À primeira vista, uma pequena rã verde encontrada junto a um charco ou entre a vegetação pode parecer fácil de identificar. Na realidade, a cor verde não é suficiente para distinguir diferentes anfíbios. Em Portugal, duas espécies que podem gerar alguma confusão são a rã-verde (Pelophylax perezi) e a rela, geralmente referida atualmente como Hyla molleri.
Apesar de ambas poderem apresentar tonalidades verdes e dependerem de zonas húmidas para a reprodução, existem diferenças claras no tamanho, forma do corpo, dedos, comportamento e utilização do habitat. Conhecer as principais rã-verde e rela diferenças permite identificar estes anfíbios sem necessidade de os capturar ou manipular.
O Atlas dos Anfíbios e Répteis de Portugal, disponibilizado pelo ICNF, descreve a rã-verde como um dos anfíbios mais frequentes em Portugal Continental e destaca na rela os discos adesivos nas extremidades dos dedos e os seus hábitos trepadores.
Rã-verde e rela são espécies diferentes
Embora pertençam ambas à ordem Anura, a rã-verde e a rela pertencem a grupos diferentes e apresentam adaptações distintas.
A rã-verde, Pelophylax perezi, pertence à família Ranidae. É uma espécie ibérica intimamente associada à água e amplamente distribuída em Portugal Continental. No Atlas do ICNF aparece também a designação histórica Rana perezi, explicando-se que a revisão taxonómica levou à adoção do género Pelophylax.
A rela pertence à família Hylidae. O Atlas português mais antigo apresenta a população ibérica como Hyla arborea molleri. A classificação taxonómica posterior passou a reconhecer geralmente esta linhagem ibérica ao nível de espécie, Hyla molleri. Esta diferença de nomenclatura explica por que razão ainda se encontram fontes portuguesas que utilizam Hyla arborea ou “rela-comum”.
A característica mais evidente da rela está nos dedos: possuem discos adesivos que lhe permitem trepar pela vegetação. O ICNF salienta precisamente os hábitos trepadores destes animais e a utilização da vegetação como refúgio.
Como identificar a rã-verde
Corpo relativamente robusto e patas traseiras compridas
A rã-verde apresenta o aspeto clássico de uma rã aquática. O corpo é relativamente robusto e as patas posteriores são compridas e musculadas, adequadas tanto ao salto como à natação.
Quando se encontra pousada numa margem, as patas traseiras ficam frequentemente dobradas junto ao corpo, prontas para impulsionar o animal rapidamente para a água perante uma perturbação.
O tamanho também ajuda na identificação. Uma rã-verde adulta é geralmente bastante maior e mais robusta do que uma rela.
Coloração muito variável
O nome “rã-verde” pode induzir em erro porque estes animais não são necessariamente completamente verdes.
A coloração dorsal pode variar entre verde vivo, verde-azeitona, castanho e combinações destas tonalidades. Podem existir manchas escuras e uma linha dorsal mais clara em alguns indivíduos.
Por isso, a identificação nunca deve basear-se apenas na cor.
Aspeto adaptado à vida aquática
A forma das patas posteriores e dos pés reflete a forte ligação desta espécie à água. A rã-verde é uma nadadora eficiente e procura frequentemente refúgio mergulhando.
Ao contrário da rela, não apresenta os característicos discos adesivos bem desenvolvidos nas pontas dos dedos para subir pela vegetação.
Como identificar a rela
Corpo pequeno e delicado
A rela tem geralmente uma aparência muito diferente quando observada com atenção.
É mais pequena e leve, apresentando um corpo relativamente compacto e membros finos. A pele dorsal pode parecer lisa e a coloração é frequentemente verde, embora possa variar.
A sua silhueta delicada contrasta com a estrutura mais robusta da rã-verde.
Discos adesivos nas pontas dos dedos
Este é um dos melhores critérios para identificar anfíbios em Portugal quando existe dúvida entre estes dois grupos.
As extremidades dos dedos da rela apresentam discos adesivos visíveis. Estas estruturas aumentam a capacidade de aderência e permitem ao animal deslocar-se sobre folhas, caules e outros suportes.
O Atlas do ICNF destaca estes discos e relaciona-os diretamente com os hábitos trepadores da rela.
Não é necessário pegar no animal para verificar esta característica. Uma observação próxima ou uma fotografia ampliada é normalmente suficiente.
Uma verdadeira especialista em trepar
A expressão rela arbórea está associada precisamente a esta capacidade.
Apesar de necessitar de água para a reprodução, uma rela adulta não permanece obrigatoriamente dentro ou imediatamente junto à água durante todo o tempo.
Pode ser encontrada pousada em juncos, arbustos, silvas, ervas altas e outra vegetação. Segundo o Atlas do ICNF, utiliza normalmente áreas próximas de cursos de água, charcos, lagoas e prados húmidos, recorrendo à vegetação como refúgio.
