Bicho-de-Conta: O Crustáceo Que Vive no Seu Jardim

Levante uma pedra, um vaso que ficou semanas no mesmo lugar ou um pedaço de madeira húmida e provavelmente encontrará pequenos animais cinzentos a caminhar rapidamente em busca de abrigo. Alguns podem enrolar-se até formarem uma pequena esfera quando são perturbados.

São frequentemente chamados de bichos-de-conta, tatuzinhos, isópodes terrestres ou por vários outros nomes regionais. Apesar da aparência e do hábito de viver entre folhas e solo, existe um detalhe que muda completamente a forma de olhar para eles: o bicho-de-conta não é um inseto.

É um crustáceo terrestre.

Os seus parentes evolutivos incluem animais aquáticos, e essa origem continua visível numa característica fundamental da sua biologia. Os bichos-de-conta precisam de conservar humidade para que as suas estruturas respiratórias funcionem adequadamente. É por isso que desaparecem de uma superfície quente e seca e reaparecem debaixo de folhas, pedras e madeira húmida.

Para o jardim, essa preferência é geralmente positiva. Estes pequenos crustáceos participam na decomposição da matéria orgânica e na reciclagem de nutrientes, integrando a comunidade de organismos que transforma folhas mortas e restos vegetais em materiais progressivamente incorporados no solo.

Índice

  1. O que é realmente um bicho-de-conta
  2. Por que não é um inseto
  3. Como um crustáceo conseguiu viver em terra
  4. Como funcionam as pseudotraqueias
  5. Por que a humidade é essencial
  6. Por que alguns bichos-de-conta se enrolam
  7. Nem todos conseguem formar uma bola
  8. O que os bichos-de-conta comem
  9. O seu papel como decompositores
  10. Onde vivem no jardim
  11. Podem danificar plantas?
  12. Por que são geralmente benéficos
  13. Portugal e Brasil: espécies diferentes, função semelhante
  14. Perguntas frequentes
  15. Conclusão

O que é realmente um bicho-de-conta

Os bichos-de-conta pertencem à ordem Isopoda.

Dentro deste grande grupo existem isópodes aquáticos e terrestres. Os habitantes familiares dos jardins pertencem aos grupos que se adaptaram à vida em terra.

Taxonomicamente, fazem parte dos crustáceos.

Isso significa que estão evolutivamente mais próximos de outros crustáceos do que dos insetos que encontramos no mesmo jardim.

A confusão é compreensível.

São pequenos, possuem muitas pernas, vivem no solo e escondem-se debaixo de objetos. Para quem não está a observar a anatomia, acabam facilmente colocados na categoria informal de “bichinhos” ou “insetos”.

Biologicamente, porém, a distinção é importante.

Por que não é um inseto

Os insetos apresentam um plano corporal característico, incluindo três pares de pernas quando adultos.

O bicho-de-conta possui uma organização corporal diferente e mais pares de apêndices locomotores.

Um isópode terrestre adulto típico apresenta sete pares de pernas associadas aos segmentos do tórax.

Também possui antenas e uma série de placas corporais que criam a aparência segmentada característica.

Um crustáceo longe do mar

Quando pensamos em crustáceos, imaginamos frequentemente caranguejos, camarões ou lagostas.

O bicho-de-conta demonstra que o grupo é muito mais diverso.

Os isópodes terrestres conseguiram ocupar ambientes longe da água aberta, mas não eliminaram completamente as limitações fisiológicas associadas à sua origem.

A necessidade de humidade é um excelente exemplo.

Como um crustáceo conseguiu viver em terra

Viver fora da água cria vários problemas para um animal cuja linhagem evolutiva está fortemente associada a ambientes aquáticos.

Um dos maiores é evitar a perda excessiva de água.

Outro é respirar.

Os isópodes terrestres desenvolveram adaptações que lhes permitem realizar trocas gasosas no ambiente terrestre. Entre essas adaptações encontram-se estruturas respiratórias associadas aos apêndices abdominais.

Em diferentes grupos, estas estruturas apresentam graus variados de especialização.

Em muitas espécies terrestres, regiões modificadas são conhecidas como pseudotraqueias ou pulmões pleopodais.

Como funcionam as pseudotraqueias

As pseudotraqueias são estruturas especializadas relacionadas com a respiração aérea.

