Com a chegada do outono, é fácil assumir que a época das borboletas terminou. No entanto, outubro ainda pode proporcionar boas observações em Portugal, sobretudo durante dias secos, amenos e soalheiros. Algumas espécies continuam a alimentar-se, outras pertencem a gerações tardias e existem ainda borboletas envolvidas em movimentos migratórios.
Falar de borboletas em outubro em Portugal não significa, portanto, falar apenas de indivíduos que conseguiram “sobreviver ao verão”. Cada espécie possui um ciclo próprio. Algumas passam o inverno como adultas, enquanto outras atravessam os meses desfavoráveis como ovo, lagarta ou crisálida.
Entre os exemplos mais interessantes encontram-se a borboleta-limão (Gonepteryx rhamni), capaz de passar o inverno como adulta, e a bela-dama (Vanessa cardui), uma extraordinária migradora cujos movimentos ligam diferentes regiões da Europa e de África.
Índice
- Porque ainda existem borboletas em outubro
- Borboleta-limão: uma especialista em sobreviver ao inverno
- Bela-dama: uma viajante de longa distância
- Outras borboletas que podem continuar ativas no outono português
- Nem todas as borboletas passam o inverno da mesma forma
- Migração ou hibernação: duas estratégias muito diferentes
- As últimas flores tornam-se importantes no outono
- O que acontece quando chegam os primeiros dias frios
- Porque não devemos limpar completamente o jardim no outono
- Borboletas como indicadores das mudanças sazonais
- Como observar borboletas de outono
- Outubro no Norte e no Sul de Portugal não é igual
- Perguntas frequentes
Porque ainda existem borboletas em outubro
As borboletas são animais ectotérmicos. A temperatura corporal e a capacidade de atividade dependem fortemente das condições ambientais, razão pela qual o sol e a temperatura influenciam tanto aquilo que conseguimos observar.
Isso não significa que exista uma temperatura única abaixo da qual todas as espécies deixam de voar. Tamanho, comportamento, espécie, vento, exposição solar e microclima modificam as condições necessárias à atividade.
Um local protegido e soalheiro pode permitir atividade num dia em que uma encosta exposta ao vento permanece praticamente sem borboletas. Altitude e latitude acrescentam ainda mais variação.
A disponibilidade de flores também é importante. Uma borboleta adulta ativa no final da estação precisa de encontrar recursos energéticos, especialmente quando ainda está a alimentar-se ou a preparar-se para outra fase do seu ciclo.
Por estas razões, um período frio em setembro não significa necessariamente o fim definitivo das observações. Se outubro trouxer novamente dias amenos e soalheiros, algumas espécies podem voltar a tornar-se visíveis.
Borboleta-limão: uma especialista em sobreviver ao inverno
A borboleta-limão (Gonepteryx rhamni) é uma das espécies mais interessantes para compreender a transição entre outono e inverno.
Em Portugal, a espécie está documentada e é conhecida precisamente como borboleta-limão.
É facilmente reconhecível pela forma característica das asas, com extremidades angulosas que lhe dão uma silhueta bastante diferente da maioria das outras borboletas comuns. Os machos apresentam normalmente uma coloração amarela mais intensa, enquanto as fêmeas são bastante mais claras.
A característica mais importante para o tema do outono é a sua estratégia de sobrevivência.
Gonepteryx rhamni passa o inverno na fase adulta. Os adultos da nova geração podem surgir durante o verão e, posteriormente, procurar locais protegidos na vegetação para atravessar os meses frios. A espécie é conhecida pela sua longevidade invulgar entre borboletas.
Durante períodos suficientemente amenos, um adulto pode voltar a tornar-se ativo. É uma das razões pelas quais esta espécie pode aparecer fora daquilo que imaginamos como a “época normal” das borboletas.
Dizer que é “uma das últimas borboletas ativas” é uma simplificação útil, mas não uma classificação absoluta. Outras espécies também podem ser observadas tarde no ano.
Bela-dama: uma viajante de longa distância
A bela-dama (Vanessa cardui), também conhecida internacionalmente como painted lady, utiliza uma estratégia completamente diferente.
O guia de campo do Tagis regista-a em Portugal Continental, Madeira e Açores, com observações indicadas entre março e outubro, identificando-a como espécie migradora.