Rã-verde e rela: diferenças principais
Existem quatro pistas particularmente úteis numa observação no campo.
A primeira é o tamanho e estrutura corporal. A rã-verde tende a ser maior e mais robusta; a rela é normalmente pequena e delicada.
A segunda são os dedos. A presença de discos adesivos evidentes aponta para uma rela.
A terceira é o local onde o animal está pousado. Uma rã grande na margem de um tanque que mergulha imediatamente na água apresenta um comportamento muito típico da rã-verde. Um pequeno anfíbio verde agarrado a um caule ou folha acima do solo apresenta características muito mais compatíveis com uma rela.
Finalmente, deve observar-se o conjunto de características em vez da cor. Ambas podem parecer verdes, pelo que “é verde” nunca constitui um critério suficiente.
O habitat da rã-verde
O rã-verde habitat está fortemente relacionado com a presença de água.
Segundo o ICNF, Pelophylax perezi é muito dependente das massas de água e pode ocupar uma grande variedade de habitats aquáticos. Esta flexibilidade ecológica ajuda a explicar a sua ampla distribuição em Portugal Continental.
Pode ocorrer em charcos, lagoas, albufeiras, canais, ribeiras, tanques e outros ambientes com água adequada.
O Atlas do ICNF refere que a espécie foi registada em praticamente todo o território continental e em todas as regiões bioclimáticas, sendo sobretudo a altitude elevada um fator limitante. O documento considera-a um dos anfíbios mais frequentes no país.
Uma vida muito próxima da água
Mesmo quando repousa numa margem, a rã-verde tende a permanecer suficientemente perto da água para escapar rapidamente.
Este comportamento é fácil de observar. Ao aproximar-se de um charco ocupado por várias rãs-verdes, é frequente ouvir sucessivos mergulhos antes de conseguir localizar visualmente os animais.
A água funciona como local de reprodução, alimentação e refúgio.
O habitat da rela
A relação da rela com a água é diferente.
Também necessita de zonas aquáticas, especialmente para reprodução e desenvolvimento das larvas, mas os adultos exploram muito mais a vegetação envolvente.
O ICNF associa a rela a cursos de água, charcos, lagoas e prados húmidos e salienta que estes anfíbios utilizam a vegetação como abrigo.
Vegetação junto a zonas húmidas
Sebes, silvas, juncos, ervas altas e arbustos próximos de locais de reprodução podem oferecer locais de repouso e alimentação.
Esta utilização vertical do ambiente é uma das grandes diferenças ecológicas relativamente à rã-verde.
Uma zona húmida saudável não é, portanto, apenas uma superfície de água. A vegetação das margens e os habitats terrestres circundantes também podem ser fundamentais para os anfíbios.
Diferenças de comportamento

A rã-verde mergulha para escapar
Quando deteta perigo, a rã-verde utiliza frequentemente a água como principal via de fuga.
As fortes patas posteriores permitem-lhe saltar rapidamente da margem e mergulhar. Pode permanecer escondida na vegetação aquática ou debaixo da superfície até considerar seguro regressar.
A forte dependência das massas de água é uma das características ecológicas assinaladas pelo ICNF para esta espécie.
A rela utiliza a terceira dimensão
A rela dispõe de outra estratégia: trepar.
Os discos dos dedos permitem-lhe explorar superfícies que uma rã-verde normalmente não utiliza da mesma forma. Durante o dia, pode permanecer relativamente imóvel entre folhas e caules, onde a pequena dimensão e a coloração ajudam a reduzir a sua visibilidade.
À noite e durante condições favoráveis, torna-se mais ativa.
Vocalizações na época reprodutora
Tanto as rãs-verdes como as relas utilizam vocalizações na reprodução.
Os machos chamam para atrair fêmeas e comunicar a sua presença. Próximo de massas de água adequadas, os coros podem tornar-se particularmente evidentes em determinadas épocas e condições meteorológicas.
As vocalizações constituem uma ferramenta importante para especialistas e observadores experientes identificarem anfíbios sem lhes tocar.
Para um principiante, contudo, características visuais como o tamanho, a posição no habitat e os discos adesivos são frequentemente mais simples de utilizar.
Alimentação e papel ecológico
Rãs e relas são predadores de pequenos invertebrados.
Moscas, mosquitos, pequenos escaravelhos, aranhas e diversos outros artrópodes podem integrar a alimentação, dependendo da espécie, tamanho do indivíduo e disponibilidade de presas.
Isto coloca os anfíbios numa posição importante nas redes alimentares.
Predadores de pequenos animais
Ao consumir invertebrados, a rã-verde e a rela participam na transferência de energia dentro dos ecossistemas.
