Raízes das árvores em meio urbano: porque o solo precisa de espaço para respirar

Nas cidades, é frequente observar árvores rodeadas por pavimento, cimento, estacionamento ou pequenas áreas de terra exposta. À superfície, uma árvore pode parecer ter espaço suficiente para crescer. Debaixo do solo, porém, a situação pode ser muito diferente.

As raízes precisam de água, nutrientes e oxigénio. Quando o solo é fortemente compactado ou existe pouco volume de solo adequado disponível, diminuem os espaços porosos que permitem a circulação do ar e da água. A compactação também aumenta a resistência física que as raízes têm de vencer para crescer.

Por isso, a expressão popular “as raízes precisam de respirar” tem fundamento, desde que seja entendida corretamente. As raízes não respiram como os pulmões humanos: as suas células realizam respiração celular e dependem de oxigénio disponível no solo.

Este princípio ajuda a compreender por que motivo a qualidade e o volume do solo são tão importantes para árvores plantadas em ruas, passeios, pátios e jardins.

Índice

  1. As raízes também precisam de oxigénio
  2. O que acontece quando o solo fica compactado
  3. Pavimento junto ao tronco
  4. As raízes não crescem apenas para baixo
  5. A importância da área permeável
  6. Cobertura orgânica e mulch
  7. Como lidar com um solo já compactado
  8. Árvores em espaços urbanos portugueses
  9. Sinais de uma árvore sob stress
  10. Como criar melhores condições para uma árvore existente
  11. Perguntas frequentes

As raízes também precisam de oxigénio

O solo não é uma massa sólida e uniforme. Entre as partículas minerais e a matéria orgânica existem poros que podem conter água ou ar.

Esses espaços são fundamentais para as raízes.

As células radiculares utilizam oxigénio durante a respiração celular, processo através do qual obtêm energia necessária ao crescimento e ao funcionamento dos tecidos. Quando a circulação de gases no solo é muito limitada, o ambiente torna-se progressivamente menos favorável às raízes.

É precisamente por isso que solos excessivamente compactados ou persistentemente saturados de água podem criar dificuldades. A Universidade do Minnesota salienta que os espaços porosos são essenciais para o crescimento das plantas e que, em solos compactados, diminui o oxigénio disponível, acumula-se dióxido de carbono e a penetração das raízes fica limitada. (Extension de l’Université du Minnesota)

Dizer que uma raiz precisa de “respirar” é, portanto, uma simplificação. O fenómeno real é a necessidade de trocas gasosas entre o solo e a atmosfera e de oxigénio suficiente no ambiente radicular.

O que acontece quando o solo fica compactado

A compactação ocorre quando as partículas do solo são pressionadas umas contra as outras, reduzindo o número e o tamanho dos poros.

Num ambiente urbano, isso pode acontecer devido à passagem repetida de pessoas, estacionamento de automóveis, maquinaria pesada, obras, armazenamento de materiais ou alterações do terreno.

O problema tem duas componentes.

Primeiro, o solo torna-se fisicamente mais difícil de penetrar. As raízes jovens e finas encontram maior resistência e podem alterar a direção de crescimento em vez de atravessar determinadas camadas.

Segundo, a redução da porosidade prejudica a circulação de água e gases. A infiltração da chuva também pode diminuir, aumentando o escoamento superficial. (Ask IFAS – Powered by EDIS)

É importante distinguir compactação de impermeabilização.

Um solo compactado continua a ser solo, mas perdeu parte da sua estrutura porosa. Uma superfície impermeabilizada, como determinados pavimentos contínuos, acrescenta outra barreira entre a atmosfera e o solo.

Os dois problemas podem coexistir.

Pavimento junto ao tronco — porque pode criar problemas

Uma árvore não necessita apenas do pequeno círculo de terra imediatamente visível em redor do tronco.

Precisa de um volume de solo que permita às raízes explorar o terreno em busca de água, oxigénio e nutrientes.

