O ciclo de vida completo do percevejo-verde ao longo do ano

Quem cultiva tomates, feijões, pimentos ou outras hortícolas pode encontrar, durante os meses mais quentes, um inseto verde com corpo em forma de escudo. Noutras alturas aparecem pequenas ninfas pretas, vermelhas, brancas e verdes que parecem pertencer a espécies completamente diferentes. Muitas vezes, porém, estamos perante fases do mesmo inseto.

Neste artigo, percevejo-verde refere-se a Nezara viridula, um pentatomídeo polífago presente em Portugal e capaz de utilizar numerosas plantas como alimento. Documentação técnica portuguesa identifica esta espécie entre os percevejos de importância agrícola e confirma que passa o período desfavorável principalmente no estado adulto.

O seu ciclo anual não consiste simplesmente em “aparecer no verão e desaparecer no inverno”. Reprodução, cinco estádios ninfais, formação dos adultos, diapausa, procura de abrigo e reativação primaveril fazem parte de uma estratégia sazonal complexa.

Índice

  1. Como reconhecer Nezara viridula
  2. Primavera: saída dos abrigos e regresso à atividade
  3. Reprodução e postura dos ovos
  4. Os cinco estádios ninfais
  5. Verão: crescimento e reprodução
  6. Outono: preparação para o período desfavorável
  7. Diapausa e sobrevivência durante o inverno
  8. Porque os percevejos procuram locais abrigados
  9. Impacto do percevejo-verde na agricultura
  10. Métodos naturais de controlo na horta
  11. Perguntas frequentes
  12. Conclusão

Como reconhecer o percevejo-verde

O adulto de Nezara viridula apresenta o formato aproximadamente pentagonal ou de escudo típico de muitos representantes da família Pentatomidae.

A coloração mais conhecida é verde, embora existam variações e a própria cor possa mudar sazonalmente. Durante a diapausa, adultos de determinadas populações podem passar do verde para tonalidades acastanhadas ou avermelhadas, regressando posteriormente à coloração verde quando retomam a atividade.

Outra característica conhecida é o odor intenso libertado quando o inseto é perturbado.

É um mecanismo defensivo, e está na origem de vários nomes populares atribuídos aos chamados “stink bugs” noutros países.

Um aparelho bucal especializado

O percevejo-verde não mastiga uma folha como uma lagarta.

Possui um aparelho bucal picador-sugador que consegue penetrar nos tecidos vegetais. Durante a alimentação, introduz saliva e retira o conteúdo dos tecidos atingidos.

Rebentos, sementes e frutos em desenvolvimento estão entre as estruturas suscetíveis. Nos frutos, as perfurações podem produzir manchas endurecidas, descolorações e deformações.

Esta alimentação explica a importância agrícola da espécie.

Primavera: saída dos abrigos e regresso à atividade

Para compreender o ciclo anual, é útil começar na primavera.

Durante o período frio, adultos de Nezara viridula podem permanecer protegidos em folhada, fendas da casca das árvores, vegetação densa e outras cavidades ou estruturas que ofereçam proteção.

Quando as condições se tornam novamente favoráveis, abandonam gradualmente esses locais.

A atividade aumenta, os insetos procuram plantas hospedeiras e retomam a alimentação. A maturação reprodutiva também é restabelecida depois da diapausa.

Documentação agrícola portuguesa descreve precisamente este padrão: os adultos passam o inverno protegidos e, na primavera, abandonam os refúgios e começam novamente a alimentar-se nos tecidos vegetais.

Não existe, porém, uma data universal.

O calendário depende do clima regional e das condições meteorológicas de cada ano. Uma população numa zona portuguesa de inverno ameno pode apresentar um padrão diferente de outra exposta a períodos prolongados de frio.

Reprodução e postura dos ovos

Depois do regresso à atividade e do acasalamento, começa uma das fases mais fáceis de identificar numa horta: a postura.

As fêmeas colocam os ovos em grupos compactos, frequentemente na página inferior das folhas. Os pequenos ovos apresentam uma forma semelhante a minúsculos barris e permanecem firmemente unidos à superfície vegetal e entre si.

Esta concentração não é apenas interessante do ponto de vista biológico.

Também representa uma oportunidade para o controlo.

Encontrar uma postura antes da eclosão permite remover numerosos futuros percevejos de uma única vez, sem necessidade de tratamentos generalizados.

