Num dia de sol, é possível observar uma grande ave de rapina a subir no céu enquanto descreve círculos largos. Durante longos momentos, quase não bate as asas. Mesmo assim, continua a ganhar altura.
À primeira vista, parece desafiar a gravidade. Na realidade, a ave está a utilizar uma fonte de energia que já existe na atmosfera: massas de ar quente que sobem a partir do solo, conhecidas como correntes térmicas ou simplesmente térmicas.
Esta técnica, chamada voo planado em térmicas ou thermal soaring, é utilizada por muitas aves de rapina. Em Portugal e noutras partes da Europa, o comportamento pode ser observado no bútio-comum (Buteo buteo), frequentemente confundido à distância com uma “águia”. Águias verdadeiras e outras grandes aves planadoras também aproveitam térmicas.
No Brasil, o bútio-comum europeu não ocorre naturalmente, mas várias aves de rapina brasileiras utilizam princípios semelhantes para ganhar altitude e deslocar-se com pouco voo batido.
Entender como isso funciona muda completamente a forma de observar uma ave a circular no céu. Ela não está simplesmente a voar em círculos: está a encontrar, seguir e explorar uma estrutura invisível de ar ascendente.
Índice
- Primeiro: é mesmo uma águia?
- O que são correntes térmicas
- Como o solo cria uma coluna de ar ascendente
- Como uma ave encontra uma térmica
- Por que começa a voar em círculos
- Como consegue subir sem bater as asas
- Por que planar economiza energia
- O que acontece quando chega ao topo da térmica
- Como o vento altera as térmicas
- Como o bútio-comum caça
- O que estas aves de rapina comem
- Habitat preferido
- Como identificar uma ave de rapina em voo
- Portugal e Brasil: espécies diferentes, mesma física
- Conservação das aves de rapina
- Como observar sem perturbar
- Perguntas frequentes
- Conclusão
Primeiro: é mesmo uma águia?
Antes de compreender o voo, vale a pena esclarecer o título.
Popularmente, uma grande ave de rapina a planar muito alto pode ser chamada de “águia”. Porém, nem todas as aves observadas dessa forma pertencem aos grupos que normalmente recebem esse nome.
Em Portugal, uma das aves de rapina frequentemente observadas a planar é o bútio-comum (Buteo buteo).
É uma ave robusta, de asas relativamente largas, que utiliza correntes ascendentes com grande eficiência.
Águias, abutres e outras aves de rapina também podem utilizar térmicas. Portanto, o mecanismo descrito neste artigo não pertence exclusivamente ao bútio.
É uma solução aerodinâmica utilizada por diferentes aves planadoras.
O que são correntes térmicas
O Sol aquece a superfície terrestre.
Mas não aquece tudo de forma uniforme.
Uma área de solo exposto pode aquecer de maneira diferente de um bosque. Uma superfície rochosa responde de forma diferente de uma zona húmida. Campos, estradas, edifícios e encostas também absorvem e libertam energia de maneiras diferentes.
Essas diferenças criam regiões onde o ar próximo do solo fica mais quente do que o ar envolvente.
Quando isso acontece, essa massa de ar pode começar a subir.
É daí que nasce uma térmica.
O ar quente torna-se ascendente
Quando uma parcela de ar é aquecida, a sua densidade pode tornar-se menor relativamente ao ar mais frio ao redor.
A flutuabilidade faz com que comece a subir.
Não devemos imaginar necessariamente um tubo perfeitamente definido e imóvel.
Uma térmica é uma estrutura atmosférica dinâmica. Pode mudar de forma, deslocar-se com o vento, enfraquecer ou desaparecer.
Para uma ave planadora, contudo, existe uma informação fundamental:
dentro daquela região, o ar está a subir.
Como o solo cria uma coluna de ar ascendente
Imagine um campo exposto ao Sol ao lado de uma zona arborizada.
As duas superfícies não aquecem da mesma maneira.
Se uma delas favorecer um aquecimento mais intenso do ar próximo da superfície, podem formar-se bolsas ou correntes ascendentes.
À medida que sobem, essas massas de ar interagem com a atmosfera envolvente.
É esta energia solar, transformada indiretamente em movimento do ar, que a ave consegue explorar.
As térmicas não são igualmente fortes durante todo o dia
A sua formação depende das condições meteorológicas.
Cobertura de nuvens, vento, humidade, estabilidade atmosférica e intensidade do aquecimento solar podem alterar o desenvolvimento das correntes.
Por isso, o céu não oferece sempre as mesmas oportunidades para uma ave que pretende planar.
Como uma ave encontra uma térmica
A térmica é praticamente invisível.
