Migração das Andorinhas: Para Onde Vão as Andorinhas de Portugal
Quando o verão começa a aproximar-se do fim, uma mudança discreta ocorre nos céus de Portugal. As andorinhas que durante meses voaram sobre campos, aldeias, rios e cidades começam a concentrar-se em grupos maiores. Muitas pousam lado a lado em fios elétricos, outras reúnem-se perto de zonas húmidas e áreas onde os insetos continuam abundantes.
Estas concentrações fazem parte da preparação para uma das etapas mais exigentes do seu ciclo anual: a migração para sul.
Em Portugal existem várias espécies de andorinhas, incluindo a andorinha-das-chaminés (Hirundo rustica), a andorinha-dos-beirais (Delichon urbicum) e a andorinha-dáurica (Cecropis daurica). Os seus calendários e destinos não são exatamente iguais, mas muitas das aves que nidificam no nosso território são migradoras e passam os meses mais frios em regiões africanas.
A SPEA descreve as andorinhas como visitantes associados à primavera e ao verão, regressando depois para sul no outono. A andorinha-das-chaminés, por exemplo, pode ser observada em Portugal Continental sobretudo entre fevereiro e outubro.
O que acontece antes da migração
A migração não começa simplesmente no momento em que uma andorinha abandona o seu ninho.
Nas semanas anteriores à partida ocorre uma fase de preparação. Depois da reprodução e quando os juvenis já conseguem voar e alimentar-se com maior independência, muitas andorinhas começam a deslocar-se para locais onde existe grande disponibilidade de insetos.
As zonas húmidas podem tornar-se particularmente importantes nesta fase.
Lagoas, estuários, arrozais, margens de rios e outros ambientes ricos em insetos oferecem oportunidades de alimentação. A própria SPEA destaca as grandes concentrações de andorinhas observadas em zonas húmidas antes da migração de outono.
A alimentação é essencial porque migrar exige enormes quantidades de energia.
Ao contrário de aves que conseguem transportar grandes reservas durante toda a viagem, as andorinhas combinam as reservas acumuladas com oportunidades de alimentação ao longo do percurso. Como capturam muitos insetos em voo, condições meteorológicas desfavoráveis podem tornar determinadas etapas particularmente difíceis.
As famosas filas de andorinhas nos fios
Um dos sinais mais conhecidos desta fase são dezenas ou centenas de andorinhas pousadas juntas em cabos e fios.
Estas concentrações não significam necessariamente que todas partirão simultaneamente para África. Funcionam como parte de uma fase mais ampla de agregação e preparação.
Durante esse período, diferentes indivíduos podem continuar a alimentar-se durante o dia e utilizar dormitórios coletivos durante a noite.
Pouco depois, os grupos começam progressivamente a desaparecer da paisagem portuguesa.
Quando partem as andorinhas de Portugal
Não existe uma única data de partida.
A migração ocorre ao longo de várias semanas e depende da espécie, idade das aves, sucesso reprodutor, disponibilidade de alimento e condições meteorológicas.
Na andorinha-das-chaminés, a presença em Portugal estende-se geralmente de fevereiro até outubro.
Algumas aves iniciam a deslocação para sul relativamente cedo, enquanto outras permanecem durante mais tempo.
As condições meteorológicas têm grande influência nestes movimentos. Ventos desfavoráveis podem atrasar temporariamente aves migradoras, enquanto condições favoráveis permitem avançar rapidamente.
A SPEA refere, por exemplo, que no sul de Portugal ventos de sudeste podem impedir pequenos passeriformes migradores de continuar para sul até ocorrer uma mudança do vento.
Por isso, a migração deve ser entendida como um processo flexível e não como uma partida marcada numa data fixa.
Para onde vão as andorinhas portuguesas
Para muitas andorinhas que passam a primavera e o verão na Europa, o destino de inverno encontra-se em África.
