A tesourinha é um daqueles pequenos animais de jardim cuja aparência costuma provocar mais desconfiança do que curiosidade. O par de estruturas semelhantes a pinças na extremidade do abdómen é imediatamente reconhecível e, para muitas pessoas, suficiente para considerar este inseto uma presença indesejada.
No entanto, por detrás dessa aparência existe um comportamento pouco conhecido e particularmente interessante: as fêmeas de várias espécies de tesourinhas apresentam um verdadeiro cuidado maternal. Elas permanecem junto dos ovos, limpam-nos, reorganizam-nos e protegem-nos. Em espécies bem estudadas, como a tesourinha-europeia (Forficula auricularia), os cuidados podem continuar depois da eclosão, quando as pequenas ninfas ainda dependem parcialmente da mãe.
Esse comportamento faz das tesourinhas um excelente exemplo de como um inseto aparentemente simples pode apresentar uma vida familiar bastante mais complexa do que imaginamos.
Ao mesmo tempo, a relação das tesourinhas com o jardim não pode ser classificada simplesmente como positiva ou negativa. São omnívoras e oportunistas: podem consumir matéria orgânica em decomposição e pequenos invertebrados, incluindo algumas pragas, mas também podem alimentar-se de folhas jovens, flores, plântulas e frutos macios.
Conhecer o seu comportamento ajuda a decidir quando é melhor simplesmente deixá-las em paz e quando uma intervenção realmente se justifica.
Índice
- O que são as tesourinhas
- O surpreendente cuidado maternal
- Como a mãe cuida dos ovos
- O cuidado continua depois da eclosão
- Por que este comportamento chama a atenção entre os insetos
- O que as tesourinhas comem
- Praga ou inseto benéfico
- As tesourinhas são perigosas
- Como conviver com tesourinhas no jardim
- Quando é necessário controlar a população
- FAQ
- Conclusão
O que são as tesourinhas
As tesourinhas pertencem à ordem Dermaptera, um grupo de insetos facilmente reconhecido pelos cercos localizados na extremidade posterior do corpo. Em muitas espécies, estas estruturas têm o aspeto de pequenas pinças.
Apesar da aparência intimidante, os cercos têm diferentes funções. Podem participar na defesa contra ameaças e na manipulação de objetos e presas. Em algumas tesourinhas, também auxiliam na manipulação das asas.
Grande parte da atividade destes insetos ocorre durante a noite.
Durante o dia, procuram locais protegidos, geralmente escuros e com alguma humidade. Por isso, é comum encontrá-los debaixo de vasos, pedras, madeira, folhas acumuladas, cobertura vegetal e outros materiais presentes no jardim.
Esta preferência explica por que aparecem frequentemente em hortas, canteiros, quintais e jardins com bastante matéria orgânica.
O surpreendente cuidado maternal da tesourinha
O comportamento mais fascinante das tesourinhas começa numa fase em que raramente conseguimos observá-las: dentro do ninho.
Em espécies estudadas, a fêmea prepara uma pequena câmara protegida onde deposita os ovos. Em vez de simplesmente os abandonar e continuar o seu ciclo de vida, permanece junto da postura.
Na tesourinha-europeia, o cuidado maternal inclui vários comportamentos bem documentados.
A mãe guarda os ovos, reúne-os quando se dispersam, altera a sua posição e limpa regularmente a superfície utilizando as peças bucais. Estudos sobre Dermaptera descrevem este cuidado dos ovos e das ninfas como uma característica importante da biologia do grupo.
Limpar os ovos é uma tarefa importante
Para uma pessoa, um conjunto de ovos no solo pode parecer completamente imóvel. Para a fêmea, porém, a postura exige manutenção.
A limpeza ou grooming dos ovos ajuda a protegê-los das condições microbiológicas existentes no ambiente do ninho. A literatura científica sobre tesourinhas mostra que a manipulação e limpeza dos ovos pela mãe têm importância para o seu desenvolvimento.
Ela também pode reunir novamente ovos que ficaram separados do restante conjunto.
