Numa noite de final de verão em Portugal, o jardim já não soa exatamente como algumas semanas antes. O coro intenso das horas quentes começa a diminuir e, à medida que setembro avança, outros sons tornam-se mais fáceis de distinguir. Esta mudança entre cigarras e grilos no outono é real, mas não corresponde a uma passagem rígida de testemunho entre dois grupos de insetos.
Há também uma correção importante: muitas das cigarras portuguesas são sobretudo diurnas e cantam durante períodos quentes, enquanto numerosos grilos e outros ortópteros são muito mais associados ao crepúsculo e à noite. A mudança resulta da combinação entre ciclo de vida, reprodução, temperatura, espécie, região e meteorologia.
Índice
- Porque o jardim muda de som
- Diferenças entre cigarras e grilos
- Como as cigarras produzem som
- Porque desaparece o coro das cigarras
- Como cantam os grilos
- Temperatura e atividade acústica
- Espécies portuguesas
- Como identificar sons
- Luz artificial e meteorologia
- Como acompanhar a mudança
- Perguntas frequentes
Porque o jardim parece ter outro som quando chega o outono
A paisagem sonora, ou soundscape, corresponde ao conjunto de sons presentes num determinado ambiente. Num jardim pode incluir vocalizações de aves, insetos e anfíbios, mas também vento, chuva, água e sons produzidos pela atividade humana.
Esta composição não permanece constante. Algumas espécies reproduzem-se apenas numa determinada época, outras alteram a atividade com a temperatura e outras simplesmente deixam de estar presentes na fase adulta.
Entre o final do verão e o início do outono, essas mudanças podem ser particularmente evidentes nos insetos.
Cigarras e grilos não são o mesmo tipo de inseto
Apesar de ambos serem conhecidos pelos seus sons, pertencem a grupos bastante diferentes.
As cigarras pertencem à ordem Hemiptera e à superfamília Cicadoidea. Apresentam corpo relativamente robusto, asas membranosas e um ciclo juvenil em que as ninfas vivem no solo e se alimentam de fluidos das raízes.
Os grilos pertencem à ordem Orthoptera. Os verdadeiros grilos incluem sobretudo membros da família Gryllidae, embora a fauna portuguesa possua diversos outros grupos próximos. Um levantamento recente de Orthoptera de Portugal continental reuniu 119 espécies pertencentes às 11 famílias conhecidas no país.
O som da cigarra é sobretudo um som de calor
O canto das cigarras está fortemente associado à atividade dos adultos e ao período reprodutor.
Como acontece com outros insetos ectotérmicos, a temperatura ambiental influencia a atividade. Os machos utilizam sinais acústicos principalmente para comunicação reprodutiva, incluindo atração das fêmeas e, em algumas espécies, interações com outros machos.
Em Portugal, muitas espécies são características dos dias quentes de verão. Por isso, a expressão “som da noite” aplicada às cigarras deve ser entendida como uma simplificação da paisagem sonora de verão, não como indicação de que o seu canto é predominantemente noturno.
As cigarras cantam realmente durante a noite
Muitas cigarras europeias e mediterrânicas apresentam atividade acústica principalmente diurna, frequentemente associada às horas quentes.
Isso não significa que nenhuma cigarra possa produzir som perto do crepúsculo ou em condições particulares. O período diário de atividade depende da espécie e das condições ambientais.
Para as espécies portuguesas, não é adequado importar exemplos de cigarras tropicais noturnas e transformá-los numa regra. A fauna nacional inclui várias espécies com comportamentos acústicos próprios, estudados inclusive através de bioacústica. Uma revisão portuguesa reconheceu 13 espécies e documentou diferenças de emergência, habitat e comportamento acústico.

Como uma cigarra produz um som tão intenso
O mecanismo é muito diferente do utilizado pelos grilos.
Os machos das cigarras possuem estruturas especializadas chamadas tímbalos, localizadas no abdómen. Músculos especializados provocam uma deformação extremamente rápida das membranas reforçadas por nervuras; quando estas cedem e regressam à posição original, produzem sucessões rápidas de impulsos sonoros.
