Encontrar uma lontra na natureza exige sorte. O animal pode utilizar um rio regularmente durante semanas sem proporcionar uma única observação clara a quem passa pelas margens. Mesmo assim, deixa mensagens pelo caminho.
Entre os sinais mais característicos estão os excrementos usados como marcação, frequentemente chamados spraints na literatura científica e de conservação. Na lontra-europeia (Lutra lutra), estas marcações não são depositadas aleatoriamente. Aparecem muitas vezes em locais conspícuos e repetidamente utilizados, como pedras, margens, confluências, pontes e outros pontos associados às rotas de deslocação.
Para outra lontra, esses locais funcionam como pontos de comunicação olfativa. Para investigadores, podem funcionar como evidência de que a espécie está a utilizar determinado curso de água.
Em Portugal, este comportamento é particularmente relevante para compreender a discreta lontra-europeia. No Brasil existem outras espécies de lontras e mustelídeos aquáticos, cuja ecologia e comportamento de marcação não devem ser considerados automaticamente idênticos aos de Lutra lutra.
Índice
- Uma mensagem deixada sem encontro direto
- O que são os spraints das lontras
- Por que a localização da marcação é tão importante
- O que uma lontra pode comunicar através do cheiro
- Marcação não significa uma fronteira rígida
- Lontras e texugos usam estratégias diferentes
- Como investigadores encontram lontras sem as ver
- Por que contar spraints não significa contar lontras
- Como reconhecer sinais de presença
- Pegadas, passagens e outros indícios
- Como observar sem perturbar
- Portugal e Brasil: espécies diferentes
- Perguntas frequentes
- Conclusão
Uma mensagem deixada sem encontro direto
A lontra-europeia passa grande parte da vida associada a ambientes aquáticos, mas não está permanentemente dentro de água.
Desloca-se pelas margens, descansa em locais protegidos, atravessa por terra entre diferentes zonas e utiliza pontos específicos para deixar sinais.
É aqui que entra a marcação olfativa.
Em vez de depender exclusivamente de encontros diretos, uma lontra pode deixar informação num local que será visitado posteriormente por outro indivíduo.
É uma forma de comunicação especialmente adequada a um mamífero discreto, com atividade muitas vezes difícil de acompanhar visualmente.
O cheiro permanece depois de o animal partir.
O que são os spraints das lontras
Os spraints são excrementos de lontra utilizados também na comunicação através do odor.
Podem conter restos reconhecíveis da alimentação, como fragmentos de ossos, escamas ou estruturas de presas consumidas. Mas o seu interesse comportamental vai muito além da digestão.
A lontra deposita-os em locais que aumentam a probabilidade de serem encontrados por outros indivíduos.
Organizações de conservação utilizam precisamente esses sinais para confirmar a presença de lontras em rios e outras zonas húmidas, mesmo quando nenhum animal é observado diretamente.
Não é simplesmente “ir à casa de banho”
Se a função fosse apenas eliminar resíduos, não esperaríamos uma associação tão clara com determinados pontos conspícuos.
A repetição da marcação em certos locais mostra que existe também uma função comunicativa.
Algumas áreas podem acumular sinais de utilização ao longo do tempo, enquanto outras aparentemente semelhantes recebem pouca ou nenhuma marcação.
A paisagem importa.
Por que a localização da marcação é tão importante
Uma mensagem só é útil se tiver uma boa probabilidade de ser encontrada.
Por isso, a escolha do local é uma parte essencial da comunicação.
Na lontra-europeia, os spraints podem aparecer sobre pedras, troncos, pequenas elevações, sob pontes, junto de confluências e em outros pontos associados às deslocações do animal.
Uma pedra ligeiramente elevada junto à água pode parecer irrelevante para nós.
Para uma lontra que percorre regularmente aquele troço, pode funcionar como um ponto previsível onde verificar a presença de outros indivíduos.
Pontes e passagens naturais
Estruturas que canalizam o movimento também são interessantes.
Uma ponte pode criar uma zona relativamente protegida onde as lontras passam pela margem ou sob a estrutura. Em determinados locais, essas áreas tornam-se pontos frequentes de marcação.
Confluências também possuem importância evidente na paisagem.
São zonas onde diferentes rotas aquáticas se encontram.
Deixar uma mensagem num ponto atravessado por vários indivíduos aumenta a possibilidade de contacto indireto.
O que uma lontra pode comunicar através do cheiro
Um spraint não é apenas um sinal dizendo “uma lontra esteve aqui”.
