Porque a aboboreira tem flores sem dar fruto no inĂ­cio

A aboboreira cresce vigorosamente, aparecem as primeiras flores amarelas e, poucos dias depois, essas flores murcham e caem sem deixar qualquer fruto. Para quem cultiva abóboras ou courgettes pela primeira vez, a conclusão parece imediata: alguma coisa correu mal.

Na maioria dos casos, porém, o comportamento é perfeitamente normal.

Abóboras, courgettes e outras plantas do género Cucurbita produzem flores masculinas e femininas separadas na mesma planta. As primeiras flores de plantas ainda jovens tendem a ser masculinas. Como uma flor masculina nunca se transforma em fruto, ela abre, disponibiliza pólen e acaba por cair.

As flores femininas surgem posteriormente e distinguem-se facilmente pela estrutura inchada existente imediatamente atrás da flor, semelhante a uma pequena abóbora ou courgette. Se receberem pólen suficiente, esse ovário pode continuar a desenvolver-se e formar o fruto.

Compreender esta diferença evita tratamentos desnecessários e permite perceber quando existe realmente um problema de polinização.

Índice

  1. Flores masculinas e femininas na aboboreira
  2. Como identificar uma flor masculina
  3. Como identificar uma flor feminina
  4. Porque aparecem primeiro flores masculinas
  5. Quando começam normalmente as flores femininas
  6. Porque uma pequena abóbora pode amarelecer e cair
  7. Como fazer polinização manual passo a passo
  8. Como atrair mais polinizadores naturais à horta
  9. Outros fatores que interferem com a frutificação
  10. Perguntas frequentes
  11. Conclusão

Flores masculinas e femininas na aboboreira

A aboboreira é uma planta monoica.

Isto significa que a mesma planta produz flores masculinas e femininas separadamente.

Não devemos, portanto, procurar órgãos masculinos e femininos completos dentro da mesma flor. Uma flor fornece o pólen; outra possui o ovário que poderá transformar-se numa abóbora.

A Royal Horticultural Society confirma esta separação em abóboras e courgettes e explica que a transferência de pólen entre as flores é necessária para a formação normal dos frutos.

Como identificar a flor masculina

A flor masculina nasce sobre um pedúnculo relativamente fino.

Quando olhamos para a base, não encontramos qualquer pequena abóbora.

No interior encontra-se a estrutura produtora de pólen. Quando a flor está madura, é normalmente possível observar o pólen amarelado.

A função desta flor é fornecer pólen.

Depois de abrir e cumprir essa função, murcha e cai.

Não existe nenhum fruto perdido nesse processo, porque uma flor masculina nunca teve um ovário capaz de se transformar numa abóbora.

Como identificar a flor feminina

A flor feminina é fácil de reconhecer quando sabemos onde olhar.

Imediatamente atrás das pétalas existe uma estrutura inchada.

Parece uma abóbora em miniatura.

Na courgette é alongada. Numa variedade de abóbora arredondada poderá ser mais globosa. A forma já pode recordar o futuro fruto.

Esta estrutura é o ovário.

Dentro da flor encontra-se o estigma, a superfície que precisa de receber pólen proveniente de uma flor masculina.

Quando ocorre polinização adequada, seguida de fertilização, o ovário continua a desenvolver-se.

Se isso não acontecer, a pequena estrutura pode parar de crescer, amarelecer, murchar e acabar por cair.

Porque aparecem primeiro flores masculinas

Este comportamento causa grande parte da confusão.

Uma aboboreira jovem pode produzir uma sucessão de grandes flores amarelas sem formar uma única abóbora.

A RHS explica que plantas imaturas de abóbora, courgette e outras cucurbitáceas tendem a produzir apenas flores masculinas no início da estação.

Isso significa que observar flores sem fruto durante esta primeira fase não constitui, por si só, sinal de deficiência, doença ou falta de fertilizante.

A planta ainda está a desenvolver a sua estrutura vegetativa e a entrar progressivamente na fase reprodutiva.

Não existe um calendário universal

É tentador afirmar que as flores femininas aparecem exatamente uma ou duas semanas depois das masculinas.

