No final de agosto, algumas paisagens portuguesas começam a mudar de forma subtil. As cegonhas-brancas que durante a primavera e o verão estiveram associadas aos seus ninhos, campos e zonas húmidas passam a ser vistas em grupos, por vezes reunidas em áreas abertas ou circulando juntas no céu.
Este comportamento não é uma reunião casual. Para muitas cegonhas-brancas (Ciconia ciconia), o fim do verão corresponde a uma importante fase de preparação e deslocação migratória. As aves que vão migrar aproveitam as condições atmosféricas favoráveis, alimentam-se intensamente e podem concentrar-se em locais adequados antes de continuarem a viagem para sul.
Em Portugal, a situação tem ainda uma particularidade importante: nem todas as cegonhas-brancas abandonam o país. Uma parte da população tornou-se residente ou realiza movimentos mais curtos. Por isso, ver cegonhas reunidas em agosto não significa necessariamente que todas estejam prestes a atravessar para África.
Índice
- O que significa ver cegonhas reunidas no final de agosto
- Por que as cegonhas migram em grupos
- Como as correntes térmicas ajudam a poupar energia
- Cegonhas experientes e aves na primeira migração
- A rota geral entre Portugal e África
- Onde observar concentrações em Portugal
- Por que algumas cegonhas já não migram para África
- O que acontece aos ninhos abandonados
- A importância ecológica deste período
- Nota para leitores do Brasil
- Perguntas frequentes
- Conclusão
O que significa ver cegonhas reunidas no final de agosto
Durante a época de reprodução, a vida da cegonha-branca está fortemente ligada ao território do casal e ao ninho. Os adultos alimentam as crias, defendem o local e percorrem as áreas próximas em busca de alimento.
Depois de as crias crescerem e se tornarem independentes, essa organização começa a desaparecer. As aves passam a movimentar-se com maior liberdade e indivíduos de diferentes famílias podem alimentar-se ou descansar nos mesmos locais.
No final do verão, algumas destas concentrações funcionam como parte do chamado comportamento de pré-migração. As cegonhas alimentam-se em áreas favoráveis, descansam e aproveitam as condições meteorológicas adequadas para avançar para sul.
É uma transição entre a vida reprodutiva da primavera e o período de deslocação do outono.
Por que as cegonhas migram em grupos
A cegonha-branca é uma grande ave planadora. Embora consiga voar batendo as asas, deslocações prolongadas dessa forma exigiriam muito mais energia.
A estratégia preferida consiste em utilizar massas de ar quente ascendente, conhecidas como correntes térmicas.
Quando o sol aquece o solo, determinadas superfícies aquecem o ar acima delas. Esse ar sobe e pode formar uma espécie de elevador atmosférico invisível.
As cegonhas entram nessas correntes, circulam enquanto ganham altitude e, depois, abandonam a térmica para planar na direção desejada. Quando encontram outra corrente ascendente, repetem o processo.
Voar em grupo ajuda a encontrar as melhores térmicas
Aqui está uma das grandes vantagens das concentrações migratórias.
Uma corrente térmica não é visível. Uma cegonha precisa de interpretar as condições atmosféricas e encontrar zonas onde o ar esteja a subir.
Num grupo, várias aves estão simultaneamente à procura dessas oportunidades. Quando algumas começam a subir em círculos, outras podem aproximar-se e aproveitar a mesma corrente.
O resultado pode ser um grande conjunto de cegonhas rodopiando no céu e ganhando altitude quase sem bater as asas.
Assim, a principal eficiência energética não vem de uma formação aerodinâmica rígida, como acontece com algumas aves que voam em formação. Nas cegonhas, a grande vantagem está no aproveitamento coletivo das correntes ascendentes e no voo planado.
A eficiência energética antes de uma longa viagem
Poupar energia é essencial durante uma migração.