A comunicação química dos mamíferos pode transportar informação sobre o indivíduo que produziu a marcação.
Na lontra-europeia, estudos experimentais indicam que o odor dos spraints permite discriminação entre indivíduos e pode transmitir informação social relevante.
Isso ajuda a explicar por que a marcação olfativa é tão valiosa.
Duas lontras não precisam de se encontrar cara a cara.
Uma passa primeiro, deixa uma marcação e continua.
Horas mais tarde, outra encontra o local e obtém informação através do cheiro.
Identidade e estado social
É prudente não transformar cada spraint numa mensagem que conseguimos traduzir palavra por palavra.
A comunicação química é complexa.
A investigação apoia a existência de reconhecimento e transmissão de informação através do odor, mas nem todo o conteúdo de cada marca individual é conhecido com precisão.
Informações relacionadas com identidade, sexo e condição reprodutiva são algumas das funções investigadas na comunicação olfativa das lontras.
O mais seguro é pensar no local de marcação como uma espécie de ponto de informação química.
Não como uma placa com uma única mensagem.
Marcação não significa uma fronteira rígida
A palavra “território” pode criar uma imagem demasiado simples.
Imaginamos uma linha invisível em redor de um trecho do rio, com uma lontra a impedir fisicamente qualquer outra de entrar.
A realidade é mais dinâmica.
As lontras utilizam áreas de atividade e podem sobrepor parte dos seus movimentos aos de outros indivíduos. O padrão varia com sexo, disponibilidade de recursos, habitat e estrutura social.
Portanto, um spraint não deve ser interpretado automaticamente como “proibida a entrada”.
A marcação permite comunicar presença e informação entre animais que partilham uma paisagem.
Em determinados contextos, isso pode ajudar a reduzir a necessidade de encontros diretos.
Lontras e texugos usam estratégias diferentes
Este comportamento oferece uma comparação interessante com o artigo que publicámos anteriormente sobre as latrinas dos texugos.
Ambos são mustelídeos.
Ambos utilizam fezes como parte da comunicação olfativa.
Mas a organização espacial dos sinais não é exatamente a mesma.
A latrina do texugo
O texugo-europeu pode utilizar pequenas depressões ou latrinas onde deposita fezes repetidamente. Estas estruturas podem aparecer em locais socialmente importantes, incluindo zonas relacionadas com os limites de territórios e proximidades das áreas utilizadas pelos grupos.
A acumulação cria um ponto evidente de comunicação.
O spraint da lontra
A lontra vive numa paisagem muito diferente.
O seu mundo é organizado por rios, ribeiras, margens, lagos e outras zonas húmidas.
Em vez de pensarmos principalmente numa latrina terrestre, devemos imaginar uma rede de pontos de marcação distribuídos ao longo das rotas aquáticas.
Pedras e passagens podem ser utilizadas repetidamente.
A lógica geral é semelhante: deixar informação química num local relevante.
A geometria da paisagem é que muda.
O texugo percorre uma rede terrestre.
A lontra segue sobretudo uma rede aquática e ripícola.
Como investigadores encontram lontras sem as ver
É aqui que um comportamento animal aparentemente simples se transforma numa ferramenta de conservação.
Procurar diretamente lontras pode ser difícil.
Um levantamento baseado apenas em observações visuais poderia concluir que uma área não possui lontras simplesmente porque ninguém conseguiu vê-las.
Os sinais indiretos resolvem parte deste problema.
Investigadores podem percorrer troços definidos de rios procurando spraints, pegadas e outros indícios característicos.
A presença de uma marcação identificada com confiança permite confirmar que uma lontra utilizou aquela área, mesmo que o animal nunca tenha aparecido durante o levantamento.
Levantamentos padronizados
A palavra importante é “padronizados”.
Para comparar locais ou períodos, investigadores precisam de aplicar métodos consistentes.
Não basta uma pessoa caminhar durante dez minutos num rio e outra procurar durante três horas noutro.
Extensão pesquisada, condições do local, experiência dos observadores e momento do levantamento podem influenciar aquilo que é encontrado.
Programas de monitorização utilizam protocolos precisamente para tornar as observações comparáveis.
Por que contar spraints não significa contar lontras
Este é um dos erros mais importantes a evitar.
Imagine que encontramos muitos spraints num pequeno troço.
É tentador concluir:
“Existem muitas lontras aqui.”
Essa conclusão não é necessariamente válida.
A frequência de marcação pode variar conforme época, contexto social, indivíduo, disponibilidade de locais apropriados e até condições que determinam quanto tempo os sinais permanecem visíveis.
