Numa noite de final de verão, o jardim pode parecer praticamente igual ao de algumas semanas antes. As árvores continuam verdes, o solo permanece seco em muitas regiões e os dias ainda podem ser quentes. No entanto, basta parar alguns minutos para perceber que a paisagem sonora começa a mudar.
Os sons dos insetos acompanham os seus ciclos biológicos e são influenciados pelas condições ambientais. À medida que termina a época de atividade adulta de muitas cigarras, diferentes ortópteros, incluindo vários grilos, podem continuar acusticamente ativos enquanto as condições permanecem favoráveis.
Não existe, porém, uma data em que a cigarra simplesmente “dá lugar” ao grilo. A mudança é gradual e varia entre espécies, regiões, altitudes, habitats e anos.
Índice
- Porque muda o som das noites com a chegada do outono
- Cigarras: a banda sonora dos períodos mais quentes
- Porque deixamos de ouvir as cigarras
- Grilos: vozes que podem continuar no início do outono
- A temperatura altera o canto dos grilos
- Cigarra e grilo produzem som de maneiras diferentes
- O calendário acústico não tem datas fixas
- Setembro no Norte não soa necessariamente como setembro no Sul
- Porque alguns insetos cantam principalmente à noite
- O que acontece quando chegam as primeiras noites realmente frias
- O silêncio também faz parte do ciclo dos insetos
- Como ouvir a mudança de estação no jardim
- Um jardim favorável aos insetos acústicos
- FAQs
Porque muda o som das noites com a chegada do outono
A paisagem sonora de um jardim é produzida por muitas espécies simultaneamente. Cada uma possui o seu próprio ciclo anual, período reprodutivo e tolerância às condições ambientais.
Quando o verão termina, vários fatores começam a mudar em conjunto. As noites tornam-se progressivamente mais longas, as temperaturas tendem a diminuir e muitas populações de insetos aproximam-se do fim de determinadas fases do seu ciclo de vida.
A temperatura tem uma influência particularmente evidente porque os insetos são ectotérmicos. A sua fisiologia depende fortemente das condições térmicas externas, embora diferentes espécies respondam de formas distintas.
Não se deve, contudo, atribuir toda a transformação do som do outono à descida da temperatura. Fotoperíodo, reprodução, disponibilidade de habitat, ciclo de vida e condições meteorológicas de cada ano também participam nesta mudança.
Cigarras: a banda sonora dos períodos mais quentes
As cigarras pertencem à família Cicadidae. Portugal possui uma diversidade considerável deste grupo; a base de biodiversidade Naturdata lista atualmente 17 espécies da família no país, incluindo Cicada orni, Cicada barbara lusitanica, Lyristes plebejus e várias espécies dos géneros Tettigettalna e Tibicina.
O som característico das cigarras é produzido sobretudo pelos machos e está intimamente relacionado com a comunicação reprodutiva. Os sinais permitem, entre outras funções, comunicar com indivíduos da mesma espécie e atrair potenciais parceiras.
O mecanismo é bastante diferente daquele utilizado pelos grilos.
Os machos possuem estruturas especializadas denominadas tímbalos. Estas membranas com regiões endurecidas deformam-se rapidamente através da ação muscular, produzindo uma sequência de impulsos sonoros. O corpo participa depois na ressonância e projeção do sinal.
É esta extraordinária maquinaria biomecânica que produz um dos sons mais reconhecíveis dos dias quentes mediterrânicos.

Porque deixamos de ouvir as cigarras
Quando uma cigarra deixa de cantar no final da sua época de atividade, isso não significa simplesmente que tenha entrado num longo sono de inverno.
O ciclo começa com os ovos. Depois da eclosão surgem ninfas que passam grande parte do desenvolvimento associadas ao solo e às raízes das plantas.
Quando completam o desenvolvimento, as ninfas emergem, realizam a última muda e surgem os adultos. É esta fase aérea e reprodutiva que produz a imagem e o som que normalmente associamos às cigarras.
Depois da reprodução, a fase adulta termina. Grande parte da vida destes insetos decorre, portanto, fora daquele breve período em que conseguimos vê-los e ouvi-los facilmente.