Esse comportamento não corresponde a uma ação ocasional. Faz parte de uma sequência organizada de cuidados parentais observada experimentalmente e descrita há décadas por investigadores que estudam Dermaptera.
A mãe também protege a postura
Além da manutenção física dos ovos, a presença da fêmea oferece proteção.
Quando o ninho é perturbado ou surge uma potencial ameaça, a mãe pode utilizar os cercos posteriores como estruturas defensivas.
Isso significa que aquelas pinças que tornam a tesourinha tão pouco popular entre algumas pessoas também podem desempenhar uma função na proteção da descendência.
O cuidado continua depois da eclosão
O comportamento maternal não termina necessariamente quando os ovos eclodem.
As tesourinhas jovens são chamadas ninfas. Parecem versões menores dos adultos, embora existam diferenças de tamanho, coloração e desenvolvimento das estruturas corporais.
Na tesourinha-europeia, a fêmea pode continuar junto das ninfas durante a primeira fase da sua vida.
Estudos e descrições entomológicas relatam proteção, contacto maternal e fornecimento de alimento. A mãe pode transportar pequenos alimentos para o ninho e, nesta espécie, também foi documentado o fornecimento de alimento através de regurgitação.
Com o desenvolvimento, as ninfas tornam-se progressivamente independentes.
Essa transição é importante. A tesourinha não forma uma sociedade permanente comparável à de uma colónia de formigas ou abelhas. Trata-se principalmente de uma associação familiar temporária entre a mãe e a descendência.
Por que este comportamento chama a atenção entre os insetos
O cuidado parental não é exclusivo das tesourinhas. Existem outros insetos que protegem ovos, ninfas ou larvas, e os insetos sociais representam alguns dos exemplos mais complexos de cooperação conhecidos no mundo animal.
O que torna as tesourinhas especialmente interessantes é a combinação de vários tipos de cuidado numa estrutura familiar relativamente simples.
Uma única mãe pode permanecer com a postura, limpar e organizar os ovos, defendê-los e continuar a interagir com a descendência depois da eclosão.
Não existe a complexa divisão de trabalho observada numa colónia de abelhas ou formigas.
É uma forma diferente de vida social.
Por isso, as tesourinhas tornaram-se organismos interessantes para investigadores que estudam a evolução do comportamento parental. Permitem analisar como a proteção da descendência pode evoluir mesmo em animais que não formam sociedades permanentes.
Estudos com Forficula auricularia também investigaram aspetos como investimento maternal, reconhecimento dos ovos e custos associados ao cuidado parental.
O que as tesourinhas comem
A resposta curta é: muitas coisas diferentes.
As tesourinhas são geralmente omnívoras e oportunistas.
Dependendo da espécie, do ambiente e da disponibilidade de alimento, podem consumir matéria vegetal viva ou em decomposição, fungos, algas e pequenos organismos.
Também podem atuar como predadores.
Entre as presas relatadas para algumas tesourinhas encontram-se afídeos, ácaros, ovos de outros insetos e pequenos artrópodes.
Essa dieta variada explica a reputação contraditória que possuem entre jardineiros.
Tesourinha: praga ou inseto benéfico
Na realidade, pode ser ambas as coisas.
O lado útil das tesourinhas
Quando se alimentam de matéria orgânica morta ou em decomposição, participam nos processos naturais que ocorrem junto ao solo.
Algumas espécies também consomem pequenos invertebrados considerados indesejáveis nas plantas.
Os afídeos, por exemplo, fazem parte da alimentação documentada da tesourinha-europeia.
Isso significa que eliminar automaticamente todas as tesourinhas encontradas num jardim pode remover também predadores oportunistas que participam na comunidade ecológica local.
Quando podem causar problemas
A situação muda quando começam a alimentar-se diretamente das plantas cultivadas.
As tesourinhas podem mastigar tecidos vegetais tenros, incluindo folhas, flores e plântulas. Também podem atacar frutos macios ou já danificados.
Plantas muito jovens são particularmente importantes de observar porque possuem menos tecido disponível para tolerar danos.
Os sinais podem incluir pequenos orifícios irregulares e margens mastigadas.