O corpo participa depois na modificação e amplificação do sinal. A cavidade abdominal e outras estruturas ressonantes contribuem para produzir o som característico de cada espécie.
Não é, portanto, o bater das asas nem a fricção das pernas que produz o conhecido coro das cigarras.
Porque são principalmente os machos que ouvimos
Nos Cicadidae, os sinais acústicos mais conhecidos são produzidos pelos machos.
A função central é reprodutiva: o canto permite anunciar a presença do macho e facilitar o encontro com fêmeas da mesma espécie. Os sinais também podem transmitir informação importante para o reconhecimento específico.
Num estudo de nove cigarras portuguesas foram encontradas diferenças claras entre os seus sinais, incluindo um sinal de interação macho-macho em Cicada barbara lusitanica.
Assim, “canto de acasalamento” descreve uma função fundamental, mas não todas as possíveis funções acústicas em todas as espécies.
Porque as cigarras começam a desaparecer do coro
O silêncio progressivo não acontece porque os insetos reconhecem que “chegou o outono”.
Muitos adultos aproximam-se simplesmente do fim do ciclo reprodutor. Ao mesmo tempo, temperaturas mais baixas reduzem as horas em que as condições permitem elevada atividade.
As espécies também não desaparecem simultaneamente. O cegarregão, Lyristes plebejus, por exemplo, é descrito pela Universidade de Évora como ativo aproximadamente desde o final de junho até ao final de agosto.
Cicada orni apresenta outro calendário: os adultos podem emergir em junho ou meados de julho, conforme a região portuguesa, e a atividade pode prolongar-se até aos primeiros dias de outubro.
Isto demonstra por que uma linha única num gráfico nunca consegue representar todas as cigarras portuguesas.
O que acontece às cigarras quando o verão termina
O ciclo pode ser resumido como:
ovo → ninfa → vida subterrânea → emergência → adulto → reprodução.
Depois da eclosão, a ninfa entra no solo e alimenta-se através das raízes das plantas. Grande parte da vida de muitas cigarras decorre nesta fase escondida.
Quando completa o desenvolvimento, emerge, realiza a última muda e entra na fase adulta. Os adultos reproduzem-se e a geração seguinte regressa ao solo.
Os famosos ciclos sincronizados de 13 ou 17 anos pertencem a cigarras periódicas norte-americanas e não devem ser utilizados para explicar automaticamente as espécies portuguesas.
Quanto tempo vive uma cigarra adulta
Não existe um número universal aplicável a todas as cigarras.
A fase adulta é geralmente muito mais curta do que a fase juvenil subterrânea, mas a duração depende da espécie e das condições ambientais.
Por isso, afirmações como “uma cigarra adulta vive sempre quatro a seis semanas” simplificam excessivamente uma fauna que contém milhares de espécies.
Mesmo dentro da fauna portuguesa existem diferenças substanciais na época de emergência e no período em que os adultos permanecem ativos.
O grilo produz som de uma maneira completamente diferente
O som dos grilos chama-se estridulação.
Nos machos de muitos grilos, estruturas especializadas das asas anteriores funcionam em conjunto quando uma asa passa sobre a outra. Uma estrutura denticulada e outra que atua como raspador geram uma sequência de vibrações.
Por isso, a explicação popular de que o grilo “canta esfregando as pernas” está errada para os grilos verdadeiros.
As pernas posteriores são particularmente importantes para o salto. A produção do canto está associada principalmente às asas anteriores especializadas.
Porque ouvimos tantos grilos à noite
Muitos grilos apresentam forte atividade crepuscular ou noturna.
Durante essas horas, machos podem vocalizar repetidamente para atrair fêmeas. Temperatura e humidade influenciam a atividade, mas o padrão concreto depende da espécie.
A noite também altera todo o contexto ecológico: muda a comunidade de predadores, as condições térmicas e a competição acústica.
Isto não significa que todos os Gryllidae sejam exclusivamente noturnos. Existem diferenças importantes entre espécies.
