Uma rela pousada numa folha parece estar simplesmente agarrada à vegetação. Mas coloque o mesmo animal sobre uma superfície lisa e vertical e torna-se evidente que existe algo extraordinário nas extremidades dos seus dedos.
As relas conseguem aderir a folhas, caules e outras superfícies graças a almofadas adesivas especializadas nas pontas dos dedos. O segredo não é uma “ventosa” nem uma substância semelhante a cola. A aderência resulta da interação entre a microestrutura das almofadas, uma fina camada de muco e forças físicas que funcionam mesmo em superfícies relativamente lisas.
Em Portugal, a palavra rela é frequentemente associada a pequenas rãs arborícolas, incluindo espécies do género Hyla. No Brasil existe uma diversidade muito maior de anfíbios arborícolas, pertencentes a diferentes grupos, e muitas espécies desenvolveram adaptações semelhantes para aderir à vegetação. Os detalhes anatómicos variam, por isso não devemos assumir que todas utilizam exatamente o mesmo sistema.
Esta capacidade de escalar é apenas uma parte de uma vida adaptada à vegetação. As relas também apresentam comportamento predominantemente noturno, vocalizações reprodutivas intensas e, em algumas espécies, mudanças de coloração influenciadas pelo estado fisiológico e pelas condições ambientais.
Índice
- O que torna as relas diferentes
- Como funcionam as almofadas adesivas
- A microestrutura invisível dos dedos
- O papel essencial do muco
- Por que a rela não funciona como uma ventosa
- Como consegue aderir sem escorregar
- Por que viver nas árvores e arbustos é vantajoso
- A surpreendente mudança de cor
- Temperatura, humidade e stress
- O que as relas comem
- Por que chamam durante a noite
- Onde vivem
- Como criar um jardim favorável às relas
- Como construir um pequeno lago para anfíbios
- Erros que tornam o jardim menos favorável
- Relas e rãs arborícolas brasileiras
- Perguntas frequentes
- Conclusão
O Que Torna as Relas Diferentes
As relas são anfíbios adaptados a passar uma parte importante da atividade sobre vegetação.
Enquanto muitas rãs e sapos permanecem principalmente no solo ou junto à margem da água, uma rela pode deslocar-se entre folhas, ramos, caniços e arbustos.
Para isso, saltar não é suficiente.
O animal precisa de conseguir pousar numa folha inclinada sem cair, subir por um caule e manter-se imóvel numa superfície vertical enquanto procura alimento.
A evolução produziu uma solução particularmente eficiente nas extremidades dos dedos: discos ou almofadas adesivas.
Como Funcionam as Almofadas Adesivas
Quando observamos de perto os dedos de uma rela, as extremidades parecem alargadas.
Essas regiões não são simples pedaços de pele achatada.
Possuem uma estrutura altamente especializada para maximizar o contacto com a superfície.
O mecanismo é frequentemente chamado de adesão húmida.
Isso significa que existe uma fina camada líquida entre a almofada e o substrato.
A aderência depende de vários fenómenos físicos que trabalham em conjunto, incluindo forças relacionadas com a tensão superficial e interações entre a almofada, o líquido e a superfície.
O atrito também é fundamental, especialmente quando o animal está numa parede vertical e precisa de impedir que o corpo deslize para baixo.
A Microestrutura Invisível dos Dedos
A olho nu, uma almofada pode parecer lisa.
Microscopicamente, não é.
A superfície está organizada em pequenas unidades celulares separadas por canais microscópicos.
Essa estrutura ajuda a almofada a adaptar-se às irregularidades da superfície.
Mesmo aquilo que parece completamente liso aos nossos olhos possui imperfeições numa escala muito pequena.
Uma almofada flexível consegue estabelecer contacto íntimo com essas superfícies melhor do que uma estrutura rígida.
Canais microscópicos
Os pequenos canais existentes entre estruturas da almofada também ajudam a movimentar o fluido.
Quando a rela pressiona o dedo contra uma folha ou outra superfície, o líquido não fica simplesmente preso numa camada grossa.
A geometria da almofada contribui para controlar essa película.
É precisamente esta combinação entre tecido macio, microestrutura e líquido que torna o sistema tão eficiente.
O Papel Essencial do Muco
Como outros anfíbios, as relas possuem pele associada a secreções mucosas.
Nas almofadas dos dedos, uma camada muito fina de fluido participa diretamente no processo de adesão.
Mas isso cria uma aparente contradição.
Normalmente imaginamos que uma superfície molhada é mais escorregadia.
Então por que o muco ajuda?
A resposta está na espessura e organização da camada.
