Em outubro, os charcos, lagos, ribeiras e zonas húmidas de Portugal entram numa fase de transformação. As manhãs tornam-se mais frescas, a vegetação começa a mudar de cor e a atividade de muitos insetos diminui. Ainda assim, nos dias soalheiros, é possível observar libélulas no outono, a patrulhar as margens da água ou a descansar sobre pedras aquecidas pelo sol.
Estes insetos, conhecidos pela agilidade do voo e pelas suas cores, não desaparecem todos ao mesmo tempo quando termina o verão. Algumas espécies mantêm-se ativas durante outubro e, em condições favoráveis, podem continuar a ser observadas em novembro ou mesmo mais tarde.
A sua presença está intimamente relacionada com a temperatura, a disponibilidade de alimento e os ciclos de reprodução. Enquanto os adultos realizam os últimos voos da estação, muitas outras libélulas permanecem debaixo de água, numa fase juvenil que lhes permite atravessar os meses frios.
Compreender este comportamento ajuda a conhecer melhor a biodiversidade aquática portuguesa e a importância de conservar os habitats onde estes insetos se desenvolvem.
Índice
- Libélulas no outono: porque continuam a voar em outubro?
- O que acontece quando as temperaturas descem?
- As libélulas sobrevivem ao inverno?
- O ciclo de vida das libélulas
- Espécies observáveis no outono em Portugal
- Importância ecológica das libélulas
- Onde observar libélulas em Portugal
- Como criar um jardim favorável às libélulas
- Alterações climáticas e épocas de voo
- Cinco curiosidades científicas
- Perguntas frequentes
- Conclusão
Libélulas no outono: porque continuam a voar em outubro?
As libélulas são insetos ectotérmicos, ou seja, a sua temperatura corporal depende, em grande medida, das condições ambientais.
A luz solar desempenha um papel importante na sua atividade. Em manhãs frias, algumas espécies permanecem imóveis sobre a vegetação, aguardando condições favoráveis para voar.
Quando o sol aquece o ambiente, podem retomar a caça, os comportamentos territoriais e, em certos casos, a reprodução.
Algumas libélulas também conseguem aumentar a temperatura dos músculos de voo através de movimentos musculares antes de levantar voo.
O vento e a chuva influenciam igualmente a sua atividade. Dias soalheiros, pouco ventosos e relativamente amenos proporcionam geralmente melhores oportunidades de observação.
Contudo, o comportamento das libélulas em outubro varia entre espécies, regiões e anos. No litoral português, onde o outono pode ser relativamente suave, a atividade pode prolongar-se mais do que em zonas interiores sujeitas a geadas precoces.
O que acontece às libélulas quando as temperaturas descem?
A descida da temperatura reduz a atividade fisiológica destes insetos e pode dificultar o funcionamento dos músculos responsáveis pelo voo.
Com menos oportunidades para voar, as libélulas caçam com menor frequência e podem permanecer mais tempo em locais abrigados.
A atividade reprodutora também diminui à medida que as condições deixam de ser favoráveis.
Nas espécies cuja fase adulta termina no outono, os indivíduos acabam por morrer após completarem o seu período de reprodução.
No entanto, este processo não acontece simultaneamente em todas as populações.
Algumas espécies apresentam períodos de voo prolongados e podem continuar ativas em dias quentes de novembro. Em regiões mediterrânicas particularmente amenas, existem ainda observações ocasionais durante o inverno.
A presença de uma libélula tardia não significa necessariamente que a espécie permaneça ativa durante toda a estação fria.
As libélulas sobrevivem ao inverno?
A resposta depende da espécie e da fase do ciclo de vida.
Larvas que permanecem debaixo de água
Muitas libélulas europeias atravessam o inverno como larvas aquáticas, também designadas ninfas.
Permanecem em charcos, lagoas, rios ou outros meios aquáticos, onde a atividade e o desenvolvimento podem abrandar com a diminuição da temperatura.
