O que se sabe sobre a ligação entre jardinagem e bem-estar

Mexer na terra, semear, podar, regar ou simplesmente acompanhar o crescimento de uma planta são atividades que muitas pessoas associam intuitivamente a uma sensação de calma. Nas últimas décadas, esta perceção quotidiana começou também a ser estudada pela ciência.

A investigação disponível sugere que a jardinagem pode estar associada a benefícios para o bem-estar psicológico e, em determinadas circunstâncias, à recuperação após situações de stress. No entanto, é importante separar aquilo que já foi observado em seres humanos das hipóteses interessantes — mas ainda preliminares — provenientes de experiências com animais.

Um dos exemplos mais conhecidos desta distinção envolve a bactéria ambiental Mycobacterium vaccae. Alguns estudos em ratinhos encontraram efeitos relacionados com a resposta ao stress, mas isso não significa que o contacto normal com terra de jardim tenha sido demonstrado como um tratamento para ansiedade, depressão ou outras perturbações em seres humanos.

Índice

  1. Jardinagem e bem-estar: o que mostra a investigação
  2. O que acontece ao cortisol durante a jardinagem
  3. O que é a Mycobacterium vaccae
  4. O que os estudos em animais realmente descobriram
  5. O que ainda não foi demonstrado em seres humanos
  6. Porque é difícil atribuir os benefícios a uma única causa
  7. Jardinagem e saúde mental: o panorama mais amplo
  8. Como aproveitar a jardinagem de forma realista
  9. Perguntas frequentes
  10. Conclusão

Jardinagem e bem-estar: o que mostra a investigação

A jardinagem é uma atividade particularmente difícil de estudar porque combina vários elementos ao mesmo tempo.

Pode envolver atividade física ligeira ou moderada, exposição ao exterior, contacto com vegetação, concentração numa tarefa concreta, aprendizagem, criatividade e, em hortas comunitárias, interação social.

Por isso, quando um estudo encontra uma associação entre jardinagem e maior bem-estar, não é necessariamente possível concluir que existe uma única causa responsável pelo efeito.

Ainda assim, o conjunto da literatura científica é suficientemente amplo para mostrar um padrão interessante.

Uma revisão abrangente publicada em 2024 analisou revisões anteriores sobre jardinagem e terapia hortícola. Foram incluídas 40 revisões, abrangendo estudos observacionais e intervenções. Globalmente, os autores encontraram uma associação positiva entre estas atividades e várias medidas de bem-estar, qualidade de vida e saúde.

Ao mesmo tempo, os próprios investigadores salientaram uma limitação importante: os estudos eram bastante heterogéneos. As populações, atividades, duração das intervenções e formas de medir o bem-estar variavam consideravelmente.

Assim, os resultados não devem ser interpretados como prova de que jardinagem constitui, por si só, um tratamento médico.

O que acontece ao cortisol durante a jardinagem

Uma das experiências mais citadas sobre jardinagem e stress foi conduzida por investigadores nos Países Baixos.

O estudo envolveu 30 jardineiros. Primeiro, os participantes realizaram uma tarefa concebida para provocar stress. Depois, foram distribuídos aleatoriamente entre duas atividades durante 30 minutos: trabalhar no jardim ou ler dentro de casa.

Os investigadores recolheram amostras de saliva para acompanhar os níveis de cortisol e avaliaram também o estado de espírito dos participantes.

O cortisol diminuiu durante o período de recuperação nos dois grupos, mas a redução foi significativamente mais acentuada entre aqueles que tinham estado a jardinar. O estado de espírito positivo também recuperou mais no grupo da jardinagem.

É um resultado interessante porque inclui uma medida fisiológica, e não apenas respostas a questionários.

Mas é igualmente importante reconhecer os limites.

Tratou-se de uma experiência pequena, com apenas 30 participantes, e avaliou a recuperação após um episódio agudo de stress. Não demonstra que jardinar regularmente reduza de forma permanente o cortisol, nem que possa tratar doenças relacionadas com stress.

Mostra algo mais específico: naquele contexto experimental, 30 minutos de jardinagem estiveram associados a uma recuperação mais pronunciada do cortisol depois de uma situação stressante.

O que é a Mycobacterium vaccae

A Mycobacterium vaccae é uma bactéria ambiental não patogénica estudada sobretudo pelas suas propriedades imunorreguladoras.

A sua presença no ambiente e a investigação realizada em modelos animais deram origem a uma ideia frequentemente simplificada nas redes sociais: a de que uma “bactéria da terra” funcionaria como um antidepressivo natural.

Essa descrição ultrapassa largamente aquilo que a ciência demonstrou.

Os estudos mais conhecidos não consistiram simplesmente em deixar animais escavar terra. Os investigadores utilizaram preparações específicas de M. vaccae, frequentemente inativadas pelo calor, administradas de forma controlada.

