Vespa-pedreira: a vespa solitária que caça aranhas no jardim

Pequenos tubos, células ou blocos de barro podem surgir discretamente numa parede, debaixo de um telheiro, numa construção exterior ou numa superfície rochosa protegida. À primeira vista parecem apenas acumulações de lama seca. No entanto, algumas destas estruturas são ninhos cuidadosamente construídos por uma vespa solitária.

O nome vespa-pedreira, tal como “vespa de barro”, não identifica necessariamente uma única espécie. Estes nomes comuns podem ser utilizados regionalmente para diferentes vespas que constroem ou fecham ninhos com barro, e os detalhes do comportamento variam entre grupos.

Entre os exemplos mais conhecidos encontram-se espécies do género Sceliphron. As fêmeas destas vespas constroem células de barro e capturam aranhas, que são paralisadas e armazenadas como alimento para as futuras larvas. Em Portugal estão documentadas diferentes espécies deste género, incluindo a nativa Sceliphron spirifex e espécies introduzidas.

Índice

  1. O que é uma vespa-pedreira
  2. Porque estas vespas constroem ninhos com barro
  3. O interior de um ninho é mais complexo do que parece
  4. Porque algumas vespas-pedreiras caçam aranhas
  5. A aranha não é normalmente morta imediatamente
  6. O ferrão é principalmente uma ferramenta de caça
  7. Vespa solitária e vespa social: diferenças importantes
  8. Do ovo à vespa adulta
  9. O que acontece aos ninhos durante o inverno
  10. Devemos remover os ninhos de barro
  11. Estas vespas controlam realmente as aranhas do jardim
  12. Quantas aranhas pode uma vespa capturar
  13. Vespas-pedreiras em Portugal
  14. Como favorecer vespas solitárias no jardim
  15. Uma pequena construção que revela uma cadeia alimentar inteira
  16. Perguntas frequentes

O que é uma vespa-pedreira

“Vespa-pedreira” não deve ser tratado como se fosse o nome inequívoco de uma única espécie. Expressões como vespa de barro ou mud-dauber são aplicadas a diferentes vespas solitárias que utilizam terra húmida na construção dos ninhos.

O género Sceliphron, da família Sphecidae, constitui um exemplo particularmente relevante. As fêmeas constroem ninhos com barro e aprovisionam as células com aranhas capturadas antes de depositarem os ovos.

Estas vespas diferem bastante das vespas sociais que formam grandes colónias. Uma fêmea de Sceliphron trabalha essencialmente sozinha: procura material, constrói a célula, caça, transporta as presas e prepara o alimento necessário para a descendência.

Não existe uma numerosa população de operárias encarregada de alimentar continuamente as larvas. A mãe deixa os recursos necessários dentro da célula antes de a fechar.

Porque estas vespas constroem ninhos com barro

A construção começa com algo extremamente simples: solo húmido.

A fêmea procura uma fonte adequada de lama, recolhe uma pequena quantidade e transporta-a até ao local escolhido. A operação é repetida inúmeras vezes.

O barro é trabalhado progressivamente para formar as paredes das células. Uma investigação sobre ninhos de Sceliphron spirifex mostrou que as células são construídas concentricamente em torno do espaço interior e encontrou evidências de recolha de material em vários locais diferentes para um mesmo ninho.

A arquitetura varia entre espécies.

Algumas constroem estruturas bastante evidentes diretamente sobre paredes, rochas ou construções. Outras podem aproveitar cavidades preexistentes e utilizar barro para separar células ou fechar entradas.

Locais protegidos da chuva e de perturbações físicas oferecem vantagens óbvias, o que ajuda a explicar a presença frequente destas estruturas em edifícios.

O interior de um ninho é mais complexo do que parece

Uma célula fechada contém o resultado de várias etapas de trabalho realizadas pela fêmea.

A sequência geral começa com a preparação da célula. Segue-se a procura de presas, normalmente aranhas no caso de Sceliphron, que são capturadas e transportadas individualmente.

As presas são colocadas dentro da célula até existir alimento suficiente para a futura larva. A fêmea deposita então um ovo e fecha o compartimento com barro.

O processo pode ser resumido assim:

  1. construção ou preparação da célula;
  2. localização de aranhas;
  3. captura e imobilização das presas;
  4. transporte até ao ninho;
  5. armazenamento das aranhas;
  6. postura do ovo;
  7. selagem da célula;
  8. desenvolvimento independente da descendência.

Depois de terminar uma célula, a fêmea pode iniciar outra.

Os detalhes da arquitetura, número de células e quantidade de alimento não são universais. Dependem da espécie e das circunstâncias em que o ninho é construído.

