6 animais que passam o inverno no jardim: porque deve deixar folhas secas, caules e solo intactos

Quando chega o outono, muitas pessoas começam a limpar os canteiros, cortar flores secas e retirar as folhas acumuladas no jardim. No entanto, entre esses materiais aparentemente sem vida podem encontrar-se diversos animais que passam o inverno no jardim, protegidos do frio, do vento e de outras condições desfavoráveis.

Algumas abelhas solitárias desenvolvem-se dentro de caules, determinadas borboletas permanecem na fase de crisálida e os louva-a-deus deixam os ovos protegidos em estruturas especiais. Entre as folhas e no solo também podem existir lagartas, larvas de pirilampos e rainhas de mamangavas.

Estes organismos não passam todos o inverno da mesma maneira. Alguns permanecem numa fase juvenil, outros entram em dormência e determinadas espécies continuam ativas nos dias mais amenos.

Conservar pequenas áreas de vegetação seca, folhas caídas e solo pouco perturbado pode contribuir para a biodiversidade. O objetivo não é abandonar a manutenção do jardim, mas adaptá-la às necessidades dos animais e às condições de segurança.

[Inserir imagem — Texto alternativo: Seis animais que passam o inverno num canteiro, incluindo abelha solitária em caule seco, crisálida de borboleta, ovos de louva-a-deus, lagarta entre folhas, larva de pirilampo e rainha de mamangava abrigada no solo]

Índice

  1. Animais que passam o inverno no jardim
  2. Dormência e estratégias de sobrevivência
  3. Três camadas de abrigo nos canteiros
  4. Abelhas solitárias nos caules
  5. Crisálidas de borboletas
  6. Ovos de louva-a-deus
  7. Lagartas entre folhas secas
  8. Larvas de pirilampos
  9. Rainhas de mamangavas
  10. A importância das folhas, caules e solo
  11. Manutenção de outono e primavera
  12. Biodiversidade e segurança
  13. Tabela comparativa
  14. Mitos comuns
  15. Conclusão

Animais que passam o inverno no jardim: a vida escondida nos canteiros

Durante o inverno, muitos jardins parecem apresentar pouca atividade. As flores desaparecem, algumas plantas perdem a parte aérea e numerosos insetos deixam de ser visíveis.

Contudo, a ausência de movimento não significa ausência de vida. Ovos, larvas, pupas e adultos podem permanecer protegidos entre materiais vegetais, dentro de cavidades ou sob a superfície do solo.

Estes refúgios ajudam a moderar as oscilações de temperatura, conservar alguma humidade e reduzir a exposição a predadores.

A Xerces Society explica a importância das folhas, caules e outros abrigos de inverno para numerosos invertebrados. Xerces Society

O que acontece aos insetos quando chega o frio

Os insetos são animais ectotérmicos: a sua temperatura corporal e atividade fisiológica são fortemente influenciadas pelo ambiente.

Quando as condições se tornam desfavoráveis, algumas espécies reduzem a atividade ou interrompem temporariamente o desenvolvimento.

A diapausa é um estado fisiológico regulado que pode preparar o organismo para uma estação desfavorável. A quiescência corresponde geralmente a uma redução da atividade em resposta mais direta às condições ambientais.

Estes processos não são todos equivalentes à hibernação dos mamíferos. Além disso, certas espécies continuam a alimentar-se e deslocar-se durante períodos amenos do inverno.

Três camadas de abrigo num único canteiro

Favourite winter seedheads for wildlife

Caules secos

Podem oferecer cavidades para determinadas abelhas solitárias, pontos de fixação para ovos e crisálidas e proteção para pequenos invertebrados.

Hortensien mulchen: 3 Laubarten sind der perfekte Winterschutz

Folhas caídas

Criam uma camada protetora utilizada por certos insetos, larvas e outros organismos associados ao solo.

Are Honey Bees Native To New Zealand? The Surprising 1839 Origin Story – The Aotearoa Archive

Solo

Pode abrigar fases juvenis, pupas, ninhos de abelhas terrestres e rainhas de mamangavas em dormência.

Estas três camadas devem ser geridas de forma complementar. Nem todos os organismos procuram os mesmos locais ou necessitam das mesmas condições.

