Corujas caçam pelo som: como a audição permite localizar presas na escuridão

Quando a noite cobre os campos e as florestas, muitas aves deixam de estar ativas. As corujas, pelo contrário, encontram na escuridão condições favoráveis para procurar alimento. Uma das suas adaptações mais impressionantes é a capacidade de detetar pequenos animais através de sons quase impercetíveis.

Mas como é que as corujas caçam pelo som? A resposta está numa combinação extraordinária de sensibilidade auditiva, estruturas anatómicas especializadas e processamento cerebral das informações sonoras.

Algumas espécies conseguem localizar pequenos mamíferos mesmo quando estes estão parcialmente escondidos pela vegetação. Outras dependem mais da visão, especialmente quando caçam durante o dia ou ao crepúsculo.

Compreender a audição das corujas permite descobrir como estes predadores se orientam, capturam as presas e desempenham um papel importante nos ecossistemas portugueses.

Índice

  1. Como funciona a audição das corujas
  2. A importância da audição na caça noturna
  3. Os ouvidos assimétricos das corujas
  4. O disco facial e a captação dos sons
  5. Como as corujas caçam pelo som: cinco etapas
  6. Porque é que o voo das corujas é tão silencioso
  7. Audição e visão: qual é mais importante?
  8. Espécies de corujas presentes em Portugal
  9. Importância ecológica das corujas
  10. Principais ameaças e conservação
  11. Perguntas frequentes
  12. Conclusão

1. Como funciona a audição das corujas?

A audição das corujas é especialmente importante para muitas espécies que procuram alimento durante a noite. O sistema auditivo permite detetar sons produzidos por pequenos animais e determinar a sua localização.

Ao contrário dos mamíferos, as corujas não possuem pavilhões auriculares externos semelhantes aos nossos. As aberturas dos ouvidos encontram-se nas regiões laterais da cabeça, geralmente escondidas pelas penas.

As ondas sonoras chegam aos ouvidos e são transformadas em sinais nervosos, posteriormente interpretados pelo cérebro. A comparação das informações recebidas de ambos os lados permite identificar a direção de uma fonte sonora.

Em algumas espécies, a organização anatómica dos ouvidos e das penas faciais aumenta a precisão desta localização.

A capacidade auditiva não é idêntica em todas as corujas. As espécies diferem na sensibilidade aos sons, na estrutura dos ouvidos e na importância relativa da audição durante a caça.

2. A importância da audição na caça noturna

Durante a noite, a luminosidade reduzida dificulta a deteção visual de pequenos animais. A audição oferece uma fonte adicional de informação, especialmente quando as presas se movimentam entre folhas, ervas ou outros obstáculos.

Ratos, ratazanas e pequenos mamíferos podem produzir ruídos discretos ao caminhar, escavar ou procurar alimento. Algumas corujas conseguem utilizar esses sinais para orientar a procura de presas.

A coruja-das-torres (Tyto alba) é um exemplo particularmente conhecido de especialização auditiva. A sua capacidade de localizar sons foi estudada em investigações sobre perceção espacial e comportamento predatório.

Contudo, a audição não substitui necessariamente a visão. Na natureza, as corujas combinam diferentes informações sensoriais, adaptando a estratégia de caça às condições do ambiente.

3. Os ouvidos assimétricos das corujas

common barn owl ( Tyto albahead ) close up

Uma das adaptações mais fascinantes de determinadas corujas é a assimetria das aberturas auditivas.

Em algumas espécies, os ouvidos encontram-se posicionados a alturas diferentes ou apresentam orientações e estruturas envolventes distintas. Estas diferenças ajudam a interpretar a origem espacial dos sons.

Como a assimetria permite localizar uma presa

Quando um animal produz um ruído, as ondas sonoras podem chegar aos dois ouvidos em momentos ligeiramente diferentes.

O sistema nervoso compara essas pequenas diferenças temporais, que fornecem informações sobre a direção horizontal da fonte sonora.