Contudo, é importante confirmar a identificação. Nem todos os percevejos encontrados numa horta são Nezara viridula, e existem espécies predadoras que podem ser úteis no controlo de outras pragas.

Do ovo nasce uma ninfa, não uma larva semelhante a uma lagarta

O percevejo-verde apresenta metamorfose incompleta.

Isso significa que o ciclo básico é:

ovo → ninfa → adulto

Não existe uma fase de pupa como acontece com borboletas, moscas ou besouros.

As ninfas aumentam de tamanho através de mudas sucessivas. A cada muda, o inseto abandona o exoesqueleto anterior e entra num novo estádio de desenvolvimento.

Em Nezara viridula existem cinco estádios ninfais antes da formação do adulto.

Os cinco estádios ninfais

Uma das características mais interessantes do percevejo-verde é a transformação visual das ninfas.

Quem conhece apenas o adulto verde pode facilmente interpretar as fases juvenis como insetos completamente diferentes.

Primeiro estádio: juntos junto aos ovos

Depois da eclosão, as ninfas do primeiro estádio permanecem inicialmente agrupadas junto dos ovos vazios.

Nesta fase, não começam imediatamente a alimentar-se dos tecidos vegetais. O comportamento gregário ajuda também a criar condições microclimáticas favoráveis e oferece vantagens defensivas.

É frequente encontrar um pequeno grupo muito compacto sobre uma folha.

Esta é outra boa oportunidade para controlo manual.

Segundo estádio: começa a alimentação

Depois da primeira muda, as ninfas entram no segundo estádio e começam a alimentar-se.

Continuam frequentemente agrupadas.

A aparência é muito diferente da do adulto. Podem apresentar coloração escura acompanhada por manchas claras e avermelhadas.

O contraste é tão forte que um jardineiro pouco familiarizado com o ciclo da espécie dificilmente associaria estas pequenas ninfas ao percevejo adulto completamente verde.

Terceiro e quarto estádios: maior mobilidade

As ninfas continuam a alimentar-se e aumentam de tamanho.

Os padrões corporais também se modificam progressivamente.

O comportamento gregário vai diminuindo e a procura de alimento torna-se cada vez mais importante. Dados de monitorização fitossanitária descrevem uma dispersão mais evidente a partir dos estádios ninfais avançados.

É nesta fase que vários indivíduos podem começar a aparecer distribuídos por frutos, caules e folhas.

Quinto estádio: quase adulto

O quinto estádio é o último antes da transformação em adulto.

As estruturas que irão originar as asas tornam-se muito mais evidentes e o corpo aproxima-se do formato definitivo.

Depois da última muda surge o adulto alado.

Não existe casulo.

Verão: alimentação, crescimento e reprodução

Durante condições favoráveis, o ciclo acelera.

Adultos alimentam-se, acasalam e produzem novas posturas. Ao mesmo tempo, ovos e ninfas de diferentes idades podem estar presentes nas plantas.

Nezara viridula é uma espécie multivoltina, ou seja, pode completar mais de uma geração por ano.

O número concreto de gerações depende fortemente da região, temperatura, duração da estação favorável e disponibilidade de plantas hospedeiras. Estudos sobre a ecologia sazonal da espécie mostram que esse número varia geograficamente, razão pela qual não é correto atribuir um valor fixo a todas as populações.

Isto é particularmente importante quando se aplicam informações internacionais a Portugal.

Um calendário observado num clima tropical não deve ser copiado diretamente para uma horta portuguesa.

Outono: o ciclo começa a mudar

Com a aproximação do período desfavorável, ocorre uma transformação importante.

Os adultos destinados a atravessar o inverno reduzem o investimento reprodutivo e podem entrar em diapausa.

O fotoperíodo — a duração relativa do período de luz e escuridão — desempenha um papel fundamental na regulação desta resposta em populações de clima temperado. Estudos fisiológicos demonstraram que a diapausa reprodutiva de Nezara viridula é controlada por sinais fotoperiódicos tanto em machos como em fêmeas.

Isto permite ao inseto utilizar uma informação muito previsível.

As temperaturas podem oscilar bastante de uma semana para outra. A duração do dia, pelo contrário, segue um ciclo anual regular.

Diapausa: muito mais do que “dormir no inverno”

Diapausa não significa simplesmente que o inseto adormece.