1. Abelhas solitárias que utilizam caules secos

Algumas abelhas solitárias constroem ninhos em cavidades existentes na madeira ou em caules ocos. Outras conseguem escavar materiais vegetais com interior macio.

Entre os grupos que apresentam diferentes formas de nidificação encontram-se espécies dos géneros Osmia, Megachile e Ceratina.

As fêmeas podem preparar células com reservas de pólen, nas quais depositam os ovos. Dependendo da espécie, os descendentes permanecem no ninho durante parte do desenvolvimento e podem passar o inverno como imaturos ou adultos.

Nem todas as abelhas utilizam caules

Muitas abelhas solitárias constroem ninhos diretamente no solo, aproveitando terrenos bem drenados, expostos ao sol e com pouca vegetação.

Por isso, cobrir todas as superfícies com folhas ou cobertura vegetal espessa pode eliminar oportunidades para algumas espécies terrestres.

A diversidade é mais importante do que repetir o mesmo tipo de abrigo em todo o jardim. Xerces Society

2. Crisálidas de borboletas protegidas na vegetação

As borboletas apresentam metamorfose completa: passam pelas fases de ovo, lagarta, pupa e adulto.

A crisálida corresponde à fase de pupa, durante a qual ocorre uma transformação profunda do organismo. Não é simplesmente uma borboleta adulta adormecida.

Algumas espécies permanecem nesta fase durante o inverno, fixadas a ramos, caules ou outras superfícies protegidas.

A borboleta-cauda-de-andorinha em Portugal

A borboleta-cauda-de-andorinha (Papilio machaon) ocorre em Portugal e utiliza plantas como o funcho (Foeniculum vulgare) e certas arrudas como alimento para as lagartas.

Esta espécie pode atravessar o inverno na fase de crisálida, de coloração verde ou acastanhada, presa a uma estrutura de suporte. Museu Virtual Biodiversidade

Cortar indiscriminadamente a vegetação pode danificar crisálidas difíceis de distinguir dos próprios caules.

Contudo, nem todas as borboletas passam o inverno nesta fase. Algumas espécies utilizam ovos, lagartas ou adultos como estratégia de sobrevivência.

3. Ovos de louva-a-deus dentro de ootecas

Os louva-a-deus são predadores de outros artrópodes, incluindo insetos que encontram entre flores e vegetação.

Espécies como Mantis religiosa, presente em Portugal, depositam os ovos numa estrutura protetora denominada ooteca.

A fêmea produz um material espumoso que endurece e envolve os ovos. A ooteca pode ficar fixada a ramos, caules ou outras superfícies.

Em determinadas espécies e condições, os ovos permanecem protegidos durante o inverno e as pequenas ninfas surgem quando o desenvolvimento fica completo.

Uma ooteca não contém um louva-a-deus adulto a dormir. Também não deve ser arrancada ou aberta para observar o interior.

4. Lagartas escondidas entre folhas caídas

Algumas traças, ou borboletas noturnas, passam o inverno na fase larvar, escondidas entre folhas secas e vegetação próxima do solo.

A folhada pode proporcionar camuflagem e atenuar a exposição direta ao vento e às oscilações térmicas.

As conhecidas lagartas lanosas utilizadas em materiais educativos norte-americanos representam determinadas espécies daquele continente. Não devem ser automaticamente identificadas com lagartas encontradas em Portugal.

Atenção às lagartas com pelos

Nem todas as lagartas peludas são inofensivas. Algumas apresentam pelos urticantes capazes de provocar irritação da pele e outras reações.

Em Portugal, a processionária-do-pinheiro (Thaumetopoea pityocampa) exige especial precaução, sobretudo pela possibilidade de contacto com pelos urticantes.

Não deve ser apresentada como uma lagarta lanosa inofensiva da folhada. Crianças e animais domésticos devem ser mantidos afastados de lagartas desconhecidas.

5. Larvas de pirilampos entre folhas e solo

Os pirilampos pertencem à família Lampyridae e apresentam ciclos de vida que incluem fases larvares frequentemente associadas a ambientes húmidos.

Em determinadas espécies, as larvas passam períodos desfavoráveis protegidas entre vegetação, folhas caídas e micro-habitats próximos do solo.

O pirilampo-ibérico (Lampyris iberica), documentado em Portugal, está associado a ambientes com humidade e disponibilidade de pequenos moluscos.