As diferenças de intensidade também são importantes. A cabeça e as estruturas que rodeiam os ouvidos modificam a forma como o som chega a cada lado.

Nas espécies com assimetria auditiva especializada, essas diferenças contribuem particularmente para determinar a posição vertical da presa.

É importante esclarecer que nem todas as corujas possuem o mesmo grau de assimetria. Além disso, as diferenças anatómicas podem estar escondidas pelas penas e não ser visíveis na aparência exterior da cabeça.

4. O disco facial: uma estrutura natural que ajuda a captar os sons

O disco facial é uma das características mais reconhecíveis das corujas. Consiste numa organização especializada de penas em torno dos olhos e das regiões auditivas.

Estas penas contribuem para modificar e direcionar as ondas sonoras que chegam aos ouvidos. A estrutura funciona como parte de um sistema de captação acústica, embora não seja equivalente a uma antena artificial.

O disco facial da coruja-das-torres

Na coruja-das-torres (Tyto alba), o disco facial apresenta uma forma característica de coração.

A disposição das penas ajuda a encaminhar informações sonoras para as aberturas auditivas, contribuindo para a localização precisa de pequenos animais.

Noutras espécies, como a coruja-do-mato (Strix aluco), o disco facial apresenta uma configuração mais arredondada.

A forma e o desenvolvimento destas estruturas variam entre espécies, refletindo diferenças anatómicas e ecológicas.

O disco facial não deve ser confundido com os penachos de penas existentes na cabeça de algumas corujas e mochos. Esses penachos não são ouvidos externos.

5. Como as corujas caçam pelo som: cinco etapas

A localização auditiva de uma presa envolve várias fases de deteção, interpretação e resposta motora. O processo não é necessariamente idêntico em todas as espécies ou situações.

Passo 1 — Detetar pequenos ruídos

Uma coruja pode permanecer imóvel num poleiro ou deslocar-se lentamente sobre uma área de caça.

Os movimentos de um pequeno mamífero entre a vegetação produzem sons que podem revelar a sua presença.

A sensibilidade auditiva permite reconhecer determinados sinais mesmo quando a presa não está diretamente visível.

Passo 2 — Determinar a direção do som

Depois de detetar o ruído, o sistema auditivo compara as informações recebidas pelos dois ouvidos.

As diferenças no tempo de chegada, na intensidade e nas características do som ajudam o cérebro a estimar a direção da fonte sonora.

Nas espécies com adaptações auditivas mais especializadas, este processo pode permitir uma localização espacial particularmente precisa.

Passo 3 — Ajustar a posição da cabeça

As corujas movimentam e inclinam frequentemente a cabeça enquanto observam o ambiente.

Estes movimentos podem ajudar a recolher novas informações auditivas e visuais, contribuindo para melhorar a localização de objetos ou animais.

Contudo, nem todos os movimentos da cabeça estão relacionados exclusivamente com a audição. Também podem servir para melhorar a perceção visual e a orientação espacial.

Passo 4 — Aproximar-se silenciosamente

Depois de localizar uma possível presa, a coruja pode iniciar uma aproximação em voo.

As adaptações das penas ajudam a reduzir determinados ruídos aerodinâmicos, diminuindo a probabilidade de alertar o animal.

Um voo mais discreto também pode facilitar a deteção dos sons produzidos pela presa durante a aproximação.

Passo 5 — Capturar a presa

Na fase final, a coruja ajusta a trajetória e utiliza as patas e as garras para capturar o animal.

A coordenação entre perceção sensorial e movimentos corporais é fundamental para o ataque.

Dependendo da espécie, da luminosidade e do comportamento da presa, a informação visual pode continuar a desempenhar um papel importante.

6. Porque é que o voo das corujas é tão silencioso?

A barn owl flying through a field of tall grass photo – Free Owl Image on Unsplash

unsplash.com

O voo relativamente silencioso de muitas corujas resulta de adaptações especiais das penas das asas.

Em determinadas espécies, as margens anteriores de algumas penas de voo apresentam pequenas estruturas semelhantes a pentes. Estas podem influenciar a circulação do ar sobre as asas.