É importante não aplicar às cigarras portuguesas os conhecidos ciclos de 13 ou 17 anos das cigarras periódicas norte-americanas do género Magicicada. Esses ciclos pertencem a espécies com uma biologia muito particular e não representam as cigarras portuguesas.
Grilos: vozes que podem continuar no início do outono
Os verdadeiros grilos pertencem à família Gryllidae. Tal como acontece com as cigarras, “grilo” não designa uma única espécie.
A Naturdata lista 25 espécies de Gryllidae para Portugal, incluindo o grilo-do-campo (Gryllus campestris), Gryllus bimaculatus, Oecanthus pellucens, Nemobius sylvestris e várias outras.
Em muitas espécies, são os machos que produzem os sinais acústicos mais evidentes.
Em vez de tímbalos, utilizam normalmente a estridulação. Durante este processo, estruturas especializadas das asas anteriores entram em contacto enquanto as asas se movimentam. Uma região semelhante a uma lima e uma estrutura que funciona como raspador participam na geração das vibrações, posteriormente reforçadas pelas regiões ressonantes das asas.
O canto pode desempenhar diferentes funções. Existem sinais associados à atração de fêmeas, corte e interações entre machos rivais.
A temperatura altera o canto dos grilos
Um grilo não funciona como um pequeno termómetro, mas existe uma razão científica para relacionar o seu canto com a temperatura.
Sendo ectotérmico, a temperatura corporal do animal acompanha fortemente as condições ambientais. A atividade muscular necessária para produzir o canto também é influenciada pela temperatura.
Um estudo clássico realizado com Gryllus bimaculatus mostrou que determinadas características temporais do canto, como as taxas de repetição das sílabas e dos chirps, aumentavam com a temperatura dentro de uma determinada faixa experimental. Fora dessa faixa, a relação não permanecia simplesmente linear.
Isto ajuda a explicar por que um coro de grilos pode parecer mais lento numa noite fresca.
Também explica por que a conhecida ideia de calcular a temperatura contando os cantos deve ser utilizada com cautela. Uma relação obtida para determinada espécie e intervalo térmico não pode ser transformada numa fórmula universal aplicável a qualquer grilo.
Cigarra e grilo produzem som de maneiras diferentes
| Característica | Cigarra | Grilo |
|---|---|---|
| Grupo | Cicadidae | Gryllidae |
| Quem produz os sinais mais conhecidos | Principalmente machos | Principalmente machos |
| Mecanismo principal | Tímbalos | Estridulação das asas anteriores |
| Função frequente | Comunicação reprodutiva | Atração, corte e interações competitivas |
| Maior atividade acústica | Depende da espécie; muitas estão associadas a períodos quentes | Depende da espécie |
| Influência da temperatura | Pode alterar características temporais do canto | Pode alterar ritmo e atividade do canto |
| Habitat | Muito variável conforme a espécie | Muito variável conforme a espécie |
| Atividade sazonal | Associada à fase adulta de cada espécie | Dependente do ciclo de cada espécie |
Esta comparação apresenta tendências gerais, não regras universais.
Um estudo particularmente relevante realizado por investigadores portugueses analisou o canto de três cigarras de Portugal em diferentes temperaturas e encontrou forte dependência térmica de certos componentes temporais do canto em algumas delas. Mesmo dentro das cigarras, portanto, a resposta acústica à temperatura varia entre espécies.
O calendário acústico não tem datas fixas
Representar a transição como “setembro → outubro” funciona visualmente, mas não constitui um calendário biológico exato.
Uma determinada população pode deixar de ser ouvida relativamente cedo num ano e permanecer ativa durante mais tempo noutro.
Ondas de calor tardias podem prolongar condições favoráveis. Pelo contrário, períodos frios precoces podem reduzir rapidamente a atividade de insetos ectotérmicos.
Altitude e microclima também contam. Um vale protegido, uma encosta exposta, um jardim urbano e uma zona montanhosa podem apresentar condições térmicas muito diferentes na mesma noite.