Porque algumas vespas-pedreiras caçam aranhas

As aranhas armazenadas não são alimento destinado principalmente à vespa adulta. Constituem provisões para as larvas.

Em Sceliphron, a caça também não é necessariamente indiscriminada. Estudos demonstram que diferentes espécies podem apresentar preferências claras por determinados grupos de aranhas.

Uma investigação realizada no norte de Itália comparou as presas presentes em ninhos de Sceliphron spirifex e Sceliphron caementarium com as aranhas disponíveis no ambiente. As vespas selecionaram preferencialmente membros da família Araneidae, sobretudo aranhas associadas a teias orbiculares, apesar de outros grupos serem abundantes na área estudada.

Até o tamanho e a idade das presas podem influenciar a seleção. Nesse estudo, aranhas juvenis foram capturadas preferencialmente.

Outras espécies apresentam padrões diferentes. Sceliphron formosum, estudada na Austrália, capturava principalmente aranhas caçadoras terrestres, com Salticidae particularmente representadas.

Portanto, não existe fundamento para afirmar que todas as vespas de barro eliminam qualquer aranha que encontrem.

A aranha não é normalmente morta imediatamente

Aqui encontramos uma das características mais extraordinárias desta estratégia reprodutiva.

A fêmea utiliza o ferrão para inocular veneno na presa. Em vez de simplesmente matar e abandonar a aranha, consegue imobilizá-la ou paralisá-la antes do transporte.

A presa é então levada para a célula.

Esta estratégia permite disponibilizar tecido animal relativamente fresco para uma larva que ainda não começou a alimentar-se. Depois da eclosão, a larva encontra dentro da célula as provisões que a mãe preparou anteriormente.

Não é necessário atribuir intenção humana a este comportamento. Trata-se de uma estratégia de aprovisionamento resultante da evolução do comportamento predatório e reprodutivo destas vespas.

O ferrão é principalmente uma ferramenta de caça

Nas fêmeas destas vespas, o ferrão desempenha um papel fundamental na captura das presas.

Isso ajuda também a compreender a relação com as pessoas. Uma vespa solitária não possui uma grande colónia de operárias nem um ninho social que centenas ou milhares de indivíduos tenham de defender.

Não devemos, contudo, transformar isto na afirmação de que estas vespas são incapazes de picar.

Uma fêmea equipada com ferrão pode potencialmente utilizá-lo defensivamente se for agarrada, esmagada ou diretamente ameaçada. A FCT NOVA descreve Sceliphron caementarium como uma vespa solitária e geralmente dócil, salientando que os episódios de picada são pouco frequentes.

Por isso, a afirmação “0 ataques a humanos” não é cientificamente adequada. Baixa propensão para ferroar pessoas não significa impossibilidade biológica.

Vespa solitária e vespa social: diferenças importantes

Uma vespa solitária trabalha essencialmente por conta própria na reprodução. Não existe uma grande sociedade organizada em rainha e numerosas operárias responsáveis pela manutenção coletiva do ninho.

Em espécies como Sceliphron, cada fêmea constrói e aprovisiona células destinadas à sua própria descendência. A larva recebe alimento previamente armazenado.

Nas vespas sociais, pelo contrário, várias gerações podem coexistir numa colónia, com divisão de tarefas e alimentação das larvas por adultos.

O comportamento defensivo também pode diferir substancialmente. Defender uma grande colónia social não é biologicamente equivalente a proteger uma célula individual construída por uma vespa solitária.

Isto não significa que todas as vespas sociais sejam “agressivas” nem que todas as solitárias sejam “inofensivas”. São sistemas sociais e estratégias ecológicas diferentes.

Do ovo à vespa adulta

O ciclo segue a sequência típica dos insetos com metamorfose completa:

ovo → larva → pupa → adulto.

Quando o ovo eclode, a larva começa a consumir as presas armazenadas dentro da célula. Não precisa que a mãe regresse diariamente com alimento.

Depois de completar o crescimento larvar, entra na fase de pupa. A transformação para adulto ocorre protegida no interior do ninho.

Dependendo da espécie, época e condições ambientais, o desenvolvimento pode incluir um período prolongado de repouso ou diapausa. Em regiões temperadas, parte do ciclo pode decorrer durante a estação desfavorável dentro da própria célula.

Quando o adulto está preparado para emergir, abre caminho através da estrutura que o separa do exterior.

O que acontece aos ninhos durante o inverno

Um conjunto de tubos ou células aparentemente imóvel pode encontrar-se em estados muito diferentes.

Uma célula completamente selada pode conter um indivíduo em desenvolvimento. Outra pode estar vazia. Um orifício visível pode ser resultado da emergência anterior de um adulto ou da atividade de outro organismo associado ao ninho.

