As ervilhas-de-cheiro são conhecidas pelas flores perfumadas e pela capacidade de cobrir rapidamente redes, treliças e pequenas estruturas do jardim. Em Portugal, semear ervilhas-de-cheiro no outono pode permitir que as plantas comecem a estabelecer o sistema radicular durante os meses frescos e estejam preparadas para crescer vigorosamente quando chega a primavera.
Isso não significa, porém, que a sementeira de outono seja sempre superior. Num jardim costeiro do Algarve, o inverno é muito diferente daquele encontrado numa zona elevada de Trás-os-Montes ou da Beira Interior. Geada, chuva, drenagem e temperatura local determinam se vale a pena semear no outono ou esperar pela primavera.
Índice
- O que são as ervilhas-de-cheiro
- Por que semear no outono
- O clima português
- Outono ou primavera
- Quando semear em Portugal
- Demolhar ou escarificar as sementes
- Como semear passo a passo
- Solo e drenagem
- Sol ou meia-sombra
- Instalar o suporte
- Orientar as plantas
- Proteção contra geadas
- Cultivo em vasos
- Rega
- Crescimento na primavera
- Quando aparecem as flores
- Corte das flores
- Erros mais comuns
- Segurança e consumo
- Do outono às flores
O que são as ervilhas-de-cheiro
A ervilha-de-cheiro, Lathyrus odoratus, é uma planta anual trepadeira originária da região mediterrânica. É cultivada principalmente pelas flores vistosas e intensamente perfumadas.
A planta desenvolve caules trepadores e utiliza gavinhas para se agarrar à vegetação ou a estruturas de suporte. Dependendo da cultivar, as flores podem apresentar tons brancos, rosados, vermelhos, púrpura, azulados e numerosas combinações intermédias.
Pode ser utilizada junto a vedações, em bordaduras, canteiros ornamentais e recipientes suficientemente espaçosos.
Apesar do nome, não deve ser confundida com a ervilha comestível, Pisum sativum. Lathyrus odoratus é cultivada como ornamental e as suas sementes e outras partes da planta não devem ser tratadas como ervilhas destinadas à alimentação.
Por que semear ervilhas-de-cheiro no outono
A lógica da sementeira de outono consiste em aproveitar o período fresco para começar a estabelecer as plantas antes da primavera.
A Royal Horticultural Society (RHS) recomenda a sementeira de ervilhas-de-cheiro tanto no outono como na primavera, indicando que plantas semeadas no outono podem desenvolver sistemas radiculares mais robustos e produzir flores mais cedo.
Durante períodos suficientemente amenos, as pequenas plantas continuam a desenvolver-se, embora lentamente. Quando a temperatura e a duração dos dias aumentam, na primavera, já existe uma planta estabelecida pronta para retomar um crescimento mais vigoroso.
Em condições adequadas, isto pode proporcionar estabelecimento antecipado, maior desenvolvimento radicular antes da primavera e floração mais precoce.
Há ainda uma vantagem potencial nas regiões portuguesas mais quentes: começar cedo permite aproveitar uma parte maior da primavera antes da chegada do calor intenso.
Contudo, a vantagem não é garantida. Um inverno excessivamente frio, solo encharcado, ataques a plantas jovens ou outras condições desfavoráveis podem eliminar qualquer benefício obtido pela sementeira antecipada.
O clima português permite mesmo a sementeira de outono?
Não existe um único “clima português”.
No litoral norte, as temperaturas de inverno são geralmente moderadas pela influência atlântica, mas a precipitação elevada torna a drenagem especialmente importante. Um solo constantemente saturado pode representar um problema maior do que temperaturas simplesmente frescas.
No interior norte, as geadas são muito mais relevantes. Trás-os-Montes e determinadas zonas elevadas podem apresentar condições invernais suficientemente severas para justificar proteção ou uma sementeira protegida.
No Centro existe igualmente grande diversidade. Uma localização costeira pode ter um inverno relativamente moderado enquanto localidades interiores e serranas apresentam geadas frequentes.
Lisboa e Vale do Tejo possuem numerosas áreas onde a sementeira de outono pode ser viável, desde que o terreno drene adequadamente e as condições locais não sejam particularmente expostas.
No Alentejo e Algarve, invernos geralmente mais amenos podem favorecer esta estratégia. Mesmo aí, contudo, existem microclimas, zonas interiores e locais sujeitos a episódios de geada.
