As tartarugas marinhas estão entre os répteis mais fascinantes dos oceanos. Adaptadas à vida aquática, percorrem grandes distâncias, utilizam diferentes habitats ao longo do seu desenvolvimento e desempenham funções importantes nos ecossistemas marinhos.
Entre as espécies presentes no Atlântico encontram-se a tartaruga-boba (Caretta caretta) e a tartaruga-verde (Chelonia mydas). Embora possam parecer semelhantes à primeira vista, apresentam diferenças importantes na forma da cabeça, nas placas do casco e nos hábitos alimentares.
Ambas podem ocorrer em águas portuguesas, incluindo as regiões oceânicas dos Açores e da Madeira. Contudo, a frequência de observação e a utilização dos habitats não são iguais.
Conhecer a diferença entre tartaruga-boba e tartaruga-verde permite compreender melhor a biologia destas espécies e reconhecer algumas das ameaças que enfrentam.
Neste guia, explicamos como distingui-las, o que comem, onde podem ser encontradas e como agir perante uma tartaruga marinha encalhada.
1. Conhecer a Tartaruga-Boba (Caretta caretta)
A tartaruga-boba, também conhecida em Portugal como tartaruga-comum, pertence à família Cheloniidae.
É uma espécie marinha de ampla distribuição, encontrada em águas temperadas, subtropicais e tropicais de diferentes oceanos.
Apresenta um corpo robusto, barbatanas adaptadas à natação e uma cabeça relativamente grande, característica que ajuda a distingui-la de outras tartarugas marinhas.
Características físicas
A cabeça da tartaruga-boba é larga e possui mandíbulas fortes, adaptadas à captura e fragmentação de presas com estruturas resistentes.
A carapaça apresenta normalmente tons castanho-avermelhados, embora a coloração varie com a idade e as condições ambientais.
Vista de cima, tende a apresentar uma forma aproximadamente oval ou semelhante a um coração.
Uma característica importante é a presença habitual de cinco pares de placas costais na carapaça.
Habitat e comportamento
A tartaruga-boba utiliza diferentes ambientes ao longo da vida.
Os juvenis podem passar longos períodos em águas oceânicas, frequentemente associados a correntes e zonas de concentração de alimento.
À medida que crescem, muitos indivíduos passam a utilizar habitats costeiros, onde encontram uma maior diversidade de presas bentónicas.
Esta mudança não acontece de forma idêntica em todas as populações.
2. Conhecer a Tartaruga-Verde (Chelonia mydas)
A tartaruga-verde também pertence à família Cheloniidae, mas apresenta características físicas e alimentares distintas.
É encontrada principalmente em águas tropicais e subtropicais, utilizando habitats oceânicos e costeiros durante diferentes fases da vida.
O nome tartaruga-verde não significa que a carapaça seja necessariamente verde.
A designação está relacionada com a tonalidade esverdeada da gordura corporal, associada aos seus hábitos alimentares.
Características físicas
A tartaruga-verde possui uma cabeça relativamente pequena e arredondada, quando comparada com a tartaruga-boba.
O focinho é mais curto e a mandíbula apresenta adaptações que facilitam a alimentação à base de vegetação marinha.
A carapaça é geralmente lisa, com contorno oval e coloração variável entre castanho, verde-azeitona e tons mais escuros.
Apresenta habitualmente quatro pares de placas costais.
Habitat e comportamento
Os juvenis utilizam inicialmente ambientes oceânicos, enquanto muitos indivíduos maiores frequentam zonas costeiras pouco profundas.
Pradarias marinhas e determinados habitats de algas constituem importantes áreas de alimentação.
A espécie pode realizar migrações entre locais de alimentação e praias de nidificação.
3. Diferenças Entre Tartaruga-Boba e Tartaruga-Verde
As diferenças mais úteis para identificar estas espécies encontram-se na cabeça, no casco e na alimentação.
