O bando conversa enquanto voa: como as aves comunicam para permanecer juntas

Numa manhã de outono em Portugal, um pequeno bando atravessa os campos, desaparece por momentos atrás de uma sebe e volta a levantar voo. Entre o bater das asas ouvem-se pequenos “tzip”, “pi” e chilreios breves. Esta comunicação das aves em voo pode ajudar os indivíduos a manter contacto, reconhecer companheiros ou responder a mudanças enquanto se deslocam.

Dizer que “o bando conversa” é, contudo, uma metáfora. As aves não conversam como humanos: utilizam sistemas de comunicação próprios, nos quais som, visão, posição dos vizinhos e movimento podem funcionar simultaneamente.

Índice

  1. Porque as aves chamam enquanto voam
  2. Canto, chamadas e chamadas de contacto
  3. Como um bando se coordena
  4. Tentilhões e pintassilgos
  5. Estorninhos
  6. Andorinhas
  7. Migração noturna
  8. Reconhecimento vocal
  9. Grous e formações em V
  10. Como observar estas comunicações
  11. Fact-checking da imagem
  12. Exemplos portugueses
  13. FAQs

Porque as aves fazem chamadas enquanto voam

Uma chamada de contacto é uma vocalização utilizada em contextos sociais para manter ou restabelecer contacto entre indivíduos.

Dependendo da espécie, pode ajudar a indicar a posição do emissor, localizar companheiros, manter coesão durante deslocações ou permitir reconhecimento social. A literatura sobre chamadas de contacto mostra também que algumas transportam informação sobre a identidade do emissor.

Isso não significa que todo o som produzido em voo seja uma chamada de contacto. Existem chamadas de alarme, agressão, migração e outros sinais cuja função depende da espécie e do contexto.

Canto e chamada não são exatamente a mesma coisa

Tradicionalmente, “canto” designa vocalizações relativamente complexas, frequentemente associadas à reprodução e territorialidade.

“Chamada” é normalmente utilizada para vocalizações mais breves produzidas em contextos como contacto, alarme, alimentação ou deslocação.

A fronteira não é absoluta. Os repertórios de muitas espécies são demasiado complexos para caber perfeitamente numa divisão entre apenas duas categorias.

O que é uma chamada de contacto

Imagine duas aves a procurar alimento em lados diferentes de uma sebe. Deixam de se ver, mas continuam suficientemente próximas para se ouvir.

Uma vocalização breve pode permitir que uma saiba aproximadamente onde está a outra sem interromper completamente a atividade.

Durante o voo, o princípio pode ser semelhante: o som atravessa situações nas quais vegetação, escuridão, distância ou posição impedem momentaneamente o contacto visual. Em algumas espécies, chamadas de contacto apresentam ainda assinaturas acústicas que permitem discriminar determinados indivíduos ou relações sociais.

Um bando não precisa de um líder a dar ordens

Movimentos coletivos impressionantes podem surgir através de interações locais.

Cada ave observa a posição, velocidade e direção dos indivíduos próximos e ajusta o próprio movimento. A reação propaga-se, permitindo que centenas ou milhares de aves mudem de direção sem uma ave central comandar todas as outras.

As vocalizações podem acrescentar informação, mas não devem substituir o papel fundamental da visão e do movimento dos vizinhos.

Quanto da coordenação depende realmente da voz

Nos estorninhos, estudos tridimensionais demonstraram que a organização do bando pode ser explicada por interações locais com aproximadamente seis ou sete vizinhos próximos. O sistema é descrito como uma interação “topológica”: importa o número de vizinhos, não simplesmente uma distância fixa em metros.

Isso não demonstra que os estorninhos permaneçam silenciosos.

Demonstra que seria incorreto explicar uma murmuração dizendo simplesmente que “as aves dão chamadas umas às outras para indicar para onde virar”.

A coesão resulta de comportamento coletivo, informação visual e respostas locais, podendo o som desempenhar funções adicionais.

Porque comunicar pode ser útil quando todos estão em movimento

Voar em grupo envolve velocidade, mudanças repentinas de direção, obstáculos, vento e distâncias constantemente variáveis.

Um sinal acústico apresenta uma vantagem evidente: não exige que o recetor esteja diretamente voltado para quem o emite.

Em baixa luminosidade ou quando um indivíduo fica momentaneamente afastado, essa propriedade pode ser particularmente útil. A importância efetiva da vocalização, porém, varia entre espécies.

Cada espécie tem o seu próprio repertório

Não existe uma “linguagem universal das aves”.

As vocalizações diferem em frequência, duração, intensidade, ritmo e modulação. Mesmo dentro da mesma espécie, contexto, idade, sexo, população e experiência podem produzir diferenças.

Algumas vocalizações são aprendidas; outras apresentam um forte componente inato.

