Escaravelhos do esterco: os pequenos engenheiros que trabalham o solo

Numa pastagem onde bovinos, ovinos, equinos ou outros animais deixam excrementos, começa rapidamente uma atividade que passa muitas vezes despercebida. Moscas, microrganismos e numerosos invertebrados colonizam o recurso, entre eles diferentes escaravelhos especializados na utilização do esterco.

Os chamados escaravelhos do esterco ou escaravelhos coprófagos não constituem uma única espécie nem apresentam todos o mesmo comportamento. Alguns escavam galerias por baixo das dejeções, outros desenvolvem-se diretamente no esterco e algumas espécies formam porções que são transportadas antes de serem enterradas.

Esta diversidade tem consequências importantes. Ao fragmentarem, consumirem, transportarem ou enterrarem matéria orgânica, estes insetos participam na decomposição, redistribuição de nutrientes e bioturbação do solo. Estudos científicos associam ainda determinadas comunidades de escaravelhos coprófagos a alterações na estrutura do solo, destino de sementes e processamento das dejeções.

A atividade não está limitada ao outono. Diferentes espécies apresentam ciclos sazonais distintos, condicionados pelo clima, disponibilidade de alimento e características do habitat.

Índice

  1. O que são escaravelhos coprófagos
  2. Roladores, escavadores e residentes
  3. Grupos presentes na Europa e Península Ibérica
  4. Como incorporam esterco no solo
  5. Galerias e câmaras subterrâneas
  6. Ciclo de vida
  7. Efeitos no funcionamento do solo
  8. Decomposição e reciclagem de nutrientes
  9. Escaravelhos e sementes
  10. Relação com gado e pastagens
  11. Atividade sazonal
  12. Ameaças e conservação
  13. Como favorecer estes insetos
  14. Erros frequentes
  15. Perguntas frequentes

O que são escaravelhos coprófagos

O termo “escaravelho do esterco” descreve ecologicamente vários coleópteros que utilizam excrementos de vertebrados como recurso alimentar ou reprodutivo.

Muitos dos exemplos mais conhecidos pertencem aos Scarabaeoidea, mas existe diversidade taxonómica e funcional considerável dentro deste conjunto.

Os Scarabaeinae incluem numerosas espécies especializadas no consumo e manipulação de esterco. Outros escaravelhos coprófagos tradicionalmente agrupados entre os afodiíneos possuem estratégias diferentes, frequentemente desenvolvendo-se no próprio excremento.

Os Geotrupidae incluem igualmente espécies associadas a esterco e matéria orgânica, algumas das quais escavam sistemas subterrâneos.

Por isso, encontrar um escaravelho debaixo de uma dejeção não permite concluir imediatamente qual é a espécie, o que está a comer ou como se reproduz.

Nem todos os escaravelhos que vivem no solo são coprófagos. Existem milhares de espécies com dietas muito diferentes, incluindo predadores, herbívoros, decompositores de madeira e consumidores de fungos.

Roladores, escavadores e residentes

Uma classificação ecológica útil distingue três estratégias gerais.

Os telocoprídeos, frequentemente conhecidos como roladores, retiram uma porção do esterco, formam uma bola e transportam-na para longe da fonte original antes de a enterrar.

É este comportamento que tornou os escaravelhos do esterco famosos, mas não é comum a todas as espécies.

Os paracoprídeos ou escavadores trabalham de outra forma. Constroem túneis no solo, geralmente por baixo ou nas proximidades do esterco, e transportam porções do recurso para câmaras subterrâneas.

Os endocoprídeos ou residentes permanecem essencialmente dentro da própria massa de esterco, onde ocorre uma parte importante da alimentação e reprodução.

Uma revisão publicada em Biological Conservation descreve estas três grandes estratégias e salienta que as diferenças na manipulação do esterco influenciam as funções ecológicas desempenhadas por cada grupo.

Mesmo esta classificação é uma simplificação. Dentro de cada estratégia existem diferenças de comportamento, tamanho, profundidade de enterramento e investimento reprodutivo.

Geotrupidae, Onthophagus e Aphodiinae

A fauna europeia e ibérica inclui vários grupos de escaravelhos associados ao esterco.

Entre os mais conhecidos estão espécies de Onthophagus, género extremamente diverso da família Scarabaeidae. Muitas são escavadoras e transportam esterco para galerias construídas no solo.

Os Geotrupidae incluem escaravelhos robustos, frequentemente escuros ou com reflexos metálicos, entre os quais existem espécies que utilizam excrementos e escavam galerias subterrâneas.

Os Aphodiinae constituem outro componente importante das comunidades coprófagas europeias. Muitas espécies apresentam comportamento predominantemente residente, desenvolvendo-se dentro ou imediatamente abaixo das dejeções.

