No outono, um esquilo-vermelho encontra uma semente, segura-a entre as patas, transporta-a para longe da árvore e desaparece entre as folhas. Pouco depois, pode voltar ao mesmo local de alimentação, recolher outro alimento e repetir o processo noutro ponto da floresta.
Este comportamento não é aleatório. O esquilo está a criar reservas que poderão ser recuperadas quando encontrar alimento se tornar mais difícil. Em vez de concentrar tudo num único local, distribui parte das reservas por diferentes esconderijos.
É um comportamento conhecido como armazenamento disperso, ou scatter-hoarding. Algumas sementes acabam por permanecer no solo e, quando continuam viáveis e encontram condições adequadas, podem germinar. Assim, um comportamento desenvolvido para garantir alimento ao animal pode também contribuir para a dispersão de sementes e para a regeneração da vegetação.
Índice
- Porque é que os esquilos escondem comida
- O que o esquilo-vermelho guarda para comer mais tarde
- Como funciona o armazenamento disperso
- Os esquilos lembram-se de onde esconderam a comida
- Porque alguns esconderijos nunca são recuperados
- De uma reserva escondida a uma nova planta
- Os esquilos podem ajudar a regenerar as florestas
- Esquilos e carvalhos
- Nem todas as sementes recebem o mesmo tratamento
- Outros animais também escondem sementes
- O esquilo-vermelho em Portugal
- Como favorecer esquilos e outros dispersores naturais
- FAQs
Porque é que os esquilos escondem comida
A disponibilidade de alimento numa floresta varia ao longo do ano. Árvores e arbustos podem produzir grandes quantidades de sementes durante determinados períodos, seguidos por meses em que esses recursos se tornam mais difíceis de encontrar.
Guardar alimento quando existe abundância permite utilizá-lo posteriormente. Estudos sobre Sciurus vulgaris mostram que a recuperação de reservas pode ter consequências importantes para a condição corporal e sobrevivência durante períodos desfavoráveis.
Existem diferentes estratégias de armazenamento. Alguns animais concentram alimento numa reserva principal, estratégia geralmente designada larder-hoarding. Outros distribuem pequenas reservas por numerosos pontos do território.
Esta segunda estratégia é o scatter-hoarding. A dispersão dos esconderijos reduz o risco de perder toda a reserva se outro animal encontrar um deles.
Existe, naturalmente, um custo. Encontrar, transportar, esconder e posteriormente recuperar alimento exige tempo e energia. O benefício surge quando as reservas recuperadas ajudam o animal durante períodos de menor disponibilidade alimentar.
O que o esquilo-vermelho guarda para comer mais tarde
O esquilo-vermelho (Sciurus vulgaris) possui uma dieta flexível. A composição varia consideravelmente entre regiões, habitats e estações do ano.
Em florestas de coníferas, as sementes dos pinheiros e de outras coníferas podem assumir particular importância. Uma revisão clássica da alimentação da espécie descreve as sementes de coníferas como uma componente fundamental da dieta em muitos destes habitats.
Avelãs, nozes, bolotas e outras sementes também podem ser consumidas quando disponíveis. Gomos, rebentos, frutos e fungos completam uma alimentação que muda segundo aquilo que a floresta oferece em cada momento.
Os alimentos armazenados também variam. Num estudo realizado em Inglaterra, esquilos-vermelhos enterraram pinhas, nozes, amendoins e avelãs, enquanto frutos e fungos também podiam ser guardados acima do solo, entre os ramos.
As bolotas são, portanto, apenas uma parte da história. Não devem ser apresentadas como o alimento dominante de todos os esquilos-vermelhos.

Como funciona o armazenamento disperso
O armazenamento disperso começa com a seleção de um alimento.
O esquilo pode transportá-lo para outro local, escolher um pequeno esconderijo, colocar ou enterrar o alimento e cobri-lo com solo, folhas ou outro material vegetal. Posteriormente poderá regressar à zona e tentar recuperá-lo.
Ao repetir o comportamento, cria uma rede de pequenas reservas em vez de uma única despensa.
Esta distribuição oferece uma vantagem evidente. Se um competidor descobrir um esconderijo, não encontra necessariamente todo o alimento acumulado pelo proprietário.