Não são pulmões iguais aos de um mamífero e também não são o sistema traqueal típico dos insetos.

Fazem parte das adaptações respiratórias desenvolvidas pelos isópodes terrestres.

As superfícies envolvidas nas trocas gasosas precisam de funcionar em condições adequadas de humidade.

É aqui que o comportamento do animal e a fisiologia se encontram.

Respirar também influencia onde viver

Um bicho-de-conta não escolhe a parte inferior de uma pedra simplesmente porque prefere a escuridão.

Esse microambiente costuma ser mais fresco e húmido do que a superfície exposta.

Debaixo de folhas, madeira ou vasos, a perda de água é reduzida.

O animal consegue permanecer num ambiente mais favorável à manutenção das superfícies respiratórias e ao equilíbrio hídrico.

A procura de humidade, portanto, não é apenas uma preferência.

Está intimamente ligada à sobrevivência.

Por que a humidade é essencial

A vida terrestre não tornou o bicho-de-conta independente da água.

Em condições muito secas, o animal perde água e enfrenta dificuldades fisiológicas.

É por isso que tende a evitar exposição prolongada ao sol e ao ar seco.

Durante períodos quentes, pode permanecer escondido em zonas protegidas durante grande parte do dia.

Quando as condições se tornam mais húmidas, a atividade pode aumentar.

O jardim cria pequenos microclimas

Uma única propriedade pode oferecer ambientes completamente diferentes a poucos metros de distância.

Um pavimento exposto ao sol pode estar quente e seco.

Debaixo de uma floreira próxima, o ambiente pode permanecer fresco e húmido.

Uma camada de folhas cria outro microclima.

Uma pilha de madeira cria outro.

Para um organismo tão pequeno, estas diferenças são enormes.

É por isso que a distribuição dos bichos-de-conta num jardim costuma estar concentrada em locais específicos.

Por que alguns bichos-de-conta se enrolam

O comportamento mais famoso é enrolar o corpo até formar uma esfera quase completa.

Quando perturbado, o animal recolhe os apêndices e aproxima as placas corporais.

Essa postura protege regiões mais vulneráveis e apresenta ao exterior uma superfície relativamente resistente.

O comportamento é chamado de conglobação.

Funciona como uma defesa contra determinados predadores e também pode ajudar a reduzir a exposição das superfícies corporais.

Mas existe um detalhe frequentemente ignorado.

Nem todos conseguem formar uma bola

Nem todos os isópodes terrestres conseguem enrolar-se completamente.

Essa capacidade é especialmente desenvolvida nos chamados pill woodlice, incluindo grupos com anatomia apropriada para a conglobação.

Outros bichos-de-conta podem curvar o corpo parcialmente, permanecer imóveis ou tentar fugir, mas não conseguem formar uma esfera fechada.

Portanto, encontrar um isópode que não se enrola não significa que seja uma espécie completamente diferente de animal.

A forma do corpo determina a estratégia

Nas espécies capazes de conglobação completa, os segmentos e placas corporais encaixam-se de forma que permitem proteger as partes inferiores.

Noutras espécies, a anatomia favorece estratégias diferentes.

Esta diversidade é importante porque o termo “bicho-de-conta” pode ser aplicado informalmente a vários isópodes terrestres.

Nem todos terão exatamente a mesma aparência ou comportamento.

O que os bichos-de-conta comem

A alimentação explica por que estes animais são tão frequentes entre folhas mortas.

Grande parte da dieta é constituída por matéria vegetal em decomposição e outros materiais orgânicos.

Folhas mortas, fragmentos vegetais e materiais já parcialmente degradados oferecem alimento.

Os bichos-de-conta não trabalham sozinhos.

Fungos, bactérias, minhocas, outros invertebrados e diversos organismos participam na decomposição.

Cada grupo atua de forma diferente.

Triturar antes de decompor

Ao consumir e fragmentar material vegetal morto, os isópodes ajudam a transformar pedaços maiores em partículas menores.

Isso aumenta a interação do material com outros decompositores.

O processo faz parte da reciclagem natural de matéria no solo.

Uma folha cai.

A estrutura começa a ser alterada por microrganismos e condições ambientais.

Pequenos invertebrados alimentam-se dela.

O material é fragmentado, digerido e transformado.