Espécies que passam o inverno como ovos
Em determinadas espécies, os ovos entram num período de desenvolvimento suspenso ou muito reduzido, conhecido como diapausa.
Esta estratégia permite sincronizar a eclosão com condições ambientais mais favoráveis.
Adultos capazes de hibernar
Entre os odonatos europeus, as espécies do género Sympecma são exemplos conhecidos de adultos capazes de atravessar o inverno.
Estes insetos pertencem ao grupo das donzelinhas, e não às libélulas verdadeiras, embora ambos integrem a ordem Odonata.
Migração sazonal
Algumas espécies, como Anax ephippiger, realizam deslocações migratórias de grande amplitude.
A migração pode permitir explorar regiões com condições favoráveis à reprodução, mas não constitui uma estratégia universal entre as libélulas.
Assim, a maioria das libélulas europeias passa o inverno em fases aquáticas de desenvolvimento, enquanto a sobrevivência como adulto é uma exceção especializada.
O ciclo de vida das libélulas: da água ao voo
O ciclo de vida das libélulas está profundamente ligado aos ambientes aquáticos.
1. Postura dos ovos
As fêmeas depositam os ovos diretamente na água, em plantas aquáticas ou em substratos próximos, consoante a espécie.
2. Desenvolvimento larvar
Após a eclosão, surgem larvas adaptadas à vida aquática. Estas passam por sucessivas mudas à medida que crescem.
3. Alimentação debaixo de água
As larvas são predadoras e alimentam-se de pequenos invertebrados aquáticos. As maiores podem capturar presas de dimensões superiores, incluindo pequenos girinos ou peixes, dependendo da espécie.
4. Emergência
Quando termina o desenvolvimento larvar, o inseto abandona a água e fixa-se numa planta, pedra ou outro suporte.
5. Transformação em adulto
A cutícula larvar abre-se e emerge o adulto alado. As asas expandem-se e endurecem antes do primeiro voo.
As libélulas apresentam metamorfose incompleta, não passando por uma fase de pupa como acontece nas borboletas.
6. Reprodução
Depois de atingirem a maturidade sexual, os adultos procuram parceiros e locais adequados à reprodução, reiniciando o ciclo.
Em numerosas espécies, a fase larvar dura muitos meses ou vários anos, enquanto a vida adulta decorre durante um período consideravelmente mais curto.
Esta diferença explica por que motivo a conservação da água é tão importante para a sobrevivência das populações.
Espécies de libélulas que podem ser observadas no outono em Portugal
Portugal possui uma diversidade considerável de odonatos, favorecida pela variedade de habitats aquáticos e pelas diferenças climáticas regionais.
Algumas espécies são particularmente características do final do verão e do outono. Outras apresentam atividade predominantemente estival, podendo persistir ocasionalmente até ao início da estação seguinte.
1. Sympetrum striolatum — libélula-comum
Os machos maduros apresentam abdómen alaranjado ou avermelhado; as fêmeas são geralmente amareladas ou acastanhadas.
Frequenta charcos, lagoas, açudes e águas de corrente lenta. Em Portugal, torna-se especialmente visível nos locais de reprodução a partir do final do verão, podendo manter-se ativa durante o outono.
Jardim Gulbenkian
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2. Sympetrum fonscolombii — libélula-de-nervuras-vermelhas
O macho possui abdómen vermelho e nervuras alares frequentemente avermelhadas. As fêmeas apresentam tonalidades mais amareladas.
Utiliza charcos, barragens, lagoas e outros habitats aquáticos. Está amplamente distribuída em Portugal, com atividade especialmente notável entre agosto e outubro, embora possa ser observada noutras alturas do ano.
Biodiversidade da Mitra
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3. Aeshna mixta — tira-olhos-outonal
Apresenta corpo escuro com manchas azuis nos machos e uma pequena marca triangular clara na base do abdómen.