Quando uma árvore é colocada numa pequena abertura rodeada por superfícies pavimentadas, a situação subterrânea torna-se especialmente importante. O solo sob o pavimento pode estar compactado, apresentar condições deficientes de arejamento ou simplesmente oferecer pouco espaço adequado ao crescimento radicular.

A Universidade da Florida refere que o volume de solo disponível deve ser considerado em função do tamanho que a árvore atingirá e identifica lancis e outros obstáculos como possíveis limitações ao crescimento das raízes. (Ask IFAS – Powered by EDIS)

Isto não significa que qualquer pavimento próximo de uma árvore seja automaticamente prejudicial.

Existem pavimentos permeáveis e sistemas de construção concebidos especificamente para compatibilizar circulação urbana, infiltração da água e desenvolvimento das raízes. A espécie, textura e estrutura do solo, drenagem, clima, desenho da área e volume de solo disponível alteram muito o resultado.

A imagem simples de “cimento mau, terra boa” é, portanto, insuficiente para explicar todas as situações.

As raízes não crescem apenas para baixo

As ilustrações de árvores mostram frequentemente uma copa acima do solo e um sistema radicular quase simétrico a descer verticalmente.

Na natureza, a arquitetura é geralmente muito mais complexa.

Grande parte das raízes responsáveis pela exploração de água, nutrientes e oxigénio desenvolve-se relativamente perto da superfície e pode estender-se lateralmente por uma área considerável. A Universidade da Florida descreve a zona radicular de uma árvore como ampla e relativamente superficial, podendo prolongar-se para além da projeção da copa.

A profundidade efetiva depende de muitos fatores: espécie, idade, textura do solo, disponibilidade de água, oxigénio, presença de rocha, compactação e outros obstáculos.

Isto também explica por que motivo abrir valas ou escavar perto de árvores maduras pode provocar danos importantes. As raízes finas absorvem água e nutrientes, enquanto raízes lenhosas maiores também participam no suporte estrutural da árvore.

A importância da área permeável à volta da árvore

Manter solo permeável em redor de uma árvore pode melhorar várias condições simultaneamente.

A chuva consegue atingir diretamente o terreno. Existe maior possibilidade de troca gasosa com a atmosfera e, quando o solo apresenta boa estrutura, as raízes encontram condições físicas mais favoráveis à expansão.

Contudo, não existe uma dimensão universal de “círculo ideal” aplicável a qualquer árvore.

Uma pequena ornamental num jardim e uma árvore de grande porte numa avenida não têm as mesmas necessidades. A espécie, porte esperado, solo existente e espaço subterrâneo disponível devem ser considerados no projeto.

Nas árvores urbanas, aquilo que existe debaixo do passeio pode ser tão importante como a abertura visível à superfície.

Uma pequena caldeira pode comunicar com um volume maior de solo adequado, enquanto uma área aparentemente generosa pode esconder camadas extremamente compactadas. A avaliação deve, portanto, ir além daquilo que se vê.

Cobertura orgânica do solo e mulch

Uma camada de cobertura orgânica pode ser uma boa ferramenta para proteger a superfície do solo.

Materiais como estilha de madeira ajudam a reduzir a perda de água por evaporação, moderar variações de temperatura e diminuir o impacto direto do pisoteio. À medida que materiais orgânicos se decompõem, também contribuem para os processos biológicos que ocorrem na camada superficial.

Mas mais mulch não significa necessariamente melhores resultados.

A cobertura não deve ser acumulada contra o tronco. Os chamados “vulcões de mulch”, em que grandes quantidades de material são empilhadas em redor da base da árvore, podem manter humidade indevida junto ao tronco e esconder a zona de transição entre tronco e raízes.

A orientação da Universidade da Florida para árvores estabelecidas recomenda uma camada relativamente fina e afastada do tronco, em vez de uma pilha profunda junto à base.