Nas regiões de maior altitude, a prudência aumenta. Uma pequena estufa não aquecida, uma estrutura fria protegida ou a sementeira de primavera podem ser alternativas mais previsíveis.
O calendário deve, portanto, seguir as condições do jardim e não simplesmente a latitude do país.

Sementeira de outono ou de primavera: qual é a diferença
As duas estratégias são válidas.
| Aspeto | Sementeira de outono | Sementeira de primavera |
|---|---|---|
| Estabelecimento | Começa durante o período fresco | Começa quando as condições já estão a melhorar |
| Exposição ao frio | Maior | Geralmente menor |
| Floração | Pode começar mais cedo | Tende a começar mais tarde |
| Proteção | Pode ser necessária | Normalmente menos exigente |
| Regiões mais adequadas | Locais de inverno ameno ou cultivo protegido | Particularmente útil em locais de inverno rigoroso |
| Principal risco | Geada, excesso de água e perdas durante o inverno | Menor período de crescimento antes do calor |
A sementeira de primavera não deve ser vista como uma solução inferior. Em jardins onde o inverno torna difícil manter plantas jovens vivas e saudáveis, esperar pode ser a opção mais prática.
Quando semear em Portugal
As recomendações hortícolas britânicas da RHS situam normalmente a sementeira de outono das ervilhas-de-cheiro em outubro e novembro, com nova oportunidade entre janeiro e abril.
Estas datas são uma referência hortícola, não um calendário obrigatório para Portugal.
Em áreas portuguesas de inverno ameno, o outono pode proporcionar boas condições para a germinação e o estabelecimento inicial. Nas regiões mais frias, pode ser preferível semear em recipientes protegidos ou adiar a operação.
Mais importante do que escolher um mês específico é avaliar as condições esperadas depois da germinação.
Se o solo estiver constantemente encharcado ou houver uma sucessão previsível de geadas fortes, a simples existência de temperaturas agradáveis no dia da sementeira não significa que as plantas terão boas condições durante os meses seguintes.
[IMAGEM — Jovens ervilhas-de-cheiro provenientes de sementeira de outono junto a um suporte. Alt text: “semear ervilhas-de-cheiro no outono e conduzir plantas jovens num suporte”]
É preciso demolhar ou escarificar as sementes?
As sementes de ervilha-de-cheiro possuem um tegumento relativamente resistente. Por isso, é frequente encontrar recomendações para as deixar de molho ou fazer uma pequena incisão antes da sementeira.
Estas técnicas não são obrigatórias em todas as situações.
A RHS indica que as sementes podem simplesmente ser semeadas, embora seja possível acelerar a germinação através de uma pequena incisão no tegumento, no lado oposto ao “olho” da semente.
A pré-embebição em água também é utilizada por alguns produtores. O objetivo é facilitar a entrada de água através do tegumento.
Contudo, uma semente saudável não precisa necessariamente deste tratamento para germinar.
Se for utilizada escarificação, deve ser mínima. Cortar demasiado profundamente pode danificar o embrião e transformar uma técnica destinada a facilitar a germinação numa causa de insucesso.
Como semear ervilhas-de-cheiro passo a passo
Comece com sementes saudáveis e um substrato fértil mas bem drenado.
A RHS recomenda colocar as sementes aproximadamente 1 cm abaixo da superfície quando são semeadas em recipientes. Podem ser utilizados pequenos vasos ou recipientes mais profundos adequados ao desenvolvimento das raízes.
Cubra suavemente as sementes e regue sem saturar o substrato.
Durante a germinação, mantenha humidade suficiente para impedir que o meio seque completamente, mas evite mantê-lo constantemente encharcado.
Depois da emergência, forneça boa luminosidade e ventilação adequada. Plantas semeadas no outono em regiões frias podem precisar de permanecer num local protegido.
O suporte deve ser preparado cedo. À medida que os caules crescem, as gavinhas começam a procurar estruturas às quais se agarrar.
Solo e drenagem: essenciais durante o inverno
As ervilhas-de-cheiro apreciam um solo fértil que consiga conservar alguma humidade, mas que permita o escoamento do excesso de água.
Esta característica torna-se particularmente importante durante o inverno.
Uma precipitação frequente combinada com solo pesado pode manter as raízes em condições de saturação durante períodos prolongados. Temperatura baixa acompanhada de excesso de água é uma combinação muito diferente de um solo simplesmente fresco e bem drenado.
Matéria orgânica bem decomposta pode ser incorporada na preparação do terreno quando as características do solo o justificam.