Não devem, porém, ser encaradas simplesmente como um método natural para “eliminar pragas”. O seu papel é muito mais amplo e faz parte das relações entre predadores e presas que caracterizam ecossistemas equilibrados.
Também são alimento para outros animais
Os anfíbios não ocupam apenas o papel de predadores.
Dependendo da fase de vida, podem constituir alimento para aves, répteis, mamíferos, peixes e diversos predadores aquáticos.
Os girinos participam igualmente nas comunidades das zonas húmidas e ocupam um nicho diferente do dos adultos.
A transformação de girino em adulto liga, de certa forma, os ambientes aquático e terrestre.
A importância das zonas húmidas para ambas
Apesar das diferenças entre rã-verde e rela, existe uma necessidade comum: a disponibilidade de habitats adequados.
O desaparecimento ou deterioração de charcos, lagoas e outros ambientes aquáticos pode afetar as populações de anfíbios. No caso da rã-verde, o ICNF identifica precisamente a deterioração ou desaparecimento dos habitats aquáticos entre as principais ameaças.
A qualidade do habitat terrestre em redor da água também merece atenção, sobretudo para espécies que utilizam intensamente a vegetação.
Conservar margens vegetadas, evitar alterações desnecessárias de pequenos charcos e reduzir perturbações ajuda a manter ambientes mais favoráveis a diferentes espécies.
Como observar rãs e relas sem as perturbar
A identificação deve ser feita preferencialmente à distância.
Uma fotografia obtida sem tocar no animal pode registar informação suficiente sobre tamanho, padrão corporal, dedos e habitat.
Também é importante evitar destruir vegetação para obter uma imagem melhor ou retirar um anfíbio do seu esconderijo.
Os anfíbios possuem pele altamente especializada e permeável. A manipulação desnecessária pode causar stress e expô-los a substâncias presentes nas mãos.
Observar, fotografar e deixar o animal exatamente onde se encontra é normalmente a abordagem mais adequada.
Perguntas frequentes
A rã-verde e a rela são a mesma espécie?
Não. A rã-verde é Pelophylax perezi, da família Ranidae. A rela ibérica é geralmente classificada atualmente como Hyla molleri, da família Hylidae.
Qual é a forma mais fácil de distinguir uma rela?
Os discos adesivos nas extremidades dos dedos são uma das melhores características. Estão associados à capacidade de trepar pela vegetação, comportamento também referido pelo ICNF.
Todas as rãs-verdes são completamente verdes?
Não. A coloração pode variar e incluir tons verdes, acastanhados e padrões diferentes. A identificação deve combinar várias características.
Uma rela pode viver longe da água?
Os adultos podem explorar vegetação e habitats terrestres nas proximidades, mas continuam dependentes de ambientes aquáticos adequados para a reprodução.
A rã-verde é comum em Portugal?
Sim. O Atlas do ICNF descreve-a como muito abundante em Portugal Continental e refere que foi uma das espécies de anfíbios mais frequentemente registadas no projeto que deu origem ao Atlas.
As relas vivem em árvores?
São excelentes trepadoras e podem utilizar arbustos e outra vegetação elevada. “Arbórea” não significa, contudo, que passem toda a vida nas copas das árvores. O ICNF refere a utilização de vegetação próxima de charcos, lagoas, cursos de água e prados húmidos.
É seguro pegar numa rã ou numa rela para a identificar?
A manipulação deve ser evitada quando não existe uma necessidade científica, veterinária ou de conservação. Para uma observação comum, fotografar o animal no local é normalmente suficiente.
Conclusão
As principais rã-verde e rela diferenças tornam-se bastante evidentes quando se observa mais do que a cor.
A rã-verde (Pelophylax perezi) é geralmente maior, robusta e fortemente associada à água. As patas traseiras adaptadas ao salto e à natação permitem-lhe mergulhar rapidamente quando se sente ameaçada. É também um dos anfíbios mais frequentes e amplamente distribuídos em Portugal Continental.
A rela (Hyla molleri) é mais pequena e especializada numa forma de vida trepadora. Os discos adesivos nas extremidades dos dedos permitem-lhe agarrar-se a folhas, caules e outros elementos da vegetação próxima de zonas húmidas.
Assim, uma identificação segura deve combinar tamanho, forma corporal, estrutura dos dedos, comportamento e habitat. Uma pequena rela pousada num caule e uma rã-verde pronta para mergulhar num charco representam duas estratégias diferentes de sobrevivência dentro da extraordinária diversidade de anfíbios portugueses.
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Fonte principal
ICNF — Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas. Atlas dos Anfíbios e Répteis de Portugal. As fichas da rã-verde e da rela fornecem informação sobre identificação, distribuição, habitat, ecologia e conservação das espécies em Portugal.
O ICNF continua também a incluir a rã-verde e as relas entre os anfíbios considerados na informação nacional sobre conservação e estatuto das espécies.