Porque alguns grilos continuam ativos depois das cigarras
Cigarras e grilos possuem ciclos de vida diferentes e não atingem simultaneamente o final da fase adulta.
Determinados ortópteros permanecem adultos e acusticamente ativos durante o final do verão e início do outono. Quando as noites continuam suficientemente amenas, os machos podem continuar a estridular.
Mas “os grilos cantam até outubro” não é uma regra biológica. Espécie, altitude, latitude, exposição e meteorologia alteram profundamente o calendário.
Uma sequência precoce de noites frias pode reduzir rapidamente a atividade num local onde, no ano anterior, ainda se ouviam ortópteros semanas mais tarde.
Setembro e outubro não funcionam como uma fronteira
O gráfico apresentado na imagem deve ser interpretado como esquema conceptual.
Não existe um momento universal em que uma curva de “atividade das cigarras” cruza matematicamente uma curva de “atividade dos grilos”. Cada linha reuniria muitas espécies diferentes e condições ambientais diferentes.
Uma onda de calor tardia pode prolongar a atividade de determinadas cigarras. Cicada orni, por exemplo, pode permanecer ativa em Portugal até ao início de outubro.
O inverso também é possível: frio precoce, vento ou chuva podem transformar rapidamente a paisagem acústica.
Norte e Sul de Portugal não ouvem o mesmo outono
A latitude é apenas uma das diferenças.
Altitude, proximidade do oceano, exposição, relevo e microclima alteram as temperaturas experimentadas pelos insetos. Uma encosta soalheira no Algarve pode manter condições de atividade quando uma zona elevada da Serra da Estrela já apresenta noites muito mais frias.
O interior possui também amplitudes térmicas diferentes das áreas costeiras.
Por isso, não existe uma “data portuguesa” para o fim das cigarras ou dos grilos. Até dois jardins da mesma região podem apresentar calendários diferentes.
A temperatura controla a velocidade do canto dos grilos
A temperatura corporal de um inseto influencia o funcionamento muscular e o metabolismo.
Em algumas espécies de grilos existe uma relação bastante regular entre temperatura e velocidade da estridulação: dentro de determinados limites, temperaturas mais elevadas estão associadas a chamadas mais rápidas.
Esta relação tornou-se popular através da chamada lei de Dolbear, publicada pelo físico Amos Dolbear em 1897.
Há, contudo, uma limitação essencial: Dolbear não identificou claramente a espécie utilizada. A regra ficou posteriormente associada ao grilo Oecanthus fultoni, uma espécie norte-americana.
É possível calcular a temperatura pelo canto de um grilo
Em determinadas espécies, é possível obter uma estimativa aproximada se conhecermos previamente a relação entre taxa de canto e temperatura.
Isso exige identificar corretamente a espécie, contar a unidade acústica adequada e utilizar uma relação calibrada para esse animal.
Não é cientificamente seguro ouvir um grilo desconhecido em Portugal e aplicar automaticamente uma fórmula desenvolvida na América do Norte.
Mesmo em grilos de campo, fatores como idade e estado reprodutor podem alterar a taxa de canto.
A ideia de um “termómetro natural” é interessante, mas funciona muito melhor como demonstração de fisiologia do que como termómetro universal.
Cada espécie possui a sua própria assinatura sonora
Ritmo, duração, frequência e padrão de repetição podem diferir entre espécies.
Estas diferenças ajudam os próprios animais a reconhecer potenciais parceiros e permitem também aos investigadores estudar espécies difíceis de localizar visualmente.
Nas cigarras portuguesas, a bioacústica foi fundamental para estudar diversidade e taxonomia. Um trabalho clássico analisou detalhadamente os sinais de nove espécies existentes em Portugal.
Outro estudo demonstrou que Cicada orni, Cicadatra atra e Lyristes plebejus, mesmo partilhando habitat, utilizam características espectrais distintas.
Podemos identificar uma cigarra apenas pelo som
Em alguns casos, sim.
Espécies com sinais bem conhecidos podem ser identificadas por gravações de boa qualidade quando existe conhecimento da fauna regional.