As suas asas combinam tons alaranjados, castanhos, pretos e áreas claras, formando um padrão característico. Pode ocupar uma grande variedade de habitats abertos.
Mas aquilo que torna Vanessa cardui especialmente interessante é a escala das suas migrações.
Não devemos imaginar uma única borboleta a sair de África, viajar pela Europa e depois regressar ao ponto inicial. O ciclo migratório é multigeracional: diferentes gerações realizam diferentes etapas de movimentos que, no conjunto, podem abranger enormes distâncias.
Investigação com isótopos confirmou movimentos de outono superiores a 4.000 quilómetros entre a Europa e regiões situadas a sul do Sara. Outros estudos documentaram áreas de reprodução afrotropicais e mostraram que várias gerações participam neste extraordinário ciclo anual.
Investigações recentes confirmam ainda que os movimentos de outono não são todos iguais. Existem indivíduos que realizam deslocações relativamente mais curtas para regiões mediterrânicas e outros que atravessam o Mediterrâneo e o Sara.
Assim, uma bela-dama observada em Portugal durante outubro pode fazer parte desta complexa dinâmica migratória, mas não é correto atribuir automaticamente a mesma origem e destino a todos os indivíduos observados.

Outras borboletas que podem continuar ativas no outono português
A diversidade não termina nestas duas espécies. Dependendo da região e das condições meteorológicas, outras borboletas podem permanecer observáveis.
Atalanta — Vanessa atalanta
A atalanta é uma borboleta grande e facilmente reconhecível pelas faixas vermelho-alaranjadas que contrastam com asas predominantemente escuras.
O Tagis indica uma época de voo que abrange quase todo o ano e distribuição por Portugal Continental, Madeira e Açores. É uma espécie migradora e generalista, associada a diferentes habitats.
Estas características tornam possíveis observações tardias, embora isso não signifique atividade constante em todos os locais durante o inverno.
Borboleta-das-couves — Pieris brassicae
A borboleta-das-couves é uma espécie familiar em hortas, terrenos abertos e outros ambientes humanizados.
A Naturdata descreve-a como comum em todo o país e indica adultos em voo entre o final do inverno e o outono, com pelo menos duas gerações anuais.
As asas são predominantemente brancas, com marcações negras evidentes. No inverno, a crisálida constitui uma fase particularmente importante do seu ciclo.
Borboleta-zebra — Iphiclides feisthamelii
Grande e elegante, apresenta asas claras atravessadas por bandas negras e prolongamentos característicos nas asas posteriores.
O guia do Tagis indica a espécie em Portugal Continental e refere um período de observação que pode estender-se de fevereiro a dezembro. Surge em prados, matos e jardins e está frequentemente associada a paisagens onde existem árvores de fruto utilizadas pelas lagartas.
Isso não significa que seja igualmente fácil encontrá-la durante todos esses meses. A abundância varia fortemente ao longo do ano.
Amarela — Colias croceus
Colias croceus é outra espécie documentada em Portugal e encontra-se associada sobretudo a espaços abertos e floridos. O Tagis inclui-a, por exemplo, entre as espécies características observadas na Estação da Biodiversidade de Vale Gonçalinho, em Castro Verde.
É uma espécie migradora e pode produzir várias gerações, circunstâncias que favorecem observações tardias quando as condições permanecem adequadas.
Estas espécies ilustram precisamente por que outubro não deve ser encarado como uma fronteira rígida.
Nem todas as borboletas passam o inverno da mesma forma
Quando uma borboleta deixa de aparecer no jardim, isso não significa necessariamente que o seu ciclo terminou.
Os lepidópteros possuem quatro grandes fases de desenvolvimento: ovo, lagarta, crisálida e adulto. Diferentes espécies atravessam a estação desfavorável em fases diferentes.
Algumas permanecem como ovos durante parte do inverno. Outras sobrevivem como lagartas, frequentemente com atividade muito reduzida. Existem espécies que permanecem na fase de crisálida e outras, como Gonepteryx rhamni, que atravessam o inverno como adultas.
Em muitos insetos, períodos desfavoráveis podem envolver diapausa, um estado fisiológico regulado que reduz ou interrompe temporariamente o desenvolvimento.
Portanto, um jardim aparentemente sem borboletas em janeiro pode continuar a albergar diferentes fases dos seus ciclos de vida.
