros, pepinos-do-mar e crinóides. Apesar das enormes diferenças externas, todos partilham características fundamentais, incluindo elementos do sistema vascular aquífero e uma organização corporal própria.

Essa continuidade pode criar a impressão de que estamos perante animais praticamente inalterados desde tempos remotos.

A realidade é mais interessante.

As estrelas-do-mar atuais são organismos modernos pertencentes a linhagens antigas. Continuaram a evoluir, diversificar-se e adaptar-se ao longo da história do grupo.

Estrelas-do-mar são realmente “fósseis vivos”

A expressão “fóssil vivo” é frequentemente utilizada para animais modernos que apresentam planos corporais ou características associados a linhagens muito antigas.

Pode ser uma expressão útil para despertar curiosidade, mas torna-se enganadora quando implica ausência de evolução.

Uma estrela-do-mar encontrada hoje na costa portuguesa não é simplesmente uma espécie ancestral preservada sem alterações.

O mais correto é dizer que pertence a um grupo com profundas raízes evolutivas e conserva características fundamentais do plano corporal dos equinodermes.

O padrão pentarradial dos adultos e o sistema vascular aquífero são exemplos marcantes dessa arquitetura.

Portanto, o interesse não está em afirmar que a estrela-do-mar “não mudou”.

Está em perceber como um plano corporal muito antigo continua extraordinariamente funcional nos oceanos modernos.

O que comem as estrelas-do-mar

A alimentação varia consideravelmente entre espécies.

Muitas estrelas-do-mar são predadoras ou oportunistas. Dependendo da espécie, podem consumir moluscos, crustáceos, outros equinodermes e diferentes organismos marinhos.

Os bivalves são particularmente conhecidos como presas de algumas estrelas.

Mexilhões, amêijoas e outros animais protegidos por duas valvas podem ser atacados através da combinação entre pés ambulacrários e estômago eversível.

E as cracas

Cracas e outros organismos fixos também podem integrar a alimentação de determinadas estrelas-do-mar.

Tal como acontece com os bivalves, viver preso à rocha não impede necessariamente um predador lento de chegar até à presa.

Para uma estrela-do-mar, velocidade não é a principal arma.

A capacidade de aderir, exercer força durante algum tempo e realizar digestão extra-oral permite explorar recursos inacessíveis a muitos outros animais.

A dieta depende da espécie

Não se deve assumir que qualquer estrela encontrada numa poça portuguesa está à procura de mexilhões.

Algumas espécies apresentam dietas bastante diferentes.

A estrela-vermelha Echinaster sepositus, presente em águas portuguesas, por exemplo, ocorre em fundos rochosos, arenosos e pradarias marinhas e alimenta-se de matéria orgânica.

Já a estrela-do-mar-espinhosa Marthasterias glacialis, também encontrada na costa portuguesa, alimenta-se de moluscos e outros animais marinhos.

Identificar a espécie é, portanto, essencial antes de generalizar sobre a dieta.

Como funcionam os pés ambulacrários

Olhar para a superfície inferior de uma estrela-do-mar revela numerosas pequenas estruturas tubulares organizadas ao longo dos braços.

São os pés ambulacrários, ou podia.

Eles fazem parte do sistema vascular aquífero, uma rede interna de canais preenchidos por fluido característica dos equinodermes. A movimentação dos pés envolve alterações de pressão e ação muscular.

Cada pé pode estender-se, contactar o substrato e participar na aderência.

A coordenação de muitos pés permite que o animal se desloque.

Não existem pernas articuladas como num caranguejo.

A estrela parece deslizar lentamente sobre a rocha porque numerosos pequenos pontos de contacto trabalham em conjunto.

A ligação com os ouriços-do-mar

Este sistema cria uma ligação direta com outro habitante das zonas rochosas portuguesas abordado noutros conteúdos do Tesouros do Jardim: o ouriço-do-mar.

Estrelas e ouriços pertencem ao mesmo filo, Echinodermata.

O formato externo é muito diferente, mas ambos possuem pés ambulacrários associados ao sistema vascular aquífero.