Então como encontra uma ave algo que não consegue simplesmente ver como vê uma árvore?
Provavelmente utiliza uma combinação de informação aerodinâmica, experiência e pistas ambientais.
Quando entra numa zona de ar ascendente, o comportamento da ave relativamente à massa de ar muda.
Ela consegue sentir e responder a essas alterações.
Também pode aproveitar informação social.
Outras aves podem revelar a térmica
Se várias aves começam a circular e a ganhar altura na mesma região, isso é uma excelente indicação de uma corrente ascendente.
Aves planadoras podem beneficiar da presença de outros indivíduos que já localizaram condições favoráveis.
Para um observador no solo, este comportamento também funciona como pista.
Quando vê várias aves a subir em círculos aproximadamente na mesma área, procure imaginar a coluna invisível que estão a explorar.
Por que começa a voar em círculos
Aqui está a explicação para aquela imagem tão característica.
Uma térmica ocupa uma região limitada.
Se a ave simplesmente atravessasse a corrente em linha reta, permaneceria dentro dela durante pouco tempo.
Ao circular, consegue continuar dentro da zona de ar ascendente.
A ave inclina o corpo e as asas, ajusta a cauda e mantém uma trajetória curva.
Cada volta permite continuar a aproveitar o movimento vertical do ar.
A ave não precisa de criar toda a subida
Este é o ponto central.
Durante voo batido, os músculos precisam de produzir continuamente forças aerodinâmicas através do movimento das asas.
Dentro de uma térmica, a massa de ar já está a deslocar-se para cima.
A ave mantém sustentação e controla a trajetória, mas consegue ganhar altitude relativamente ao solo porque o próprio ar onde está a planar está a subir.
Como consegue subir sem bater as asas
Uma ave planadora continua sujeita à gravidade.
Se estivesse num ar completamente parado, não poderia simplesmente manter as asas abertas e subir indefinidamente.
Ao planar, tenderia a perder gradualmente altitude enquanto avançava.
Uma térmica muda essa relação.
Se a corrente ascendente elevar a ave suficientemente depressa para compensar a sua tendência de descida durante o planeio, ela mantém ou ganha altitude relativamente ao terreno.
Por isso, pode parecer estar a subir sem qualquer esforço.
Não existe magia.
A energia veio originalmente do Sol, que aqueceu o terreno e ajudou a colocar a massa de ar em movimento.
Por que planar economiza energia
O voo batido é metabolicamente exigente.
Os grandes músculos responsáveis pelo movimento das asas precisam de trabalhar repetidamente.
Para uma ave de rapina relativamente grande, reduzir a quantidade de voo batido pode representar uma importante economia energética.
Planar não é completamente “gratuito”. A ave continua viva, mantém postura, controla penas, ajusta asas e cauda e realiza trabalho muscular.
Mas utilizar correntes ascendentes permite reduzir consideravelmente a necessidade de produzir sustentação e propulsão através de batimentos contínuos.
As asas largas ajudam
Muitas aves especializadas em planar possuem asas adequadas a esse tipo de voo.
Asas relativamente largas proporcionam boas características de sustentação a velocidades apropriadas.
As penas primárias nas pontas podem ficar claramente separadas, criando a aparência de “dedos”.
A ave faz pequenas alterações constantemente.
Para nós, parece imóvel.
Aerodinamicamente, está a trabalhar o tempo inteiro.
O que acontece quando chega ao topo da térmica
A térmica não continua infinitamente.
Quando a ave ganha altitude suficiente ou deixa de encontrar uma corrente ascendente útil, pode abandonar a trajetória circular.
Então começa outra fase.
Em vez de continuar às voltas, aponta numa direção e plana.
Durante esse percurso, perde gradualmente parte da altitude que acabou de ganhar.
Depois procura outra corrente ascendente.
Subir, planar, repetir
Este padrão é extremamente eficiente.
A ave sobe utilizando energia atmosférica.
Depois converte a altitude adquirida em distância horizontal através do planeio.
Ao encontrar outra térmica, volta a subir.
Esta alternância é especialmente importante para grandes aves planadoras durante deslocações e migrações.
Como o vento altera as térmicas
Uma térmica não precisa de permanecer diretamente sobre o ponto onde se formou.
O vento pode deslocar e inclinar a massa de ar ascendente.
Por isso, uma ave a circular pode também deslocar-se horizontalmente.
O observador pode vê-la desenhar círculos que gradualmente se afastam.
Isso não significa necessariamente que perdeu a corrente.
Pode estar simplesmente a acompanhar uma térmica que está a ser transportada pelo vento.