Entretanto, esse tipo de dano não deve ser automaticamente atribuído às tesourinhas.
Lesmas, lagartas e outros animais podem produzir sinais relativamente semelhantes.
Como as tesourinhas são principalmente noturnas, uma observação do jardim depois de escurecer pode ajudar a identificar o verdadeiro responsável antes de iniciar qualquer controlo.
As tesourinhas são perigosas
A aparência das pinças provoca frequentemente receio, mas as tesourinhas não representam normalmente um perigo para as pessoas.
Não são insetos que procuram seres humanos para atacar.
Quando são agarradas ou fortemente perturbadas, algumas podem utilizar os cercos defensivamente. Ainda assim, a presença de uma tesourinha debaixo de um vaso ou entre folhas não significa que exista uma ameaça.
Também é importante abandonar histórias populares relacionadas com tesourinhas entrarem deliberadamente nos ouvidos humanos. O próprio nome comum do inseto em algumas línguas ajudou a perpetuar mitos que não descrevem o seu comportamento normal.
No interior de uma casa, uma tesourinha encontrada ocasionalmente pode simplesmente ter entrado à procura de abrigo.
Nestes casos, pode ser recolhida cuidadosamente e levada para o exterior.

Como conviver com tesourinhas no jardim
A abordagem mais equilibrada começa pela observação.
Encontrar uma tesourinha não significa automaticamente que exista uma infestação ou que as plantas estejam em perigo.
Não elimine insetos apenas pela aparência
Se as plantas estão saudáveis e não existem danos significativos, geralmente não há razão para iniciar um controlo agressivo.
A tesourinha pode estar simplesmente escondida durante o dia.
Também pode estar a alimentar-se de matéria em decomposição ou de pequenos organismos presentes naquele micro-habitat.
Proteja as plantas mais vulneráveis
Plântulas recém-transplantadas e tecidos vegetais muito tenros merecem maior atenção.
Se surgirem danos, confirme primeiro o responsável.
Uma inspeção noturna com uma lanterna pode revelar tesourinhas em atividade e ajudar a distinguir os seus danos daqueles produzidos por outros animais.
Reduza abrigos excessivos quando houver problemas
As tesourinhas gostam de locais escuros, húmidos e protegidos.
Quando estão realmente a causar danos, reduzir alguns esconderijos junto das plantas vulneráveis pode ajudar.
Vasos abandonados diretamente sobre o solo, madeira em decomposição, pilhas densas de resíduos vegetais e objetos que permanecem húmidos podem oferecer abrigo durante o dia.
Isso não significa que o jardim deva ser completamente limpo de matéria orgânica. Folhas, madeira e cobertura vegetal possuem funções ecológicas importantes.
A ideia é fazer uma gestão localizada perto das culturas que estão efetivamente a sofrer danos.
Quando é necessário controlar a população
O controlo deve ser baseado no dano observado e não simplesmente na presença do inseto.
Se várias tesourinhas estiverem concentradas junto de plântulas e for possível observá-las a alimentar-se das plantas durante a noite, uma intervenção pode ser justificável.
Métodos físicos e culturais devem ser considerados primeiro.
Armadilhas simples que oferecem abrigo durante a noite podem concentrar os insetos num local onde podem ser removidos. Reduzir esconderijos excessivamente húmidos junto das plantas afetadas também pode ajudar.
Uma estratégia de manejo integrado evita tratamentos desnecessários e permite preservar outros organismos que utilizam o mesmo espaço.
Em Portugal e no Brasil, as espécies presentes e as condições ambientais não são necessariamente iguais. Portanto, uma identificação mais precisa é importante quando existe um problema persistente.
Se os danos forem graves ou a identificação for incerta, serviços de extensão rural, instituições agrícolas, universidades ou especialistas locais em entomologia podem fornecer orientação adequada à região.
FAQ
A tesourinha realmente cuida dos seus filhotes
Sim. O cuidado maternal é um comportamento documentado nas tesourinhas. Em espécies estudadas, as fêmeas protegem, limpam e organizam os ovos. Em algumas, incluindo Forficula auricularia, os cuidados continuam durante a fase inicial das ninfas.