Gradualmente, os nutrientes presentes nos tecidos vegetais voltam a circular pelo ecossistema.

O seu papel como decompositores

Um jardim saudável não depende apenas das plantas que conseguimos ver.

Existe uma comunidade inteira responsável por processar aquilo que morre.

Sem decomposição, folhas, caules e outros resíduos orgânicos simplesmente se acumulariam.

Os bichos-de-conta participam nesse sistema.

Não produzem fertilizante instantâneo nem substituem todos os outros organismos do solo.

A sua importância está em fazer parte da rede de decomposição.

Matéria morta torna-se recurso

Quando uma folha cai de uma árvore, ainda contém compostos orgânicos e nutrientes.

Os decompositores ajudam a transformar esse material.

Isópodes trituram e consomem partes da matéria vegetal, enquanto microrganismos continuam processos químicos de decomposição.

Por isso, encontrar bichos-de-conta debaixo de folhas não é normalmente sinal de uma infestação perigosa.

É frequentemente sinal de que existe matéria orgânica húmida disponível.

Onde vivem no jardim

Os melhores esconderijos combinam humidade, alimento e proteção.

É comum encontrá-los:

  • debaixo de pedras;
  • sob vasos;
  • entre folhas acumuladas;
  • dentro ou debaixo de madeira em decomposição;
  • junto a composto;
  • em fendas húmidas;
  • sob casca e outros restos vegetais.

Durante o dia, muitos desses locais protegem contra exposição excessiva.

À noite ou durante períodos húmidos, os animais podem tornar-se mais ativos.

Podem danificar plantas?

Dizer que bichos-de-conta nunca comem tecido vegetal vivo seria demasiado absoluto.

Quando estão presentes em grande número e existem tecidos muito tenros, mudas, frutos em contacto com o solo ou material vegetal já danificado, podem ocorrer mordeduras.

No entanto, a alimentação típica está fortemente associada a matéria orgânica morta e em decomposição.

Isso significa que a simples presença de bichos-de-conta perto de uma planta danificada não prova que foram a causa original.

Investigue antes de tentar eliminá-los

Se uma muda está a desaparecer, procure também lesmas, caracóis, lagartas e outros possíveis responsáveis.

Observe quando o dano ocorre e que tipo de marcas aparecem.

Uma grande concentração de isópodes também pode indicar excesso de matéria húmida ou condições persistentemente molhadas.

Nesse caso, melhorar a ventilação e corrigir excesso de humidade pode ser mais sensato do que tentar eliminar todos os animais.

Por que são geralmente benéficos

Num jardim equilibrado, os bichos-de-conta devem ser vistos principalmente como decompositores.

Ajudam a processar restos vegetais e participam na reciclagem da matéria orgânica.

Também fazem parte da cadeia alimentar.

Aves, anfíbios, aranhas e outros predadores podem alimentar-se destes pequenos crustáceos.

Eliminá-los indiscriminadamente significa retirar uma peça dessa rede.

Não é necessário transformar o jardim num laboratório esterilizado

Um jardim biologicamente ativo contém organismos que comem folhas mortas.

Contém predadores.

Contém fungos.

Contém bactérias.

Contém pequenos animais que raramente notamos.

A ausência completa desses organismos não é o objetivo de uma jardinagem saudável.

Quando bichos-de-conta aparecem debaixo de uma pedra, geralmente não existe motivo para aplicar pesticidas.

Na maioria das situações, basta deixá-los continuar o seu trabalho.

Portugal e Brasil: espécies diferentes, função semelhante

Os isópodes terrestres possuem ampla distribuição mundial, mas as espécies encontradas não são idênticas em todos os lugares.

Portugal e Brasil apresentam faunas diferentes, influenciadas pelo clima, habitat e história biogeográfica.

Além disso, espécies introduzidas podem ocorrer em ambientes urbanos e agrícolas.

Por isso, não é adequado assumir que todo bicho-de-conta observado nos dois países pertence à mesma espécie.

Para o jardineiro, contudo, vários princípios permanecem semelhantes.

Ambientes húmidos, matéria orgânica e locais protegidos favorecem estes animais, e muitas espécies atuam predominantemente como consumidores de material em decomposição.

Perguntas frequentes

O bicho-de-conta é um inseto?

Não.