Mas uma gravação distante, com vento e várias espécies simultaneamente, pode dificultar bastante a análise.
A localização, habitat, época, hora e características acústicas devem ser consideradas em conjunto. É precisamente essa combinação que torna a bioacústica tão útil para estudar cigarras difíceis de observar.
Podemos identificar um grilo apenas pelo canto
Também é possível para determinadas espécies.
Alguns grilos apresentam padrões muito característicos, mas a identificação exige comparação com gravações devidamente determinadas e conhecimento da distribuição.
Isto é especialmente importante porque Portugal possui uma diversidade considerável de Orthoptera. O conjunto recente de códigos de barras genéticos para o país incluiu 119 espécies, sendo cerca de 10% das espécies amostradas pertencentes à família Gryllidae.
Não é necessário capturar o animal apenas para tentar descobrir o que está a cantar no jardim.
Espécies de cigarras que podemos ouvir em Portugal
A fauna portuguesa é mais diversa do que o conhecido termo genérico “cigarra” sugere. Uma revisão taxonómica e bioacústica documentou 13 espécies no país.
| Espécie | Nome usado | Habitat geral | Atividade aproximada | Som |
|---|---|---|---|---|
| Cicada orni | cigarra-comum / cegarrega | árvores, jardins, olivais, zonas arborizadas | verão, podendo chegar ao início de outubro | canto intenso e repetitivo |
| Lyristes plebejus | cegarregão | bosques abertos, pinhais, olivais | sobretudo final de junho–agosto | sinal muito intenso e modulado |
| Cicada barbara lusitanica | sem forçar nome vernacular adicional | ambientes mediterrânicos arborizados | época quente | sinal próprio, distinguível bioacusticamente |
| Tympanistalna gastrica | sem nome comum estabelecido aqui | sobretudo centro e sul português | variável conforme população | assinatura acústica específica |
Cicada orni é uma das espécies mais familiares e ocorre inclusive em ambientes urbanos.
Lyristes plebejus é a maior cigarra europeia e os machos utilizam sinais acústicos intensos durante a reprodução.
Grilos que podemos ouvir em Portugal
Portugal continental possui várias espécies de Gryllidae confirmadas por dados morfológicos e moleculares.
| Espécie | Nome | Habitat geral | Período | Som |
|---|---|---|---|---|
| Gryllus campestris | grilo-do-campo | prados e terrenos abertos | adultos sobretudo primavera/início do verão | frases repetidas e fortes |
| Eumodicogryllus bordigalensis | grilo-pálido / grilo-de-bordéus | ambientes abertos, margens e terrenos mediterrânicos | variável regionalmente | estridulação repetitiva |
| Gryllomorpha longicauda | — | locais abrigados e micro-habitats mediterrânicos | variável | sinal discreto conforme contexto |
Naturdata confirma Gryllus campestris como grilo-do-campo presente em Portugal e Eumodicogryllus bordigalensis como grilo-pálido ou grilo-de-bordéus.
Um estudo faunístico português encontrou adultos de G. campestris entre abril e julho e ninfas até novembro, um bom exemplo de como “há grilos no outono” não significa necessariamente que os adultos de todas as espécies estejam então a cantar.
Grilos, esperanças e gafanhotos: quem está realmente a cantar
Nem todo o som de ortóptero ouvido à noite vem de um verdadeiro grilo.
Gryllidae inclui os grilos propriamente ditos. Tettigoniidae inclui as chamadas esperanças e outros ortópteros de antenas longas, muitos deles excelentes cantores noturnos.
Acrididae reúne grande parte dos gafanhotos de antenas mais curtas. Várias espécies também produzem sons, embora os mecanismos e períodos de atividade possam diferir.
Até os grilos-toupeira pertencem a outra família, Gryllotalpidae. Assim, chamar “grilo” a qualquer som repetitivo vindo da vegetação noturna pode esconder uma diversidade considerável.