Nos ouriços, esses pés surgem entre os espinhos e participam na aderência e deslocação.

Nas estrelas, estão organizados sobretudo ao longo da face inferior dos braços.

O ouriço-roxo Paracentrotus lividus, comum em habitats rochosos do sudoeste de Portugal, utiliza mecanismos de aderência importantes para permanecer em zonas sujeitas à ação das ondas.

Observar estrelas e ouriços lado a lado permite reconhecer como o mesmo plano básico dos equinodermes pode originar corpos aparentemente muito diferentes.

Estrelas-do-mar na costa portuguesa

Portugal possui habitats adequados a várias espécies de estrelas-do-mar.

Podem ocorrer em fundos rochosos, sedimentos, pradarias marinhas e zonas submersas, dependendo da espécie.

Algumas também podem ser observadas em poças de maré ou zonas rochosas acessíveis durante marés baixas.

A estrela-do-mar-espinhosa, Marthasterias glacialis, é um exemplo associado à costa portuguesa e a diferentes tipos de fundo.

Outras apresentam ecologias bastante diferentes. Luidia ciliaris, registada em Portugal, está associada a sedimentos moles e alimenta-se de moluscos e outros equinodermes.

Esta diversidade reforça uma regra importante: “estrela-do-mar” descreve um grupo, não uma única forma de vida.

Como observar estrelas-do-mar sem causar danos

Encontrar uma estrela-do-mar durante a maré baixa oferece uma excelente oportunidade de observação.

Não é necessário retirar o animal do local.

Observe os braços, a textura da superfície e, quando naturalmente visível, o movimento dos pés ambulacrários.

Evite puxar uma estrela aderida à rocha.

Os numerosos pés podem estar firmemente ligados ao substrato, e forçar a separação pode danificar o animal.

Não retirar da água para fotografar

Uma estrela encontrada submersa deve permanecer na água.

Retirá-la apenas para obter uma fotografia mais clara cria uma perturbação completamente desnecessária.

Também não deve virar o animal repetidamente para observar a boca ou os pés.

Se a face inferior estiver naturalmente visível numa fenda ou através da água, observe-a sem manipulação.

Deixar a poça como estava

Pedras, algas, conchas e outros elementos criam micro-habitats utilizados por muitos organismos.

Evite reorganizar a poça para conseguir uma fotografia.

Se uma pedra pequena for deslocada acidentalmente, coloque-a cuidadosamente na posição original.

Uma boa observação naturalista termina com o habitat praticamente igual ao encontrado.

FAQ

A estrela-do-mar coloca realmente o estômago fora do corpo?

Sim. Em muitas estrelas-do-mar, o estômago cardíaco pode ser evertido através da boca durante a alimentação e colocado em contacto direto com a presa.

Por que faz isso?

A digestão extra-oral permite processar alimentos que seriam difíceis ou impossíveis de engolir inteiros. É especialmente útil para determinadas presas grandes ou protegidas por conchas.

Como consegue comer um mexilhão fechado?

Os pés ambulacrários agarram as valvas e exercem força. Quando aparece uma abertura suficiente, parte do estômago pode entrar e começar a digerir os tecidos moles.

Todas as estrelas-do-mar comem mexilhões?

Não. A dieta varia entre espécies. Existem estrelas predadoras de moluscos e outros animais, mas outras utilizam recursos alimentares diferentes.

As estrelas-do-mar têm sempre cinco braços?

Não. Cinco representa o padrão clássico associado à simetria pentarradial dos equinodermes, mas existem espécies com outros números de braços e também indivíduos com variações.

Uma estrela-do-mar é um fóssil vivo?

Não no sentido literal de uma espécie que permaneceu inalterada. As estrelas atuais pertencem a uma linhagem evolutiva antiga e conservam características fundamentais do plano corporal dos equinodermes, mas continuaram a evoluir.

Como uma estrela-do-mar anda?

Utiliza numerosos pés ambulacrários associados ao sistema vascular aquífero. A ação coordenada desses pequenos pés permite aderir ao substrato e deslocar-se.

Estrelas-do-mar e ouriços-do-mar são parentes?