As suas larvas podem alimentar-se de caracóis e lesmas, mas isso não significa que eliminem todas as populações destes animais. Lampyris

A manutenção de vegetação diversa, a redução de pesticidas desnecessários e a limitação da iluminação artificial excessiva podem favorecer diferentes espécies de pirilampos.

6. Rainhas de mamangavas abrigadas no inverno

As mamangavas, do género Bombus, são importantes visitantes de flores e incluem diversas espécies presentes em Portugal.

Em muitas espécies temperadas, as colónias desenvolvem-se durante a estação favorável. No final do ciclo, as novas rainhas acasalam e procuram locais protegidos para atravessar o período desfavorável.

Podem utilizar solo pouco perturbado, cavidades, vegetação densa e outros abrigos adequados.

A Bumblebee Conservation Trust descreve o ciclo anual das mamangavas e a dormência das novas rainhas. bumblebeeconservation.org

A primavera e o início de novas colónias

Quando regressam condições adequadas, as rainhas podem sair dos refúgios e procurar flores.

O néctar fornece energia, enquanto o pólen é importante para o desenvolvimento das crias depois do estabelecimento do ninho.

Por isso, a disponibilidade de flores precoces pode apoiar o início de novas colónias.

Nem todas as mamangavas seguem exatamente o mesmo calendário. Em climas amenos, algumas populações podem manter atividade durante parte do inverno. Bumblebee Conservation Trust

Porque as folhas caídas são importantes

As folhas caídas oferecem mais do que matéria orgânica destinada a decompor-se.

Podem proteger pequenos animais da exposição direta ao ambiente, conservar alguma humidade e criar espaços entre os quais os invertebrados encontram refúgio.

Fungos, bactérias e organismos detritívoros participam posteriormente na decomposição, contribuindo para a reciclagem de nutrientes.

A folhada não garante a sobrevivência durante episódios extremos de frio, mas pode proporcionar condições mais estáveis do que o solo totalmente exposto.

A utilização cuidadosa das folhas do relvado

Quando necessário, folhas acumuladas sobre o relvado podem ser transferidas suavemente para canteiros ou áreas de abrigo.

É preferível evitar a trituração indiscriminada em locais onde já possam existir ovos, larvas ou outros organismos.

Parte das folhas pode ser destinada à compostagem, enquanto outra permanece em zonas selecionadas para beneficiar a biodiversidade.

Caules secos e solo pouco perturbado

Os caules secos de determinadas plantas podem continuar úteis muito depois de terminada a floração.

Alguns apresentam cavidades naturais; outros servem de suporte a crisálidas, ootecas e pequenos animais. As inflorescências secas também podem conservar sementes utilizadas por aves.

A imagem de referência sugere caules com aproximadamente 20–60 cm de altura, mas esta indicação não é uma regra científica universal.

A altura adequada depende das plantas, da estabilidade dos caules e das espécies que os utilizam. Manter alturas diferentes pode oferecer maior variedade de micro-habitats.

A importância de não revolver todo o solo

Cavar profundamente um canteiro pode danificar galerias, expor organismos ao ambiente e perturbar estruturas subterrâneas.

Isso não significa que a preparação do terreno seja sempre prejudicial ou desnecessária.

Uma solução equilibrada consiste em manter pequenas zonas de refúgio com perturbação reduzida, reservando outras áreas para cultivo e renovação das plantações.

Como preparar um canteiro amigo dos insetos

Um jardim favorável à biodiversidade deve combinar diferentes condições em vez de ser tratado de forma uniforme.

É possível conservar alguns caules resistentes, manter folhas em zonas protegidas e deixar pequenas superfícies de solo descoberto onde existam condições para abelhas nidificantes.

Também é importante escolher plantas adaptadas à região e proporcionar recursos florais ao longo das estações.

A Royal Horticultural Society recomenda conservar parte das herbáceas perenes durante o inverno, uma vez que os caules e as inflorescências podem oferecer alimento e abrigo à fauna. RHS Advice

Manutenção de primavera sem destruir os refúgios

A limpeza primaveril deve considerar o desenvolvimento das plantas e a emergência dos insetos.