Porque o som parece mais forte numa noite quente
Uma noite quente pode permitir atividade de mais indivíduos ou aumentar a taxa de canto de determinadas espécies.
Isso pode produzir um coro subjetivamente muito mais intenso.
As condições atmosféricas também influenciam a propagação acústica, mas seria incorreto resumir o fenómeno dizendo que “o ar quente amplifica o som”.
É necessário separar duas coisas: o efeito da temperatura sobre o comportamento do inseto e o efeito das condições atmosféricas sobre a propagação física do som.
Humidade, vento e chuva também mudam o coro
Vento forte pode reduzir a atividade de determinados insetos e, simultaneamente, produzir ruído que dificulta a nossa capacidade de ouvir sinais fracos.
Chuva também pode interromper ou alterar a atividade e mascarar sons.
Humidade e temperatura interagem com a fisiologia dos animais, mas cada espécie responde de maneira própria.
Por isso, comparar duas noites apenas pela data pode ser enganador.
O silêncio também contém informação ecológica
O desaparecimento de um canto pode ser perfeitamente normal.
Se os adultos de uma espécie completaram a reprodução, o silêncio faz parte do seu ciclo anual e não demonstra que a população desapareceu.
Ao mesmo tempo, alterações de longo prazo na abundância e distribuição de insetos podem ter significado ecológico importante.
Uma única noite silenciosa, porém, não constitui evidência suficiente de declínio populacional.
Luz artificial pode alterar a noite dos insetos
A iluminação artificial noturna pode modificar a atividade, orientação e comportamento de diferentes grupos de insetos.
Os efeitos não são idênticos em todas as espécies, mas reduzir iluminação desnecessária é uma medida simples para preservar condições noturnas mais naturais.
Luzes exteriores podem ser desligadas quando não são necessárias, direcionadas para baixo e utilizadas apenas durante o período necessário.
Também é preferível evitar iluminar continuamente sebes, árvores e outras zonas de vegetação.
Isso não significa que a iluminação artificial seja responsável pela transição sazonal entre cigarras e grilos. São fenómenos diferentes.
Como ouvir a mudança sem perturbar os animais
Uma observação simples pode ser repetida semanalmente:
- Escolha sempre o mesmo local.
- Ouça durante um período semelhante.
- Registe a data e a hora.
- Anote aproximadamente a temperatura.
- Registe vento, chuva e condições gerais.
- Faça pequenos excertos de áudio quando necessário.
- Compare os resultados durante várias semanas.
Não é necessário capturar os insetos.
O objetivo é perceber como a paisagem sonora muda e aprender gradualmente a separar os diferentes sinais.
Um diário sonoro de setembro a outubro
Uma tabela simples é suficiente:
| Data | Hora | Temperatura | Meteorologia | Som dominante | Espécie provável | Observações |
|—|—|—|—|—|—|
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Ao fim de algumas semanas podem surgir padrões: determinado som deixa de aparecer, outro continua apenas nas noites mais quentes ou uma espécie parece estar associada a um ponto específico do jardim.
É observação naturalista, não uma experiência científica controlada.
O que a imagem acerta e o que simplifica
“O som da noite muda de protagonista” transmite bem a ideia de uma paisagem acústica sazonalmente variável, mas mistura períodos diários diferentes. Muitas cigarras portuguesas são sobretudo associadas aos dias quentes, enquanto muitos grilos e outros ortópteros são muito mais evidentes à noite.
“Cigarra — atividade a desaparecer” é uma tendência plausível no final do verão. No entanto, espécies diferentes desaparecem do coro em momentos diferentes; Cicada orni pode permanecer ativa até aos primeiros dias de outubro.
“Grilo — continua ativo até mais tarde” pode ser verdadeiro para determinadas espécies e anos, mas não é universal.
A indicação “setembro → outubro” deve ser lida apenas como transição aproximada.
Sobretudo, o gráfico de atividade sonora não representa medições. As duas curvas são uma representação conceptual da ideia apresentada na imagem, exatamente como estabelece o briefing.
O calendário natural está escrito na temperatura, não no calendário
Um inseto não reconhece que começou setembro ou outubro.
