Nas poças de maré e zonas rochosas da costa portuguesa vivem pequenos animais marinhos que parecem ter saído de uma ilustração fantástica. São nudibrânquios, moluscos gastrópodes sem a grande concha externa que protege muitos dos seus parentes e frequentemente cobertos por cores intensas, projeções e padrões difíceis de ignorar.
Alguns possuem uma adaptação ainda mais extraordinária do que a sua aparência.
Certos nudibrânquios aeolídeos alimentam-se de animais pertencentes aos cnidários, como hidroides e anémonas. Essas presas possuem células especializadas que contêm estruturas urticantes microscópicas chamadas nematocistos, utilizadas para capturar alimento e para defesa.
Seria de esperar que o nudibrânquio simplesmente digerisse tudo.
Mas não é isso que acontece.
Nematocistos que não dispararam podem sobreviver à alimentação, atravessar partes do sistema digestivo do nudibrânquio e acabar armazenados em estruturas especializadas nas extremidades das projeções dorsais do animal. Ali permanecem funcionais e podem contribuir para a defesa do novo proprietário.
A ciência chama a estas estruturas adquiridas kleptocnidae — literalmente, cnidae “roubadas”.
É um dos exemplos mais extraordinários de uma estratégia comum entre vários nudibrânquios: transformar componentes obtidos através da alimentação em parte da sua própria defesa.
Índice
- O que é um nudibrânquio
- As armas microscópicas dos cnidários
- O que são kleptocnidae
- Como os nematocistos passam da presa para o predador
- Os cerata e os cnidossacos
- O que a ciência ainda não compreende completamente
- Porque esta estratégia é chamada “roubo biológico”
- O que comem os nudibrânquios
- Porque muitos apresentam cores tão intensas
- Nudibrânquios nas zonas rochosas portuguesas
- Como observar sem perturbar
- FAQ
- Conclusão
O que é um nudibrânquio
Os nudibrânquios pertencem aos moluscos gastrópodes marinhos.
São parentes distantes de caracóis e lesmas, mas a fase adulta não possui a concha externa típica que associamos a muitos gastrópodes.
Essa ausência deixa o corpo aparentemente vulnerável.
A evolução, contudo, produziu outras soluções.
Alguns nudibrânquios fabricam compostos químicos defensivos. Outros conseguem obter substâncias defensivas diretamente das suas presas. Entre os aeolídeos existe ainda a possibilidade extraordinária de sequestrar nematocistos funcionais de cnidários.
Os nudibrânquios apresentam também duas estruturas sensoriais muito características na região anterior: os rinóforos.
Estes ajudam a detetar sinais químicos no ambiente e são importantes para localizar alimento e interpretar o meio que rodeia o animal.
Nos aeolídeos, o dorso está coberto por projeções chamadas cerata. Além de participarem em funções como trocas gasosas, os cerata podem conter extensões da glândula digestiva.
E nas extremidades de muitos deles encontra-se a estrutura que torna possível armazenar as armas roubadas.
As armas microscópicas dos cnidários
Para compreender os kleptocnidae, primeiro é necessário compreender a presa.
Anémonas, hidroides, medusas e corais pertencem ao filo Cnidaria.
Uma das características fundamentais destes animais é a presença de células chamadas cnidócitos. Dentro delas encontram-se organelos especializados, os cnidae.
Entre os diferentes tipos estão os nematocistos.
Um nematocisto funciona como uma cápsula microscópica extremamente especializada. Quando recebe os estímulos apropriados, pode descarregar rapidamente uma estrutura semelhante a um filamento.
Dependendo do tipo de nematocisto, esta estrutura pode ajudar a penetrar, prender ou envolver um alvo, e algumas estão associadas à administração de substâncias tóxicas.
Para um hidróide ou uma anémona, estas células têm funções essenciais tanto na captura de alimento como na defesa.
E é precisamente esse sistema que determinados nudibrânquios conseguem aproveitar.
O que são kleptocnidae
O termo kleptocnidae refere-se aos cnidae adquiridos de outro organismo e conservados funcionalmente pelo animal que os roubou.
Nos nudibrânquios aeolídeos, os nematocistos são obtidos através da alimentação em cnidários.
O detalhe essencial é que precisam de chegar ao nudibrânquio sem terem sido descarregados.
Se um nematocisto já disparou, perdeu grande parte da função que o torna útil como arma.
O nudibrânquio consegue conservar pelo menos uma parte dos nematocistos intactos e encaminhá-los para regiões especializadas.
Dos tentáculos da presa para o corpo do predador
Imagine um aeolídeo a alimentar-se de um hidróide.