A tesourinha alimenta as ninfas
Na tesourinha-europeia, está documentado que a mãe pode fornecer alimento à descendência, incluindo através do transporte de alimento para o ninho e da regurgitação.
As pinças da tesourinha são perigosas
Normalmente não. Os cercos podem ser utilizados defensivamente, mas as tesourinhas não procuram pessoas para atacar. A sua aparência é muito mais intimidante do que o risco que normalmente representam.
As tesourinhas comem plantas
Sim. Algumas podem consumir folhas, flores, plântulas e frutos macios. Por isso, podem tornar-se pragas em determinadas situações.
As tesourinhas também comem pragas
Sim. Algumas espécies consomem pequenos artrópodes e ovos de insetos. O consumo de afídeos pela tesourinha-europeia está bem documentado.
Encontrar tesourinhas significa que o jardim está infestado
Não. A simples presença destes insetos não demonstra a existência de um problema. Como procuram locais escuros e húmidos durante o dia, é perfeitamente possível encontrá-los debaixo de vasos, pedras e cobertura vegetal sem que estejam a causar danos importantes.
Devo eliminar todas as tesourinhas da horta
Não existe razão para eliminar automaticamente todas as tesourinhas. A decisão deve depender dos danos observados. Quando não estão a prejudicar significativamente as culturas, podem fazer parte normalmente da biodiversidade do jardim.
Existem tesourinhas em Portugal e no Brasil
Sim, existem representantes da ordem Dermaptera em ambas as regiões. No entanto, as espécies encontradas e a sua ecologia podem variar. Por isso, características específicas de Forficula auricularia não devem ser automaticamente atribuídas a todas as tesourinhas observadas no Brasil ou em Portugal.
Conclusão
A tesourinha demonstra como a aparência de um animal pode revelar muito pouco sobre a complexidade do seu comportamento.
Debaixo do solo ou num abrigo protegido, uma fêmea pode permanecer junto dos seus ovos, limpá-los, reorganizá-los e defendê-los. Depois da eclosão, em espécies estudadas como a tesourinha-europeia, o cuidado pode continuar durante a fase inicial da vida das ninfas.
No jardim, a interpretação deve ser igualmente equilibrada.
Tesourinhas podem consumir matéria orgânica e pequenos invertebrados, incluindo algumas pragas, mas também podem mastigar plantas jovens, flores e frutos. Não são, portanto, exclusivamente “boas” ou “más”.
Observar primeiro e intervir apenas quando existem danos confirmados permite uma jardinagem mais racional. Em muitos jardins, algumas tesourinhas podem coexistir perfeitamente com plantas e pessoas, enquanto desempenham o seu papel discreto no pequeno ecossistema que existe entre folhas, vasos, pedras e solo.
Sugestões de links internos
- Artigo sobre joaninhas
Âncora sugerida: “outros predadores naturais presentes no jardim”
Melhor localização: secção sobre o lado benéfico das tesourinhas. - Artigo sobre criar um cantinho desarrumado para polinizadores e biodiversidade
Âncora sugerida: “criar pequenos refúgios para a biodiversidade no jardim”
Melhor localização: secção sobre convivência equilibrada. - Artigo sobre matéria orgânica ou compostagem no jardim
Âncora sugerida: “matéria orgânica em decomposição no jardim”
Melhor localização: secção sobre a alimentação das tesourinhas.
Fontes externas autoritativas recomendadas
- Departamentos universitários de entomologia e programas de extensão agrícola, para identificação, biologia e comportamento de Dermaptera.
- Sociedades entomológicas nacionais e internacionais e respetivas publicações científicas, para estudos sobre comportamento parental dos insetos.
- University of California Integrated Pest Management e programas universitários semelhantes, para informações sobre o papel simultaneamente benéfico e prejudicial das tesourinhas em jardins.
- Departamentos universitários de horticultura e proteção de plantas, para orientações sobre identificação de danos e manejo integrado.
- Revistas científicas de entomologia e ecologia comportamental, especialmente trabalhos revistos por pares sobre Forficula auricularia e evolução do cuidado maternal.