Comparação das principais características
| Característica | Tartaruga-boba | Tartaruga-verde |
|---|---|---|
| Nome científico | Caretta caretta | Chelonia mydas |
| Cabeça | Grande e robusta | Menor e arredondada |
| Mandíbulas | Fortes, adaptadas a presas resistentes | Adaptadas ao corte de vegetação |
| Carapaça | Frequentemente castanho-avermelhada | Coloração variável, frequentemente azeitonada |
| Placas costais | Habitualmente 5 pares | Habitualmente 4 pares |
| Alimentação adulta | Principalmente animal | Predominantemente herbívora em muitas populações |
| Habitats | Oceânicos e costeiros | Oceânicos e costeiros, incluindo pradarias marinhas |
A identificação deve considerar várias características em conjunto.
A cor isolada não é suficiente, porque ambas apresentam variações individuais e alterações relacionadas com a idade.
4. Como Distinguir as Cabeças
A cabeça é um dos elementos mais visíveis quando uma tartaruga sobe à superfície para respirar.
Cabeça da tartaruga-boba
A tartaruga-boba apresenta uma cabeça proporcionalmente grande, com músculos mandibulares desenvolvidos.
Esta estrutura permite exercer força sobre presas como caranguejos, moluscos e outros invertebrados.
O perfil é geralmente mais volumoso, especialmente na região posterior da cabeça.
Cabeça da tartaruga-verde
A tartaruga-verde possui uma cabeça relativamente pequena e um focinho mais arredondado.
A mandíbula apresenta uma superfície cortante adaptada à recolha de algas e ervas marinhas.
Outro detalhe utilizado na identificação é o número de pares de escamas pré-frontais, situadas entre os olhos: geralmente um par na tartaruga-verde e dois pares na tartaruga-boba.
Estas características podem ser difíceis de observar à distância, pelo que não se deve aproximar ou manipular o animal apenas para confirmar a espécie.
5. Diferenças no Casco e nas Placas

A carapaça é formada por estruturas ósseas cobertas, na maioria dos indivíduos destas espécies, por placas córneas chamadas escudos.
Casco da tartaruga-boba
A carapaça da tartaruga-boba apresenta frequentemente cinco pares de escudos costais, situados de cada lado da região central.
O contorno pode ser ligeiramente mais largo na parte anterior.
Em muitos exemplares, as placas apresentam tonalidades castanhas e avermelhadas.
Casco da tartaruga-verde
A tartaruga-verde possui habitualmente quatro pares de escudos costais.
A carapaça tende a apresentar um contorno oval e uma superfície relativamente lisa.
Os padrões de coloração podem incluir manchas e desenhos irregulares.
O número de placas é geralmente mais fiável para identificação do que a cor, embora possam existir anomalias individuais.
6. Alimentação da Tartaruga-Boba
A tartaruga-boba apresenta uma alimentação predominantemente carnívora, embora possa consumir diferentes tipos de organismos.
Principais alimentos
A dieta pode incluir caranguejos, moluscos, medusas, outros invertebrados marinhos e, ocasionalmente, peixes.
As mandíbulas fortes permitem fragmentar conchas e carapaças de determinadas presas.
Os hábitos alimentares variam com a idade, o habitat e a disponibilidade de alimento.
Importância ecológica
Ao consumir diferentes invertebrados, a tartaruga-boba participa nas relações alimentares dos ecossistemas marinhos.
A sua atividade pode influenciar as comunidades de organismos associados ao fundo do mar.
Tal como outras espécies migradoras, também estabelece ligações ecológicas entre habitats distantes.
7. Alimentação da Tartaruga-Verde
A alimentação é uma das diferenças mais marcantes entre as duas espécies.
Dieta dos juvenis
As tartarugas-verdes jovens podem apresentar uma dieta relativamente variada, incluindo pequenos organismos animais.
Durante o desenvolvimento, muitas populações passam gradualmente a consumir uma proporção crescente de vegetação marinha.
Dieta dos adultos
Em numerosas regiões, as tartarugas-verdes adultas alimentam-se principalmente de ervas marinhas e algas.
Contudo, a composição da dieta varia geograficamente, e algumas populações continuam a consumir quantidades relevantes de alimento animal.
Papel nas pradarias marinhas
Ao pastarem sobre as ervas marinhas, estas tartarugas podem influenciar o crescimento e a estrutura da vegetação.
A sua atividade contribui para processos ecológicos associados às pradarias submarinas.
Estes habitats também oferecem abrigo e alimento a muitas espécies de peixes e invertebrados.