O tecido da presa entra no sistema digestivo juntamente com os nematocistos. Parte dessas estruturas é digerida, mas alguns nematocistos intactos podem seguir um destino completamente diferente.
Passam pelos divertículos digestivos que se prolongam para os cerata.
Próximo da extremidade encontra-se uma estrutura chamada cnidossaco.
É aí que os nematocistos sequestrados podem ser incorporados e armazenados.
As células especializadas que os contêm são frequentemente designadas cnidófagos.
Assim, uma estrutura originalmente produzida por um cnidário termina funcionalmente incorporada no sistema defensivo de um molusco.
Como o nudibrânquio evita disparar as armas
Esta é uma das partes mais intrigantes do fenómeno.
Um nematocisto existe precisamente para disparar quando recebe determinados estímulos. O nudibrânquio precisa de comer o animal que possui essas estruturas, transportá-las através do próprio organismo e armazená-las sem sofrer os efeitos de uma descarga generalizada.
A investigação identificou várias hipóteses e mecanismos que podem contribuir para este processo.
O muco pode desempenhar um papel
Experiências indicam que o muco de alguns aeolídeos pode reduzir a descarga dos nematocistos da presa.
Isso poderia funcionar através de interferência química ou física com os mecanismos que normalmente desencadeiam a descarga.
Também existem estruturas internas capazes de proporcionar alguma proteção ao nudibrânquio quando ocorrem descargas.
Contudo, não existe uma explicação única aplicável necessariamente a todas as espécies.
Nem todos os nematocistos sequestrados estão no mesmo estado
Há ainda outra possibilidade fascinante.
Pelo menos em algumas espécies estudadas, nematocistos ainda imaturos podem ser incorporados nos cnidossacos e completar ali parte do processo de maturação.
Experiências encontraram alterações nas condições internas dos cnidossacos compatíveis com essa possibilidade.
Isso pode ajudar a explicar como determinadas estruturas chegam ao local de armazenamento sem disparar.
Mas seria incorreto transformar esta observação numa regra universal para todos os nudibrânquios que sequestram nematocistos.
O que a ciência ainda não compreende completamente
Sabemos que os nematocistos podem ser adquiridos.
Sabemos onde são armazenados.
Sabemos também que kleptocnidae funcionais podem ser libertados a partir das extremidades dos cerata e que a sua presença está associada à defesa.
O percurso detalhado e o controlo de todo o processo, porém, continuam a apresentar questões.
Não está completamente esclarecido como cada espécie seleciona determinados nematocistos, como controla a sua descarga ou como evita que diferentes tipos provoquem danos durante todo o transporte.
Existem evidências de seleção preferencial de certos tipos de nematocistos em algumas combinações de nudibrânquio e presa, mas essa preferência pode mudar conforme aquilo que o animal está a comer.
Esta incerteza não diminui a descoberta.
Pelo contrário, mostra por que os kleptocnidae continuam a ser um tema interessante em zoologia de invertebrados.
Os cerata tornam-se uma linha de defesa
Nos aeolídeos, os cerata são frequentemente as estruturas mais visíveis do corpo.
Parecem pequenos dedos, folhas ou chamas que cobrem o dorso.
Nas espécies que utilizam kleptocnidae, os cnidossacos encontram-se perto das extremidades dos cerata.
Esta posição é biologicamente significativa.
Quando um predador tenta morder o nudibrânquio, encontra justamente uma região onde podem estar concentrados nematocistos adquiridos das presas.
Experiências descritas na literatura científica apoiam uma função defensiva para este sistema. Aeolídeos privados dos cerata podem tornar-se mais vulneráveis a determinados predadores.
A presa forneceu a arma.
O nudibrânquio mudou apenas quem a utiliza.
Porque é considerado um “roubo” biológico
Os biólogos utilizam o prefixo klepto- para vários fenómenos em que um organismo aproveita recursos produzidos por outro.
Não significa, evidentemente, roubo no sentido humano.
É uma metáfora científica útil.
No caso dos kleptocnidae, ela é especialmente apropriada porque o nudibrânquio não copia simplesmente a química da presa.
Ele apropria-se da própria estrutura celular funcional.
O nematocisto foi produzido pelo cnidário.
O nudibrânquio come o cnidário, preserva essa estrutura e integra-a no seu próprio sistema.
Poucos exemplos ilustram tão claramente como uma adaptação produzida por uma espécie pode acabar utilizada por outra.

Nem todos os nudibrânquios roubam nematocistos
Este ponto é fundamental.
Nudibrânquio não é sinónimo de animal que armazena nematocistos.