É um estado fisiológico regulado, associado à sobrevivência durante uma época desfavorável.

Em Nezara viridula, trata-se principalmente de uma diapausa reprodutiva dos adultos.

Durante este período, o desenvolvimento dos órgãos reprodutores é interrompido ou reduzido, a atividade diminui e podem ocorrer alterações na coloração corporal.

Experiências realizadas em condições próximas das naturais demonstraram também a importância do momento em que esta resposta é iniciada. Num estudo realizado no Japão, adultos que entraram em diapausa em condições sazonalmente adequadas apresentaram melhor sobrevivência durante o inverno do que indivíduos cujo ciclo ficou desfasado.

Estes resultados ajudam a explicar porque a sincronização sazonal é tão importante para o inseto.

Nem todas as populações passam o inverno exatamente da mesma maneira

Existe uma nuance importante.

Em climas suficientemente amenos, determinadas populações podem não apresentar uma diapausa de inverno tão marcada e continuar a utilizar plantas hospedeiras alternativas, mantendo níveis reduzidos de reprodução.

Por isso, o ciclo descrito neste artigo representa sobretudo o padrão das populações sujeitas a uma estação fria suficientemente marcada.

Porque procuram abrigo?

Entrar em diapausa não elimina os perigos do inverno.

O inseto continua exposto a temperaturas baixas, chuva, vento, predadores e outras condições ambientais.

Por isso, os adultos procuram micro-habitats protegidos.

Entre os locais documentados encontram-se folhada, fendas e cavidades da casca das árvores, copas densas de plantas perenes e estruturas humanas que proporcionam abrigo.

É por esta razão que, no outono, alguns percevejos podem aparecer junto a edifícios ou em cavidades protegidas.

Não significa necessariamente que estejam à procura de alimento dentro de casa.

Podem simplesmente estar a procurar um local onde atravessar o período desfavorável.

Primavera seguinte: o ciclo recomeça

Quando as condições sazonais mudam novamente, a diapausa termina.

Os adultos tornam-se progressivamente mais ativos, abandonam os locais de abrigo e procuram alimento.

Estudos de campo mostram que a mudança fisiológica é acompanhada pelo desenvolvimento dos órgãos reprodutores e pelo retorno da atividade. A coloração acastanhada associada à diapausa também pode reverter para verde.

Depois surgem os primeiros acasalamentos e posturas.

Começa assim uma nova sequência:

adulto → ovos → cinco estádios ninfais → adulto → diapausa → adulto novamente ativo.

Impacto agrícola do percevejo-verde

A importância de Nezara viridula resulta principalmente de duas características: a alimentação picadora-sugadora e a capacidade de utilizar muitas espécies vegetais.

É um inseto polífago.

Em Portugal, documentação técnica sobre a produção de avelã, por exemplo, inclui Nezara viridula entre os pentatomídeos fitófagos de importância agrícola.

Os danos variam conforme a cultura e o tecido atingido.

Quando um percevejo se alimenta num fruto em desenvolvimento, a perfuração pode provocar zonas endurecidas, manchas, deformações e perda de qualidade. Rebentos jovens também podem ser afetados.

Contudo, presença não significa automaticamente prejuízo grave.

Um único adulto observado numa planta não justifica necessariamente uma intervenção generalizada. A quantidade de insetos, fase da cultura e danos efetivamente observados devem ser considerados.

Métodos naturais de controlo numa horta

Numa pequena horta, o ciclo de vida oferece várias oportunidades de intervenção antes de se recorrer a tratamentos mais agressivos.

1. Procurar posturas

Observe especialmente a página inferior das folhas.

As massas de ovos são imóveis e concentradas. Quando a identificação é segura, podem ser removidas manualmente antes da eclosão.

É provavelmente uma das intervenções mais simples para uma horta doméstica.

2. Remover grupos de ninfas jovens

O comportamento gregário dos primeiros estádios também facilita o controlo.

Em vez de procurar dezenas de adultos espalhados por várias plantas, pode ser possível retirar um grupo inteiro de ninfas concentrado numa única folha.

3. Recolher manualmente adultos

Quando existem poucos exemplares, a recolha manual é uma opção.

Colocar um recipiente por baixo da planta pode ajudar, porque os percevejos podem deixar-se cair quando são perturbados.