Na prática, não existe um número universal que funcione para todas as aboboreiras.

A variedade, temperatura, luz, água, fertilidade do solo, época de plantação e vigor da planta influenciam o desenvolvimento.

O que devemos observar é a sequência geral:

primeiro crescimento vegetativo;

depois aparecimento frequente de flores masculinas;

posteriormente coexistência de flores masculinas e femininas;

finalmente, quando existe polinização adequada, desenvolvimento dos frutos.

A presença das primeiras flores femininas é mais útil do que contar dias desde a primeira flor.

Quando começam normalmente as flores femininas

À medida que a planta amadurece, começam a surgir botões femininos.

Podem ser reconhecidos mesmo antes de abrir porque já apresentam o pequeno ovário na base.

Nesse momento começa uma nova fase.

Agora é necessário que flores masculinas com pólen viável estejam abertas aproximadamente ao mesmo tempo e que o pólen chegue ao estigma feminino.

Na natureza, esta transferência é realizada principalmente por insetos visitantes das flores.

As grandes flores de Cucurbita oferecem recursos que atraem abelhas e outros visitantes florais. Ao entrarem numa flor masculina, os insetos entram em contacto com o pólen. Quando visitam depois uma flor feminina, parte desse pólen pode ser depositada no estigma.

A transferência do pólen da antera masculina para o estigma feminino constitui a polinização. Só depois ocorre a fertilização que permite o desenvolvimento normal das sementes e do fruto.

A pequena abóbora apareceu, mas começou a amarelecer

Esta situação é diferente daquela em que apenas existem flores masculinas.

Aqui já existiu uma flor feminina.

O pequeno fruto estava visível antes de a flor abrir, mas depois deixou de crescer.

Uma causa possível é polinização insuficiente.

A RHS refere que baixa atividade de insetos polinizadores, incluindo durante períodos de tempo frio ou desfavorável, pode resultar em frutinhos que abortam e acabam por cair.

Mas polinização não é a única explicação.

Uma planta ainda demasiado pequena pode não conseguir sustentar frutos. Condições ambientais inadequadas, stress hídrico e outros problemas culturais também podem interferir com o desenvolvimento.

Por isso, um pequeno fruto abortado não deve automaticamente levar à conclusão de que “não existem abelhas”.

É necessário observar toda a planta.

Como fazer polinização manual passo a passo

Quando existem simultaneamente flores masculinas e femininas abertas, mas os frutos continuam a abortar, podemos ajudar manualmente.

A técnica é simples.

O objetivo é apenas reproduzir aquilo que um inseto faria: transportar pólen da flor masculina para o estigma da flor feminina.

Passo 1 — Fazer a operação de manhã

As flores de muitas Cucurbita abrem de manhã e permanecem funcionalmente disponíveis durante um período relativamente curto.

Por isso, observe as plantas cedo.

Procure flores recém-abertas.

Passo 2 — Encontrar uma flor masculina

Observe a base.

Se existe apenas um pedúnculo fino, sem qualquer miniabóbora, encontrou uma flor masculina.

Confirme que existe pólen visível no interior.

Passo 3 — Encontrar uma flor feminina aberta

Agora procure uma flor que tenha o pequeno fruto atrás das pétalas.

Ela deve estar aberta.

No centro encontra-se o estigma que irá receber o pólen.

Passo 4 — Retirar a flor masculina

Corte ou destaque cuidadosamente uma flor masculina aberta.

Retire as pétalas para deixar a estrutura coberta de pólen facilmente acessível.

Não é necessário retirar todas as flores masculinas da planta.

Basta utilizar as necessárias para a operação.

Passo 5 — Transferir o pólen

Encoste suavemente a parte produtora de pólen da flor masculina ao estigma da flor feminina.

Passe-a cuidadosamente pelas diferentes superfícies do estigma.

Não é necessário esmagar ou danificar a flor.

O objetivo é simplesmente deixar uma boa quantidade de pólen em contacto com a superfície recetiva.

A RHS descreve precisamente esta técnica, utilizando a flor masculina como se fosse um pequeno pincel sobre o centro da flor feminina.