Chuva e alterações do nível da água podem remover marcas.
Um local protegido sob uma ponte pode preservá-las durante mais tempo.
Além disso, um único indivíduo pode utilizar repetidamente o mesmo ponto.
Por isso, levantamentos de spraints são excelentes para detetar distribuição e utilização de áreas, mas a relação entre quantidade de excrementos e número real de animais é muito mais complicada. Estudos metodológicos alertam especificamente contra a utilização simples da quantidade de spraints como estimativa direta de abundância.
A genética acrescentou uma nova ferramenta
Quando investigadores precisam de ir além da simples presença, material biológico encontrado nos excrementos pode, em determinados estudos, ser analisado geneticamente.
Isso pode permitir distinguir indivíduos sem capturar ou sequer observar diretamente cada animal.
Mas é uma técnica especializada.
Para o público, encontrar um possível spraint significa apenas que existem indícios de presença.
Não permite identificar sozinho quantas lontras vivem ali.

Como reconhecer sinais de presença
O spraint é um dos sinais mais conhecidos.
Frequentemente apresenta restos das presas e pode possuir um odor característico, mas aparência e cheiro variam conforme alimentação, idade da marcação e condições ambientais.
Não recomendamos aproximar o rosto, cheirar diretamente ou tocar.
Fotografar o sinal no local é muito mais responsável.
Também é importante observar onde foi encontrado.
Um excremento colocado numa pedra conspícua junto de uma passagem de água é mais informativo do que uma fotografia isolada sem qualquer contexto.
Mesmo assim, identificação através de uma imagem pode ser difícil.
Outros mamíferos também deixam excrementos nas margens.
Pegadas, passagens e outros indícios
As pegadas podem fornecer outra pista.
A lontra possui cinco dedos, embora nem todos fiquem sempre perfeitamente impressos. Em substrato adequado podem também aparecer sinais das membranas entre os dedos.
Marcas de passagem pela vegetação, locais utilizados para entrar e sair da água e restos de alimentação podem complementar a interpretação.
Nenhum destes sinais deve ser analisado isoladamente quando existe dúvida.
Quanto mais elementos concordarem — habitat, localização, pegadas e spraints — mais segura se torna a identificação.
Para levantamentos científicos, contudo, são utilizados critérios próprios e observadores treinados.
Como observar sem perturbar
Encontrar sinais de lontra é muito mais fácil do que encontrar a própria lontra.
E pode ser igualmente interessante.
Fotografe pegadas e marcações sem as remover.
Não recolha spraints como recordação.
Não introduza objetos em possíveis abrigos.
Não utilize comida para tentar atrair uma lontra para uma câmara ou ponto de observação.
Se descobrir um local repetidamente utilizado, mantenha distância.
Uma fotografia adicional raramente justifica alterar o comportamento de um animal selvagem.
Atenção especial aos abrigos
Uma cavidade numa margem ou entre raízes não deve ser explorada para confirmar se existe uma lontra lá dentro.
Pode tratar-se de um abrigo utilizado pelo animal ou por outra espécie.
A melhor observação de fauna é aquela em que o animal não precisa de modificar o comportamento por nossa causa.
Portugal e Brasil: espécies diferentes
Em Portugal
A espécie de referência deste artigo é a lontra-europeia, Lutra lutra.
Os seus sinais podem ser encontrados associados a diferentes ambientes de água doce e zonas costeiras adequadas, e os spraints são amplamente utilizados na investigação e monitorização da espécie.
Por isso, aprender a reconhecer estes indícios ajuda a compreender uma parte da fauna portuguesa que frequentemente permanece invisível.
No Brasil
A situação precisa de ser tratada separadamente.
O Brasil possui espécies de mustelídeos aquáticos próprias da América do Sul, incluindo lontras adaptadas aos ecossistemas brasileiros.
Embora a comunicação através de odores e marcações também exista em diferentes mustelídeos, não devemos presumir que localização, frequência, estrutura social ou significado das marcações sejam exatamente iguais aos descritos para Lutra lutra.
O princípio geral continua válido: sinais indiretos podem revelar a presença de mamíferos aquáticos discretos.
As interpretações específicas devem seguir a biologia da espécie brasileira em questão.
Perguntas frequentes
O que é um spraint de lontra?
É o termo utilizado para os excrementos da lontra quando considerados também no contexto da sua função de marcação e comunicação olfativa. São frequentemente encontrados em locais conspícuos e repetidamente utilizados.
Por que as lontras deixam excrementos sobre pedras?