As margens posteriores apresentam frequentemente franjas flexíveis, enquanto as superfícies plumosas contribuem para modificar o ruído produzido pelo contacto entre o ar e as penas.

Estas características ajudam a reduzir determinados componentes do ruído aerodinâmico.

Contudo, o voo não é completamente silencioso em todas as circunstâncias. A velocidade, o tipo de movimento e as diferenças anatómicas entre espécies influenciam os sons produzidos.

A redução do ruído pode oferecer duas vantagens: tornar a aproximação menos percetível para as presas e diminuir a interferência acústica durante a própria caça.

7. Audição e visão: quais são os sentidos mais importantes?

As corujas possuem olhos adaptados à deteção de luz em ambientes pouco iluminados. Muitas espécies apresentam olhos relativamente grandes, capazes de recolher informação visual durante a noite.

A visão é importante para reconhecer obstáculos, orientar o voo e identificar possíveis presas.

A audição, por sua vez, permite detetar animais que não estão diretamente visíveis ou que se movimentam em condições de luminosidade reduzida.

Nas espécies com maior especialização auditiva, como a coruja-das-torres, a informação sonora pode desempenhar um papel determinante na localização de presas.

No entanto, seria incorreto afirmar que todas as corujas dependem exclusivamente da audição. A importância relativa de cada sentido varia conforme a espécie, o habitat e o período de atividade.

8. Espécies de corujas presentes em Portugal

Portugal alberga várias espécies de aves de rapina noturnas, com diferenças importantes nos habitats e nas estratégias de caça.

L'effraie des clochers (Tyto alba)

Coruja-das-torres (Tyto alba)

Frequenta paisagens agrícolas, campos abertos e edifícios com locais adequados para nidificar. É predominantemente noturna e caça sobretudo pequenos mamíferos, utilizando uma audição muito especializada.

Tawny owl guide: how to identify, diet and where to see - Discover Wildlife

Coruja-do-mato (Strix aluco)

Habita bosques, parques e áreas arborizadas. É principalmente noturna e alimenta-se de pequenos mamíferos, aves e outros animais, combinando audição e visão.

Little owl (Athene noctua)

Mocho-galego (Athene noctua)

Ocorre frequentemente em paisagens agrícolas abertas e zonas rurais. Pode ser observado durante o dia e ao crepúsculo, alimentando-se de insetos, pequenos vertebrados e outras presas.

Short-eared owl - Velduil - Asio flammeus :: Behance

Coruja-do-nabal (Asio flammeus)

Em Portugal, ocorre sobretudo como visitante durante a época não reprodutora. Frequenta campos abertos, zonas húmidas e pastagens, podendo caçar durante o dia e ao crepúsculo.

Estas diferenças demonstram que nem todas as corujas apresentam o mesmo comportamento noturno ou dependem dos sentidos da mesma forma.

9. A importância ecológica das corujas no controlo natural de pequenos mamíferos

As corujas ocupam posições importantes nas cadeias alimentares, alimentando-se de diferentes animais conforme a espécie e o habitat.

Muitas consomem ratos, ratazanas, musaranhos e outros pequenos mamíferos. Algumas incluem também insetos, aves, anfíbios ou répteis na alimentação.

Ao capturarem estas presas, participam na regulação natural das populações animais. Contudo, não devem ser consideradas uma solução garantida para eliminar roedores de campos agrícolas ou jardins.

A presença de corujas depende da disponibilidade de alimento, de locais adequados para repousar e nidificar e da qualidade dos habitats envolventes.

Preservar paisagens agrícolas diversificadas, com sebes, árvores antigas e zonas de vegetação natural, pode beneficiar estas aves e outras espécies da fauna portuguesa.

10. Principais ameaças às corujas em Portugal

Apesar das suas adaptações, as corujas enfrentam várias ameaças associadas à transformação das paisagens e às atividades humanas.