Não estamos a falar de uma grande quantidade de líquido sobre a qual o animal desliza. Trata-se de uma película extremamente fina entre a almofada e o substrato.
Essa interface líquida contribui para a adesão enquanto a própria estrutura do dedo gera atrito suficiente para resistir ao movimento.
Demasiado líquido pode, pelo contrário, tornar a aderência mais difícil.
A rela precisa constantemente de gerir a relação entre contacto, humidade e fricção.
As Relas Não Têm Ventosas
É comum dizer que uma rela “cola-se” como uma ventosa.
A comparação ajuda a imaginar o resultado, mas não descreve corretamente o mecanismo.
A almofada não cria simplesmente uma grande câmara de vácuo.
Também não utiliza uma cola permanente.
Isso é importante porque uma rela precisa de fazer algo que seria difícil com um adesivo extremamente forte: soltar o pé imediatamente.
Durante a caminhada, cada dedo adere e desprende-se repetidamente.
O animal consegue alterar o ângulo da almofada e descolar progressivamente o dedo da superfície.
A adesão precisa de ser suficientemente forte para sustentar o corpo, mas suficientemente controlável para permitir movimentos rápidos.
Como a Rela Evita Escorregar
Adesão e atrito não são exatamente a mesma coisa.
A adesão ajuda a manter o dedo em contacto com a superfície.
O atrito ajuda a impedir o deslizamento.
Numa parede vertical, ambos são importantes.
A rela também distribui o peso entre vários dedos e membros. A postura muda conforme a inclinação e a textura do substrato.
O resultado é um sistema biomecânico completo.
Não existe uma única “cola de rela”. Existe anatomia, comportamento, secreção e física a funcionar simultaneamente.
Por Que Viver na Vegetação é Vantajoso
Escalar abre um ambiente inteiro que seria inacessível a um anfíbio estritamente terrestre.
Folhas e ramos oferecem locais de repouso, pontos de vocalização e oportunidades para encontrar alimento.
Também podem permitir ao animal utilizar o espaço tridimensional do habitat.
Uma área relativamente pequena no solo contém muito mais superfícies disponíveis quando incluímos toda a vegetação existente acima dela.
Uma posição útil para caçar
As relas alimentam-se principalmente de pequenos invertebrados adequados ao seu tamanho.
Permanecer na vegetação permite encontrar insetos e outros artrópodes que pousam ou se deslocam pelas plantas.
Não significa que o animal nunca desça.
A água continua especialmente importante durante a reprodução, e diferentes espécies utilizam o habitat de formas distintas.
A Rela Também Pode Mudar de Cor
Outra característica interessante de algumas relas é a capacidade de alterar a intensidade ou tonalidade da coloração.
Uma rela observada num momento pode apresentar um verde vivo e, noutra ocasião, parecer mais escura, acinzentada ou acastanhada.
É tentador explicar imediatamente isto como camuflagem.
A realidade é mais complexa.
Não é simplesmente “copiar” o fundo
A mudança de cor pode ser influenciada por temperatura, humidade, iluminação, atividade e estado fisiológico.
Stress também pode provocar alterações.
A camuflagem pode ser uma consequência útil em determinadas situações, mas não devemos imaginar uma rela a olhar para uma superfície castanha e conscientemente decidir tornar-se castanha.
O controlo da coloração resulta da fisiologia das células pigmentares e da resposta do organismo às condições internas e externas.
Temperatura e Humidade Importam
Os anfíbios são ectotérmicos.
A temperatura corporal depende fortemente do ambiente.
Mudanças de temperatura podem influenciar atividade, metabolismo e aparência.
A humidade é igualmente importante porque a pele dos anfíbios é altamente permeável.
Uma pequena rã arborícola possui uma relação íntima com o microclima à sua volta.
Uma sebe húmida durante a noite é um ambiente completamente diferente de uma parede exposta ao sol durante uma tarde quente.
Essa dependência ajuda a explicar por que alterações relativamente pequenas na estrutura de um jardim podem afetar anfíbios.
O Que as Relas Comem
As relas são predadoras de pequenos animais.
A alimentação pode incluir diferentes insetos e outros invertebrados disponíveis no habitat.
A dieta exata varia conforme espécie, tamanho, estação e disponibilidade local.
Num jardim, isto coloca as relas dentro da rede alimentar natural.
Elas consomem invertebrados e, simultaneamente, podem tornar-se presas de outros animais.
Por isso, é mais correto vê-las como componentes da biodiversidade do jardim do que como uma ferramenta específica de “controlo de pragas”.
Por Que Chamam Durante a Noite
Durante a época reprodutiva, os machos utilizam vocalizações para comunicar.
É frequentemente assim que uma pessoa descobre a presença de relas antes de conseguir vê-las.