4. Proteger frutos particularmente vulneráveis

Barreiras físicas e redes adequadas podem ajudar em determinadas culturas, desde que sejam instaladas corretamente e não impeçam a polinização quando esta ainda é necessária.

A estratégia deve ser adaptada à planta.

5. Preservar os inimigos naturais

Nezara viridula possui inimigos naturais.

Entre eles encontram-se parasitoides que atacam os ovos e outros que utilizam ninfas ou adultos. Trissolcus basalis, por exemplo, é uma pequena vespa parasitoide dos ovos estudada como agente de controlo biológico da espécie.

Aplicações indiscriminadas de inseticidas podem afetar também estes auxiliares.

Num jardim ou horta diversificados, evitar tratamentos desnecessários ajuda a preservar predadores e parasitoides naturalmente presentes.

6. Vigiar em vez de tentar eliminar tudo

O objetivo realista não precisa de ser transformar a horta num espaço sem insetos.

Monitorizar folhas, reconhecer ovos e ninfas e intervir quando a população começa a causar danos permite uma abordagem mais seletiva.

Também reduz o risco de eliminar por engano percevejos predadores ou outros artrópodes úteis.

Perguntas frequentes

O percevejo-verde passa o inverno vivo?

Sim. Em regiões com inverno marcado, Nezara viridula atravessa normalmente o período desfavorável como adulto em diapausa, procurando locais protegidos.

Onde se esconde durante o inverno?

Pode utilizar folhada, casca e cavidades de árvores, vegetação densa e outros locais protegidos. Estruturas humanas também podem proporcionar abrigo.

Porque alguns percevejos ficam castanhos no inverno?

A diapausa de Nezara viridula pode estar associada a uma alteração reversível da coloração, passando do verde para tons acastanhados. Quando a atividade é retomada, a coloração pode voltar ao verde.

Quantas fases juvenis existem?

Existem cinco estádios ninfais entre o ovo e o adulto.

As ninfas parecem adultos pequenos?

Não exatamente. As primeiras fases apresentam padrões escuros, claros e avermelhados bastante diferentes do adulto verde. O aspeto muda progressivamente ao longo das mudas.

Porque aparecem tantos juntos numa folha?

As ninfas dos primeiros estádios apresentam comportamento gregário e permanecem inicialmente próximas da postura. A agregação está associada, entre outros fatores, à proteção contra condições ambientais adversas e às defesas contra inimigos naturais.

O percevejo-verde prejudica tomates?

Pode alimentar-se de frutos em desenvolvimento. As perfurações provocadas pelo aparelho bucal podem causar manchas, endurecimento dos tecidos e deformações.

É necessário utilizar inseticida?

Não necessariamente. Numa horta doméstica, monitorização, remoção de posturas e ninfas agrupadas, recolha manual e conservação de inimigos naturais podem ser suficientes quando as populações são reduzidas.

Todos os percevejos verdes são uma praga?

Não. A identificação é importante porque existem diferentes espécies de percevejos, incluindo espécies predadoras. Não se deve assumir que qualquer inseto com formato de escudo encontrado numa horta é Nezara viridula.

Conclusão

O percevejo-verde não desaparece simplesmente quando termina o verão.

O adulto que encontramos escondido entre folhas secas no outono pode ser o mesmo que, meses depois, abandona o abrigo, recupera a atividade e inicia uma nova geração.

Entre esses dois momentos existe um ciclo cuidadosamente sincronizado com as estações.

Na época favorável surgem as posturas. Dos ovos emergem ninfas que atravessam cinco estádios, mudando profundamente de aparência enquanto crescem. Os novos adultos alimentam-se e reproduzem-se até que os sinais ambientais anunciam a aproximação de condições menos favoráveis.

Então, em populações de clima temperado, entra em cena a diapausa.

O metabolismo e a reprodução ajustam-se, o comportamento muda e os adultos procuram proteção. Na primavera seguinte, a atividade recomeça.

Para quem cultiva uma horta, compreender esta sequência tem uma vantagem prática: permite atuar nos momentos em que o controlo é mais simples. Uma postura numa folha ou um grupo de pequenas ninfas é muito mais fácil de gerir do que numerosos adultos dispersos.

Conhecer o ciclo do percevejo-verde permite, assim, substituir intervenções indiscriminadas por uma estratégia baseada em observação, identificação correta e conhecimento da biologia da espécie.