Sim. Ambos pertencem ao filo Echinodermata e partilham características fundamentais, incluindo o sistema vascular aquífero e os pés ambulacrários.

Posso pegar numa estrela-do-mar encontrada numa poça?

A melhor prática para simples observação é deixá-la exatamente onde está. Não é necessário retirar, virar ou descolar o animal da rocha para o observar ou fotografar.

Conclusão

A estrela-do-mar demonstra que um predador não precisa de possuir mandíbulas, dentes ou grande velocidade para explorar presas bem protegidas.

Em muitas espécies, a solução está no próprio aparelho digestivo.

O estômago cardíaco consegue atravessar temporariamente a boca e entrar em contacto com a presa. No caso de determinados bivalves, os pés ambulacrários ajudam primeiro a criar uma pequena abertura entre as valvas. Depois, a digestão pode começar antes de o alimento entrar verdadeiramente no corpo.

É uma estratégia que transforma a nossa ideia convencional de “comer”.

A anatomia por detrás dela é igualmente fascinante. Estrelas-do-mar possuem um plano corporal radial adulto, um endoesqueleto de ossículos e um sistema vascular aquífero ligado aos numerosos pés ambulacrários.

Essas características unem-nas aos ouriços-do-mar e aos restantes equinodermes.

O grupo possui uma história evolutiva muito antiga, mas isso não significa que as estrelas atuais sejam animais congelados no tempo. São representantes modernos e diversificados de uma linhagem antiga.

Nas poças e zonas rochosas da costa portuguesa, observá-las sem as retirar da água permite descobrir este plano corporal em funcionamento.

Uma estrela aparentemente imóvel sobre uma pedra pode estar a deslocar centenas de pequenos pés, a explorar quimicamente o ambiente ou até a iniciar uma refeição com o estômago do lado de fora.

Sugestões de links internos

  1. Artigo sobre o ouriço-do-mar
    Âncora sugerida: como os ouriços-do-mar utilizam os pés ambulacrários
    Melhor localização: secção “A ligação com os ouriços-do-mar”. Este é o interlink mais importante porque permite explicar a característica partilhada pelos equinodermes.
  2. O Peixe de Poça de Maré Que Sobrevive Fora de Água
    Âncora sugerida: adaptações surpreendentes dos animais das poças de maré
    Melhor localização: secção sobre a fauna da costa rochosa portuguesa.
  3. A Fila Organizada Que os Paguros Fazem Para Trocar de Casa
    Âncora sugerida: comportamentos surpreendentes dos paguros nas poças de maré
    Melhor localização: secção sobre observação da vida intertidal.

Fontes externas autoritativas recomendadas

  1. Smithsonian Ocean – Echinoderms
    Tipo de fonte: informação científica sobre anatomia, evolução, simetria pentarradial, sistema vascular aquífero, pés ambulacrários e ecologia das estrelas-do-mar.
  2. Departamentos universitários de zoologia de invertebrados e biologia marinha
    Tipo de fonte: materiais académicos sobre anatomia dos equinodermes, estômago cardíaco e pilórico, sistema vascular aquífero, desenvolvimento larvar e alimentação. O OpenStax reúne uma síntese académica útil destes mecanismos.
  3. Instituições de investigação em fisiologia e neurobiologia de equinodermes
    Tipo de fonte: estudos revistos por pares sobre os mecanismos musculares e nervosos responsáveis pela eversão e retração do estômago durante a alimentação.
  4. Museus de história natural e revistas de zoologia de invertebrados
    Tipo de fonte: investigação anatómica detalhada sobre digestão extra-oral e funcionamento do aparelho digestivo das estrelas-do-mar. O Australian Museum publicou estudos específicos sobre o sistema digestivo de Asterias rubens.
  5. Centros portugueses de investigação marinha e universidades
    Tipo de fonte: informação sobre espécies de equinodermes presentes na costa portuguesa, habitats rochosos e ecologia local. Recursos ligados à Universidade de Évora e ao Parque Marinho Professor Luiz Saldanha são particularmente úteis para contextualização portuguesa.