Passo 6 — Em alternativa, utilizar um pincel

Também pode utilizar um pincel pequeno, limpo e seco.

Passe-o primeiro pelas anteras de uma flor masculina para recolher pólen.

Depois transfira esse pólen para o estigma da flor feminina.

Este método é particularmente útil quando não queremos remover a flor masculina.

Passo 7 — Acompanhar o fruto

Depois da polinização, não espere crescimento instantâneo.

Observe a pequena abóbora nos dias seguintes.

Se continuar a aumentar de tamanho e apresentar aspeto saudável, o desenvolvimento está a avançar.

Se amarelecer, amolecer ou parar completamente de crescer, o fruto poderá ter abortado.

A polinização manual aumenta a probabilidade de transferência de pólen, mas não consegue corrigir todos os problemas ambientais ou fisiológicos da planta.

Como atrair mais polinizadores naturais à horta

A polinização manual é útil, mas uma horta ecologicamente equilibrada não deveria depender exclusivamente de um pincel.

É possível criar condições mais favoráveis para abelhas, sirfídeos e outros insetos visitantes das flores.

Manter flores durante toda a estação

Uma horta que contém apenas plantas hortícolas pode oferecer alimento de forma irregular.

Acrescentar plantas floríferas com épocas de floração diferentes ajuda a criar uma sequência mais contínua de recursos.

Ervas aromáticas deixadas florir, flores anuais e espécies adaptadas à região podem contribuir.

A RHS mantém listas de plantas selecionadas para fornecer recursos a diferentes grupos de polinizadores ao longo do ano.

Diversificar as flores

Nem todos os polinizadores utilizam as mesmas flores.

Tamanhos, formatos e profundidades diferentes favorecem grupos diferentes de insetos.

Uma mistura de flores abertas e simples com outras estruturas florais aumenta a diversidade de oportunidades de alimentação.

Evitar inseticidas durante a floração

Aplicar um inseticida sobre flores visitadas por insetos pode entrar diretamente em conflito com a polinização.

Mesmo quando existe necessidade real de controlar uma praga, o produto, momento de aplicação e método devem ser cuidadosamente avaliados.

Num sistema de horta, o objetivo deve ser utilizar primeiro prevenção, observação e métodos seletivos, evitando tratamentos indiscriminados.

Criar locais de nidificação

Nem todas as abelhas vivem em colmeias.

Muitas espécies são solitárias.

Algumas nidificam no solo. Outras utilizam cavidades existentes em caules ou madeira.

Deixar pequenas áreas de solo não coberto, conservar alguma estrutura natural e evitar perturbação excessiva pode aumentar a disponibilidade de locais adequados para determinados polinizadores.

O artigo interno sobre “Abelhas solitárias nativas: como diferem da abelha-doméstica” encaixa naturalmente nesta secção.

Disponibilizar água com segurança

Insetos também precisam de água.

Um recipiente muito raso, com pedras ou outros pontos de pouso que permitam sair facilmente, pode disponibilizar água sem criar uma superfície profunda onde pequenos animais fiquem presos.

A água deve ser renovada regularmente.

Outros fatores que interferem com a frutificação

Quando flores masculinas e femininas existem e os polinizadores estão presentes, vale a pena observar as condições de cultivo.

Temperaturas e mau tempo

Tempo frio, chuva persistente e vento podem reduzir a atividade de insetos.

A RHS identifica precisamente condições meteorológicas desfavoráveis como uma possível causa de polinização deficiente.

Stress hídrico

Aboboreiras possuem folhas grandes e podem perder bastante água em períodos quentes.

O solo deve manter humidade adequada, especialmente durante floração e desenvolvimento dos frutos.

Isso não significa manter as raízes permanentemente encharcadas.

Uma cobertura orgânica sobre o solo pode ajudar a moderar a perda de água.

Planta demasiado jovem

Uma planta pode ter tamanho insuficiente para suportar frutos.

É possível observar pequenos frutos que começam a desenvolver-se e depois são abortados enquanto a planta continua a investir no crescimento vegetativo.

Excesso de azoto

Fertilização excessivamente rica em azoto pode favorecer grande crescimento de folhas e caules sem produzir proporcionalmente mais frutos.