Além das térmicas, aves planadoras podem utilizar outros tipos de correntes ascendentes, como as criadas quando o vento encontra uma encosta.

Como o bútio-comum caça
Embora possa ser visto muito alto no céu, o bútio-comum também passa bastante tempo pousado.
Postes, árvores e outros pontos elevados oferecem locais de observação.
A partir daí, pode procurar movimentos no terreno.
Quando deteta uma oportunidade, abandona o poleiro e aproxima-se da presa.
Também pode procurar alimento enquanto voa sobre áreas abertas.
O método varia conforme condições, habitat e tipo de presa disponível.
O que estas aves de rapina comem
O bútio-comum possui uma dieta relativamente flexível dentro do comportamento de uma ave predadora.
Pequenos mamíferos podem constituir presas importantes.
Também pode consumir aves, répteis, anfíbios e outros animais conforme disponibilidade e oportunidade.
Carcaças podem igualmente ser aproveitadas.
Essa flexibilidade ajuda a explicar a capacidade de ocupar diferentes paisagens.
Uma ave de rapina não é inimiga do jardim
Predadores desempenham funções importantes nos ecossistemas.
Ao consumir diferentes presas, participam nas redes alimentares e na transferência de energia entre níveis tróficos.
A presença regular de aves de rapina numa paisagem pode indicar que existe uma comunidade de presas capaz de sustentá-las.
Habitat preferido
O bútio-comum beneficia frequentemente de paisagens onde áreas abertas estão combinadas com árvores ou zonas arborizadas.
Os espaços abertos facilitam a procura de determinadas presas.
Árvores oferecem locais de repouso, observação e reprodução.
Mosaicos de campos, pastagens, sebes, bosques e outras estruturas podem fornecer essa combinação.
Também pode aparecer próximo de zonas humanizadas quando existem condições adequadas.
Como identificar uma ave de rapina em voo
Identificar rapinas apenas pela cor pode ser difícil.
A distância, iluminação e variação individual alteram muito aquilo que vemos.
A silhueta costuma ser uma pista melhor.
Observe as asas
Pergunte:
São longas e estreitas?
Curtas e arredondadas?
Largas?
As pontas apresentam primárias separadas como dedos?
Como são mantidas durante o planeio?
Observe a cauda
O comprimento e formato da cauda também ajudam.
Algumas espécies apresentam caudas particularmente longas, outras mais curtas, arredondadas ou distintamente bifurcadas.
Observe o comportamento
A forma de voar é quase tão importante como a anatomia.
Uma ave que circula repetidamente numa térmica oferece pistas diferentes de uma que alterna rápidas sequências de batimentos com planeios curtos.
Não tente identificar uma espécie com base numa única característica.
Combine silhueta, proporções, voo, habitat e, quando possível, plumagem.
Portugal e Brasil: espécies diferentes, mesma física
O bútio-comum é uma espécie europeia e ocorre em Portugal.
Não pertence à avifauna brasileira.
O Brasil possui numerosas espécies de aves de rapina, e várias utilizam correntes térmicas e outras formas de voo planado.
Os detalhes ecológicos variam entre espécies.
Mas as leis físicas não mudam quando atravessamos o Atlântico.
Uma corrente de ar ascendente pode fornecer energia aerodinâmica tanto a uma ave planadora europeia como a uma brasileira.
Por isso, observar rapinas circulando no céu no Brasil pode revelar exatamente o mesmo princípio: encontrar ar ascendente, ganhar altitude e transformar essa altura em deslocamento.
Conservação das aves de rapina
A sobrevivência das aves de rapina depende de muito mais do que proteger diretamente os adultos.
É necessário conservar habitats de alimentação, locais de reprodução e populações de presas.
Perda e fragmentação de habitat podem afetar algumas espécies.
Colisões e eletrocussões associadas a determinadas infraestruturas representam problemas para várias aves de rapina em diferentes regiões.
Envenenamento e exposição a contaminantes também podem constituir ameaças.
A importância de cada problema depende da espécie e do local.
Evite venenos indiscriminados
A utilização inadequada de substâncias tóxicas contra roedores ou outros animais pode afetar predadores através de exposição secundária.
A gestão de pragas deve utilizar métodos legais e apropriados, seguindo orientações ambientais e técnicas locais.
Proteger uma ave de rapina significa também pensar no que acontece alguns níveis abaixo dela na cadeia alimentar.
Como observar sem perturbar
Não é necessário aproximar-se de um ninho para observar aves de rapina.
Na realidade, o céu oferece frequentemente a melhor oportunidade.
Utilize binóculos e mantenha distância.
Evite aproximar-se de ninhos, poleiros sensíveis ou aves que demonstrem alterações claras de comportamento devido à sua presença.
