O brame do veado em Portugal: quando a floresta muda de som

No final do verão e início do outono, algumas paisagens portuguesas passam por uma transformação que é mais fácil ouvir do que observar. Durante grande parte do ano, os veados-vermelhos podem permanecer discretos entre floresta, matos e clareiras. Com a aproximação da época reprodutiva, porém, os machos tornam-se muito mais vocais.

É a brama do veado em Portugal, uma das fases mais marcantes do ciclo anual do veado-vermelho (Cervus elaphus). Os bramidos profundos podem propagar-se pela paisagem, mas aquilo que se ouve é apenas uma parte de um complexo sistema de reprodução, comunicação e competição entre machos.

Embora setembro e o início do outono estejam frequentemente associados à brama na Península Ibérica, não existe uma data rígida aplicável a todas as populações. Estudos sobre o veado ibérico situam habitualmente a época reprodutiva entre o início de setembro e meados de outubro, mas o calendário e a intensidade podem variar.

Índice

  1. O que é a brama do veado
  2. Quando começa a brama em Portugal
  3. Porque é que os machos bramem
  4. A brama não é apenas defesa de território
  5. Dos bramidos aos confrontos entre machos
  6. Para que servem as hastes durante a brama
  7. Quanto esforço exige a época reprodutiva
  8. Onde se pode ouvir a brama em Portugal
  9. Porque é mais evidente ao amanhecer e ao anoitecer
  10. Como observar a brama sem perturbar os animais
  11. O que acontece depois da brama
  12. O papel do veado nos ecossistemas portugueses
  13. Porque o som da brama é importante para estudar os veados
  14. Perguntas frequentes

O que é a brama do veado

A palavra “brama” é utilizada tanto para designar o período reprodutivo como, em linguagem corrente, as poderosas vocalizações emitidas pelos machos durante essa fase.

O bramido desempenha várias funções. Permite anunciar a presença do macho, comunicar informação aos rivais e integrar-se na competição pelo acesso às fêmeas. A comunicação vocal funciona em conjunto com postura corporal, dimensão do animal, hastes e outras formas de exibição.

A época reprodutiva altera profundamente o comportamento dos machos. Estudos clássicos sobre Cervus elaphus mostram uma forte associação entre as alterações hormonais sazonais e o aparecimento do comportamento de brama.

Por isso, ouvir um veado bramir não significa simplesmente ouvir um animal “a chamar uma fêmea”. Estamos perante um sistema de comunicação sexual e competitiva muito mais complexo.

Quando começa a brama em Portugal

Na Península Ibérica, a brama está geralmente associada ao final do verão e início do outono. Um estudo sobre veado ibérico refere uma época reprodutiva aproximadamente entre o início de setembro e meados de outubro, enquanto trabalhos sobre vocalizações do veado ibérico indicam que os machos do sul da Europa podem começar a bramir em agosto ou setembro, frequentemente com maior intensidade em setembro.

Não devemos, contudo, transformar estas referências numa espécie de calendário fixo.

O início e a intensidade da atividade reprodutiva podem variar entre populações e anos. Fotoperíodo, condições ambientais, disponibilidade alimentar, estrutura etária e características locais da população podem contribuir para diferenças observadas.

Há ainda variação geográfica dentro da própria espécie. Em populações europeias estudadas mais a norte, a atividade reprodutiva pode atingir o máximo mais tarde do que nas populações ibéricas.

Assim, “setembro e outubro” constitui uma referência sazonal útil para Portugal, mas não uma regra absoluta.

Porque é que os machos bramem

Os bramidos fazem parte da competição reprodutiva.

Um macho não precisa de estar fisicamente junto de outro para comunicar. As vocalizações permitem interações à distância e podem fornecer informação relevante aos outros indivíduos presentes na área.

Isto pode ser particularmente importante durante uma fase em que vários machos competem pelo acesso às fêmeas. Um rival pode ouvir um macho antes de o conseguir observar diretamente.

A vocalização integra-se, portanto, num conjunto de sinais. Bramidos, postura, aproximação, dimensão corporal e hastes podem participar no processo através do qual dois machos se avaliam.