As aves precisam de equilibrar períodos de deslocação, alimentação e repouso. Condições meteorológicas desfavoráveis podem obrigá-las a permanecer numa região até que o voo volte a ser energeticamente vantajoso.
Por isso, uma concentração de cegonhas num campo não significa necessariamente que estejam a descansar sem propósito.
Podem estar a alimentar-se enquanto esperam por melhores condições de voo. A atividade das térmicas depende fortemente do aquecimento solar, pelo que o comportamento das aves muda ao longo do dia e conforme o estado do tempo.
Em condições adequadas, os grupos podem levantar voo, encontrar uma térmica e desaparecer gradualmente a grande altitude.
Cegonhas experientes e aves na primeira migração
Entre as aves que partem no final do verão existem diferenças importantes de experiência.
Algumas cegonhas adultas já realizaram movimentos migratórios em anos anteriores. Outras são juvenis nascidos apenas alguns meses antes e enfrentam a primeira grande deslocação das suas vidas.
Isso não significa que os juvenis dependam exclusivamente de um adulto específico que lhes ensine todo o caminho.
A migração das aves resulta de uma combinação complexa de predisposição biológica, orientação ambiental, experiência e informação obtida durante a própria deslocação.
A experiência continua a ser importante
Uma ave adulta já encontrou obstáculos, áreas de alimentação, condições meteorológicas difíceis e corredores de voo em viagens anteriores.
Essa experiência pode tornar os seus movimentos mais eficientes.
Os juvenis, por outro lado, ainda estão a desenvolver essa experiência. Viajar num contexto em que muitas outras cegonhas se deslocam na mesma direção permite-lhes responder aos mesmos sinais ambientais e aproveitar as mesmas oportunidades de voo.
Ao longo das sucessivas migrações, a experiência individual também passa a contribuir para a forma como cada ave realiza as suas deslocações.
A rota geral das cegonhas de Portugal para África
A cegonha-branca possui populações distribuídas por diferentes partes da Europa, e as rotas migratórias não são exatamente iguais para todas.
Para muitas aves da Europa Ocidental, incluindo indivíduos associados à Península Ibérica, o movimento de final do verão ocorre geralmente em direção ao sul, podendo continuar através da Península e do estreito de Gibraltar para o continente africano.
A geografia ajuda a explicar esta rota.
Como as cegonhas dependem fortemente das correntes térmicas para planar, grandes travessias sobre o mar são menos favoráveis. Sobre a água, as condições para a formação das térmicas utilizadas por estas aves são diferentes das encontradas sobre terra firme.
Por isso, corredores onde a travessia marítima é mais limitada assumem particular importância para grandes aves planadoras.
Depois de entrarem em África, diferentes indivíduos podem continuar para diferentes regiões, dependendo da população, idade, condições ambientais e estratégia migratória.
Não existe um único destino africano utilizado por todas as cegonhas-brancas.
Quando começa a partida
O final de agosto é um excelente período para reparar na mudança de comportamento em Portugal.
A época reprodutora já está a terminar para muitas aves, os juvenis estão independentes e os movimentos pós-reprodutivos e migratórios tornam-se mais evidentes.
Contudo, não existe um único “dia da partida”.
A migração acontece ao longo de um período e depende de vários fatores, incluindo condições atmosféricas, disponibilidade de alimento, idade das aves e comportamento de cada população.
Algumas cegonhas avançam para sul enquanto outras permanecem temporariamente em determinadas regiões.
E há ainda aquelas que não realizam uma migração de longa distância.
Onde observar este comportamento em Portugal
As concentrações de cegonhas podem ser especialmente visíveis em paisagens abertas onde existem boas oportunidades de alimentação e locais seguros para repousar.
No final do verão, vale a pena prestar atenção às grandes planícies e zonas agrícolas do sul e centro do país, particularmente no Alentejo e em áreas próximas dos grandes vales fluviais e zonas húmidas.