Nunca utilize alimento para tentar atrair uma ave selvagem para uma fotografia.
Quando encontrar uma rapina a circular numa térmica, existe pouco a fazer além de olhar.
E isso é precisamente o mais interessante.
A ave está a demonstrar aerodinâmica diante de si.
Perguntas frequentes
Como uma ave de rapina sobe sem bater as asas?
Ela pode utilizar correntes de ar ascendente. Quando a velocidade vertical do ar é suficiente para compensar a descida natural do planeio, a ave ganha altitude relativamente ao solo.
O que é uma térmica?
É uma massa ou corrente de ar ascendente associada ao aquecimento desigual da superfície terrestre.
Por que as aves voam em círculos dentro das térmicas?
Circular ajuda a permanecer dentro da região de ar ascendente durante mais tempo.
A ave fica completamente parada com as asas?
Não. Mesmo quando parece imóvel, realiza pequenos ajustes das asas, penas e cauda para controlar sustentação, velocidade e direção.
Planar não gasta energia?
Gasta energia, mas geralmente exige muito menos trabalho de voo do que manter batimentos contínuos das asas.
Todas as águias usam térmicas?
Muitas grandes aves de rapina utilizam correntes ascendentes quando as condições permitem, mas a importância da técnica varia entre espécies, habitats e situações.
O bútio-comum é uma águia?
Não. Buteo buteo é o bútio-comum, uma ave de rapina da família Accipitridae. A distância, pode ser confundido com outras rapinas maiores.
Existem bútios-comuns no Brasil?
O bútio-comum europeu não pertence à avifauna brasileira. O Brasil possui outras aves de rapina, algumas das quais utilizam técnicas semelhantes de voo em térmicas.
O que o bútio-comum come?
A dieta pode incluir pequenos mamíferos e outros vertebrados, variando conforme habitat, disponibilidade e oportunidade.
Como posso distinguir rapinas quando estão muito altas?
Comece pela silhueta: formato e comprimento das asas, posição das asas durante o planeio, cauda e padrão de voo. Depois combine essas pistas com habitat, localização e plumagem quando esta for visível.
Conclusão
Quando uma grande ave de rapina sobe no céu sem aparentemente bater as asas, não está a vencer a gravidade através de algum mecanismo misterioso.
Está a aproveitar a atmosfera.
O Sol aquece diferentes superfícies de maneira desigual. Algumas zonas aquecem o ar próximo do terreno suficientemente para gerar movimentos ascendentes.
A ave encontra uma dessas correntes.
Entra nela.
Começa a circular.
Enquanto permanece dentro do ar que sobe, pode ganhar altitude quase sem recorrer ao dispendioso voo batido.
Depois abandona a térmica e transforma altura em distância, planando até encontrar outra oportunidade.
Esta estratégia permite que bútios, águias e muitas outras aves planadoras utilizem uma fonte de energia que não precisam de produzir com os próprios músculos.
Em Portugal, o bútio-comum é uma das aves que pode demonstrar este princípio no céu. No Brasil, outras rapinas exploram processos aerodinâmicos semelhantes, apesar de pertencerem a uma fauna diferente.
Da próxima vez que observar uma ave a desenhar círculos cada vez mais altos, olhe também para a paisagem por baixo dela.
Campos, rochas, encostas, florestas e áreas abertas estão a receber energia solar de maneiras diferentes.
Não consegue ver a coluna de ar que nasce dessa paisagem.
Mas consegue ver a ave.
E, ao seguir os seus círculos, ela acaba por desenhar no céu a forma aproximada de uma corrente invisível.
Sugestões de links internos
- Um artigo do tesourosdojardim.com sobre como a peneireira consegue permanecer praticamente parada no ar enquanto procura presas.
- Um guia sobre como reconhecer diferentes aves de rapina através da silhueta, asas, cauda e comportamento de voo.
- Um artigo sobre o papel dos predadores na manutenção das cadeias alimentares e do equilíbrio ecológico.
Tipos de fontes externas autoritativas recomendadas
- Sociedades ornitológicas portuguesas, brasileiras e internacionais com informação sobre identificação, distribuição e ecologia de aves de rapina.
- Organizações de investigação e conservação de rapinas com materiais sobre ameaças, migração e utilização de habitat.
- Departamentos universitários de biologia aviária e biomecânica especializados em aerodinâmica e voo planado.
- Laboratórios de ecologia do movimento que investigam a utilização de térmicas por aves através de telemetria e outros métodos.
- Organizações oficiais de conservação da natureza com orientações sobre proteção de aves de rapina, habitats, linhas elétricas, contaminantes e observação responsável.