Por isso, “tubo aberto = momento para remover” é uma regra demasiado simplista.

Um ninho antigo pode ainda conter células intactas ao lado de outras já abandonadas. Além disso, ninhos de vespas solitárias podem ser utilizados ou explorados por outros insetos.

Um estudo de mais de 650 ninhos de Sceliphron formosum encontrou uma comunidade surpreendentemente diversa associada às estruturas, incluindo representantes de 16 famílias e 23 espécies de insetos.

Quando um ninho não está a causar qualquer problema, não existe geralmente necessidade ecológica de o destruir apenas porque é visível.

Devemos remover os ninhos de barro

Na maioria das situações em que o ninho se encontra numa parede exterior, anexo ou outra zona onde não interfere com pessoas ou equipamentos, deixá-lo intacto é a opção menos perturbadora.

Se estiver numa localização problemática, o primeiro passo deve ser perceber se existe atividade e, quando possível, identificar o organismo responsável.

A identificação é particularmente importante porque nem toda a estrutura de barro pertence à mesma espécie ou sequer ao mesmo grupo de insetos.

Também não é aconselhável abrir células apenas para verificar o seu conteúdo. Uma estrutura aparentemente imóvel pode conter larvas ou pupas em desenvolvimento.

Em áreas protegidas ou perante espécies cuja situação legal seja desconhecida, devem ser verificadas as regras aplicáveis antes de qualquer intervenção.

Estas vespas controlam realmente as aranhas do jardim

As vespas de Sceliphron capturam aranhas. Isso é um facto ecológico bem documentado.

Transformar essa interação na promessa de “controlo de aranhas”, contudo, seria enganador.

As próprias aranhas são predadores importantes. Capturam moscas, mosquitos, pequenos insetos e numerosos outros artrópodes, fazendo parte das redes alimentares naturais do jardim.

A relação não deve, portanto, ser apresentada como:

vespa = útil
aranha = prejudicial.

Ambas são predadoras e ambas desempenham funções ecológicas. A vespa simplesmente ocupa um nível adicional nessa rede ao utilizar determinadas aranhas como alimento para a sua descendência.

Quantas aranhas pode uma vespa capturar

Não existe suporte para utilizar “1.000 aranhas” como valor padrão para uma vespa-pedreira.

Existem, porém, números científicos para espécies e estudos concretos.

Polidori e colaboradores analisaram ninhos de Sceliphron spirifex no norte de Itália. Cada célula estudada continha entre 6 e 14 aranhas, pertencentes a quatro famílias, com Araneidae particularmente representada.

Outro estudo, realizado com Sceliphron formosum na Austrália, encontrou entre 4 e 30 aranhas por célula, com uma média de aproximadamente 14 nas células analisadas.

Estes resultados mostram precisamente por que não devemos extrapolar.

O número pode depender da espécie da vespa, tamanho das aranhas, dimensões da célula, disponibilidade local de presas e outros fatores. Em determinadas espécies, o sexo da descendência também pode relacionar-se com diferenças no investimento parental.

Além disso, “aranhas por célula”, “aranhas por ninho” e “aranhas capturadas durante toda a vida reprodutiva de uma fêmea” são três medidas completamente diferentes.

Um número observado numa célula não deve ser multiplicado arbitrariamente para produzir uma estimativa espetacular.

Vespas-pedreiras em Portugal

Portugal possui exemplos documentados de vespas construtoras de barro do género Sceliphron.

Sceliphron spirifex

Sceliphron spirifex é uma espécie distribuída pelo sul da Europa e outras regiões do Velho Mundo e encontra-se registada em Portugal.

É uma construtora de ninhos de barro e utiliza aranhas para aprovisionar as células. Estudos europeus desta espécie encontraram forte representação de Araneidae entre as presas.

Sceliphron caementarium

Sceliphron caementarium é originária da América do Norte e Central e foi introduzida em várias partes do mundo.

A FCT NOVA regista-a em Portugal de norte a sul e refere que a primeira observação portuguesa conhecida ocorreu na década de 1970. Constrói ninhos multicelulares de lama em estruturas humanas e outros locais protegidos e aprovisiona as células com aranhas paralisadas.

Sceliphron curvatum

Outro caso particularmente interessante é Sceliphron curvatum, uma espécie asiática que expandiu a sua distribuição pela Europa.

Um trabalho publicado em 2020 documentou as primeiras ocorrências conhecidas em Portugal nos distritos de Bragança, Coimbra, Faro e Guarda.

A presença de várias espécies reforça a importância de não identificar automaticamente qualquer ninho de barro português como pertencendo a uma espécie específica.

Como favorecer vespas solitárias no jardim

Favorecer estas vespas não significa tentar produzir artificialmente uma grande população de um único predador.