É um crustáceo terrestre pertencente à ordem Isopoda.

Apesar de viver no jardim junto de muitos insetos, pertence a outro grupo de artrópodes.

Como consegue respirar fora da água?

Isópodes terrestres possuem estruturas respiratórias especializadas associadas aos pleópodes. Em vários grupos existem pseudotraqueias adaptadas às trocas gasosas no ar.

Essas estruturas continuam dependentes de condições adequadas de humidade.

Por que vive debaixo de pedras?

Porque esses locais costumam oferecer humidade, temperaturas mais moderadas e proteção contra exposição.

Também podem concentrar matéria orgânica utilizada como alimento.

Todos os bichos-de-conta fazem uma bola?

Não.

A conglobação completa ocorre em determinados grupos, popularmente conhecidos como pill woodlice.

Outros isópodes terrestres não possuem a anatomia necessária para formar uma esfera completamente fechada.

O bicho-de-conta come plantas?

A dieta é predominantemente associada a matéria orgânica morta e em decomposição.

Em determinadas circunstâncias, alguns podem alimentar-se de tecidos vegetais tenros ou danificados, mas isso não transforma todo isópode num importante destruidor de plantas.

Devo eliminar bichos-de-conta da horta?

Normalmente, não.

Se não existem danos relevantes, estes animais podem simplesmente continuar a desempenhar o seu papel de decompositores.

Por que aparecem tantos perto do composto?

O composto oferece exatamente aquilo que muitos isópodes procuram: matéria orgânica, humidade e abrigo.

A presença deles nesse ambiente é geralmente esperada.

Bichos-de-conta são perigosos para pessoas?

Os isópodes terrestres comuns encontrados em jardins não representam uma ameaça normal para pessoas.

Não são animais que precisem de ser removidos apenas por aparecerem debaixo de vasos ou pedras.

Conclusão

O bicho-de-conta parece um pequeno detalhe do jardim até descobrirmos a sua verdadeira identidade.

Não é um inseto.

É um crustáceo que levou a vida para terra firme sem abandonar completamente algumas das exigências associadas à sua história evolutiva.

As estruturas respiratórias especializadas ajudam-no a utilizar o ar, mas a necessidade de conservar humidade continua a determinar grande parte do seu comportamento.

É por isso que vive sob pedras, folhas, madeira e vasos.

Algumas espécies acrescentaram outra adaptação extraordinária: conseguem enrolar o corpo e formar uma esfera defensiva. Outras, apesar de serem igualmente isópodes terrestres, não possuem essa capacidade.

No jardim, porém, a característica mais importante talvez seja menos espetacular.

Eles comem aquilo que está a desaparecer.

Folhas mortas, fragmentos vegetais e matéria orgânica em decomposição passam pelo sistema de uma comunidade inteira de decompositores, da qual os bichos-de-conta fazem parte.

Podem ocasionalmente alimentar-se de tecidos vegetais tenros, sobretudo em determinadas condições, mas a sua presença normal não deve ser confundida automaticamente com uma praga.

Na maioria dos jardins, encontrar bichos-de-conta debaixo de uma pedra significa apenas que existe humidade, matéria orgânica e um pequeno ecossistema a funcionar.

A pedra pode parecer vazia quando vista de cima.

Por baixo dela, um crustáceo está a ajudar a reciclar o jardim.

Sugestões de links internos

  1. Um artigo do tesourosdojardim.com sobre minhocas e outros decompositores que ajudam a transformar matéria orgânica no solo.
  2. Um guia sobre como utilizar folhas caídas e matéria vegetal para favorecer a biodiversidade do jardim.
  3. Um artigo sobre organismos frequentemente confundidos com pragas, mas que desempenham funções benéficas no jardim.

Tipos de fontes externas autoritativas recomendadas

  1. Sociedades científicas dedicadas ao estudo de crustáceos, isópodes e outros invertebrados.
  2. Departamentos universitários de zoologia de invertebrados e biologia evolutiva.
  3. Serviços universitários de extensão com informação sobre artrópodes e organismos decompositores encontrados em jardins.
  4. Museus de história natural e instituições científicas com coleções e recursos taxonómicos sobre Isopoda.
  5. Publicações académicas de ecologia do solo sobre decomposição, ciclagem de nutrientes e isópodes terrestres.

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