Acima de tudo, é necessário saber que espécie está presente. A Naturdata documenta múltiplas espécies de Cicadidae e Gryllidae em Portugal, impossibilitando um único calendário acústico aplicável a todas.
Setembro no Norte não soa necessariamente como setembro no Sul
Portugal continental apresenta uma diversidade climática significativa numa área relativamente pequena.
Uma noite de setembro no Minho pode ter condições muito diferentes de uma noite na mesma data no Algarve. O mesmo acontece quando se compara o litoral com o interior ou uma zona de baixa altitude com uma região montanhosa.
Estas diferenças influenciam tanto as espécies presentes como as condições em que permanecem ativas.
O microclima pode introduzir ainda mais variação. Vegetação densa, exposição solar durante o dia, humidade do solo, proximidade de água e estrutura da paisagem alteram as condições experimentadas pelos insetos.
É por isso mais rigoroso falar numa transição sonora do final do verão para o outono do que atribuir a mudança a um mês específico.
Porque alguns insetos cantam principalmente à noite
O horário de atividade acústica também depende da espécie.
Muitos grilos tornam-se particularmente evidentes ao entardecer e durante a noite. Os seus sinais acústicos permitem comunicar através da vegetação mesmo quando existe pouca luz.
A atividade noturna pode estar relacionada com condições térmicas, reprodução e interações ecológicas, incluindo exposição a diferentes predadores.
As cigarras não devem ser colocadas automaticamente nesta categoria. Muitas espécies são especialmente sonoras durante o dia e nas horas quentes, embora existam também cigarras com atividade acústica concentrada noutros períodos.
Consequentemente, a sensação de que “o som da noite muda” pode resultar tanto da substituição sazonal de espécies como das diferenças nos seus horários diários de atividade.
O que acontece quando chegam as primeiras noites realmente frias
Quando a temperatura diminui, a fisiologia dos insetos ectotérmicos também se altera.
A atividade locomotora pode diminuir. A produção de sinais acústicos pode tornar-se mais lenta ou cessar, e alimentação e comportamento reprodutivo também podem ser reduzidos.
Nos grilos, experiências demonstram claramente que propriedades temporais do canto podem responder à temperatura. No caso de Gryllus bimaculatus, por exemplo, a relação foi observada dentro de intervalos térmicos específicos e não como uma regra linear ilimitada.
Nas cigarras, o fenómeno também pode ser complexo. Estudos realizados com espécies portuguesas mostraram dependência térmica de determinadas características temporais do canto, mas diferenças entre as espécies analisadas.
Uma noite fria também não determina necessariamente o fim definitivo da atividade. Se regressarem condições amenas, determinados insetos ainda presentes na fase adulta podem voltar a tornar-se ativos.
O silêncio também faz parte do ciclo dos insetos
Quando desaparece o canto, a população não desapareceu necessariamente da paisagem.
Os insetos podem atravessar a estação desfavorável em diferentes fases do ciclo de vida.
Dependendo da espécie, o inverno pode ser passado como ovo, ninfa, larva ou adulto. Cada estratégia está associada à história evolutiva e à ecologia daquele organismo.
Nas cigarras, as ninfas subterrâneas são um exemplo particularmente evidente de vida escondida. Durante grande parte do ciclo, a presença do inseto não produz qualquer espetáculo acústico semelhante ao observado nos adultos.
O silêncio sazonal pode, portanto, esconder uma comunidade que continua presente.
Como ouvir a mudança de estação no jardim
A paisagem sonora pode ser acompanhada sem capturar ou perturbar qualquer animal.
Escolha sempre o mesmo local e visite-o regularmente durante várias semanas. Registe a data, hora, temperatura aproximada, condições meteorológicas e os principais tipos de som ouvidos.
Anotar onde o som parece ter origem também é útil: copa de uma árvore, sebe, vegetação rasteira, solo ou margem de um charco.
Uma gravação de áudio feita à distância pode ajudar a comparar noites diferentes e, em alguns casos, permitir uma identificação posterior.