A sua atividade resulta de sinais ambientais e fisiológicos: temperatura, fotoperíodo, humidade, disponibilidade de alimento, estado de desenvolvimento e ciclo reprodutor.
Essas variáveis explicam por que a mesma noite de calendário pode soar de maneira diferente em dois anos consecutivos.
Explicam também por que o Algarve, o Alentejo, uma serra do Norte e uma zona costeira não apresentam necessariamente a mesma transição ao mesmo tempo.
FAQs
Porque as cigarras deixam de cantar no outono?
Porque a época adulta e reprodutora de muitas espécies termina e as condições térmicas tornam-se progressivamente menos favoráveis. Não existe uma data comum a todas as espécies.
As cigarras cantam durante a noite?
Muitas espécies mediterrânicas são predominantemente diurnas. Atividade crepuscular pode ocorrer conforme espécie e condições, mas não devemos tratar as cigarras portuguesas como um grupo essencialmente noturno.
Porque os grilos cantam à noite?
Muitas espécies concentram atividade acústica no crepúsculo e noite como parte do seu comportamento reprodutor, influenciado também por temperatura e condições ambientais.
Os grilos continuam ativos em outubro?
Algumas espécies e outros ortópteros podem continuar ativos durante noites amenas, mas não todos os grilos nem em todas as regiões.
Como os grilos produzem som?
Nos verdadeiros grilos, os machos utilizam estruturas especializadas das asas anteriores, que friccionam entre si durante a estridulação.
Como as cigarras produzem som?
Através dos tímbalos, membranas especializadas deformadas rapidamente por músculos no abdómen. O corpo contribui para modificar e amplificar o sinal.
São as pernas que fazem o som do grilo?
Não nos grilos verdadeiros. O canto típico é produzido pelas asas anteriores.
É possível saber a temperatura pelo canto dos grilos?
Em espécies específicas existe correlação entre taxa de canto e temperatura, mas é necessário identificar a espécie e utilizar uma relação apropriada. A lei de Dolbear não é um termómetro universal para os grilos portugueses.
Que cigarras existem em Portugal?
A revisão clássica da fauna portuguesa registou 13 espécies, incluindo Cicada orni, Cicada barbara lusitanica, Lyristes plebejus e Tympanistalna gastrica, entre outras.
Que grilos existem em Portugal?
Entre os Gryllidae confirmados encontram-se Gryllus campestris, Eumodicogryllus bordigalensis e várias outras espécies. A fauna de Orthoptera portuguesa é muito mais diversa do que apenas estes exemplos.
Porque numa noite ouço muitos grilos e noutra quase nenhum?
Temperatura, vento, chuva, humidade, fase reprodutora e número de indivíduos ativos podem mudar substancialmente entre noites.
Os insetos continuam ativos durante o inverno?
Algumas espécies ou fases de desenvolvimento permanecem ativas em condições adequadas, enquanto outras passam o inverno como ovos, ninfas, larvas ou adultos pouco ativos. Não existe uma única estratégia.
Conclusão
A mudança sonora entre verão e outono existe, mas é mais complexa do que uma simples substituição de cigarras por grilos.
As cigarras estão fortemente associadas às temperaturas elevadas e à fase adulta reprodutora. À medida que diferentes espécies completam essa fase e as condições térmicas mudam, o coro característico do verão enfraquece. Algumas, como Lyristes plebejus, apresentam atividade adulta concentrada mais cedo; outras, como Cicada orni, podem permanecer ativas em Portugal até ao início de outubro.
Alguns grilos e outros ortópteros podem continuar a estridular durante noites suficientemente amenas, tornando-se proporcionalmente mais evidentes quando outros sons desaparecem.
Assim, as cigarras e grilos no outono funcionam como um calendário biológico imperfeito. Aquilo que ouvimos depende da espécie, temperatura, altitude, região, hora e meteorologia daquele ano.
Setembro e outubro não são uma fronteira. São apenas duas páginas de uma transição ecológica gradual que se pode ouvir no jardim.