O objetivo é cobrir o solo, não enterrar o tronco.

Compactação existente — intervenções possíveis

Quando uma árvore já está estabelecida num terreno compactado, a intervenção exige mais cuidado do que simplesmente cavar o solo.

Uma enxada, pá ou máquina utilizada sem conhecimento da localização das raízes pode cortar estruturas importantes.

A primeira medida é frequentemente evitar que o problema continue. Não estacionar sobre a zona radicular, impedir a passagem de maquinaria pesada e evitar utilizar a área debaixo da copa como local permanente para armazenar materiais pode limitar nova compactação. (HOS)

Em determinadas situações profissionais, podem ser utilizadas ferramentas que recorrem a ar comprimido para trabalhar o solo com menor risco de cortar raízes. Forest Research também refere a injeção de ar como uma das técnicas que podem ser utilizadas em determinadas situações de compactação junto de árvores urbanas. (Forest Research)

Isso não significa que seja necessário descompactar todas as árvores.

O método apropriado depende da profundidade e extensão da compactação, características do solo, espécie, estado da árvore e infraestruturas existentes. Árvores maduras justificam frequentemente uma avaliação por um profissional de arboricultura antes de intervenções importantes.

Árvores em passeios e espaços urbanos portugueses

Em Portugal, as árvores urbanas podem encontrar uma combinação particularmente exigente de limitações: espaço reduzido para raízes, solos modificados por construção, pavimentação, compactação e disponibilidade irregular de água.

As condições não são iguais em todo o país.

Uma árvore numa rua do interior, sujeita a verões quentes e secos, enfrenta condições diferentes de outra instalada numa área litoral ou num jardim regularmente irrigado. O tipo de solo e a espécie escolhida também são determinantes.

Por isso, não basta plantar uma árvore numa abertura do passeio e assumir que conseguirá adaptar-se.

O planeamento deve considerar o porte adulto da espécie e o espaço subterrâneo necessário. As orientações técnicas de arboricultura urbana salientam precisamente que condições físicas do solo — incluindo permeabilidade e compactação — devem ser avaliadas durante o desenho dos locais de plantação. (Forestry Research)

Um bom espaço para árvores urbanas deve funcionar tanto acima como abaixo do pavimento.

Sinais de que uma árvore pode estar sob stress

Problemas no sistema radicular nem sempre são imediatamente visíveis.

Uma árvore sujeita a condições desfavoráveis pode apresentar crescimento reduzido, menor vigor, alterações na densidade da copa, morte de alguns ramos ou folhas com desenvolvimento anormal.

Estes sinais, porém, não permitem concluir automaticamente que existe compactação.

Seca, excesso de água, danos radiculares, doenças, pragas, problemas nutricionais, plantação demasiado profunda e muitos outros fatores podem provocar sintomas semelhantes.

Também podem existir indícios no próprio terreno. Água que permanece à superfície depois da rega ou chuva, forte escoamento superficial e dificuldade anormal em penetrar o solo podem justificar uma avaliação mais cuidadosa. A compactação é normalmente avaliada através das propriedades físicas do solo, e não apenas pela aparência da copa. (Ask IFAS – Powered by EDIS)

Como criar melhores condições para uma árvore existente

Num jardim ou quintal, algumas medidas relativamente simples ajudam a preservar as condições do solo.

Evitar estacionar veículos debaixo da árvore é uma das mais importantes. Também é aconselhável não utilizar a zona radicular como passagem constante de maquinaria pesada ou depósito de materiais de construção.

Quando existe solo exposto, uma cobertura orgânica aplicada corretamente pode protegê-lo e reduzir algumas perturbações superficiais.

A rega também deve ser ajustada às necessidades da espécie, estação e características do terreno. Solo compactado e solo seco não são sinónimos: um terreno compactado pode, em determinadas circunstâncias, ficar encharcado porque a água não circula adequadamente.