Uma abordagem mais equilibrada consiste em manter diversidade ecológica.

Reduzir a utilização de inseticidas de largo espectro permite preservar vespas, aranhas e muitos outros artrópodes. Uma diversidade de plantas fornece recursos florais aos adultos e sustenta uma comunidade mais ampla de invertebrados.

Pequenas zonas de solo natural e pontos onde exista terra húmida podem disponibilizar material de construção. Estruturas de nidificação já existentes podem permanecer intactas quando não provocam problemas.

Sebes, plantas de diferentes alturas, pequenas áreas menos perturbadas e vegetação diversificada criam igualmente mais micro-habitats.

O objetivo deve ser um jardim capaz de sustentar uma rede alimentar diversificada, não maximizar artificialmente a abundância de uma espécie.

Uma pequena construção que revela uma cadeia alimentar inteira

Um ninho de barro numa parede parece pequeno, mas pode revelar várias relações ecológicas.

As plantas sustentam comunidades de insetos e outros organismos. Muitos desses invertebrados são capturados por aranhas. Algumas dessas aranhas tornam-se, por sua vez, presas de vespas especializadas.

Podemos representar parte dessa rede de forma simplificada:

plantas → pequenos organismos → aranhas → vespas predadoras → outros predadores e parasitoides.

A história também não termina dentro da célula.

O estudo dos ninhos de Sceliphron spirifex encontrou parasitismo associado a dípteros e Ichneumonidae, enquanto investigações noutras espécies revelaram comunidades ainda mais amplas associadas às estruturas de barro.

Aquilo que parece apenas uma pequena massa de terra seca pode, portanto, funcionar como um minúsculo sistema ecológico.

Perguntas frequentes

O que é uma vespa-pedreira?

É um nome comum que pode ser aplicado a diferentes vespas solitárias associadas à construção ou utilização de estruturas de barro. Não corresponde necessariamente a uma única espécie.

A vespa-pedreira vive em colónias?

As espécies de Sceliphron abordadas neste artigo são solitárias. A fêmea constrói e aprovisiona individualmente as células destinadas à descendência.

Porque constrói ninhos de barro?

O barro permite criar células protegidas onde são colocados o ovo e as provisões necessárias ao desenvolvimento da larva.

As vespas de barro comem aranhas?

Em Sceliphron, as fêmeas capturam aranhas principalmente para alimentar as larvas. Os adultos também visitam flores.

Porque colocam aranhas dentro do ninho?

As aranhas funcionam como provisões. Quando a larva emerge, encontra alimento armazenado dentro da célula.

As aranhas armazenadas estão mortas?

Não necessariamente. A fêmea utiliza o ferrão para imobilizar ou paralisar as presas antes de as transportar e armazenar.

A vespa-pedreira pode picar uma pessoa?

Uma fêmea com ferrão pode potencialmente picar se for diretamente ameaçada, agarrada ou esmagada. As espécies solitárias de Sceliphron não defendem grandes colónias da mesma forma que muitas vespas sociais.

Devo remover um ninho de barro da parede?

Se não estiver a causar problemas, pode simplesmente permanecer intacto. Se a localização exigir intervenção, é aconselhável determinar primeiro se está ocupado e, quando possível, identificar a espécie.

Como sei se um ninho ainda está ocupado?

A aparência externa não fornece sempre uma resposta segura. Um orifício pode indicar uma emergência anterior, mas um ninho pode possuir várias células em diferentes estados.

Existem vespas construtoras de barro em Portugal?

Sim. Sceliphron spirifex está presente no território, Sceliphron caementarium encontra-se registada de norte a sul e Sceliphron curvatum também já foi documentada em Portugal.

Conclusão

A vespa-pedreira revela uma das estratégias reprodutivas mais especializadas que podemos encontrar entre os insetos do jardim. Uma única fêmea pode recolher barro, construir células, localizar e capturar aranhas, paralisá-las, transportá-las e deixar alimento suficiente para que cada larva se desenvolva sem cuidados maternos posteriores.

Isso não transforma estas vespas numa solução para “eliminar aranhas”. Estudos mostram que espécies concretas podem selecionar determinados grupos de presas e que o número armazenado varia consideravelmente entre espécies e células.

As aranhas também são predadores importantes. Em vez de dividir o jardim entre organismos “úteis” e “prejudiciais”, é mais correto compreender vespas e aranhas como componentes de uma teia alimentar complexa.

Quando não provocam qualquer problema, pequenos ninhos de barro numa parede ou estrutura protegida podem simplesmente permanecer onde estão. Observados à distância, revelam um comportamento de caça, construção e reprodução extraordinariamente sofisticado que normalmente passa despercebido.