Locais elevados ou conspícuos junto das rotas utilizadas pelas lontras aumentam a possibilidade de a marcação ser encontrada por outros indivíduos.
A marcação serve apenas para defender território?
Não. A comunicação química pode transmitir diferentes informações sociais. Reduzir cada marcação a uma simples placa de “território ocupado” seria excessivamente simplista.
Encontrar muitos spraints significa que existem muitas lontras?
Não necessariamente. Um indivíduo pode marcar repetidamente e a frequência de marcação varia. Por isso, contagens simples não devem ser convertidas diretamente em número de animais.
É possível confirmar a presença de lontras sem as observar?
Sim. Levantamentos de sinais, especialmente spraints e pegadas, são utilizados em programas de monitorização para determinar a presença e distribuição da espécie.
Posso tocar num spraint para confirmar a identificação?
Não é necessário nem recomendável. Observe e fotografe sem manipular excrementos de animais selvagens.
As lontras utilizam sempre os mesmos locais?
Alguns pontos podem ser utilizados repetidamente, especialmente quando estão associados a rotas, passagens e características conspícuas da paisagem. Isso não significa que cada local seja utilizado continuamente.
As lontras brasileiras fazem exatamente a mesma coisa?
Não devemos assumir isso. O Brasil possui espécies diferentes, e os detalhes da marcação precisam de ser interpretados segundo a ecologia de cada uma.
Conclusão
A lontra consegue permanecer praticamente invisível e, ao mesmo tempo, deixar uma rede de informação ao longo de um rio.
Os spraints são uma parte fundamental dessa comunicação.
Em vez de depositá-los simplesmente ao acaso, a lontra-europeia tende a utilizar pontos que fazem sentido dentro das suas deslocações: pedras conspícuas, margens, passagens, confluências e outros locais onde a mensagem tem maior probabilidade de ser encontrada por outro indivíduo.
O cheiro acrescenta a informação que nós não conseguimos perceber apenas olhando.
Estudos de comunicação química mostram que as lontras conseguem obter informação social através destas marcações, incluindo a capacidade de distinguir odores associados a diferentes indivíduos.
Existe aqui uma interessante comparação com os texugos.
Como vimos no nosso artigo sobre latrinas de texugo, outro mustelídeo também utiliza excrementos como sinais olfativos. A diferença é que a lontra organiza a comunicação numa paisagem dominada pela água, enquanto o texugo o faz dentro de uma rede essencialmente terrestre.
Para investigadores, esta característica tornou-se extremamente útil.
Em vez de depender de encontros raros com lontras, é possível procurar sistematicamente os sinais que elas deixam. Um spraint corretamente identificado pode confirmar que determinado curso de água está a ser utilizado.
Mas existe um limite importante.
Encontrar dez marcas não significa encontrar dez animais.
A quantidade de spraints depende do comportamento de marcação, da estação, do indivíduo e até da capacidade de chuva e água removerem sinais antigos. Levantamentos deste tipo são particularmente valiosos para estudar presença e distribuição, mas não devem ser transformados ingenuamente numa contagem populacional.
Para quem simplesmente gosta de observar natureza, a mesma lógica oferece uma forma mais responsável de descobrir estes animais.
Não precisamos de perseguir uma lontra.
Não precisamos de entrar no seu abrigo.
Nem sequer precisamos de a ver.
Uma pegada na lama, uma passagem discreta pela margem e uma pequena marcação sobre uma pedra podem contar uma parte da história.
A lontra já partiu.
Mas a mensagem continua lá.
Sugestões de links internos
- Artigo anterior sobre as latrinas dos texugos — inserir na secção “Lontras e texugos usam estratégias diferentes”, comparando duas formas de comunicação olfativa entre mustelídeos.
- Artigo sobre como reconhecer pegadas e outros sinais de mamíferos junto à água — inserir na secção dedicada aos indícios de presença da lontra.
- Artigo sobre como criar um jardim ou terreno favorável à vida selvagem sem alimentar animais — utilizar na secção sobre observação responsável e redução da perturbação.
Tipos de fontes externas autoritativas recomendadas
- Instituições de investigação em ecologia de água doce e conservação de mamíferos aquáticos.
- Organizações reconhecidas de conservação de lontras e zonas húmidas.
- Departamentos universitários de zoologia, ecologia comportamental e ecologia de mamíferos.
- Agências ambientais responsáveis por monitorização de rios e biodiversidade.
- Estudos científicos revistos por pares sobre comunicação química, sprainting e métodos de monitorização da lontra-europeia.