Em terrenos argilosos ou locais onde a água permanece à superfície depois da chuva, melhorar a estrutura e a drenagem é especialmente importante antes de apostar numa sementeira de outono.
Sol ou meia-sombra
Boa luminosidade favorece o crescimento e a floração das ervilhas-de-cheiro.
A RHS recomenda normalmente posições ensolaradas, em solo fértil e bem drenado.
Contudo, recomendações desenvolvidas para o Reino Unido não devem ser transferidas mecanicamente para todas as regiões portuguesas.
Uma exposição solar que é confortável numa primavera fresca do norte da Europa pode tornar-se muito quente numa localização interior do Alentejo à medida que se aproxima o verão.
Em zonas portuguesas quentes, alguma proteção contra o calor mais intenso pode ajudar a evitar condições excessivamente stressantes no final da estação.
O objetivo continua a ser fornecer muita luz sem ignorar o microclima.
O suporte deve ser colocado cedo
As ervilhas-de-cheiro não se enrolam em torno dos suportes como algumas trepadeiras. Utilizam gavinhas que procuram elementos estreitos onde possam agarrar-se.
Redes, treliças, arames, estruturas simples de madeira e ramos finos podem funcionar bem.
Instalar o suporte enquanto as plantas ainda são pequenas tem uma vantagem prática: evita mexer intensamente no solo e nos caules quando estes já estão grandes e entrelaçados.
Também permite que as primeiras gavinhas encontrem imediatamente pontos de fixação.
[IMAGEM — Pormenor das gavinhas agarradas a uma rede. Alt text: “gavinhas de Lathyrus odoratus agarradas a um suporte para trepadeiras”]
Como orientar as plantas para o suporte
Nos primeiros estádios, alguns rebentos podem crescer na direção errada ou permanecer afastados da estrutura.
É possível aproximá-los delicadamente do suporte para que as gavinhas encontrem pontos onde se fixar.
Se for necessário utilizar um atilho temporário, este deve permanecer suficientemente solto para não comprimir o caule.
Quando as gavinhas começam a agarrar-se à estrutura, a planta realiza grande parte do trabalho sozinha.
Como proteger as plantas das geadas
A resistência ao frio das ervilhas-de-cheiro permite a sementeira de outono em muitos contextos, mas plantas jovens não devem ser consideradas invulneráveis a qualquer condição de inverno.
Em zonas portuguesas frias, os recipientes podem permanecer numa estrutura protegida, como uma estufa não aquecida ou uma estrutura fria bem ventilada.
Manta hortícola pode proporcionar proteção adicional durante episódios particularmente frios, dependendo das condições.
Outra estratégia consiste em semear em recipientes e manter as plantas protegidas durante a fase mais rigorosa do inverno, realizando a plantação definitiva quando as condições exteriores se tornam mais favoráveis.
Não existe necessidade de proporcionar a mesma proteção a uma planta num pátio protegido de Lisboa e a outra exposta numa zona serrana.
Cultivar ervilhas-de-cheiro em vasos
Um jardim não é indispensável.
As ervilhas-de-cheiro podem crescer em varandas, terraços e pátios, desde que disponham de um recipiente adequado e de uma estrutura vertical.
Como desenvolvem raízes relativamente profundas, recipientes com boa profundidade são preferíveis a vasos pequenos e rasos.
Os orifícios de drenagem são indispensáveis. O substrato deve combinar fertilidade, retenção moderada de água e drenagem.
Instale o suporte no próprio recipiente ou imediatamente atrás dele.
Quando chega a primavera e a planta desenvolve uma grande massa de folhas, um recipiente pode perder água muito mais rapidamente do que um canteiro. A rega terá de acompanhar essa mudança.
Rega: evitar tanto a seca como o excesso
Durante um outono ou inverno chuvoso, plantas cultivadas diretamente no solo podem precisar de muito pouca rega suplementar.
Em recipientes protegidos da chuva, a situação pode ser completamente diferente.
Observe o substrato em vez de seguir um calendário fixo. Deve existir humidade disponível para as raízes, mas não uma saturação permanente.
Na primavera, temperaturas mais elevadas, vento e aumento da superfície foliar fazem subir o consumo de água.
Vasos pequenos tornam esta transição particularmente evidente porque possuem uma reserva de água limitada.
Quando começam a crescer rapidamente
Durante os períodos mais frios, as ervilhas-de-cheiro semeadas no outono podem parecer quase paradas.
Isso não significa necessariamente que exista um problema.