Tentilhões: chamadas breves durante deslocações

O tentilhão-comum, Fringilla coelebs, é uma ave muito comum em Portugal. Existem populações residentes, às quais se juntam durante o inverno aves provenientes de outras regiões europeias. Aves de Portugal

Além do conhecido canto territorial, os tentilhões possuem chamadas mais breves, incluindo vocalizações produzidas durante deslocações.

No outono e inverno podem formar grupos, por vezes juntamente com outros fringilídeos. Ouvir pequenas chamadas enquanto passam pode ser uma forma útil de detetar o bando antes de o localizar visualmente.

Pintassilgos e outros fringilídeos mantêm contacto em grupo

O pintassilgo, Carduelis carduelis, nidifica em Portugal e recebe também indivíduos invernantes provenientes de outras populações europeias. Aves de Portugal

Fora da reprodução, pintassilgos e outros fringilídeos podem deslocar-se em pequenos bandos entre áreas de alimentação.

As chamadas repetidas durante estas movimentações são uma característica familiar destes grupos. Não devemos, porém, assumir que cada emissão possui uma única função específica sem evidência comportamental.

Estorninhos: milhares de indivíduos extraordinariamente coordenados

O estorninho-malhado, Sturnus vulgaris, ocorre em Portugal e pode formar enormes concentrações, incluindo dormitórios urbanos. Lisboa é um dos locais onde são observados movimentos sincronizados de grandes bandos. Aves de Portugal

As famosas murmurações parecem quase um único organismo a mudar de forma.

Mas essa impressão não exige um comandante.

Como um estorninho acompanha os vizinhos

Investigações realizadas com reconstruções tridimensionais indicam que cada estorninho responde sobretudo a um número limitado de vizinhos — aproximadamente seis ou sete — em vez de acompanhar todos os indivíduos que se encontram dentro de determinada distância.

Pequenos ajustamentos individuais podem então propagar-se rapidamente.

A visão é uma fonte sensorial essencial neste processo. Por isso, atribuir as mudanças espetaculares de direção das murmurações a “ordens sonoras” não é sustentado pela evidência disponível.

Andorinhas também vocalizam durante o voo

A andorinha-das-chaminés, Hirundo rustica, é sobretudo estival em Portugal, normalmente presente entre fevereiro e o final de outubro. No final do verão observam-se concentrações pós-nupciais. Aves de Portugal

A espécie possui canto e diferentes chamadas sociais e de alarme. Registos acústicos confirmam várias vocalizações utilizadas durante interações sociais. All About Birds

A andorinha-dos-beirais, Delichon urbicum, também pode concentrar-se em grandes bandos antes da migração; em outubro já permanecem relativamente poucas aves em Portugal. Aves de Portugal

Andorinhas e andorinhões não são parentes próximos

A semelhança é enganadora.

Andorinhas pertencem à família Hirundinidae, dentro dos Passeriformes. Andorinhões pertencem à família Apodidae.

As suas formas aerodinâmicas refletem, em grande medida, adaptações semelhantes à vida aérea e à captura de insetos, não uma relação taxonómica particularmente próxima.

Durante a migração, permanecer em contacto pode ser especialmente importante

Muitas aves deslocam-se durante o dia; outras fazem grande parte da migração durante a noite.

Nas espécies que vocalizam em voo, chamadas podem ajudar a manter ligações sociais ou fornecer informação durante a deslocação.

Mas as funções não estão igualmente demonstradas em todas as espécies. A investigação contemporânea continua a testar precisamente por que motivo determinados migradores chamam mais do que outros.

Existem aves que chamam durante a migração noturna

As chamadas de voo noturno — nocturnal flight calls — são geralmente vocalizações muito breves emitidas por determinadas aves enquanto migram à noite.

Uma revisão recente descreve muitas destas chamadas como notas de apenas dezenas ou centenas de milissegundos. Manutenção de contacto, atração social e coordenação têm sido propostas como funções, existindo evidência para algumas relações, mas permanecem questões fundamentais por resolver. OUP Academic

Portanto, ouvir uma chamada sobre nós numa noite de migração não significa necessariamente que conhecemos a sua função comportamental exata.

Podemos ouvir migração sem ver uma única ave

Esta característica transformou a bioacústica numa ferramenta poderosa.

Microfones e gravadores autónomos podem registar chamadas durante toda a noite. Posteriormente, investigadores examinam os ficheiros e os respetivos espectrogramas.

A monitorização acústica permite identificar alguns migradores a níveis taxonómicos impossíveis para determinados métodos de radar, embora a altura de voo, vento, habitat, equipamento e comportamento vocal introduzam limitações.

O que é um espectrograma

Um espectrograma transforma som numa representação visual.

O eixo horizontal mostra o tempo; o vertical representa frequência; diferenças de intensidade visual correspondem à energia acústica.