8. Tartarugas Marinhas em Portugal
As águas portuguesas fazem parte da área de ocorrência de várias espécies de tartarugas marinhas.
A localização geográfica do país, entre diferentes regiões do Atlântico, permite a passagem de animais migradores e a utilização de habitats oceânicos.
Tartarugas nos Açores
Os Açores constituem uma região importante para tartarugas-bobas juvenis.
Estes animais podem utilizar águas oceânicas e zonas associadas a frentes e correntes marinhas para procurar alimento.
A presença da tartaruga-boba nos Açores está documentada pelo ICNF, que destaca a importância das águas insulares durante a fase juvenil.
Tartarugas na Madeira
As águas da Madeira também são utilizadas por tartarugas marinhas.
A tartaruga-boba é uma das espécies mais conhecidas na região, sendo observada em ambientes oceânicos e, ocasionalmente, em zonas próximas da costa.
A tartaruga-verde também pode ocorrer na região, embora seja menos frequentemente observada.
Tartarugas no continente português
Na costa continental podem ocorrer tartarugas marinhas, incluindo tartarugas-bobas.
A presença depende de fatores como deslocações oceânicas, temperatura da água, disponibilidade alimentar e condições ambientais.
A tartaruga-verde é menos habitual nas águas continentais portuguesas.
A ocorrência destas espécies não significa que todas utilizem regularmente as praias portuguesas para nidificar.
9. Principais Ameaças às Tartarugas Marinhas
Apesar das suas adaptações à vida oceânica, as tartarugas marinhas enfrentam várias ameaças relacionadas com as atividades humanas.
Captura acidental na pesca
Uma das ameaças mais importantes é a captura acidental em artes de pesca.
As tartarugas podem ficar presas em redes, anzóis ou outros equipamentos.
Como respiram ar atmosférico, a impossibilidade de regressar à superfície pode provocar afogamento.
A utilização de medidas de redução das capturas acidentais é importante para a conservação.
Plásticos e resíduos marinhos
Os resíduos plásticos podem ser ingeridos acidentalmente.
Sacos e fragmentos de plástico podem ser confundidos com alimento ou ingeridos juntamente com as presas.
As linhas e cordas abandonadas também podem provocar emaranhamento e ferimentos.
Degradação dos habitats
A destruição de pradarias marinhas, a poluição e as alterações das zonas costeiras podem afetar áreas de alimentação.
Nas regiões de nidificação, a iluminação artificial, a ocupação das praias e a perturbação humana podem prejudicar a reprodução.
Alterações climáticas
As alterações climáticas podem influenciar a temperatura das praias de nidificação, as correntes oceânicas e a distribuição dos habitats.
Nas tartarugas marinhas, a temperatura de incubação dos ovos influencia a determinação do sexo das crias.
Por isso, alterações prolongadas das condições térmicas podem afetar a reprodução e a estrutura das populações.
10. O Que Fazer ao Encontrar uma Tartaruga Encalhada
Encontrar uma tartaruga marinha numa praia pode indicar que o animal está ferido, debilitado ou apresenta outro problema.
Mesmo quando parece estar imóvel, pode continuar vivo.
A intervenção deve ser realizada por equipas com formação adequada.
Passo 1 — Manter a distância
Evite tocar ou tentar levantar a tartaruga.
Mantenha crianças, cães e outras pessoas afastadas.
A aproximação excessiva pode aumentar o stress e provocar movimentos que agravem eventuais lesões.
Passo 2 — Contactar as autoridades
Em Portugal continental, pode contactar a linha SOS Ambiente e Território, através do número 808 200 520, ou comunicar a ocorrência às autoridades marítimas e às redes regionais de arrojamentos.
Informe a localização exata, o estado aparente do animal e a existência de ferimentos visíveis.
Nos arquipélagos, devem ser contactadas as entidades regionais competentes.
Passo 3 — Não devolver imediatamente ao mar
Uma tartaruga encalhada pode estar debilitada, hipotérmica, ferida ou incapaz de nadar normalmente.
Devolvê-la à água sem avaliação pode colocar a sua vida em risco.
Também não deve tentar puxá-la pelas barbatanas ou remover anzóis e linhas profundamente presos.