A vantagem deste sistema é importante: a competição nem sempre precisa de chegar ao confronto físico.

A brama não é apenas defesa de território

É frequente encontrar a brama descrita simplesmente como uma “época de defesa de território”. Essa explicação é demasiado limitada.

Durante a época reprodutiva, determinados machos procuram obter e manter acesso a grupos de fêmeas e afastar concorrentes. Isso não significa necessariamente que estejam a defender permanentemente uma parcela fixa da paisagem como acontece em sistemas territoriais clássicos.

O elemento central é a competição reprodutiva.

Um macho pode acompanhar grupos de fêmeas, vigiar movimentos de rivais, vocalizar repetidamente e tentar impedir que outros machos se aproximem. As relações entre os indivíduos também dependem da condição corporal, experiência, idade e contexto social.

Por isso, quando se observa um macho aparentemente a “defender” uma determinada zona, aquilo que está em causa pode ser principalmente o acesso às fêmeas que ali se encontram, e não a posse permanente daquele espaço.

Dos bramidos aos confrontos entre machos

Uma das imagens mais conhecidas da brama mostra dois grandes veados com as hastes entrelaçadas. Embora estes confrontos ocorram, representam apenas uma parte da competição.

A interação pode começar muito antes do contacto.

Os machos detetam-se, vocalizam e aproximam-se. Podem realizar exibições e avaliar o adversário. Quando existe uma diferença suficientemente evidente entre os competidores, um deles pode retirar-se sem que seja necessário lutar.

Em determinados encontros, contudo, a escalada continua.

Os machos podem então utilizar as hastes num confronto direto, empurrando-se mutuamente. Estes combates implicam esforço físico e risco de ferimentos, razão pela qual a capacidade de avaliar um rival antes do contacto pode ter importância considerável.

Nem todos os bramidos terminam numa luta, nem todos os encontros entre machos durante a brama resultam em contacto físico.

Para que servem as hastes durante a brama

No veado, a estrutura ramificada presente na cabeça dos machos chama-se haste, não corno.

A distinção é biologicamente importante. As hastes são estruturas ósseas que seguem um ciclo de crescimento e queda. Durante a fase de desenvolvimento encontram-se revestidas por uma pele vascularizada conhecida como veludo.

À medida que se aproxima a época reprodutiva, o processo de crescimento termina e as hastes ficam completamente mineralizadas. Estudos sobre o ciclo anual do veado mostram a estreita relação entre desenvolvimento das hastes, fotoperíodo e alterações hormonais.

Depois da época reprodutiva e da redução sazonal da testosterona, chega posteriormente o período de queda das hastes. Um novo ciclo de crescimento começa depois.

Durante a brama, as hastes funcionam tanto como estruturas visuais associadas à competição como armas utilizadas quando ocorre confronto físico.

O número de pontas, contudo, não deve ser utilizado como uma fórmula absoluta para determinar a idade. Desenvolvimento corporal, genética, nutrição e outros fatores podem influenciar a estrutura das hastes.

Quanto esforço exige a época reprodutiva

A brama representa um período exigente para os machos.

Vocalizar repetidamente, deslocar-se, acompanhar fêmeas, vigiar rivais e participar em confrontos requer energia. Ao mesmo tempo, um macho intensamente envolvido na reprodução pode dedicar menos tempo à alimentação.

Estudos fisiológicos clássicos encontraram alterações pronunciadas de peso associadas ao comportamento reprodutivo dos machos.

Nas populações ibéricas existe ainda uma particularidade ambiental. A brama pode decorrer quando as condições de final do verão mediterrânico ainda significam calor, vegetação seca e menor disponibilidade de alimento de elevada qualidade.

A condição física acumulada anteriormente pode, portanto, ter importância durante este período.

Não existe, contudo, uma percentagem universal de peso que todos os veados percam durante a brama. Os valores dependem do indivíduo, população e condições ambientais.

Onde se pode ouvir a brama em Portugal

O veado-vermelho sofreu importantes alterações de distribuição em Portugal ao longo dos últimos séculos. Depois de uma forte redução, as populações recuperaram através de expansão natural e programas de reintrodução. Estudos portugueses descrevem atualmente a espécie em diferentes áreas do território continental.