Assim, uma chamada demasiado breve para ser analisada facilmente apenas pelo ouvido deixa uma forma mensurável que pode ser comparada com gravações conhecidas.

Mesmo assim, espécies diferentes podem possuir chamadas semelhantes e sistemas automáticos podem cometer erros.

As aves conseguem reconhecer indivíduos pela voz

Em algumas espécies, sim.

Revisões científicas demonstram reconhecimento vocal individual em várias aves, particularmente entre parceiros, parentes e progenitores e crias. PubMed Central (PMC)

Isso não significa que qualquer tentilhão num bando identifique vocalmente todos os restantes indivíduos.

É necessário distinguir reconhecimento da espécie, do grupo, do parceiro, da descendência e reconhecimento individual de múltiplos membros sociais.

Pais e juvenis podem reconhecer-se pelas chamadas

Esta capacidade torna-se particularmente útil quando muitos indivíduos visualmente semelhantes estão concentrados no mesmo local.

Em diamantes-mandarins, experiências de playback mostraram que os progenitores conseguiam utilizar características acústicas das chamadas das crias para reconhecimento.

Pinguins e várias aves coloniais fornecem outros exemplos fortes de reconhecimento vocal.

São demonstrações importantes da capacidade das aves, mas não justificam extrapolar o mecanismo para todas as espécies que formam bandos.

Um chamamento pode revelar quem está a chamar

Variações individuais podem surgir da anatomia, tamanho corporal, controlo vocal, aprendizagem e experiência.

O recetor pode aprender a associar determinadas características acústicas a um indivíduo conhecido.

Isto não significa que a ave esteja literalmente a “dizer o seu nome”. Significa que o sinal contém características suficientemente consistentes para permitir discriminação.

Algumas aves aprendem chamadas umas com as outras

A aprendizagem vocal é particularmente desenvolvida em alguns grupos, incluindo muitos passeriformes.

Noutras espécies, o repertório é muito mais condicionado biologicamente.

Consequentemente, aprendizagem, imitação e modificação social não podem ser assumidas para toda a avifauna.

Existem “dialetos” entre populações

Variações geográficas das vocalizações estão documentadas em várias espécies.

Populações diferentes podem apresentar diferenças consistentes em determinadas características do canto ou das chamadas.

“Dialeto” é uma comparação útil quando definida cuidadosamente, mas estas variações não equivalem automaticamente a línguas humanas.

O vento torna a comunicação mais difícil

Som emitido ao ar livre sofre atenuação, reflexão e interferência.

Vento, chuva, distância, vegetação e ruído urbano podem dificultar a deteção ou alterar aquilo que chega ao recetor.

Estudos de monitorização de chamadas de migração mostram precisamente que condições atmosféricas influenciam a deteção acústica. OUP Academic

Porque chamadas curtas podem funcionar bem durante o voo

Uma chamada curta pode ser emitida rapidamente e repetida durante a deslocação.

Também fornece um evento temporal relativamente preciso que outro indivíduo pode detetar enquanto continua a voar.

Mas “curta” não significa automaticamente “mais eficiente”. Frequência, intensidade, ruído ambiental e capacidade auditiva também contam.

O grupo muda de direção: houve uma ordem sonora?

Não necessariamente.

Nos estorninhos, uma ave pode responder aos movimentos dos vizinhos; estes respondem por sua vez e a alteração propaga-se pelo grupo.

Este é um exemplo de propagação de informação através de regras locais, sem necessidade de uma ordem central.

Sinais acústicos podem participar noutros aspetos da comunicação, mas uma mudança coletiva de direção não prova que alguém “mandou virar”.

Chamadas de alarme não são chamadas de contacto

Uma chamada de contacto ajuda a manter ou restabelecer ligação social.

Uma chamada de alarme surge perante uma ameaça e pode modificar imediatamente o comportamento dos recetores.

Algumas espécies possuem diferentes sinais de alarme associados a diferentes circunstâncias. Isso continua a ser diferente de afirmar que a ave descreve conscientemente o predador aos companheiros.

Viajar em grupo oferece vantagens

A vida em grupo pode aumentar a deteção de predadores e facilitar a utilização de informação produzida pelos restantes indivíduos.

Em alguns contextos pode também facilitar localização de recursos ou orientação.

Benefícios aerodinâmicos constituem um caso diferente e são particularmente relevantes para determinadas aves grandes que voam em formações organizadas.

Voar em V é diferente de um pequeno bando compacto

Grous e outras aves grandes podem utilizar formações escalonadas nas quais efeitos aerodinâmicos são relevantes.

Um bando de pintassilgos, uma concentração de andorinhas e uma murmuração de estorninhos possuem geometrias e mecanismos coletivos diferentes.

Não existe uma explicação única para todos os tipos de bando.