Esta diferença é fundamental.

Uma experiência laboratorial com uma preparação bacteriana definida não é equivalente ao contacto quotidiano com solo durante a jardinagem.

O que os estudos em animais realmente descobriram

Num estudo publicado em 2016 nos Proceedings of the National Academy of Sciences, investigadores administraram repetidamente a ratinhos uma preparação de M. vaccae inativada pelo calor antes de os submeterem a um modelo experimental de stress psicossocial crónico.

Os animais tratados apresentaram alterações em determinados comportamentos relacionados com a resposta ao stress e sinais de efeitos imunorreguladores. Os investigadores observaram também proteção contra algumas alterações inflamatórias induzidas pelo stress.

Experiências posteriores encontraram resultados semelhantes em diferentes modelos animais. Num estudo posterior, por exemplo, a administração da bactéria antes ou durante a exposição ao stress modificou alguns comportamentos semelhantes à ansiedade avaliados nos ratinhos.

Outra investigação analisou animais sujeitos simultaneamente a perturbações do ciclo de luz e a stress social. Os resultados voltaram a sugerir possíveis interações entre M. vaccae, microbioma, sistema imunitário e mecanismos relacionados com resiliência ao stress.

Também foram estudadas alterações do sono. Uma experiência publicada na revista Sleep verificou que a imunização com uma preparação inativada de M. vaccae preveniu várias alterações comportamentais e do sono provocadas por uma combinação experimental de privação de sono e stress em ratinhos.

São resultados cientificamente relevantes.

Mas continuam a ser resultados obtidos em animais.

O que ainda não foi demonstrado em seres humanos

É aqui que muitas explicações populares dão um salto demasiado grande.

O facto de M. vaccae produzir determinados efeitos quando administrada experimentalmente a ratinhos não demonstra que tocar em terra aumente a serotonina humana, funcione como antidepressivo ou previna perturbações relacionadas com stress.

Existem estudos clínicos em seres humanos envolvendo preparações de M. vaccae, incluindo investigação histórica no contexto da imunoterapia para doenças como a tuberculose. Isso não equivale, porém, a demonstrar os benefícios psicológicos frequentemente atribuídos à bactéria nas redes sociais.

A investigação animal ajuda a explorar mecanismos biológicos possíveis e a formular novas hipóteses. Para confirmar essas hipóteses em pessoas seriam necessários estudos humanos especificamente desenhados para essa finalidade.

Por isso, a formulação cientificamente prudente é simples: M. vaccae é uma linha interessante de investigação sobre imunorregulação e resposta ao stress, mas não existe base para apresentar o contacto habitual com esta bactéria através da jardinagem como tratamento de saúde mental.

Porque é difícil atribuir os benefícios a uma única causa

Mesmo deixando de lado a hipótese microbiana, existem várias razões plausíveis para a jardinagem contribuir para o bem-estar.

Movimento físico

Cavar, transportar regadores, plantar, mondar e podar implicam movimento. A intensidade varia muito, mas a jardinagem pode interromper períodos prolongados de sedentarismo e proporcionar atividade física regular.

Contacto com espaços verdes

Jardinar normalmente significa passar tempo rodeado de plantas e, frequentemente, ao ar livre. Assim, alguns dos efeitos observados podem estar relacionados com a exposição à natureza e não exclusivamente com a atividade de jardinagem.

Atenção concentrada

Muitas tarefas de jardim exigem concentração no presente: colocar uma semente à profundidade correta, observar uma folha, retirar ervas espontâneas ou transplantar uma planta.

Estas tarefas podem temporariamente afastar a atenção de preocupações repetitivas.

Sensação de progresso

A jardinagem produz resultados observáveis. Uma semente germina, uma planta cresce, uma área é recuperada ou surgem flores e frutos.

Esse progresso pode proporcionar uma sensação de competência e propósito.

Relações sociais

Nas hortas comunitárias e programas de horticultura terapêutica existe ainda uma componente social. Partilhar tarefas, conhecimentos e colheitas pode contribuir para reduzir o isolamento.

Por estas razões, provavelmente é demasiado simplista procurar uma única explicação biológica para todos os benefícios observados.

Jardinagem e saúde mental: o panorama mais amplo

Os resultados mais convincentes surgem quando se olha para o conjunto da investigação, embora permaneçam limitações importantes.

Uma meta-análise de 2022 reuniu 18 ensaios aleatorizados de terapia hortícola e encontrou um efeito positivo global sobre medidas de saúde mental. Os próprios autores, contudo, chamaram a atenção para aspetos metodológicos que deveriam ser melhorados em estudos futuros, incluindo procedimentos de ocultação da alocação e cegamento.