A Serra da Lousã, no centro de Portugal, constitui um exemplo particularmente bem documentado. Investigadores estudaram aí populações selvagens através de armadilhas fotográficas e analisaram inclusivamente a forma como a presença humana influencia a atividade dos animais.

O habitat utilizado pelo veado pode formar um mosaico complexo, incluindo floresta, matos, clareiras e áreas de alimentação.

Num estudo português sobre seleção de habitat, a ocorrência do veado esteve associada a características da estrutura da vegetação e também à distância relativamente a estradas e povoações, mostrando que a presença humana pode influenciar a utilização da paisagem.

Isto também explica por que não é possível indicar um ponto qualquer de uma serra e garantir que ali será possível observar ou ouvir a brama.

Porque a brama é frequentemente mais evidente ao amanhecer e ao anoitecer

Os veados não bramem exclusivamente durante a noite.

Contudo, amanhecer, anoitecer e períodos noturnos podem proporcionar boas oportunidades para detetar atividade. O padrão diário depende do habitat, condições ambientais, perturbação humana e comportamento dos próprios animais.

Existe evidência portuguesa de que a atividade do veado pode responder à presença humana. Um estudo realizado na Serra da Lousã utilizando câmaras automáticas verificou alterações espaciais e temporais no comportamento dos veados relacionadas com a presença de pessoas.

Durante períodos tranquilos, um bramido também pode ser muito mais fácil de distinguir do ruído ambiental.

Isso não significa que um macho que permanece silencioso durante parte do dia tenha interrompido a atividade reprodutiva. Vocalização é apenas uma componente do comportamento da brama.

Como observar a brama sem perturbar os animais

Observar a brama exige distância e discrição.

Binóculos e teleobjetivas permitem acompanhar os animais sem necessidade de aproximação. O observador deve permanecer nos caminhos e áreas onde a circulação é autorizada e respeitar todas as restrições específicas das áreas protegidas ou propriedades onde se encontra.

Nunca se deve perseguir um veado para conseguir uma fotografia nem aproximar-se de um grupo de fêmeas para provocar uma reação do macho.

Também deve ser evitada a reprodução de gravações ou a imitação de bramidos com o objetivo de provocar respostas. A prioridade deve ser observar o comportamento que ocorreria naturalmente sem interferência humana.

Os cães devem permanecer controlados de acordo com as regras locais.

Há ainda uma razão de segurança. Um veado-vermelho macho é um animal selvagem de grande porte e, durante a época reprodutiva, está envolvido num período de intensa competição. Aproximar-se deliberadamente é desnecessário e imprudente.

A melhor observação é aquela em que os animais continuam a comportar-se como se o observador não estivesse presente.

O que acontece depois da brama

Com o final da época reprodutiva, a atividade dos machos diminui gradualmente.

As vocalizações e a competição tornam-se menos intensas e os animais voltam a dedicar mais tempo a outras atividades, incluindo alimentação e recuperação da condição corporal.

O ciclo reprodutivo continua, contudo, nas fêmeas que ficaram gestantes. Depois de vários meses de gestação, os nascimentos concentram-se geralmente na primavera e início do verão nas populações europeias, embora o momento exato varie geograficamente.

Para os machos começa igualmente outra fase do ciclo anual. Os níveis hormonais diminuem e, posteriormente, as hastes são perdidas antes do início de um novo período de crescimento. A relação entre hormonas reprodutivas e este ciclo anual encontra-se bem estabelecida no veado-vermelho.

A brama é, portanto, apenas uma fase de um ciclo biológico que decorre durante todo o ano.

O papel do veado nos ecossistemas portugueses

O veado não deve ser visto apenas através do espetáculo da brama.

Como grande herbívoro, influencia a vegetação através da alimentação, pisoteio e interação com árvores e arbustos. Também participa na movimentação de matéria e sementes pela paisagem e integra redes ecológicas mais amplas.

O efeito não é necessariamente positivo ou negativo em todas as circunstâncias. Depende sobretudo da densidade populacional, habitat e capacidade de regeneração da vegetação.