A viagem pode levar algumas populações muito para sul do continente africano. O destino exato varia entre espécies e populações, e mesmo indivíduos da mesma espécie podem utilizar diferentes regiões de invernada.
A Península Ibérica encontra-se numa posição privilegiada para as aves que utilizam a rota migratória ocidental.
À medida que avançam para sul através de Portugal e Espanha, muitas aves migradoras aproximam-se do extremo meridional da Península Ibérica. A travessia para África através da região do estreito de Gibraltar permite passar entre os dois continentes através de uma faixa marítima relativamente estreita.
Depois de alcançar o norte de África, a viagem continua.
Uma viagem de milhares de quilómetros
O pequeno tamanho de uma andorinha pode tornar esta migração ainda mais impressionante.
Uma ave que pesa apenas algumas dezenas de gramas pode percorrer milhares de quilómetros entre a zona onde se reproduz e a região onde passa o inverno.
Não se trata normalmente de um único voo contínuo.
A viagem é composta por sucessivas etapas. As aves avançam, alimentam-se e podem fazer pausas quando encontram boas condições.
A disponibilidade de insetos ao longo da rota é, portanto, fundamental.
A SPEA salienta que milhões de aves realizam todos os anos deslocações de milhares de quilómetros entre regiões muito diferentes para completar o seu ciclo anual. As andorinhas são um dos exemplos mais familiares deste fenómeno em Portugal.
A travessia para África
Chegar ao Mediterrâneo representa um momento importante da rota.
Voar sobre grandes extensões de água oferece menos oportunidades de alimentação e descanso. Por essa razão, a geografia influencia profundamente as rotas utilizadas por muitas aves.
O estreito de Gibraltar constitui uma das principais ligações naturais entre a Europa ocidental e África para aves migradoras.
Depois de atravessarem para Marrocos, as aves continuam através do continente africano.
Dependendo da população, algumas permanecem em regiões relativamente setentrionais, enquanto outras continuam muito mais para sul.
Durante estes movimentos, as condições meteorológicas, os recursos alimentares e a disponibilidade de locais seguros para repousar podem influenciar tanto a velocidade como o percurso.
Como as andorinhas conseguem navegar
A orientação das aves migradoras é resultado de um sistema extraordinariamente complexo.
Não existe um único mecanismo responsável pela navegação.
As aves podem combinar informação proveniente de diferentes referências naturais, incluindo a posição do Sol, padrões celestes, características da paisagem e sinais associados ao campo magnético terrestre.
A importância relativa de cada mecanismo varia entre espécies e situações.
Os juvenis enfrentam um desafio ainda mais impressionante. Na primeira migração, muitos nunca percorreram anteriormente o caminho até às regiões de invernada.
Parte do comportamento migratório possui uma forte componente inata. Com a experiência, referências geográficas e condições encontradas durante viagens anteriores também podem contribuir para tornar a navegação mais eficiente.
A que altura voam durante a migração
Não existe uma altitude fixa para uma andorinha migradora.
Durante a alimentação diária, as andorinhas podem voar relativamente perto do solo, sobretudo quando os insetos se concentram a baixa altitude. Noutras condições, podem subir consideravelmente.
Durante a migração, a altitude depende do vento, temperatura, topografia, disponibilidade de alimento e condições atmosféricas.
Por isso, números únicos apresentados como “a altitude da migração das andorinhas” são simplificações excessivas.
As aves ajustam constantemente o voo às condições encontradas.
Uma frente meteorológica, vento favorável ou concentração de insetos pode alterar completamente o comportamento de voo ao longo do mesmo dia.
A viagem de regresso na primavera
O ciclo repete-se quando o inverno termina.
As andorinhas começam novamente a deslocar-se para norte, atravessando África e regressando à Europa.
Curiosamente, as rotas de ida e regresso nem sempre são exatamente iguais.