Passo 4 — Aguardar instruções
Permaneça a uma distância segura e siga as orientações transmitidas pelas autoridades.
Não ofereça alimentos, água ou medicamentos.
Não cubra a cabeça nem as narinas do animal.
Se for possível fazê-lo sem perturbação, registe fotografias à distância para ajudar os especialistas a avaliar a situação.
A manipulação, o transporte e os cuidados de emergência devem ficar a cargo das equipas competentes.
11. A Importância da Conservação
A conservação das tartarugas marinhas exige cooperação entre diferentes países, porque estes animais atravessam grandes áreas oceânicas.
A proteção das praias de nidificação é importante, mas não é suficiente.
Também é necessário reduzir as capturas acidentais, proteger habitats de alimentação e diminuir a quantidade de resíduos que chegam ao mar.
Investigação e monitorização
A identificação de indivíduos, o acompanhamento por satélite e o estudo dos arrojamentos ajudam os investigadores a compreender as deslocações e ameaças enfrentadas pelas tartarugas.
Os registos de animais encontrados nas praias podem fornecer informações importantes sobre a saúde dos ecossistemas marinhos.
A participação responsável dos cidadãos, através da comunicação de observações e arrojamentos, contribui para este trabalho.
12. Perguntas Frequentes sobre Tartaruga-Boba e Tartaruga-Verde
Qual é a principal diferença entre a tartaruga-boba e a tartaruga-verde?
A tartaruga-boba apresenta uma cabeça maior, mandíbulas robustas e habitualmente cinco pares de placas costais. A tartaruga-verde possui uma cabeça menor, quatro pares de placas costais e uma alimentação frequentemente herbívora na idade adulta.
A tartaruga-verde tem sempre o casco verde?
Não. A carapaça pode apresentar diferentes tons de castanho, verde-azeitona e outras colorações. O nome está relacionado com a tonalidade da gordura corporal.
Existem tartarugas marinhas em Portugal?
Sim. As tartarugas marinhas ocorrem em águas portuguesas, incluindo o continente, os Açores e a Madeira. A tartaruga-boba é particularmente conhecida pela sua presença nas águas oceânicas dos arquipélagos.
A tartaruga-boba come medusas?
Sim. As medusas podem fazer parte da sua alimentação, juntamente com crustáceos, moluscos e outros organismos marinhos.
A tartaruga-verde é totalmente herbívora?
Não em todas as fases da vida ou populações. Os juvenis podem consumir alimento animal, enquanto muitos adultos apresentam uma dieta predominantemente vegetal.
As tartarugas marinhas conseguem respirar debaixo de água?
Não. São répteis com pulmões e precisam de subir à superfície para respirar. Conseguem permanecer submersas durante períodos variáveis, dependendo da atividade e das condições fisiológicas.
Posso ajudar uma tartaruga encalhada colocando-a na água?
Não deve fazê-lo por iniciativa própria. O animal pode necessitar de avaliação veterinária e de cuidados especializados antes de regressar ao mar.
As tartarugas marinhas estão protegidas em Portugal?
Sim. As tartarugas marinhas beneficiam de proteção legal e de medidas de conservação nacionais e internacionais. A captura, perturbação ou manipulação não autorizada pode constituir uma infração.
13. Conclusão
A tartaruga-boba e a tartaruga-verde são duas espécies de répteis marinhos com características distintas, apesar de partilharem adaptações semelhantes à vida oceânica.
A tartaruga-boba destaca-se pela cabeça robusta, pelas mandíbulas fortes e pela alimentação predominantemente animal. A tartaruga-verde apresenta uma cabeça relativamente pequena e, em muitas populações adultas, uma dieta baseada sobretudo em vegetação marinha.
Ambas podem ocorrer em águas portuguesas, embora a sua frequência e distribuição sejam diferentes.
A captura acidental, os resíduos plásticos, a degradação dos habitats e as alterações climáticas representam ameaças importantes para a sua conservação.
Reconhecer estas espécies e saber como agir perante um encalhe são formas de contribuir para a proteção da vida marinha.
A observação responsável e a comunicação rápida às entidades competentes permitem que as equipas especializadas intervenham quando necessário e ajudam a melhorar o conhecimento sobre estas espécies.