Em densidades elevadas, a herbivoria e os danos provocados na vegetação podem tornar-se relevantes para a regeneração florestal. Na Serra da Lousã, por exemplo, investigadores portugueses estudaram danos associados ao veado em áreas florestais precisamente devido aos potenciais conflitos entre populações crescentes do cervídeo e gestão florestal.

Conservar e gerir populações de grandes herbívoros exige, por isso, compreender tanto o seu papel ecológico como os efeitos que densidades elevadas podem produzir em determinados habitats.

Porque o som da brama é importante para estudar os veados

As vocalizações oferecem aos investigadores informação sobre comportamento e atividade reprodutiva, mas não constituem isoladamente um censo da população.

Um único macho pode vocalizar repetidamente. Dois animais podem apresentar intensidades de vocalização muito diferentes. Distância, relevo, vegetação e condições atmosféricas também afetam a capacidade humana ou instrumental de detetar os sons.

Por isso, investigadores combinam diferentes métodos.

Câmaras automáticas permitem estudar presença e padrões de atividade. Observações diretas fornecem informação comportamental. Amostras biológicas e genética podem ajudar a estudar relações entre populações e indivíduos. A monitorização acústica pode acrescentar informação sobre atividade vocal.

Na Serra da Lousã, por exemplo, estudos com armadilhas fotográficas produziram milhares de registos individuais de veado e permitiram analisar os padrões de atividade da população.

Ouvir muitos bramidos numa noite significa que existe atividade reprodutiva vocal intensa na área audível. Não permite, por si só, concluir quantos veados existem em toda a população.

Perguntas frequentes

Em que mês acontece a brama do veado em Portugal?

O período mais associado à brama situa-se no final do verão e início do outono. Dados sobre veado ibérico apontam frequentemente para setembro e primeiras semanas de outubro, mas existe variação geográfica e anual.

Porque é que os veados bramem?

As vocalizações fazem parte da comunicação e competição reprodutiva dos machos. Podem transmitir informação aos rivais e integram o sistema através do qual os machos competem pelo acesso às fêmeas.

Os veados bramem apenas durante a noite?

Não. Podem vocalizar noutros períodos do dia, embora a atividade seja frequentemente muito evidente durante períodos de menor perturbação, incluindo amanhecer, anoitecer e noite.

Os machos lutam sempre durante a brama?

Não. Vocalizações, exibições e avaliação entre rivais podem permitir que um dos animais recue sem confronto físico.

Qual é a diferença entre hastes e cornos?

As hastes são estruturas ósseas que crescem, mineralizam e caem num ciclo periódico. Os cornos verdadeiros possuem uma estrutura diferente e não seguem este mesmo ciclo anual.

É seguro aproximar-se de um veado durante a brama?

Não se deve aproximar deliberadamente. É um animal selvagem de grande porte e deve ser observado a uma distância suficiente para não alterar o seu comportamento.

Onde existem veados em Portugal?

Existem populações em várias regiões de Portugal continental. A Serra da Lousã é uma das áreas com populações amplamente estudadas cientificamente, mas a distribuição da espécie é bastante mais extensa.

Quanto tempo dura a época da brama?

Não existe duração idêntica em todas as populações. Na Península Ibérica, a atividade reprodutiva concentra-se geralmente durante algumas semanas entre o final do verão e o início do outono.

Conclusão

A brama do veado em Portugal é uma das manifestações mais impressionantes do ciclo reprodutivo do veado-vermelho. Os bramidos que atravessam a paisagem fazem parte de um sistema complexo que inclui comunicação, avaliação de rivais, competição entre machos e acesso às fêmeas.

Setembro e outubro devem ser entendidos como uma referência sazonal e não como um calendário universal. A intensidade e o momento da brama podem variar entre populações, regiões e anos.

Também é incorreto reduzir todo este comportamento à simples “defesa de território”. O elemento fundamental é a reprodução e a competição pelo acesso às fêmeas.

Para quem pretende assistir ao fenómeno, a distância é essencial. Binóculos, silêncio e respeito pelos caminhos e restrições locais permitem observar ou ouvir os animais sem interferir numa das fases mais exigentes do seu ciclo anual.