O grupo apresenta enorme diversidade alimentar e defensiva.
Muitos alimentam-se de esponjas. Outros consomem briozoários, ascídias, cnidários, ovos ou outros animais marinhos. Existem também espécies com dietas bastante especializadas.
Os kleptocnidae são particularmente associados aos nudibrânquios aeolídeos que se alimentam de cnidários.
Outros nudibrânquios utilizam estratégias diferentes.
Alguns que comem esponjas, por exemplo, conseguem sequestrar compostos químicos defensivos presentes nas presas e concentrá-los em determinados tecidos. Outros produzem os seus próprios compostos defensivos.
A ideia mais ampla é semelhante: comer não serve apenas para obter energia.
Em certos nudibrânquios, a refeição também fornece defesa.
Porque são tão coloridos
Azul intenso, laranja, vermelho, amarelo, branco, violeta.
Poucos grupos de pequenos animais costeiros apresentam uma variedade visual comparável à dos nudibrânquios.
Em algumas espécies, cores contrastantes podem funcionar como sinais de aviso, fenómeno conhecido como aposematismo.
Um predador que associa determinada aparência a uma experiência desagradável pode evitar animais semelhantes no futuro.
Mas também aqui é necessário evitar uma regra demasiado simples.
Nem todas as cores brilhantes significam exatamente a mesma coisa e nem todo nudibrânquio colorido depende de kleptocnidae.
Algumas espécies apresentam camuflagem extraordinária e confundem-se com a própria presa.
Outras combinam sinais visuais com defesas químicas adquiridas através da alimentação ou produzidas pelo organismo.
A diversidade de estratégias defensivas é uma das características que tornam os nudibrânquios tão interessantes para a ecologia química.
Nudibrânquios nas zonas rochosas portuguesas
A costa portuguesa oferece muitos habitats adequados para gastrópodes marinhos.
Zonas rochosas, paredes submersas, áreas cobertas por algas e comunidades de hidroides, esponjas e outros invertebrados podem proporcionar alimento e abrigo.
Durante marés suficientemente baixas, algumas espécies podem ser encontradas em poças de maré ou zonas rochosas pouco profundas.
Encontrá-las exige paciência.
Muitos nudibrânquios são pequenos e podem apresentar cores semelhantes às das suas presas. Em vez de procurar apenas pelo animal, é útil observar lentamente hidroides, esponjas e outras estruturas vivas.
Um pequeno corpo aparentemente insignificante pode revelar rinóforos, cerata e padrões de cor quando visto com atenção.
Como observar um nudibrânquio
Encontrar um destes animais não é uma oportunidade para testar as suas defesas.
Não aperte nem toque deliberadamente nos cerata.
Não tente fazer o animal libertar secreções e não o retire da água para obter uma fotografia.
Fotografar onde o animal está
Uma fotografia feita no próprio microhabitat preserva informações importantes.
Mostra a presa, o substrato e o ambiente onde o nudibrânquio foi encontrado.
Se possível, fotografe sem deslocar o animal.
Também não arranque o hidróide, esponja ou outro organismo sobre o qual está a alimentar-se.
Aquilo que parece apenas o fundo da fotografia pode ser a própria fonte de alimento.
Não levar nudibrânquios para casa
Estes animais possuem necessidades alimentares altamente específicas.
Manter um nudibrânquio encontrado numa poça num recipiente doméstico não é equivalente a manter um caracol terrestre.
Muitas espécies dependem de presas específicas que são difíceis de fornecer e conservar.
O melhor lugar para o animal é o habitat onde foi encontrado.
Respeitar toda a poça de maré
Uma poça não é apenas água presa entre pedras.
É um pequeno ecossistema.
Evite pisar organismos, arrancar algas e virar pedras desnecessariamente. Nunca deixe lixo e mantenha atenção à subida da maré e às condições do oceano.
Observar sem alterar o ambiente permite que outras pessoas encontrem a mesma diversidade mais tarde.
FAQ
O que são kleptocnidae?
São cnidae, especificamente nematocistos, adquiridos de presas cnidárias e armazenados funcionalmente por determinados predadores. Nos nudibrânquios aeolídeos, podem ficar concentrados em cnidossacos localizados nas extremidades dos cerata.
O nudibrânquio fabrica esses nematocistos?
Não. Os nematocistos são originalmente produzidos pelos cnidários que servem de presa. É precisamente isso que torna o fenómeno tão extraordinário.
Como consegue comer uma anémona ou hidróide sem ser picado?