O vale do Tejo e outros territórios com extensas áreas abertas podem proporcionar boas condições para observar movimentos de cegonhas.
O comportamento mais impressionante, contudo, pode acontecer no céu.
Em dias ensolarados, grupos de aves planadoras podem aproveitar correntes térmicas e formar grandes círculos ascendentes. À distância, parecem pontos negros rodando lentamente até alcançarem altitude suficiente para seguir viagem.
A observação deve ser feita sem aproximação aos locais de repouso ou alimentação. Binóculos permitem acompanhar o comportamento sem perturbar as aves.

Nem todas as cegonhas portuguesas partem
Esta é uma distinção importante quando se fala da migração da cegonha-branca em Portugal.
Nas últimas décadas, parte das cegonhas da Península Ibérica passou a permanecer durante o inverno ou a realizar deslocações menos extensas.
Alterações na disponibilidade de alimento e outras mudanças ambientais influenciaram as estratégias de algumas populações.
Assim, é perfeitamente possível observar cegonhas em Portugal durante o inverno.
O comportamento migratório da espécie deve ser entendido como flexível. Algumas aves continuam a realizar movimentos para África, enquanto outras permanecem na Península Ibérica.
Por isso, as concentrações de final de agosto representam uma fase importante do ciclo anual, mas não devem ser interpretadas como uma partida simultânea de toda a população.
O que acontece aos ninhos abandonados
Depois da saída das aves migradoras, muitos dos enormes ninhos de cegonha ficam aparentemente vazios.
Mas o ninho não perde necessariamente a sua importância.
A cegonha-branca reutiliza frequentemente estruturas de nidificação ao longo dos anos. Os ninhos podem ser reparados e aumentados quando as aves regressam à área de reprodução.
Construídos com ramos e outros materiais vegetais, podem tornar-se estruturas volumosas depois de sucessivas épocas de utilização.
O ninho continua a fazer parte da paisagem
Durante os meses em que não está ocupado pelo casal reprodutor, o ninho fica exposto ao vento, chuva e outras condições meteorológicas.
Parte do material pode cair ou deteriorar-se.
Quando as cegonhas voltam a ocupar uma estrutura, é comum acrescentarem novos ramos e reorganizarem o material existente.
Além disso, nem todos os ninhos ficam necessariamente vazios durante todo o inverno, especialmente numa região como Portugal, onde existem cegonhas residentes.
A presença ou ausência de aves num determinado ninho pode, portanto, variar bastante.
Por que estas concentrações são importantes para os observadores
O final do verão permite observar uma fase do ciclo das aves que passa facilmente despercebida.
Na primavera, a atenção concentra-se nos ninhos, nos ovos e nas crias. No final de agosto, o espetáculo desloca-se para a paisagem e para o céu.
Campos agrícolas, zonas húmidas e áreas abertas passam a funcionar como pontos temporários de alimentação e repouso.
Para quem observa aves, é também uma oportunidade para compreender que a migração não começa simplesmente quando uma ave “decide partir”.
Existe uma fase de preparação, alterações no comportamento social, procura de alimento, escolha de condições meteorológicas favoráveis e utilização de corredores geográficos adequados.
Nota importante para leitores do Brasil
O comportamento descrito neste artigo refere-se principalmente à cegonha-branca (Ciconia ciconia) e ao sistema migratório que liga populações europeias a regiões africanas.
Por isso, esta migração Portugal–África não se aplica diretamente ao Brasil.
O Brasil possui a sua própria diversidade de aves migratórias, incluindo espécies que realizam deslocações dentro da América do Sul e espécies que chegam de outras regiões do continente ou do hemisfério.
Também podem ocorrer concentrações de aves associadas a alimentação, descanso e deslocações sazonais, mas as espécies, rotas e fatores envolvidos são diferentes.
Para leitores brasileiros, o equivalente mais útil é observar os ciclos migratórios das espécies presentes na sua própria região e consultar instituições ornitológicas brasileiras para identificar períodos e locais adequados para observação.