Uma planta enorme e verde não é necessariamente uma planta mais produtiva.

A fertilização deve acompanhar as necessidades da cultura e as características reais do solo.

Perguntas frequentes

Porque é que as primeiras flores da aboboreira caem?

Frequentemente porque são flores masculinas. Plantas jovens de abóbora e courgette tendem a produzir flores masculinas primeiro. Estas fornecem pólen e nunca se transformam em fruto.

Como sei se uma flor é macho ou fêmea?

Observe a base. A flor feminina possui uma estrutura inchada semelhante a uma pequena abóbora ou courgette. A masculina nasce sobre um pedúnculo mais fino, sem esse ovário.

Uma flor masculina consegue dar uma abóbora?

Não. O fruto desenvolve-se a partir do ovário da flor feminina.

Preciso de duas aboboreiras para obter frutos?

Uma única planta pode produzir flores masculinas e femininas. Portanto, não é obrigatoriamente necessária uma segunda planta para existir pólen e fruto. Contudo, é necessário que flores compatíveis estejam abertas em condições que permitam a transferência de pólen.

Porque aparece uma miniabóbora e depois ela cai?

Uma possibilidade é polinização insuficiente. A planta também pode estar demasiado jovem ou sujeita a condições ambientais desfavoráveis.

Posso polinizar a abóbora à mão?

Sim. Pode transferir pólen de uma flor masculina recém-aberta para o estigma de uma flor feminina, diretamente com a flor masculina ou utilizando um pequeno pincel limpo.

A técnica funciona também com courgettes?

Sim. Courgettes são também Cucurbita e produzem flores masculinas e femininas separadas. A mesma lógica de identificação e polinização manual pode ser utilizada.

Devo retirar as flores masculinas?

Não existe necessidade. Elas fornecem o pólen necessário à polinização e recursos aos insetos visitantes. Se pretender utilizar algumas flores na cozinha, escolha apenas o excedente e mantenha flores masculinas suficientes para a polinização.

Muitas folhas e poucos frutos significam doença?

Não necessariamente. A planta pode ainda estar numa fase jovem, pode existir polinização insuficiente ou as condições de cultivo podem favorecer demasiado o crescimento vegetativo.

A ausência de abelhas impede totalmente a produção?

Pode dificultar a transferência natural de pólen, mas outros insetos também podem visitar as flores. Quando a polinização natural é insuficiente, é possível recorrer à polinização manual.

Conclusão

Uma aboboreira cheia de flores e sem frutos no início não está necessariamente a falhar.

Na maioria das vezes, estamos simplesmente a observar a biologia normal da planta.

Abóboras e courgettes produzem flores masculinas e femininas separadas. As plantas jovens tendem a começar pelas masculinas, que abrem, disponibilizam pólen e caem sem formar fruto.

Só mais tarde aparecem em maior número as flores femininas, facilmente reconhecíveis pela pequena abóbora ou courgette existente na sua base.

A partir daí, a polinização torna-se decisiva.

O pólen produzido numa flor masculina precisa de alcançar o estigma de uma flor feminina. Abelhas e outros visitantes florais realizam naturalmente esse transporte. Quando existem poucos polinizadores ou condições meteorológicas desfavoráveis, podemos ajudar transferindo o pólen manualmente.

Ainda assim, a melhor solução a longo prazo não é transformar a polinização numa tarefa diária do horticultor.

É criar uma horta que também funcione como habitat.

Flores diversificadas, alimento disponível durante diferentes épocas, locais de nidificação, água e menor dependência de inseticidas ajudam a manter uma comunidade de polinizadores. A RHS salienta que muitos insetos visitantes de flores podem transportar pólen e que numerosas culturas hortícolas dependem dessa atividade.

É aqui que o artigo interno sobre abelhas solitárias nativas complementa particularmente bem este conteúdo: nem toda a polinização da horta depende da abelha-doméstica.

Quando compreendemos a diferença entre flor masculina e feminina, aquela primeira sequência de flores que cai deixa de parecer um problema.

Passa a ser aquilo que realmente é: uma fase normal no desenvolvimento da aboboreira antes de começar a formação dos frutos.