A revisão abrangente publicada em 2024 chegou igualmente a uma conclusão favorável, mas encontrou elevada heterogeneidade entre os estudos e advertiu contra interpretações clínicas demasiado diretas dos resultados.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025, centrada em adultos com condições crónicas, reuniu 23 estudos com 4535 participantes. Os resultados sugeriram efeitos pequenos a moderados em algumas medidas de saúde mental, enquanto os resultados relativos à saúde física e geral foram mais modestos e apresentaram incerteza considerável.

Portanto, a evidência não diz simplesmente que “jardinar cura o stress”.

O panorama é mais interessante e mais credível: diferentes tipos de jardinagem e intervenções hortícolas apresentam resultados promissores para determinados aspetos do bem-estar, mas os estudos diferem muito entre si e ainda existem limitações metodológicas importantes.

Como aproveitar a jardinagem de forma realista

Não é necessário transformar a jardinagem numa intervenção médica para reconhecer o seu valor.

Cuidar de algumas plantas numa varanda, manter uma pequena horta, transplantar aromáticas ou passar algum tempo a trabalhar num jardim pode reunir movimento, contacto com vegetação, concentração e uma pausa das rotinas habituais.

Para algumas pessoas, essa combinação é simplesmente agradável. Para outras, pode funcionar como uma atividade complementar que favorece relaxamento, rotina ou contacto social.

A distinção importante está na linguagem utilizada.

É razoável dizer que a jardinagem pode contribuir para o bem-estar e que existem estudos experimentais que encontraram alterações no cortisol após uma sessão de jardinagem. Também existem revisões que apontam para benefícios psicológicos de atividades hortícolas.

Não é razoável transformar estes resultados numa promessa de cura ou substituir cuidados profissionais por jardinagem quando existe uma condição de saúde que necessita de avaliação ou tratamento.

Perguntas frequentes

Jardinar reduz realmente o cortisol?

Existe evidência experimental de que pode favorecer a recuperação após stress agudo. Num pequeno estudo com 30 participantes, tanto a leitura como a jardinagem foram acompanhadas por redução do cortisol após uma tarefa stressante, mas a diminuição foi significativamente maior depois de 30 minutos de jardinagem. Isso não significa que todas as pessoas terão o mesmo efeito ou que a jardinagem reduz permanentemente o cortisol.

A Mycobacterium vaccae é realmente uma “bactéria antidepressiva”?

Esta designação é demasiado simplificadora. Estudos realizados em ratinhos encontraram efeitos interessantes sobre mecanismos imunológicos e comportamentos relacionados com stress depois da administração experimental de preparações específicas da bactéria. Esses resultados não demonstram que M. vaccae seja um antidepressivo para seres humanos.

Tocar em terra aumenta a serotonina?

Não existe evidência humana suficiente para fazer essa afirmação como facto. Alguns mecanismos neurobiológicos foram investigados em modelos animais, mas não devem ser diretamente extrapolados para pessoas que trabalham normalmente num jardim.

É preciso ter uma grande horta para beneficiar da jardinagem?

Não necessariamente. Muitos dos componentes potencialmente relevantes — atividade, concentração, contacto com plantas e sensação de cuidar de algo vivo — também podem estar presentes numa varanda, num pequeno quintal ou através de plantas cultivadas em recipientes.

A jardinagem pode substituir tratamento psicológico ou médico?

Não. A jardinagem pode ser uma atividade de bem-estar e a horticultura terapêutica pode integrar determinados programas estruturados, mas não deve ser apresentada como substituto universal de cuidados médicos ou psicológicos.

Conclusão

A ligação entre jardinagem e bem-estar é mais sólida quando descrita sem exageros.

Existe investigação em seres humanos que associa atividades de jardinagem e horticultura a melhores resultados em várias medidas de bem-estar e saúde mental. Existe também evidência experimental de que uma sessão de jardinagem pode favorecer a recuperação fisiológica e emocional depois de uma situação de stress, incluindo uma redução mais acentuada do cortisol num pequeno estudo controlado.

Paralelamente, a investigação sobre Mycobacterium vaccae abriu uma área fascinante sobre as possíveis relações entre microrganismos ambientais, sistema imunitário, microbioma e resposta ao stress. Mas grande parte da evidência relevante para estes mecanismos continua a vir de experiências com animais.

Não precisamos, portanto, de afirmar que existe uma “bactéria da felicidade” na terra para reconhecer que cuidar de um jardim pode ser uma atividade valiosa.

A ciência aponta para algo mais complexo: jardinar reúne movimento, natureza, atenção, aprendizagem, propósito e, por vezes, contacto social. É provavelmente a combinação destes fatores — e não uma única bactéria ou mecanismo — que torna a jardinagem uma área tão interessante para a investigação sobre bem-estar.