Um macho pode escolher uma posição junto à vegetação ou próxima do local de reprodução e emitir chamadas repetidas.
O saco vocal ajuda a amplificar o som.
As vocalizações estão relacionadas principalmente com reprodução, incluindo atração de fêmeas e interações entre machos.
Cada espécie possui características próprias no chamamento.
Por isso, gravações e guias acústicos podem ser extremamente úteis na identificação.
A noite favorece a atividade
A atividade noturna ajuda estes pequenos anfíbios a evitar algumas das condições mais secas e quentes do dia.
Também coincide com a atividade de muitos dos invertebrados que constituem alimento.
Em noites adequadas, um jardim aparentemente silencioso durante o dia pode transformar-se num ambiente acústico completamente diferente.

Habitat Preferido das Relas
Água é importante, mas um lago sozinho não cria necessariamente habitat suficiente.
As relas precisam também de vegetação.
Arbustos, herbáceas altas, caniços e outras estruturas oferecem locais onde podem subir, descansar e caçar.
Também são importantes os esconderijos e áreas terrestres relativamente protegidas.
Em paisagens agrícolas e urbanizadas, a conectividade pode fazer diferença.
Um pequeno lago cercado por superfícies impermeáveis e sem vegetação oferece condições muito diferentes de um lago ligado a sebes, jardins, terrenos naturais e outros refúgios.
Como Criar um Jardim Favorável às Relas
O primeiro princípio é diversidade estrutural.
Evite transformar todo o jardim numa única superfície de relva curta.
Combine plantas de diferentes alturas, arbustos e zonas onde a vegetação possa fornecer abrigo.
Sempre que possível, privilegie plantas nativas ou adequadas ecologicamente à região.
Reduza pesticidas
Inseticidas podem reduzir diretamente a disponibilidade de presas e representar riscos adicionais para organismos que vivem no jardim.
Herbicidas e outros produtos também devem ser utilizados com grande prudência perto de habitats aquáticos.
Para favorecer anfíbios, reduzir intervenções químicas desnecessárias é uma das medidas mais importantes.
Preserve esconderijos
Madeira em decomposição, pedras colocadas de forma segura, folhas e vegetação densa podem criar microhabitats húmidos.
Não é necessário deixar o jardim abandonado.
A ideia é permitir que algumas áreas mantenham estrutura ecológica em vez de eliminar todos os esconderijos.
Como Criar um Pequeno Lago Para Anfíbios
Um lago de jardim pode tornar-se um recurso importante quando é bem concebido.
Crie diferentes profundidades e, sobretudo, pelo menos uma margem suave.
Os animais precisam de entrar e sair facilmente.
Uma parede vertical lisa em todo o perímetro pode transformar o lago numa armadilha.
Inclua vegetação aquática e marginal apropriada.
Não é necessário que a água pareça perfeitamente limpa como uma piscina. Um lago ecológico é um pequeno ecossistema.
Evite introduzir peixes
Se o objetivo principal é favorecer anfíbios, introduzir peixes pode ser contraproducente.
Muitos peixes consomem ovos e larvas de anfíbios ou alteram a comunidade de pequenos organismos do lago.
Também não recolha relas, ovos ou girinos na natureza para povoar o jardim.
Além de possíveis restrições legais, transportar anfíbios entre locais pode contribuir para a disseminação de doenças.
Crie as condições e permita a colonização natural.
E as Rãs Arborícolas do Brasil?
O Brasil possui uma fauna de anfíbios extremamente diversa, incluindo muitas espécies adaptadas à vida na vegetação.
Várias apresentam discos adesivos nos dedos e sistemas de aderência baseados em princípios biomecânicos semelhantes.
No entanto, “rela” não representa uma única solução evolutiva universal.
Espécies pertencentes a diferentes grupos podem apresentar diferenças na anatomia das almofadas, ecologia, reprodução e comportamento.
Para leitores brasileiros, o princípio mais importante é o mesmo: preservar água limpa, vegetação estruturalmente diversa e habitats terrestres adequados beneficia muito mais os anfíbios do que simplesmente instalar um recipiente com água no jardim.
Erros Que Tornam o Jardim Menos Favorável
Um erro frequente é construir um lago e manter todo o espaço circundante completamente limpo e sem vegetação.
Outro é adicionar peixes ornamentais automaticamente.
Utilizar pesticidas perto da água também reduz o valor ecológico do habitat.
Evite iluminação noturna intensa diretamente sobre o lago e a vegetação sempre que possível. A iluminação artificial pode modificar o comportamento de diferentes animais noturnos e dos insetos de que dependem.
Por fim, não manipule anfíbios apenas para observá-los.