Perguntas Frequentes
Por que as cegonhas se juntam antes de migrar?
As concentrações permitem que muitas aves aproveitem as mesmas áreas de alimentação, repouso e condições atmosféricas favoráveis. Durante o voo, observar outras cegonhas também facilita a localização de correntes térmicas ascendentes.
As cegonhas voam em formação como os gansos?
Normalmente, a estratégia visual mais característica é diferente. As cegonhas utilizam sobretudo correntes térmicas para ganhar altitude e depois planam, podendo formar grandes grupos circulares enquanto sobem.
Todas as cegonhas portuguesas vão para África?
Não. Parte da população permanece na Península Ibérica durante o inverno ou realiza deslocações mais curtas. A migração de longa distância continua a ocorrer, mas não é seguida por todos os indivíduos.
As cegonhas jovens sabem para onde ir?
Os juvenis possuem mecanismos biológicos de orientação, mas a experiência também desempenha um papel importante. A primeira migração ocorre num contexto em que muitas outras aves estão igualmente em movimento, e a experiência acumulada pode melhorar a navegação nas viagens seguintes.
Por que as cegonhas evitam grandes extensões de mar?
Estas aves dependem fortemente das correntes de ar quente produzidas sobre superfícies terrestres para ganhar altitude e planar com baixo gasto energético. Grandes extensões de água oferecem condições menos favoráveis a esta estratégia.
Os ninhos são usados novamente no ano seguinte?
Frequentemente, sim. As cegonhas podem reutilizar ninhos existentes, reparando e acrescentando materiais quando regressam à zona de reprodução.
É normal ver cegonhas em Portugal durante o inverno?
Sim. A presença de cegonhas-brancas durante o inverno tornou-se comum em várias áreas de Portugal porque parte da população não realiza atualmente uma migração completa para África.
Conclusão
Quando dezenas de cegonhas aparecem juntas no final de agosto, estamos a observar uma das grandes transições do seu ciclo anual.
Terminada a reprodução, muitas deixam de viver centradas no ninho e passam a integrar movimentos pós-reprodutivos e migratórios. Alimentam-se, descansam e esperam pelas condições atmosféricas que lhes permitem utilizar uma das suas maiores adaptações: subir em correntes térmicas e percorrer grandes trajetos planando com eficiência.
Para algumas, o movimento continuará para sul e poderá levá-las até África. Outras permanecerão na Península Ibérica.
Nos campos e povoações portuguesas, muitos ninhos ficam temporariamente silenciosos. Continuam, porém, como estruturas importantes na paisagem e poderão voltar a receber cegonhas quando começar um novo ciclo reprodutivo.
Observar as cegonhas no final de agosto é, portanto, assistir ao momento em que a temporada dos ninhos dá lugar à temporada do movimento.
Sugestões de Links Internos
- Um artigo do Tesouros do Jardim sobre aves migratórias e os sinais sazonais que desencadeiam a migração.
- Um artigo sobre como tornar jardins e espaços rurais mais seguros para aves selvagens.
- Um artigo sobre zonas húmidas, biodiversidade ou aves que podem ser observadas em Portugal no final do verão.
Fontes Externas Autoritativas Recomendadas
Para validar ou aprofundar as informações antes da publicação, podem ser usadas fontes destes tipos:
- Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) — informação sobre aves, conservação e migração em Portugal.
- BirdLife International — distribuição, conservação e ecologia de aves a nível internacional.
- European Bird Census Council e instituições europeias de investigação ornitológica — informação sobre populações e movimentos de aves europeias.
- Institutos científicos especializados em migração de aves, incluindo centros europeus que utilizam anilhagem, GPS e telemetria.
- Instituições ornitológicas e universidades portuguesas com investigação publicada sobre cegonha-branca, migração e ecologia das aves.