Frequenta lagoas, águas calmas e zonas húmidas com vegetação. É uma espécie especialmente associada ao voo tardio, podendo ser observada em Portugal até novembro, conforme as condições.
Museu Virtual Biodiversidade
4. Anax imperator — libélula-imperador
É uma libélula grande, com tórax verde e, nos machos, abdómen predominantemente azul com uma faixa dorsal escura.
Patrulha lagos, charcos e outras águas paradas. A sua atividade concentra-se sobretudo na primavera e no verão, podendo prolongar-se até ao início do outono em condições favoráveis. Não é uma das espécies mais características do final da estação.
Woodland Trust
5. Crocothemis erythraea — libélula-escarlate
Os machos maduros distinguem-se pela coloração vermelha intensa e pelo abdómen relativamente largo e achatado.
Habita sobretudo águas paradas ou de corrente fraca, muitas vezes em locais soalheiros. Em Portugal, o voo ocorre principalmente nos meses quentes, com possibilidade de observações no início do outono, especialmente em regiões amenas.
As duas espécies de Sympetrum e a Aeshna mixta são particularmente interessantes para observações outonais. Os períodos indicados são aproximados e não garantem a presença de adultos em todas as regiões ou em todos os anos.
Porque é que as libélulas são importantes para os ecossistemas?
As libélulas desempenham funções importantes nas cadeias alimentares aquáticas e terrestres.
Enquanto adultas, capturam mosquitos, pequenas moscas e outros insetos em voo. As larvas também são predadoras e contribuem para regular populações de pequenos organismos aquáticos.
Por sua vez, servem de alimento a aves, anfíbios, peixes e outros predadores.
A diversidade de espécies pode fornecer informação sobre as características dos habitats, incluindo vegetação, permanência da água e alterações ambientais.
Contudo, a presença de libélulas não garante, por si só, uma boa qualidade da água. Algumas espécies toleram ambientes alterados, enquanto outras são mais exigentes.
Por isso, a avaliação da biodiversidade aquática deve considerar a composição das comunidades e outros indicadores ecológicos.
Onde observar libélulas em Portugal durante o outono
Os melhores locais incluem charcos naturais, margens de rios, lagoas, albufeiras, zonas húmidas costeiras e pequenos lagos de jardim.
As áreas soalheiras e abrigadas do vento são especialmente interessantes durante outubro, quando os insetos beneficiam do aquecimento proporcionado pela luz solar.
A vegetação aquática e marginal oferece locais de descanso, reprodução e emergência.
Para observar estes animais sem os perturbar, mantenha alguma distância, utilize binóculos ou uma máquina fotográfica com zoom e evite pisar a vegetação das margens.
Registar a data, o local e as condições meteorológicas pode também contribuir para conhecer melhor a atividade sazonal das espécies.
Como criar um jardim favorável às libélulas
Um pequeno lago de jardim pode proporcionar habitat a libélulas e a muitos outros organismos.
O mais importante é criar condições adequadas para as diferentes fases do ciclo de vida.
- Construir um lago com profundidades variadas. Incluir zonas pouco profundas e áreas mais fundas, adaptadas ao clima local.
- Utilizar vegetação aquática adequada. Privilegiar espécies autóctones e evitar plantas invasoras.
- Manter plantas emergentes. Os caules permitem que as larvas abandonem a água durante a transformação em adultos.
- Evitar pesticidas. Estes produtos podem prejudicar as libélulas e os organismos de que se alimentam.
- Criar zonas soalheiras e abrigadas. Pedras, arbustos e vegetação marginal oferecem locais de descanso.
- Preservar a qualidade da água. Evitar fertilizantes, detergentes e tratamentos químicos desnecessários.
- Não introduzir peixes indiscriminadamente. Algumas espécies alimentam-se intensamente de larvas de odonatos.
Também é importante evitar limpezas totais do lago, especialmente quando existem larvas em desenvolvimento.
A manutenção deve ser gradual, preservando parte da vegetação e dos micro-habitats aquáticos.