É necessária alguma cautela com a nomenclatura. O nome Aphodius foi historicamente utilizado de forma muito ampla. Revisões taxonómicas reorganizaram numerosos táxones anteriormente tratados dentro desse género, pelo que referências antigas a “Aphodius” podem não corresponder à classificação atualmente utilizada.

Também não existe razão para inventar nomes como “escaravelho-do-esterco-de-outono”. A presença de um indivíduo numa fotografia tirada em outubro não transforma esse nome numa designação taxonómica reconhecida.

Em Portugal existem representantes de Onthophagus, afodiíneos, geotrupídeos e outros escaravelhos coprófagos, mas a identificação de uma espécie concreta exige caracteres morfológicos apropriados e informação taxonómica atualizada.

Como os escaravelhos enterram matéria orgânica

O enterramento começa de formas diferentes consoante a estratégia da espécie.

Um escavador pode abrir uma galeria diretamente debaixo da dejeção. À medida que avança, transporta pequenas porções de esterco para o interior do sistema subterrâneo.

Um rolador separa primeiro uma quantidade de material, molda-a e transporta-a antes de procurar um local onde a possa enterrar.

Os residentes, pelo contrário, podem completar grande parte da alimentação e reprodução sem transportar esterco para uma galeria profunda.

Estas diferenças explicam por que razão não é correto representar todos os escaravelhos coprófagos empurrando uma bola.

Ao movimentarem o recurso, algumas espécies transferem matéria orgânica da superfície para diferentes profundidades do solo. Este processo modifica fisicamente a localização dos nutrientes e coloca material orgânico em contacto com microrganismos e condições ambientais diferentes das existentes à superfície.

Galerias e câmaras subterrâneas

As estruturas construídas por espécies escavadoras podem ser surpreendentemente complexas.

Depois de abrir um túnel principal, o escaravelho pode criar ramificações ou câmaras onde deposita porções de esterco destinadas à descendência.

Estas provisões fornecem alimento às larvas depois da eclosão.

Mas não existe uma arquitetura universal.

Profundidade, número de câmaras, quantidade de alimento, forma das provisões e participação de machos e fêmeas variam entre espécies.

Algumas constroem ninhos relativamente simples. Outras desenvolvem sistemas mais elaborados e podem apresentar cooperação entre os adultos durante determinadas fases da preparação do ninho.

A estrutura também pode ser influenciada pelas propriedades do solo. Um substrato seco, compacto ou pedregoso impõe condições diferentes de um solo húmido e facilmente escavável.

Do ovo ao escaravelho adulto

Os escaravelhos apresentam metamorfose completa.

O ciclo inclui:

  • ovo;
  • larva;
  • pupa;
  • adulto.

Nas espécies coprófagas, a fêmea coloca normalmente os ovos associados a uma provisão alimentar apropriada. Dependendo da estratégia, essa provisão pode estar numa câmara subterrânea ou no próprio esterco.

Depois da eclosão, a larva utiliza a matéria orgânica disponível durante o desenvolvimento.

Posteriormente ocorre a pupação, seguida pela emergência do adulto.

Não existe, porém, um calendário único para todas as espécies. Algumas completam o ciclo relativamente depressa, enquanto outras apresentam desenvolvimento mais prolongado, períodos de dormência ou ciclos sincronizados com determinadas condições ambientais.

Também por isso é incorreto falar genericamente de um “ciclo de outono” dos escaravelhos do esterco.

Como podem modificar o solo

O termo “engenheiros do ecossistema” é utilizado porque a atividade física de determinados organismos modifica o ambiente disponível para outras espécies.

Nos escaravelhos coprófagos, escavação e enterramento são particularmente importantes.

Ao criar galerias, espécies escavadoras realizam bioturbação. O solo é deslocado e aparecem canais que podem alterar localmente algumas propriedades físicas.

A literatura científica associa a atividade de escaravelhos do esterco a processos como aeração e infiltração de água, embora a magnitude destes efeitos varie conforme espécie, comunidade, solo e condições ambientais.

Não é adequado afirmar que qualquer escaravelho melhora automaticamente qualquer solo.

Uma investigação realizada num ambiente seco, por exemplo, demonstrou incorporação de azoto, amónio e fósforo no solo, mas encontrou diferenças substanciais entre as espécies estudadas.

A identidade e abundância dos escaravelhos importam.

Decomposição e reciclagem de nutrientes

Uma dejeção animal representa uma concentração localizada de matéria orgânica e nutrientes.

Sem a ação dos organismos coprófagos, o material continua a decompor-se através de processos físicos e microbiológicos. Os escaravelhos, porém, podem alterar consideravelmente esse processo.

Ao fragmentarem o esterco, alimentarem-se dele ou transportarem-no para o solo, aumentam a distribuição espacial do material.