Se pavimentos estiverem a ser levantados por raízes, a solução não deve consistir automaticamente em cortar essas raízes. Algumas desempenham funções estruturais importantes e a sua remoção pode afetar a saúde ou estabilidade da árvore.

Quando existe conflito entre raízes, edifícios e pavimentos, ou quando uma árvore apresenta sinais significativos de declínio, uma avaliação por um arborista qualificado permite analisar conjuntamente árvore, solo e infraestrutura.

Perguntas frequentes

As raízes das árvores precisam realmente de respirar?

Sim, no sentido biológico da expressão. As células das raízes realizam respiração celular e precisam de oxigénio. Esse oxigénio chega ao sistema radicular através dos espaços porosos existentes no solo. (Extension de l’Université du Minnesota)

O cimento à volta de uma árvore pode prejudicá-la?

Pode contribuir para condições desfavoráveis quando limita a infiltração, as trocas gasosas ou o volume de solo utilizável pelas raízes, sobretudo quando existe também forte compactação. O efeito real depende do desenho, solo, espécie e tipo de pavimento.

Qual deve ser o espaço livre à volta do tronco?

Não existe uma medida única adequada a todas as árvores. O espaço necessário depende sobretudo do porte adulto, espécie, condições do solo e volume subterrâneo disponível. Uma grande árvore necessita de condições radiculares muito diferentes das de uma pequena árvore ornamental.

É correto colocar mulch junto ao tronco?

A cobertura orgânica pode ser benéfica sobre o solo, mas não deve ser empilhada contra o tronco. Deve permanecer visível a zona de transição natural entre o tronco e as raízes principais.

As raízes crescem principalmente para baixo?

Não necessariamente. Os sistemas radiculares das árvores são frequentemente muito mais largos e superficiais do que mostram as ilustrações tradicionais. As condições do solo determinam fortemente a profundidade e direção do crescimento. (Solutions de Jardinage)

É possível descompactar o solo sem danificar as raízes?

Existem técnicas profissionais, incluindo ferramentas baseadas em ar comprimido, concebidas para trabalhar solos compactados com menor risco de cortar raízes. A adequação do tratamento deve ser avaliada caso a caso. (Forest Research)

Os pavimentos permeáveis resolvem completamente o problema?

Não. Podem melhorar a infiltração relativamente a determinadas superfícies impermeáveis, mas uma árvore continua a precisar de volume de solo adequado, boa estrutura, oxigénio, água e espaço para crescimento. Um pavimento permeável colocado sobre solo extremamente compactado não elimina automaticamente as limitações subterrâneas.

Conclusão

As raízes são a parte invisível de uma árvore, mas grande parte da capacidade de uma árvore urbana sobreviver e desenvolver-se depende precisamente das condições encontradas debaixo do solo.

As raízes necessitam de água, nutrientes e oxigénio. Um solo fortemente compactado reduz o espaço poroso, dificulta as trocas gasosas, altera o movimento da água e oferece maior resistência física ao crescimento radicular.

Também é importante abandonar a imagem de que as raízes simplesmente descem verticalmente debaixo do tronco. Muitos sistemas radiculares exploram extensas áreas relativamente superficiais, precisamente onde a atividade humana, pavimentação e compactação podem ser mais intensas.

Criar uma área permeável adequada, proteger o solo do tráfego excessivo, utilizar cobertura orgânica corretamente e disponibilizar volume de solo compatível com o porte da árvore são princípios mais importantes do que seguir uma dimensão universal.

E quando uma árvore madura já está rodeada por pavimento ou apresenta problemas, retirar cimento ou escavar o solo não deve ser encarado como uma solução automática. As raízes existentes podem ser danificadas durante a própria intervenção.

Nas cidades e nos jardins, dar espaço às raízes significa sobretudo preservar um solo funcional. É debaixo da superfície que a árvore encontra grande parte dos recursos de que necessita para continuar a crescer durante décadas.