Migração ou hibernação: duas estratégias muito diferentes
Comparar Gonepteryx rhamni e Vanessa cardui ajuda a perceber como soluções evolutivas muito diferentes podem responder ao mesmo problema sazonal.
A borboleta-limão permanece essencialmente na região e atravessa o inverno como adulta, escondida em locais protegidos.
A bela-dama participa, pelo contrário, num enorme sistema migratório.
Estudos realizados no Norte de África verificaram a chegada de grandes quantidades de Vanessa cardui durante outubro e novembro, coincidindo com alterações sazonais na disponibilidade de recursos.
Outros trabalhos mostraram que o ciclo Europa–África envolve sucessivas gerações e áreas de reprodução distribuídas por uma enorme extensão geográfica.
Uma permanece e resiste. A outra acompanha, através de várias gerações, as mudanças sazonais dos recursos disponíveis em diferentes regiões.
As últimas flores tornam-se importantes no outono
Para as borboletas adultas ainda ativas, encontrar néctar continua a ser importante.
Um jardim com floração escalonada, desde a primavera até ao outono, oferece recursos durante um período mais longo do que outro onde todas as plantas florescem simultaneamente no início do verão.
Espécies e variedades de floração tardia podem desempenhar aqui um papel útil. Plantas aromáticas que ainda mantenham flores, heras em floração, algumas compostas e outras plantas adequadas ao clima e à região podem fornecer néctar durante a transição sazonal.
O princípio mais importante é a diversidade. Uma combinação de plantas com diferentes épocas de floração aumenta a probabilidade de existirem recursos quando as condições permitem atividade.
Também é importante distinguir plantas nectaríferas para os adultos das plantas hospedeiras utilizadas pelas lagartas. Um jardim realmente favorável às borboletas precisa de considerar as duas necessidades.
O que acontece quando chegam os primeiros dias frios
À medida que as temperaturas diminuem, o voo torna-se mais difícil e os períodos adequados à atividade ficam progressivamente mais curtos.
As flores disponíveis também diminuem.
Nesse momento, diferentes espécies seguem caminhos distintos. Algumas já se encontram na fase de ovo, lagarta ou crisálida. Outras procuram micro-habitats protegidos onde os adultos possam permanecer durante períodos desfavoráveis.
Sebes densas, vegetação, cavidades e outros espaços protegidos criam condições microclimáticas diferentes das áreas completamente expostas.
É por isso que deixar de ver borboletas não significa que desapareceram biologicamente da paisagem.
Porque não devemos limpar completamente o jardim no outono
Uma limpeza excessivamente intensa pode remover estruturas utilizadas por numerosos invertebrados.
Folhas acumuladas em locais adequados, caules secos, vegetação herbácea, sebes e pequenas zonas pouco perturbadas aumentam a diversidade estrutural disponível durante o inverno.
Isto não significa que todas as borboletas passem o inverno escondidas debaixo das folhas. Cada espécie utiliza uma estratégia diferente.
Além disso, caules secos e matéria vegetal podem ser importantes para outros insetos, enquanto determinadas borboletas podem depender das suas plantas hospedeiras em fases específicas.
O objetivo não é abandonar completamente a manutenção do jardim. É evitar transformar todo o espaço numa superfície excessivamente limpa e biologicamente uniforme.
Borboletas como indicadores das mudanças sazonais
A data em que uma espécie aparece, atinge o máximo de atividade ou deixa de ser observada faz parte da sua fenologia.
Monitorizar estas datas ao longo de muitos anos permite estudar alterações nas épocas de voo e abundância. É precisamente uma das razões pelas quais programas de monitorização padronizados são importantes.
Em Portugal, os Censos de Borboletas fazem parte do European Butterfly Monitoring Scheme e utilizam contagens regulares em percursos definidos. Os dados recolhidos permitem analisar tendências nas populações e nos seus habitats.
Temperaturas mais elevadas podem modificar períodos de atividade ou o número de gerações de determinadas espécies, mas uma observação isolada não demonstra uma tendência climática.
Encontrar uma borboleta excepcionalmente tarde num único outono representa uma observação. Demonstrar uma alteração climática na fenologia exige séries de dados suficientemente longas.
Como observar borboletas de outono
Os melhores períodos são normalmente dias secos e soalheiros, procurando locais abrigados do vento.