A investigação sobre scatter-hoarding mostra precisamente que a localização e distribuição das reservas estão relacionadas com o equilíbrio entre armazenamento, recuperação e risco de roubo.
Os esquilos lembram-se de onde esconderam a comida
A ideia de que um esquilo enterra uma semente e imediatamente esquece onde a colocou é enganadora.
Animais que armazenam alimento de forma dispersa utilizam memória espacial para recuperar pelo menos parte das reservas. A relação entre armazenamento de alimento, memória espacial e mecanismos cerebrais associados à navegação é um campo de investigação bem estabelecido.
Também existem experiências especificamente com esquilos do género Sciurus. Estudos revistos na literatura científica mostram que Sciurus vulgaris consegue utilizar informação espacial na recuperação de alimentos armazenados, embora a duração e precisão dessa memória dependam das condições experimentais.
Elementos relativamente estáveis da paisagem podem funcionar como referências. Árvores, troncos, pedras e a disposição espacial do ambiente ajudam a orientar a procura.
Pistas olfativas também podem contribuir em determinadas circunstâncias. Não existe, contudo, razão para reduzir todo o processo a um único mecanismo.
Porque alguns esconderijos nunca são recuperados
Um alimento permanecer enterrado não significa necessariamente que o esquilo se tenha esquecido dele.
Um indivíduo pode criar muitas reservas e encontrar posteriormente alimento mais acessível noutro local. O ambiente pode mudar, folhas podem acumular-se e determinados esconderijos podem tornar-se mais difíceis de localizar.
Outro animal também pode encontrar e retirar a semente antes do proprietário.
Há ainda situações mais simples. O esquilo pode abandonar a área, morrer antes de recuperar a reserva ou simplesmente falhar a localização de alguns esconderijos.
A própria semente pode deteriorar-se e deixar de representar um alimento aproveitável.
Por isso, “não recuperado” é um conceito mais rigoroso do que “esquecido”. O esquecimento é apenas uma das várias explicações possíveis.
De uma reserva escondida a uma nova planta
Quando uma semente permanece no solo, inicia-se uma segunda história que já não depende necessariamente do esquilo.
Primeiro, a semente precisa de continuar viável. Depois necessita de encontrar condições adequadas de humidade, temperatura, oxigenação e solo.
A profundidade também importa. Uma semente enterrada demasiado profundamente pode não conseguir estabelecer uma plântula, enquanto uma demasiado superficial pode ficar mais exposta à dessecação ou a novos predadores.
Mesmo depois da germinação não existe garantia de sobrevivência. Muitas plântulas morrem por competição, seca, herbivoria, doenças ou outras condições ambientais.
Assim, esconder uma semente não equivale a plantar uma árvore. O armazenamento cria apenas uma oportunidade potencial.
Os esquilos podem ajudar a regenerar as florestas
Quando um animal transporta uma semente para longe da planta que a produziu, está potencialmente a atuar como dispersor.
O efeito ecológico é particularmente interessante nos animais que consomem sementes. O mesmo esquilo pode destruir algumas ao comê-las e dispersar outras ao armazená-las.
É uma relação em que o animal pode funcionar simultaneamente como predador e dispersor de sementes.
O transporte também pode afastar uma semente da elevada concentração de sementes e plântulas existente junto da árvore-mãe. Dependendo da espécie vegetal e das condições ambientais, isso pode alterar as probabilidades de estabelecimento.
O resultado não é sempre positivo para a planta. Muitas sementes armazenadas acabam consumidas e outras nunca germinam.
A contribuição do scatter-hoarding para a regeneração depende, portanto, do equilíbrio entre consumo, transporte, armazenamento, recuperação e sobrevivência das sementes.
Esquilos e carvalhos: uma relação mais complexa do que parece
As bolotas constituem reservas concentradas de energia e podem ser consumidas por diferentes mamíferos e aves.
Um esquilo pode comer uma bolota imediatamente ou transportá-la. Se for enterrada e permanecer viável, existe a possibilidade de germinação.
A distância à árvore que produziu a bolota também pode ser ecologicamente relevante. O transporte desloca a semente para um novo micro-habitat, onde encontrará condições diferentes de luz, humidade, competição e predação.