A investigação identifica a reciclagem de nutrientes como uma das principais funções ecológicas das comunidades de escaravelhos do esterco.

A velocidade e extensão da remoção dependem da comunidade presente, quantidade e tipo de esterco, clima e características do solo.

Isto é particularmente relevante em pastagens, onde novas dejeções são adicionadas continuamente durante o período de presença dos animais.

O que acontece às sementes presentes no esterco

Animais herbívoros podem ingerir sementes enquanto se alimentam. Algumas sobrevivem à passagem pelo aparelho digestivo e acabam depositadas nas fezes.

Quando escaravelhos deslocam esse esterco, podem também movimentar as sementes.

Este processo é conhecido como dispersão secundária.

Um escaravelho que enterra uma porção de esterco pode transportar consigo sementes para baixo da superfície. Isso pode protegê-las de determinados consumidores ou criar novas condições para germinação.

Contudo, maior profundidade não significa necessariamente maior sucesso.

Uma semente pequena enterrada demasiado profundamente pode deixar de conseguir emergir. O resultado depende do tamanho e características da semente, profundidade de enterramento, espécie de escaravelho e ambiente.

A dispersão secundária de sementes é uma das funções documentadas para escaravelhos coprófagos, mas os efeitos ecológicos não são uniformes.

Escaravelhos, gado e pastagens

Em sistemas pecuários, os animais produzem continuamente recursos para comunidades coprófagas.

Escaravelhos, moscas, minhocas, ácaros e microrganismos participam no processamento das dejeções.

Quando os escaravelhos estão ativos, parte do material pode ser fragmentada ou enterrada. Isto reduz a quantidade que permanece intacta sobre a superfície e redistribui matéria orgânica.

Estas funções levaram a um interesse considerável nos escaravelhos do esterco em sistemas de pastagem.

A literatura científica associa estas comunidades à remoção das dejeções, reciclagem de nutrientes, bioturbação e interação com outros organismos associados ao esterco.

A importância económica destes processos varia entre sistemas agrícolas e não deve ser convertida em valores monetários ou aumentos de produtividade sem dados específicos para o contexto analisado.

Não existem apenas “escaravelhos de outono”

A atividade dos adultos varia ao longo do ano.

Algumas espécies são mais facilmente encontradas durante períodos frescos e húmidos. Outras apresentam maior atividade na primavera, verão ou noutras janelas sazonais.

Temperatura e precipitação influenciam o desenvolvimento e a atividade, mas não são os únicos fatores.

Humidade do solo pode condicionar a escavação. A disponibilidade de esterco determina a presença do principal recurso alimentar. Altitude, tipo de solo e estrutura da vegetação também contribuem para as diferenças entre comunidades.

Por isso, observar muitos escaravelhos numa pastagem portuguesa durante o outono não significa que exista uma categoria ecológica denominada “escaravelhos do esterco de outono”.

A espécie precisa de ser identificada antes de lhe atribuir um padrão sazonal específico.

Ameaças e conservação

Alterações das pastagens, perda de habitat e mudanças na disponibilidade de grandes herbívoros podem modificar profundamente as comunidades coprófagas.

As práticas pecuárias também influenciam o recurso do qual estes insetos dependem.

Uma questão particularmente estudada envolve resíduos de determinados medicamentos veterinários excretados nas fezes.

A ivermectina é um exemplo importante. Estudos demonstraram que resíduos fecais podem afetar organismos não alvo associados ao esterco. Uma investigação de campo encontrou alterações na riqueza, abundância e biomassa de escaravelhos, acompanhadas por mudanças no processamento das dejeções e propriedades do solo.

Uma meta-análise sobre afodiíneos encontrou igualmente efeitos negativos de resíduos de determinados endectocidas, com evidência particularmente consistente para a ivermectina nas condições analisadas.

Isto não significa que tratamentos veterinários necessários devam ser abandonados.

Medicamentos antiparasitários têm funções importantes na saúde e bem-estar dos animais. Qualquer decisão terapêutica deve ser tomada com orientação veterinária, considerando simultaneamente saúde animal, eficácia do tratamento e utilização responsável dos medicamentos.

Como favorecer estes insetos nas paisagens rurais

A conservação começa pela manutenção de habitats adequados.

Pastagens diversificadas e mosaicos rurais com diferentes estruturas vegetais podem proporcionar condições para comunidades coprófagas variadas.

A continuidade do recurso também é relevante: alterações profundas na presença de herbívoros podem modificar a disponibilidade de esterco.

Quando medicamentos veterinários são necessários, a escolha, dose e calendário pertencem ao âmbito da medicina veterinária. O objetivo ambiental não deve ser suspender tratamentos indispensáveis, mas promover utilização responsável sob orientação profissional.