Identificar espécies exclusivamente pelo som, porém, exige boas gravações, bibliotecas acústicas adequadas e experiência. Um simples “cri-cri” não permite automaticamente identificar a espécie responsável.
Um jardim favorável aos insetos acústicos
Preservar uma comunidade diversa de insetos exige sobretudo habitat.
Uma vegetação estruturalmente variada cria diferentes microclimas e locais de abrigo. Árvores, arbustos, herbáceas e áreas menos intensivamente geridas permitem que espécies com necessidades distintas coexistam.
Também é útil evitar perturbar excessivamente todo o solo e conservar alguma folhada e matéria vegetal em zonas apropriadas.
Reduzir o uso desnecessário de pesticidas protege tanto os insetos acústicos como as suas presas, predadores e restantes organismos da cadeia alimentar.
Plantas nativas podem contribuir para uma rede ecológica mais complexa, enquanto a redução de iluminação artificial desnecessária durante a noite beneficia diferentes componentes da fauna noturna.
O objetivo não deve ser criar um jardim exclusivamente para cigarras ou grilos. Um habitat diversificado oferece condições para uma comunidade muito mais ampla.
FAQs
Porque deixam de se ouvir as cigarras no final do verão?
Porque termina progressivamente a fase adulta e reprodutiva das espécies que estavam ativas durante o período quente. Temperatura e outras condições ambientais também influenciam a atividade acústica.
As cigarras morrem quando chega o outono?
Os adultos acabam por completar o seu ciclo, mas a população continua através das restantes fases de desenvolvimento. As ninfas de muitas cigarras vivem no solo.
Os grilos continuam ativos em outubro?
Algumas espécies podem continuar acusticamente ativas durante parte do outono quando as condições são adequadas. Não existe uma data universal válida para todos os grilos ou regiões de Portugal.
O frio faz os grilos deixarem de cantar?
Temperaturas mais baixas podem diminuir a atividade e alterar o ritmo do canto. A resposta concreta depende da espécie e das condições ambientais.
Porque cantam os grilos durante a noite?
Em muitas espécies, os machos utilizam sinais acústicos na comunicação reprodutiva. A atividade noturna depende da ecologia específica de cada espécie.
Como é produzido o som de uma cigarra?
Principalmente através dos tímbalos, membranas especializadas que sofrem deformações rápidas pela ação muscular e geram impulsos acústicos posteriormente reforçados pelo sistema corporal.
Como é produzido o canto de um grilo?
Normalmente através da estridulação das asas anteriores, fazendo interagir estruturas especializadas que produzem vibrações e som.
É possível saber a temperatura pelo canto de um grilo?
Existem relações entre temperatura e ritmo do canto em determinadas espécies, mas não existe uma fórmula universal aplicável a todos os grilos.
Existem várias espécies de cigarras e grilos em Portugal?
Sim. A Naturdata lista várias espécies de ambos os grupos no território português, incluindo 17 Cicadidae e 25 Gryllidae na sua base de dados atual.
Porque o som do jardim muda entre setembro e outubro?
Porque diferentes espécies avançam nos seus ciclos de vida enquanto temperatura, duração do dia e condições meteorológicas também mudam. A transição não acontece simultaneamente em todo o país.
Conclusão
O início do outono não representa uma substituição instantânea da cigarra pelo grilo.
A realidade é mais interessante. À medida que terminam os ciclos adultos de diferentes espécies estivais e as condições ambientais mudam, determinados sons tornam-se progressivamente menos frequentes enquanto outros permanecem audíveis.
Temperatura, ciclo de vida, espécie, latitude, altitude, habitat e meteorologia determinam quando esta transição acontece. Até entre cigarras portuguesas foram demonstradas diferenças na forma como determinadas características do canto respondem à temperatura.
O som dos insetos no outono é, por isso, uma sobreposição de muitos calendários biológicos.
Ouvir regularmente o mesmo jardim, bosque ou campo permite acompanhar esta transformação. Antes de as mudanças da estação se tornarem completamente evidentes nas folhas e na paisagem, a comunidade de insetos pode já estar a anunciá-las através do som.