Portugal possui diferentes espécies de carvalhos e as características das bolotas não são idênticas entre todas elas. Também não existe fundamento para assumir que Sciurus vulgaris utiliza bolotas exatamente da mesma maneira em todas as regiões portuguesas.
A relação deve ser entendida como um processo ecológico variável, e não como uma regra segundo a qual cada bolota não recuperada dará origem a um carvalho.
Nem todas as sementes recebem o mesmo tratamento
Os esquilos não tratam necessariamente todos os alimentos disponíveis da mesma forma.
Qualidade, estado de maturação, tamanho, conteúdo energético e facilidade de transporte podem influenciar decisões de alimentação e armazenamento. O risco de deterioração também é relevante porque um alimento armazenado precisa de continuar utilizável posteriormente.
Um estudo realizado com esquilos-vermelhos num parque urbano encontrou diferenças claras na seleção dos alimentos oferecidos e uma forte variação sazonal: os frutos secos eram mais frequentemente armazenados no outono e consumidos diretamente com maior frequência na primavera.
Isto reforça uma ideia essencial: armazenar alimento é um comportamento flexível, influenciado pelas condições ambientais e pela disponibilidade de recursos.
Outros animais também escondem sementes
O esquilo não trabalha sozinho na dispersão das sementes de uma floresta.
Diversos roedores armazenam alimentos, tal como várias aves. Entre estas, os corvídeos constituem um dos grupos mais estudados no contexto do scatter-hoarding e da memória espacial.
Na Europa, o gaio (Garrulus glandarius) merece particular atenção. A ave transporta e armazena bolotas, podendo deslocá-las para locais afastados dos carvalhos onde foram recolhidas.
Parte dessas bolotas permanece disponível para germinação. Por essa razão, os gaios podem desempenhar um papel relevante na dispersão e regeneração de carvalhos.
É importante reconhecer esta diversidade de agentes. Encontrar jovens carvalhos afastados de uma árvore adulta não significa que tenham necessariamente resultado de sementes transportadas por esquilos.
O esquilo-vermelho em Portugal
Sciurus vulgaris tem uma história particularmente interessante no território português.
O Livro Vermelho dos Mamíferos de Portugal Continental indica que a espécie desapareceu de Portugal por volta do século XVI, num contexto associado à forte redução dos habitats florestais. Séculos mais tarde, começou uma nova expansão, beneficiando da recolonização natural a partir de Espanha e também de ações de reintrodução.
Atualmente, o ICNF indica a presença da espécie em toda a região Norte e Centro, existindo também registos a sul do Tejo compatíveis com a continuação da expansão. A população nacional é classificada como “Pouco Preocupante” e a tendência indicada é de expansão.
Investigação genética publicada em 2026 reforça esta história complexa, encontrando sinais compatíveis tanto com recolonização natural a partir da vizinha Espanha como com reintroduções humanas realizadas no final do século XX.
O esquilo-vermelho é essencialmente florestal. Em Portugal ocupa sobretudo florestas de coníferas e bosques mistos, podendo também aparecer em parques e jardins arborizados.
As sementes constituem uma parte fundamental da alimentação. O Livro Vermelho destaca as sementes de várias espécies de pinheiro, complementadas por frutos secos, bagas, cogumelos e outros recursos segundo a disponibilidade.
É um animal de atividade predominantemente diurna. A reprodução ocorre sobretudo durante a primavera e o verão, embora o calendário possa variar segundo as condições ambientais.
Como favorecer esquilos e outros dispersores naturais
A melhor forma de favorecer os processos ecológicos realizados por estes animais é conservar habitat adequado.
Árvores maduras fornecem alimento, abrigo e continuidade vertical. Uma floresta composta por diferentes espécies arbóreas também pode disponibilizar recursos em épocas distintas do ano.
Sebes e corredores arborizados facilitam movimentos entre manchas de habitat. Reduzir a fragmentação permite que os animais utilizem áreas maiores sem terem de atravessar constantemente espaços abertos ou estradas.
Alguma madeira morta pode ser conservada quando não representa perigo, aumentando a diversidade estrutural e biológica da floresta.
Estas medidas beneficiam não apenas os esquilos, mas muitos outros organismos associados aos ambientes arborizados.