Segundo a SPEA, algumas espécies utilizam uma rota mais direta durante o regresso aos territórios de reprodução. Chegar cedo pode ser vantajoso porque permite ocupar bons locais de nidificação e encontrar parceiros. Durante a migração de outono, por outro lado, a disponibilidade de alimento e de locais de descanso pode ter maior influência na escolha da rota.
É também por isso que as primeiras andorinhas podem surgir em Portugal quando o inverno ainda não terminou completamente.
As datas variam de ano para ano. Dados mencionados pela SPEA mostram essa variabilidade: em determinados anos as primeiras chegadas podem ocorrer muito cedo, enquanto noutros as condições atrasam significativamente o regresso.
A fidelidade ao local do ninho
Um dos aspetos mais fascinantes da vida das andorinhas é a ligação aos locais de reprodução.
Depois de uma viagem de milhares de quilómetros, adultos podem regressar à mesma região e reutilizar locais de nidificação conhecidos.
Esta fidelidade torna os ninhos existentes especialmente importantes.
Um ninho aparentemente abandonado durante o inverno não significa necessariamente que deixou de ter utilidade. A ausência das aves pode simplesmente refletir o período migratório.
Na primavera seguinte, aquele mesmo local pode voltar a integrar uma colónia ativa.
Preservar ninhos e estruturas adequadas nos edifícios ajuda, portanto, a manter locais de reprodução disponíveis.
Andorinhas-dos-beirais e edifícios

A relação entre seres humanos e andorinhas é particularmente evidente nas espécies que nidificam em construções.
Beirais, varandas e fachadas protegidas podem fornecer superfícies adequadas para a instalação dos característicos ninhos construídos com pequenas porções de lama.
Em áreas urbanizadas, estes locais podem ser importantes porque estruturas naturais equivalentes nem sempre estão disponíveis.
O problema surge quando os ninhos são destruídos devido à sujidade causada pelas dejeções ou durante obras em edifícios.
Em Portugal, a proteção legal destes ninhos deve ser levada a sério.
É permitido retirar ninhos de andorinha
A destruição de ninhos de aves selvagens está sujeita à legislação portuguesa.
Segundo a SPEA, ao abrigo do Decreto-Lei n.º 140/99, é proibido destruir, danificar, recolher ou deter ninhos e ovos de espécies de aves que ocorram naturalmente em estado selvagem em Portugal, incluindo ninhos vazios.
Existem situações excecionais em que a remoção pode ser autorizada, nomeadamente por razões devidamente justificadas relacionadas com obras ou saúde pública.
Nestes casos é necessária autorização.
O manual de procedimentos do ICNF estabelece um processo de licenciamento para remoção de ninhos e indica, para andorinhas e cegonha-branca, o período entre 1 de setembro e 31 de dezembro como época prevista para remoções devidamente autorizadas. A existência dessa janela não significa autorização automática para retirar ninhos. Continua a ser necessário cumprir o procedimento aplicável.
Como proteger os ninhos nos beirais
Conviver com uma colónia de andorinhas é geralmente possível sem destruir os ninhos.
Quando o principal problema são as dejeções acumuladas por baixo da colónia, pode instalar-se uma pequena plataforma ou estrutura coletora a alguma distância abaixo dos ninhos.
A SPEA recomenda este tipo de solução como alternativa à remoção.
Também é importante evitar obras junto de ninhos ocupados durante a reprodução.
A utilização indiscriminada de inseticidas deve igualmente ser reduzida. As andorinhas dependem diretamente dos insetos voadores para se alimentarem e alimentarem as crias.
Jardins e espaços verdes com maior diversidade vegetal e menor utilização de pesticidas ajudam a criar ambientes mais favoráveis às aves e aos insetos de que dependem. A SPEA recomenda explicitamente evitar pesticidas e herbicidas e nunca remover ou danificar ninhos de andorinha.
As andorinhas estão a desaparecer de Portugal
A situação não é igual para todas as espécies.