A perda de habitats, a remoção de árvores antigas e a simplificação das áreas agrícolas podem reduzir a disponibilidade de presas e de locais de nidificação.

As colisões rodoviárias representam outro risco, sobretudo para espécies que caçam a baixa altura sobre campos e bermas.

A utilização de rodenticidas também exige atenção. Quando uma coruja captura um roedor exposto a determinados produtos anticoagulantes, pode ocorrer intoxicação secundária.

A perturbação dos ninhos durante a reprodução pode comprometer o sucesso da nidificação, especialmente em edifícios, cavidades de árvores ou estruturas utilizadas regularmente.

Para ajudar a proteger estas aves, é importante conservar sebes e árvores antigas, manter habitats naturais e evitar a utilização indiscriminada de venenos para roedores.

A instalação de caixas-ninho pode beneficiar determinadas espécies, mas deve ser realizada em locais apropriados e com orientação técnica, sem substituir a conservação dos locais naturais de nidificação.

11. Perguntas frequentes sobre a audição das corujas

As corujas conseguem caçar completamente às escuras?

Algumas espécies, especialmente a coruja-das-torres, conseguem localizar presas através de informações auditivas mesmo na ausência de pistas visuais úteis, como demonstrado em condições experimentais.

Contudo, isso não significa que todas as corujas consigam caçar da mesma forma ou que a visão seja dispensável em qualquer situação.

Todas as corujas têm ouvidos assimétricos?

Não. O grau e o tipo de assimetria auditiva variam entre espécies. Algumas apresentam especializações particularmente desenvolvidas, enquanto outras possuem uma organização mais simétrica.

Porque é que as corujas têm a cara redonda ou em forma de coração?

A disposição das penas forma o disco facial, uma estrutura que contribui para direcionar as ondas sonoras para os ouvidos.

Na coruja-das-torres, apresenta a característica forma de coração; noutras espécies, é mais arredondado.

As corujas ouvem melhor do que os humanos?

Muitas corujas possuem uma capacidade extraordinária de detetar e localizar sons relevantes para a caça. Contudo, a comparação com os humanos depende das frequências sonoras e das tarefas auditivas consideradas.

Não é correto afirmar que todas as corujas ouvem melhor em qualquer frequência.

Porque conseguem voar tão silenciosamente?

As estruturas semelhantes a pentes, as franjas das penas e as superfícies plumosas das asas contribuem para reduzir determinados ruídos aerodinâmicos.

O efeito varia entre espécies e condições de voo, pelo que o silêncio não é absoluto.

Oxford Academic

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As corujas também caçam durante o dia?

Sim. Algumas espécies, como o mocho-galego e a coruja-do-nabal, podem procurar alimento durante o dia ou ao crepúsculo.

Outras, como a coruja-das-torres e a coruja-do-mato, apresentam atividade predominantemente noturna.

Que espécies de corujas existem em Portugal?

Entre as espécies presentes encontram-se a coruja-das-torres, a coruja-do-mato, a coruja-do-nabal, o mocho-galego, o mocho-de-orelhas, o bufo-real e o bufo-pequeno.

A distribuição e a abundância variam conforme a região, a época do ano e o habitat.

Como podemos ajudar a proteger estas aves?

A conservação de árvores antigas, sebes, campos naturais e locais de nidificação é fundamental.

Também é importante reduzir o uso de rodenticidas, evitar perturbar ninhos e comunicar situações de aves feridas às entidades competentes.

12. Conclusão

A capacidade de localizar presas através do som é uma das adaptações evolutivas mais impressionantes das corujas.

A combinação entre audição especializada, disco facial, diferenças anatómicas dos ouvidos e processamento cerebral permite a determinadas espécies interpretar informações sonoras extremamente subtis.

A visão adaptada à pouca luminosidade e o voo discreto complementam estas capacidades, tornando as corujas predadores particularmente especializados.

Compreender como as corujas caçam pelo som é também uma forma de valorizar a biodiversidade portuguesa e reconhecer a importância de conservar os habitats onde estas aves vivem e se reproduzem.