A melhor observação é normalmente feita à distância.
Perguntas Frequentes
Como uma rela consegue subir numa superfície lisa?
Utiliza almofadas especializadas nas pontas dos dedos. A microestrutura dessas almofadas, combinada com uma fina camada de muco e forças de adesão e atrito, permite manter contacto com superfícies lisas.
As patas funcionam como ventosas?
Não no sentido convencional. A aderência resulta de um sistema de adesão húmida e fricção, não de uma grande ventosa que cria simplesmente vácuo.
O muco não faz a rela escorregar?
Uma camada excessiva de líquido poderia reduzir o atrito. As almofadas utilizam uma película fina, enquanto a microestrutura ajuda a gerir o fluido e manter contacto eficaz.
Por que os dedos são tão largos nas pontas?
As extremidades alargadas aumentam a área disponível para contacto e contêm as estruturas especializadas envolvidas na adesão.
As relas mudam de cor para se camuflar?
A coloração pode mudar, mas não deve ser explicada apenas como camuflagem. Temperatura, humidade, iluminação e estado fisiológico, incluindo stress, podem influenciar a aparência.
As relas vivem sempre nas árvores?
Não. “Arborícola” significa que utilizam bastante a vegetação, mas também precisam de outros habitats. Muitas dependem de água para reprodução e utilizam áreas terrestres durante diferentes fases da vida.
O que comem?
Principalmente pequenos invertebrados, incluindo diferentes tipos de insetos e outros artrópodes adequados ao seu tamanho.
Por que fazem tanto barulho à noite?
Os machos vocalizam principalmente no contexto da reprodução. As chamadas ajudam na atração de parceiras e comunicação entre indivíduos.
Um lago pequeno pode atrair relas?
Pode fornecer habitat de reprodução se existirem populações próximas e condições adequadas. Vegetação, qualidade da água, acesso seguro e habitat terrestre envolvente também são importantes.
Devo colocar girinos no meu lago?
Não. Evite transportar anfíbios, ovos ou girinos entre locais. Além das questões legais, existe risco de transmissão de doenças. É preferível permitir colonização natural.
Existem relas no Brasil?
O Brasil possui numerosas espécies de rãs arborícolas e outros anfíbios com adaptações para escalar vegetação. A diversidade é muito maior e os detalhes biológicos variam entre espécies.
Conclusão
A capacidade de uma rela caminhar por uma superfície lisa parece quase impossível até observarmos aquilo que existe na extremidade de cada dedo.
A almofada é macia, microscopicamente estruturada e coberta por uma película extremamente fina de fluido. A adesão mantém contacto com a superfície, enquanto o atrito ajuda a impedir que o animal deslize.
E tudo precisa de ser reversível.
A rela adere num instante e solta o dedo no seguinte, repetindo o processo enquanto sobe por folhas e caules.
Esta capacidade permitiu explorar um ambiente tridimensional cheio de alimento, abrigo e locais para vocalizar. Mas a especialização arborícola não eliminou a dependência da água e da humidade.
É por isso que um jardim favorável às relas precisa de mais do que um lago.
Precisa de vegetação em diferentes alturas, esconderijos terrestres, água acessível, ausência de peixes quando o objetivo é favorecer a reprodução de anfíbios e uso mínimo de pesticidas.
Em Portugal, estas medidas podem beneficiar as relas e outros anfíbios nativos. No Brasil, podem apoiar uma fauna de rãs arborícolas muito mais diversa, embora cada espécie tenha as suas próprias necessidades.
Uma rela agarrada ao vidro não está a desafiar a gravidade.
Está a utilizar uma solução biomecânica extraordinariamente refinada: milhões de anos de evolução concentrados na superfície de alguns pequenos dedos.
Sugestões de Links Internos
- Um artigo do Tesouros do Jardim sobre como criar um pequeno lago natural para anfíbios e outros animais.
- Um artigo sobre o sapo-parteiro e outras estratégias extraordinárias de reprodução dos anfíbios.
- Um artigo sobre como reduzir pesticidas e transformar o jardim num refúgio para biodiversidade.
Fontes Externas Autoritativas Recomendadas
- Sociedades herpetológicas portuguesas, europeias e brasileiras para identificação, distribuição e conservação de anfíbios.
- Departamentos universitários de zoologia e herpetologia especializados em ecologia e fisiologia dos anfíbios.
- Laboratórios universitários de biomecânica e biomimética que investigam adesão das almofadas digitais de rãs arborícolas.
- Organizações científicas dedicadas à conservação global dos anfíbios e das zonas húmidas.
- Publicações académicas especializadas em biomecânica da adesão, microestrutura das almofadas digitais e locomoção arborícola.