Nem todos os organismos retomam a atividade no primeiro dia quente. Alguns permanecem em desenvolvimento durante períodos mais prolongados.

Em regiões costeiras e no sul de Portugal, determinadas espécies podem apresentar atividade mais precoce do que em áreas interiores ou montanhosas.

Em vez de limpar tudo numa única intervenção, é preferível trabalhar por etapas e conservar alguns refúgios durante mais tempo.

Biodiversidade, segurança e prevenção de incêndios

Um jardim amigo dos animais não precisa de apresentar caminhos obstruídos, drenagem deficiente ou acumulações perigosas de matéria combustível.

Os ramos instáveis devem ser removidos, as plantas gravemente doentes precisam de gestão adequada e as espécies invasoras não devem ser preservadas apenas por oferecerem abrigo.

Em Portugal, sobretudo nas zonas rurais e de interface urbano-florestal, é essencial respeitar as regras aplicáveis à gestão de combustível e à prevenção de incêndios.

A conservação de folhas e caules deve concentrar-se em locais seguros, afastados de fontes de ignição e compatíveis com as exigências de manutenção do terreno.

Tabela comparativa: seis formas de passar o inverno

OrganismoFase possível de invernoRefúgio frequenteCuidado recomendado
Abelhas solitáriasVariável conforme a espécieCavidades em caulesConservar caules adequados
Borboletas-rabo-de-andorinhaCrisálida em certas espéciesVegetação e suportes protegidosEvitar cortes indiscriminados
Louva-a-deusOvosOotecas em ramos e caulesNão destruir as ootecas
Algumas traçasLagartaFolhas e solo superficialPreservar folhada selecionada
PirilamposLarva em diversas espéciesSolo e folhadaReduzir perturbações
MamangavasRainha adulta em muitas espéciesSolo e outros abrigosConservar zonas protegidas

A tabela representa estratégias possíveis, não regras válidas para todas as espécies ou regiões.

Mitos comuns sobre a limpeza dos canteiros

Todos os insetos morrem no inverno. Muitos sobrevivem em diferentes fases de desenvolvimento ou estados de dormência.

Todas as abelhas vivem em colmeias. Numerosas espécies são solitárias e constroem ninhos individuais.

Todas as borboletas passam o inverno como crisálidas. Algumas permanecem como ovos, lagartas ou adultos.

As ootecas contêm louva-a-deus adultos adormecidos. Contêm ovos protegidos.

Todas as lagartas peludas são inofensivas. Algumas apresentam pelos urticantes.

Os pirilampos só são importantes quando brilham. As suas fases larvares também desempenham funções ecológicas.

Todas as rainhas de mamangava passam o inverno no mesmo tipo de buraco. Os locais de dormência variam conforme a espécie e as condições.

Um jardim biodiverso nunca deve ser limpo. A manutenção seletiva é essencial para conciliar conservação, segurança e saúde das plantas.

Como observar a vida escondida sem perturbar

A observação de caules, folhas e solo pode revelar ootecas, crisálidas e pequenos sinais de atividade.

O ideal é utilizar fotografias e observar à distância, sem abrir estruturas ou retirar os animais dos seus abrigos.

Uma ooteca desconhecida ou uma lagarta com pelos não deve ser manipulada para identificação.

Para outros conteúdos sobre jardinagem e conservação da natureza, consulte o Tesouros do Jardim.

Conclusão

Os animais que passam o inverno no jardim utilizam estratégias muito diferentes para sobreviver aos períodos desfavoráveis.

Algumas abelhas desenvolvem-se dentro de caules, determinadas borboletas permanecem como crisálidas e os louva-a-deus deixam os ovos protegidos em ootecas.

Entre as folhas e o solo, também podem existir lagartas, larvas de pirilampos e rainhas de mamangavas.

Conservar algumas áreas de vegetação seca, folhada e solo pouco perturbado contribui para disponibilizar habitats, desde que estas práticas sejam compatíveis com a segurança, a drenagem e a gestão responsável do jardim.

A manutenção seletiva permite proteger pequenos organismos sem abandonar os cuidados necessários às plantas e aos espaços exteriores.

Um canteiro que parece vazio durante o inverno pode estar cheio de vida. Preservar alguns caules, folhas e áreas de solo intacto ajuda pequenos animais a completar os seus ciclos naturais.