Fornecer alimento artificialmente não é necessário para que o esquilo-vermelho desempenhe o seu papel ecológico. Alimentação inadequada ou excessiva pode alterar comportamentos naturais e aproximar desnecessariamente animais selvagens das pessoas.
FAQs
Porque é que os esquilos enterram comida?
Para criar reservas que possam ser utilizadas posteriormente, sobretudo quando a disponibilidade natural de alimento diminui.
Os esquilos esquecem realmente onde esconderam as bolotas?
Algumas reservas não são recuperadas, mas isso não significa que todas sejam esquecidas. Esquilos utilizam memória espacial e conseguem reencontrar parte dos alimentos armazenados.
Como encontram novamente os esconderijos?
A memória espacial desempenha um papel importante. Referências existentes no ambiente e, em algumas circunstâncias, pistas sensoriais adicionais também podem contribuir para a procura.
Que alimentos guarda o esquilo-vermelho?
Pode armazenar sementes de coníferas, avelãs, nozes, bolotas e outros alimentos. Fungos também podem ser guardados, inclusive acima do solo.
Os esquilos comem bolotas?
Sim, quando estão disponíveis, embora a importância das bolotas na dieta varie entre habitats e regiões.
Uma bolota enterrada por um esquilo pode transformar-se num carvalho?
Sim. Se não for recuperada, permanecer viável e encontrar condições adequadas para germinar e estabelecer-se, pode originar uma nova planta.
Quantas reservas consegue um esquilo fazer?
Não existe um número universal que possa ser aplicado a todos os indivíduos. A quantidade varia com disponibilidade alimentar, habitat, estação e comportamento individual.
Os esquilos ajudam realmente a dispersar sementes?
Podem fazê-lo. Ao transportar e armazenar sementes, algumas acabam por ficar em locais onde conseguem germinar. Ao mesmo tempo, os esquilos também são consumidores dessas sementes.
Que outros animais enterram ou transportam bolotas?
Diversos roedores e aves transportam sementes. O gaio (Garrulus glandarius) é particularmente conhecido pela dispersão de bolotas.
O esquilo-vermelho existe em Portugal?
Sim. Atualmente encontra-se amplamente distribuído pelo Norte e Centro e existem registos que documentam a expansão para sul. O Livro Vermelho dos Mamíferos de Portugal Continental classifica Sciurus vulgaris como “Pouco Preocupante”.
Conclusão
A sequência começa com uma necessidade simples. O esquilo encontra alimento quando existe abundância, transporta-o e distribui reservas por diferentes esconderijos para poder utilizá-las mais tarde.
Muitas dessas reservas são recuperadas. A memória espacial é uma parte importante deste comportamento e torna incorreta a ideia de que os esquilos enterram sementes simplesmente porque se esquecem delas.
Algumas reservas, porém, permanecem no solo. Quando contêm uma semente viável e as condições de humidade, temperatura, solo e profundidade são adequadas, pode ocorrer germinação.
O facto de o esquilo esconder alimento para benefício próprio não impede que o comportamento tenha outra consequência ecológica. Ao transportar sementes e deixar algumas por recuperar, pode contribuir para a sua dispersão e, em determinadas circunstâncias, para a regeneração da vegetação.
É um exemplo claro de como um comportamento individual desenvolvido para assegurar alimento pode produzir efeitos que se estendem muito além do próprio animal.
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Fontes principais
Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas — Livro Vermelho dos Mamíferos de Portugal Continental, ficha de Sciurus vulgaris.
Pravosudov, V. V. & Roth, T. C. II (2013). Cognitive Ecology of Food Hoarding: The Evolution of Spatial Memory and the Hippocampus. Annual Review of Ecology, Evolution, and Systematics.
Brodin, A. (2010). The history of scatter hoarding studies. Philosophical Transactions of the Royal Society B.
Shuttleworth, C. M. (2000). The foraging behaviour and diet of red squirrels Sciurus vulgaris receiving supplemental feeding. Wildlife Biology.
Moller, H. (1983). Foods and foraging behaviour of Red (Sciurus vulgaris) and Grey (Sciurus carolinensis) squirrels. Mammal Review.