Para aprofundar este tema, consulte o nosso guia para criar um lago natural e favorecer a biodiversidade no jardim.
As alterações climáticas estão a modificar a época de voo das libélulas?
A temperatura influencia o desenvolvimento, a emergência e a atividade das libélulas.
Em várias regiões europeias, a investigação tem identificado alterações na distribuição e na fenologia de diferentes espécies, associadas, entre outros fatores, ao aquecimento climático.
Outonos mais amenos podem permitir que determinados adultos permaneçam ativos durante mais tempo.
Contudo, o aumento da temperatura não produz apenas efeitos positivos. Secas prolongadas, redução dos caudais e desaparecimento de charcos temporários podem prejudicar a reprodução e o desenvolvimento larvar.
As consequências variam conforme a espécie, a região e a disponibilidade de habitats adequados.
Uma observação tardia isolada não constitui prova de uma alteração climática. Para identificar tendências são necessários registos consistentes ao longo de vários anos.
Curiosidades científicas sobre as libélulas
1. Possuem uma visão extraordinariamente desenvolvida. Os grandes olhos compostos permitem detetar movimentos numa ampla área do espaço, facilitando a localização de presas e outros indivíduos.
2. São predadoras em duas fases da vida. Tanto as larvas aquáticas como os adultos alados capturam outros animais.
3. Conseguem controlar as asas de forma muito precisa. A estrutura muscular e a coordenação dos dois pares de asas permitem manobras rápidas, mudanças de direção e voo estacionário em muitas espécies.
4. As larvas possuem uma estrutura de captura especializada. O lábio inferior é modificado e pode projetar-se rapidamente para agarrar presas debaixo de água.
5. Pertencem a uma linhagem evolutiva antiga. Os odonatos atuais fazem parte de um grupo de insetos cuja história evolutiva remonta a centenas de milhões de anos. Alguns parentes extintos possuíam dimensões muito superiores às das libélulas atuais.
Perguntas frequentes sobre as libélulas no outono
Até quando se podem observar libélulas em Portugal?
Algumas espécies podem ser observadas durante outubro e novembro. Em regiões particularmente amenas, existem também registos ocasionais durante os meses de inverno, dependendo da espécie e das condições meteorológicas.
As libélulas morrem quando chega o inverno?
Muitos adultos terminam o ciclo de vida antes ou durante a estação fria. No entanto, as espécies continuam presentes através dos ovos ou das larvas, e existem estratégias de sobrevivência diferentes entre os odonatos.
Onde passam as libélulas os meses frios?
Grande parte das espécies europeias permanece em ambientes aquáticos, sobretudo na fase larvar. Outras atravessam períodos desfavoráveis como ovos, enquanto certas donzelinhas conseguem passar o inverno como adultos.
Porque aparecem libélulas perto de lagos e charcos?
A água é essencial para a reprodução e para o desenvolvimento das larvas. Estes locais também proporcionam alimento, vegetação de suporte e condições adequadas para a emergência dos adultos.
As libélulas são perigosas para as pessoas?
Não. As libélulas não possuem ferrão e não atacam deliberadamente as pessoas. Embora possam morder se forem agarradas, não representam normalmente qualquer perigo e são importantes predadoras de pequenos insetos.
Conclusão
O outono representa uma fase de transição no ciclo de vida das libélulas. Enquanto algumas espécies continuam a caçar e a reproduzir-se nos últimos dias amenos, outras já completaram a fase adulta e permanecem nos habitats aquáticos sob a forma de ovos ou larvas.
A diversidade destes comportamentos demonstra a capacidade de adaptação dos odonatos às mudanças sazonais.
Em Portugal, conservar charcos, lagoas, ribeiras e vegetação aquática é fundamental para garantir a continuidade das suas populações.
Os últimos voos das libélulas no outono recordam-nos que a vida dos ecossistemas não termina quando chega o frio. Muitas das transformações mais importantes decorrem discretamente debaixo da superfície da água.