Os dados mais recentes divulgados pela SPEA mostram diferenças importantes. Segundo os resultados do Censo de Aves Comuns referidos pela organização, entre 2004 e 2024 a população portuguesa de andorinha-dos-beirais apresentou uma tendência estável. A andorinha-dáurica também aparece como estável em Portugal, enquanto a andorinha-das-chaminés apresenta um declínio moderado, com uma diminuição estimada em 45% no país durante esse período.
Estas diferenças mostram por que motivo observações ocasionais de mais ou menos aves num determinado ano não são suficientes para determinar a evolução de uma população.
São necessárias séries de dados recolhidos durante muitos anos.
Migração, clima e disponibilidade de alimento
As alterações climáticas acrescentam outra variável ao ciclo migratório.
Temperaturas, precipitação e abundância de insetos podem influenciar tanto os locais de reprodução como as regiões africanas de invernada e os pontos utilizados durante a viagem.
A SPEA salienta que já foram identificadas alterações nos calendários de chegada de alguns migradores de longa distância. No entanto, estabelecer relações diretas exige estudos prolongados, porque as condições meteorológicas e alimentares nas zonas de invernada também podem alterar significativamente as datas de partida.
Uma primavera antecipada na Europa, por exemplo, pode modificar o período de maior disponibilidade de determinados insetos.
Para uma ave migradora, sincronizar reprodução e abundância de alimento é fundamental.
Perguntas frequentes
Todas as andorinhas portuguesas vão para África
Muitas das andorinhas que nidificam em Portugal são migradoras e deslocam-se para África durante o período não reprodutor. O destino e o comportamento exatos variam conforme a espécie e a população.
Em que mês começam a desaparecer de Portugal
A migração para sul intensifica-se no final do verão e durante o outono. Na andorinha-das-chaminés, por exemplo, a presença habitual em Portugal Continental situa-se aproximadamente entre fevereiro e outubro.
Quantos quilómetros consegue viajar uma andorinha
Dependendo da origem e do destino de invernada, a deslocação sazonal pode envolver milhares de quilómetros. A distância total varia significativamente entre populações.
As andorinhas fazem toda a viagem sem parar
Não. A migração inclui períodos de deslocação intercalados com alimentação e repouso. Locais ricos em insetos ao longo da rota são especialmente importantes.
As andorinhas regressam ao mesmo ninho
Adultos podem apresentar forte fidelidade aos locais de reprodução e reutilizar áreas e estruturas de nidificação conhecidas. Por isso, um ninho vazio durante o inverno pode voltar a ser ocupado na época seguinte.
Um ninho vazio pode ser retirado
O facto de estar vazio não significa que possa ser removido livremente. A SPEA esclarece que a legislação portuguesa protege também ninhos vazios de aves selvagens abrangidas. Situações excecionais de remoção dependem da autorização adequada.
Como evitar a sujidade debaixo dos ninhos
Uma solução simples consiste em colocar uma pequena plataforma coletora abaixo do ninho, mantendo distância suficiente para não bloquear o acesso das aves. Esta alternativa permite proteger a fachada sem destruir a estrutura de nidificação.
Uma viagem que liga Portugal a África
As andorinhas que vemos sobre uma aldeia portuguesa durante o verão fazem parte de um sistema ecológico que atravessa continentes.
Depois de criarem os juvenis, alimentarem-se intensamente e se reunirem em grandes grupos, muitas iniciam a viagem para sul. Atravessam diferentes paisagens, enfrentam mudanças meteorológicas e percorrem milhares de quilómetros até às regiões onde passarão os meses seguintes.
Meses depois, o processo inverte-se.
Algumas regressam às mesmas localidades portuguesas e voltam a ocupar áreas de nidificação utilizadas anteriormente.
Proteger um simples ninho de lama debaixo de um beiral significa, por isso, conservar uma pequena peça de uma extraordinária rota migratória que todos os anos liga Portugal ao continente africano.