Com o aumento das temperaturas e da duração dos dias, o crescimento tende a acelerar. Plantas que passaram o inverno a estabelecer-se podem então produzir rapidamente novos caules e folhas.
A velocidade depende da cultivar, das temperaturas, da exposição e do estado do sistema radicular.
É precisamente este estabelecimento antecipado que explica parte da vantagem potencial da sementeira de outono.
Quando aparecem as flores
A afirmação de que “semear no outono dá flores mais cedo” possui fundamento hortícola, mas necessita de contexto.
A RHS refere que as plantas semeadas no outono podem desenvolver raízes mais fortes e produzir flores mais cedo do que as semeadas posteriormente.
A palavra importante é “podem”.
Cultivar, temperatura, luminosidade, exposição, qualidade das plantas e condições de inverno influenciam o resultado.
Uma planta semeada no outono que passe meses debilitada por encharcamento ou frio intenso pode não conservar qualquer vantagem sobre uma planta saudável semeada posteriormente.
Por isso, não existe uma data de floração que possa ser prometida para todo o país.
Cortar flores pode prolongar a produção?
A ervilha-de-cheiro é cultivada frequentemente como flor de corte.
A colheita regular das flores e a remoção das flores passadas antes da maturação completa das vagens ajudam a impedir que a planta concentre rapidamente os seus recursos na produção de sementes.
A RHS recomenda a colheita regular das flores precisamente para estimular a continuação da floração.
Isto não significa que seja possível garantir mais um determinado número de semanas de flores. Temperatura e estado geral da planta continuam a ser determinantes.
À medida que o calor aumenta, sobretudo nas regiões portuguesas mais quentes, a época produtiva acaba naturalmente por perder intensidade.
Erros comuns na sementeira de outono
Semear em solo constantemente encharcado. A drenagem insuficiente torna-se particularmente problemática durante meses frios e chuvosos.
Assumir que Portugal inteiro tem inverno sem geadas. Interior e altitude podem apresentar condições muito diferentes das regiões costeiras.
Esquecer o suporte. Instalar uma estrutura depois de as plantas estarem grandes provoca perturbações desnecessárias.
Manter as plântulas permanentemente molhadas. Humidade adequada não significa saturação contínua.
Cultivar demasiadas plantas juntas. O excesso de competição reduz espaço, luz e circulação de ar.
Deixar vasos secarem quando chega o tempo quente. O consumo de água aumenta fortemente durante o crescimento vigoroso.
Confundir ervilha-de-cheiro com ervilha comestível. São plantas diferentes.
Esperar que a sementeira de outono garanta floração precoce. Trata-se de uma vantagem potencial dependente das condições.
Ervilha-de-cheiro não é ervilha para comer
Este ponto merece destaque.
A ervilha-de-cheiro ornamental é Lathyrus odoratus. A ervilha comum cultivada para alimentação é Pisum sativum.
Apesar de ambas pertencerem à família Fabaceae e produzirem vagens, não são intercambiáveis.
Fontes hortícolas, incluindo a North Carolina State University Extension, classificam Lathyrus odoratus como ornamental e alertam para a toxicidade associada à ingestão.
Por isso, sementes, vagens e outras partes das ervilhas-de-cheiro ornamentais não devem ser consumidas nem apresentadas como substitutas das ervilhas alimentares.
Esta distinção é especialmente importante em hortas onde plantas ornamentais e hortícolas crescem próximas umas das outras.
[IMAGEM — Lathyrus odoratus adulto em plena floração. Alt text: “Lathyrus odoratus cultivado a partir de ervilhas-de-cheiro semeadas no outono”]
Do outono às flores da primavera
O ciclo pode ser resumido numa sequência simples:
semente → germinação → crescimento durante o período fresco → suporte → desenvolvimento primaveril → floração.
Semear ervilhas-de-cheiro no outono pode ser uma estratégia eficaz em Portugal quando o clima local permite que as plantas atravessem o inverno sem exposição excessiva a geadas, encharcamento ou outras condições adversas.
Em zonas costeiras e de inverno ameno, a técnica pode proporcionar plantas já estabelecidas quando começa o crescimento primaveril. Em regiões interiores, serranas ou particularmente frias, proteção durante o inverno ou sementeira posterior podem oferecer resultados mais previsíveis.
Não é o outono, isoladamente, que produz plantas melhores. É a combinação entre uma sementeira antecipada e condições adequadas de drenagem, temperatura, luz e proteção que permite transformar os meses frescos numa vantagem para a floração seguinte.