Clareiras, margens de caminhos, prados floridos, jardins e orlas de vegetação podem concentrar atividade. A aproximação deve ser lenta e não é necessário capturar ou manipular o animal para o observar.
Fotografar as duas faces das asas, quando possível, pode ajudar bastante na identificação. Registar a data e a localização aproximada acrescenta valor ao registo.
A ciência cidadã pode transformar estas observações individuais em informação mais útil. Os Censos de Borboletas de Portugal utilizam uma metodologia padronizada integrada no sistema europeu e permitem a participação de voluntários.
Outubro no Norte e no Sul de Portugal não é igual
Portugal Continental apresenta diferenças climáticas suficientes para que outubro não tenha o mesmo significado biológico em todo o território.
Altitude, latitude, proximidade do oceano, orientação da encosta e condições meteorológicas locais modificam temperatura e exposição solar.
Uma borboleta pode continuar ativa numa zona costeira relativamente amena enquanto a mesma espécie apresenta atividade muito reduzida numa região montanhosa onde as noites já são frias.
Também existem diferenças entre anos. Um outubro quente e seco pode produzir padrões de observação muito diferentes de um mês dominado por chuva, vento e temperaturas baixas.
Por isso, qualquer calendário de voo deve ser entendido como uma aproximação fenológica, nunca como garantia de que determinada espécie será encontrada numa data específica.
Perguntas frequentes
Existem borboletas em Portugal durante outubro?
Sim. Diversas espécies podem continuar em voo, sobretudo durante períodos amenos e soalheiros. A presença depende da espécie, região, altitude e condições meteorológicas.
Que borboletas podemos observar no outono?
Entre as espécies documentadas com atividade que pode alcançar o outono encontram-se a borboleta-limão, bela-dama, atalanta, borboleta-das-couves, borboleta-zebra e outras.
A borboleta-limão passa o inverno como adulta?
Sim. Gonepteryx rhamni é uma das espécies europeias que atravessa o inverno na fase adulta.
Para onde migra a bela-dama?
O ciclo migratório liga diferentes regiões da Europa e de África e envolve múltiplas gerações. Durante o outono existem movimentos para sul, incluindo indivíduos que atravessam o Mediterrâneo e o Sara, mas nem todos percorrem exatamente a mesma rota ou distância.
Todas as borboletas hibernam?
Não da mesma forma. Dependendo da espécie, o inverno pode ser atravessado como ovo, lagarta, crisálida ou adulto, enquanto espécies migradoras podem deslocar parte das suas populações para outras regiões.
Onde ficam as borboletas durante o inverno?
Depende da espécie e da fase do ciclo. Podem existir adultos abrigados na vegetação, crisálidas fixadas a estruturas protegidas, lagartas em repouso ou ovos à espera das condições adequadas.
Que flores ajudam as borboletas no outono?
As flores tardias ricas em néctar podem fornecer recursos às espécies ainda ativas. É preferível manter diversidade vegetal e uma sucessão de florações em vez de depender de uma única espécie.
Devemos deixar folhas e plantas secas no jardim?
Manter algumas zonas pouco perturbadas, vegetação e estruturas secas pode beneficiar diferentes invertebrados. Isso não significa que todas as borboletas utilizem diretamente folhas ou caules secos.
Uma borboleta observada no inverno deve ser levada para dentro de casa?
Normalmente não. Algumas espécies passam naturalmente períodos frios como adultas e devem permanecer em condições adequadas ao seu ciclo natural, salvo situações específicas de resgate justificadas.
Conclusão
Outubro representa uma transição, não uma fronteira absoluta para as borboletas em Portugal. Durante períodos favoráveis ainda podemos observar adultos em alimentação, indivíduos pertencentes a gerações tardias e espécies envolvidas em movimentos migratórios.
A borboleta-limão e a bela-dama mostram duas soluções particularmente diferentes. Gonepteryx rhamni consegue atravessar o inverno como adulta, enquanto Vanessa cardui participa num complexo ciclo migratório multigeracional que liga regiões da Europa e de África.
Observar borboletas em outubro em Portugal exige considerar região, altitude e meteorologia, em vez de seguir datas rígidas.
Nos jardins, preservar flores tardias, diversidade vegetal e pequenas zonas pouco perturbadas ajuda a manter recursos e micro-habitats importantes durante esta transição, beneficiando não apenas as borboletas, mas muitos outros invertebrados.