A investigação europeia demonstra precisamente por que razão a avaliação ambiental de medicamentos veterinários considera os possíveis efeitos dos resíduos sobre organismos que colonizam as fezes dos animais tratados.

Conservar estes escaravelhos exige, portanto, integrar biodiversidade, gestão das pastagens e saúde animal.

Erros frequentes sobre escaravelhos do esterco

O erro mais conhecido é assumir que todos rolam bolas. Muitos não o fazem. Existem roladores, escavadores e residentes.

Também é incorreto identificar qualquer escaravelho encontrado debaixo de esterco como uma espécie coprófaga sem examinar o animal.

Outro problema consiste em utilizar nomes comuns inventados, como “escaravelho-do-esterco-de-outono”, sem correspondência taxonómica confirmada.

Onthophagus também não deve ser representado como um grupo em que todos os indivíduos possuem grandes cornos. A presença e desenvolvimento dessas estruturas dependem da espécie e do sexo e, em algumas espécies, existem diferenças marcadas entre machos relacionadas com o desenvolvimento corporal.

“Aphodius” exige igualmente cautela. Historicamente, o nome foi utilizado para um conjunto muito amplo, mas a classificação dos afodiíneos foi revista e muitas espécies são atualmente colocadas noutros géneros.

Finalmente, a atividade não ocorre exclusivamente no outono. A fenologia depende da espécie e das condições ambientais.

Perguntas frequentes

Todos os escaravelhos do esterco fazem bolas?

Não. Apenas determinados grupos apresentam o comportamento de formar e transportar bolas. Outros escavam túneis junto do esterco ou desenvolvem-se diretamente nele.

Porque enterram o esterco?

Em espécies escavadoras e roladoras, o esterco enterrado pode servir como alimento e como provisão para o desenvolvimento das larvas.

Os escaravelhos melhoram o solo?

Podem contribuir para processos como incorporação de matéria orgânica, redistribuição de nutrientes e bioturbação. Alguns estudos também encontraram efeitos sobre propriedades físicas e infiltração, mas a magnitude depende das espécies, solo e contexto.

O que comem as larvas?

Nas espécies coprófagas, as larvas desenvolvem-se utilizando provisões ou massas de esterco preparadas ou selecionadas pelos adultos, com diferenças entre grupos.

Existem escaravelhos do esterco em Portugal?

Sim. A fauna portuguesa inclui diversos grupos coprófagos, incluindo representantes de Onthophagus, Aphodiinae, Geotrupidae e outros Scarabaeoidea. A identificação deve ser feita com nomenclatura taxonómica atual.

Porque algumas espécies têm cornos?

Em determinados escaravelhos, os cornos estão relacionados com dimorfismo sexual e competição reprodutiva. Em Onthophagus, a morfologia varia entre espécies e sexos e, em algumas espécies, entre machos com diferentes trajetórias de desenvolvimento. Não é uma característica uniforme do género.

Estão ativos durante o inverno?

Algumas espécies podem apresentar atividade em períodos frios, enquanto outras não. Temperatura, humidade, altitude, precipitação e disponibilidade de alimento influenciam a fenologia.

Como podemos favorecer estes insetos nas pastagens?

A conservação de habitats de pastagem diversificados, manutenção das condições ecológicas adequadas e utilização responsável de medicamentos veterinários sob orientação profissional são medidas relevantes. Não se devem alterar tratamentos necessários para os animais sem aconselhamento veterinário.

Conclusão

Os escaravelhos do esterco são muito mais diversos do que sugere a imagem clássica de um inseto a empurrar uma bola.

Algumas espécies transportam bolas. Outras escavam diretamente debaixo das dejeções. Outras permanecem no próprio recurso. Diferentes grupos constroem ninhos distintos, apresentam ciclos sazonais diferentes e respondem de forma desigual às condições ambientais.

A sua importância ecológica resulta principalmente da forma como processam matéria orgânica.

Ao consumir, fragmentar, deslocar e enterrar esterco, estes insetos participam na decomposição, redistribuição de nutrientes e bioturbação do solo. Algumas espécies também influenciam o destino de sementes presentes nas fezes e modificam fisicamente o ambiente subterrâneo.

Nas pastagens, estas funções fazem parte de uma rede mais ampla que envolve herbívoros, plantas, solo, microrganismos e numerosos outros invertebrados.

Compreender os escaravelhos coprófagos exige, portanto, abandonar generalizações. Nem todos fazem bolas, nem todos possuem cornos, nem todos pertencem ao mesmo género e nem todos estão ativos na mesma estação.

São precisamente essas diferenças que tornam estas comunidades importantes: muitas espécies, utilizando estratégias distintas, participam conjuntamente no processamento e redistribuição da matéria orgânica nos ecossistemas.