A resposta completa ainda está a ser investigada. Muco, características do sistema digestivo, estado de maturação dos nematocistos e outros mecanismos podem contribuir. Não existe uma explicação única comprovada para todas as espécies.
Todos os nudibrânquios roubam células urticantes?
Não. O fenómeno está particularmente associado a determinados nudibrânquios aeolídeos que consomem cnidários. Outros nudibrânquios possuem dietas e mecanismos defensivos diferentes.
Onde ficam armazenadas as células roubadas?
Em muitos aeolídeos, os nematocistos sequestrados são armazenados em cnidossacos situados nas extremidades dos cerata.
Os nematocistos continuam a funcionar?
Sim, nematocistos funcionais podem ser conservados e utilizados no sistema defensivo do nudibrânquio. Contudo, os detalhes do controlo da descarga continuam a ser estudados.
O que comem os nudibrânquios?
A dieta varia muito. Dependendo da espécie, podem consumir cnidários, esponjas, briozoários, ascídias e outros organismos marinhos. Muitas espécies são bastante especializadas.
Posso encontrar nudibrânquios em poças de maré portuguesas?
Podem ocorrer em ambientes costeiros rochosos portugueses, incluindo zonas pouco profundas e alguns habitats entre-marés adequados. A presença depende da espécie, local, alimento disponível e condições ambientais.
Posso tocar num nudibrânquio?
A melhor prática é observá-lo sem manipulação. Além de evitar perturbar o animal, isso preserva estruturas delicadas e mantém-no junto da presa e do microhabitat de que depende.
Conclusão
À primeira vista, um nudibrânquio parece particularmente vulnerável.
É pequeno, mole e não possui a grande concha externa que protege muitos outros gastrópodes.
Mas algumas espécies transformaram essa aparente vulnerabilidade numa das estratégias defensivas mais extraordinárias conhecidas entre os invertebrados marinhos.
Certos aeolídeos alimentam-se de cnidários armados com nematocistos. Em vez de digerirem todas essas estruturas, conseguem preservar algumas ainda funcionais, transportá-las através do organismo e armazená-las nos cnidossacos existentes nas extremidades dos cerata.
As armas da presa passam assim a integrar a defesa do predador.
Sabemos que o fenómeno existe e conhecemos várias etapas do processo. Ainda permanecem, porém, questões sobre a forma exata como diferentes espécies impedem descargas prematuras, selecionam determinados nematocistos, realizam o transporte e controlam posteriormente a sua utilização.
Essa incerteza é importante. A história real é suficientemente extraordinária sem precisar de simplificações.
Numa poça de maré portuguesa, um pequeno nudibrânquio entre hidroides pode representar muito mais do que uma descoberta colorida. Dentro das extremidades do seu corpo podem estar estruturas microscópicas fabricadas por outro animal, adquiridas durante uma refeição e transformadas numa segunda linha de defesa.
Na natureza, até uma arma celular pode mudar de proprietário.
Sugestões de Links Internos
- A Lesma do Mar Que Liberta uma Nuvem Roxa de Defesa
Âncora sugerida: outra surpreendente estratégia defensiva das lesmas-do-mar
Posicionamento recomendado: na secção sobre diversidade de mecanismos defensivos. - A Craca Que Escolhe um Único Ponto na Vida Inteira
Âncora sugerida: outros invertebrados extraordinários das zonas rochosas portuguesas
Posicionamento recomendado: na secção sobre poças de maré. - Os Fios Que o Mexilhão Fabrica Para Se Fixar à Rocha
Âncora sugerida: como outros invertebrados sobrevivem na costa rochosa
Posicionamento recomendado: próximo da secção sobre habitat português.
Fontes Externas Autoritativas Recomendadas
- Instituições de investigação em biologia marinha
Preferir centros oceanográficos e institutos públicos que estudem biodiversidade costeira, moluscos, cnidários e relações predador-presa. - Departamentos universitários de zoologia de invertebrados
Particularmente úteis para investigação sobre Nudibranchia, Aeolidida, anatomia dos cerata, cnidossacos e sequestro de nematocistos. - Laboratórios universitários de biologia evolutiva e ecologia química
Utilizar estudos sobre kleptocnidae, defesas adquiridas através da alimentação e evolução das relações entre nudibrânquios e cnidários. - Revistas científicas de zoologia e biologia marinha
Dar prioridade a artigos revistos por pares sobre aquisição, armazenamento e utilização de nematocistos, sobretudo quando descrevem claramente as limitações do conhecimento atual. - Centros portugueses de investigação marinha
Preferir instituições portuguesas de biodiversidade marinha e ecologia costeira para informação sobre espécies, distribuição e habitats no litoral português.