Encontrar folhas de roseira com recortes quase perfeitamente circulares pode causar preocupação. À primeira vista, parece que algum inseto está a devorar rapidamente a planta e que será necessário intervir antes que os danos aumentem.
Mas este padrão muito característico pode ter uma explicação bastante diferente.
Em muitos casos, os buracos circulares nas folhas das plantas são obra de abelhas-cortadeiras, sobretudo espécies do género Megachile. Estas pequenas abelhas solitárias não estão a comer as folhas. As fêmeas cortam cuidadosamente fragmentos de tecido vegetal e transportam-nos para outro local.
O destino desses pequenos pedaços é o ninho.
Em vez de representar uma praga grave, uma roseira com alguns recortes semicirculares pode estar a revelar a presença de um polinizador solitário que encontrou no jardim alimento, material de construção e um local adequado para completar o seu ciclo de vida.
Índice
- Porque aparecem recortes circulares nas folhas
- O que são abelhas-cortadeiras
- Porque cortam pedaços de folhas
- Como é construído o ninho
- Porque os danos são geralmente inofensivos
- O papel das abelhas-cortadeiras como polinizadores
- Como distinguir estes cortes de uma verdadeira praga
- Roseiras e outras plantas frequentemente utilizadas
- É necessário fazer alguma coisa
- Abelhas-cortadeiras e hotéis de insetos
- Perguntas frequentes
- Conclusão
Porque aparecem recortes circulares nas folhas
O primeiro sinal é normalmente uma folha com uma parte da margem aparentemente retirada com uma tesoura.
O corte é limpo.
Pode ser semicircular quando começa na margem da folha ou assumir uma forma aproximadamente circular dependendo da forma como o fragmento foi retirado.
As roseiras são frequentemente utilizadas, mas as abelhas-cortadeiras podem recolher material de diferentes plantas de folha larga.
A RHS descreve precisamente este padrão como recortes aproximadamente semicirculares, com margens limpas e relativamente uniformes.
O detalhe mais importante é perceber que a abelha não está a cortar a folha para se alimentar dela.
Uma lagarta mastiga tecido vegetal porque o utiliza como alimento. A abelha-cortadeira utiliza o fragmento principalmente como material de construção.
É uma diferença fundamental.

Abelha-cortadeira: uma abelha que vive sozinha
Quando pensamos numa abelha, é natural imaginar imediatamente uma colmeia cheia de milhares de indivíduos.
Mas grande parte da diversidade das abelhas não segue esse modelo social.
As abelhas-cortadeiras são abelhas solitárias.
Isto significa que uma fêmea não depende de uma grande colónia organizada com rainha e operárias para construir o ninho e criar a geração seguinte.
A própria fêmea procura uma cavidade adequada, recolhe material para o ninho, visita flores para obter pólen e néctar e prepara individualmente as células onde coloca os ovos.
As abelhas-cortadeiras pertencem ao género Megachile, integrado na família Megachilidae.
Como reconhecer uma
A identificação exata até à espécie pode exigir conhecimento especializado, mas as abelhas-cortadeiras apresentam características interessantes.
Muitas têm corpo relativamente robusto e piloso.
Uma diferença particularmente relevante está na forma como muitas Megachilidae transportam o pólen. Em vez das estruturas das patas posteriores que associamos à abelha-doméstica, as fêmeas de muitas destas espécies transportam pólen numa escova de pelos localizada na parte inferior do abdómen, chamada escopa.
Quando uma fêmea visita flores, essa região pode ficar visivelmente carregada de pólen.
Mas é o comportamento de cortar folhas que frequentemente denuncia a sua presença num jardim.
Porque cortam pedaços de folhas
Uma fêmea pousa na margem de uma folha adequada e começa a cortar.
Utilizando as mandíbulas, separa rapidamente um fragmento.
Depois segura o pedaço e voa com ele para o local do ninho.
O fragmento não é transportado para ser comido pela larva.
É utilizado para revestir e construir as células do ninho.
Esta distinção explica por que razão aplicar um produto contra insetos que “comem folhas” seria não apenas desnecessário como potencialmente prejudicial para um polinizador.
Nem todos os pedaços têm exatamente a mesma função
A fêmea pode cortar fragmentos com formas e tamanhos ligeiramente diferentes conforme a parte da célula que está a construir.
A RHS descreve células formadas com secções de folhas, dentro das quais a fêmea deposita uma mistura de pólen e néctar.
Depois coloca um ovo.
A célula é fechada e a fêmea continua a trabalhar na seguinte.
Ao repetir o processo, constrói uma sequência de compartimentos independentes.
É uma pequena maternidade construída dentro de uma cavidade, com folhas a formar parte das paredes e divisórias.
Onde fica o ninho
As abelhas-cortadeiras não constroem uma colmeia suspensa num ramo.
Muitas utilizam cavidades já existentes.
Podem nidificar em caules ocos, orifícios existentes em madeira, pequenas cavidades e outros espaços estreitos e protegidos.
Algumas espécies utilizam também cavidades no solo.
A RHS refere que determinadas abelhas-cortadeiras podem utilizar túneis naturais, caules ocos, madeira em decomposição, solo relativamente seco e estruturas artificiais destinadas a abelhas solitárias.
A Xerces Society também inclui Megachile entre as abelhas capazes de utilizar cavidades em madeira morta e caules.
A fêmea não precisa, portanto, de viver na mesma planta que está a cortar.
Pode recolher um pedaço de uma roseira e transportá-lo para uma cavidade localizada vários metros mais longe.
Porque os danos são geralmente inofensivos para a planta
É precisamente aqui que muitos jardineiros podem evitar uma intervenção desnecessária.
Os cortes parecem dramáticos porque são muito regulares e imediatamente visíveis.
Mas aparência e gravidade não são a mesma coisa.
A RHS considera que os fragmentos retirados pelas abelhas-cortadeiras normalmente não provocam danos significativos no vigor das plantas. A University of Minnesota Extension classifica igualmente o efeito como essencialmente cosmético.
Uma roseira adulta e saudável possui uma área foliar muito superior aos pequenos fragmentos normalmente retirados.
A perda de algumas secções das folhas dificilmente compromete a capacidade global da planta de realizar fotossíntese.
Quando merece maior atenção
A situação deve ser analisada de forma proporcional.
Uma planta extremamente jovem, recentemente transplantada, debilitada ou com pouca folhagem tem menos margem para perder tecido do que um arbusto vigoroso e estabelecido.
Mesmo assim, antes de atribuir um problema de crescimento às abelhas-cortadeiras, convém procurar outras causas.
Seca, excesso de água, problemas radiculares, doenças, deficiência nutricional e outras pragas podem ter efeitos muito mais importantes sobre o vigor da planta.
O simples aparecimento de alguns círculos nas folhas não significa que a planta esteja em perigo.
O papel ecológico das abelhas-cortadeiras
Enquanto recolhe material para o ninho, a fêmea precisa também de alimentar a futura larva.
Para isso visita flores.
Recolhe pólen e néctar e transporta-os para a célula, formando uma reserva de alimento.
Durante estas visitas, o pólen entra em contacto com o corpo da abelha e pode ser transferido entre flores.
É assim que as abelhas-cortadeiras participam na polinização.
A Xerces Society inclui explicitamente as abelhas-cortadeiras entre a diversidade de abelhas solitárias que funcionam como polinizadores.
Solitária não significa pouco importante
A palavra “solitária” descreve sobretudo a organização da nidificação.
Não significa que estas abelhas sejam raras, inúteis ou incapazes de contribuir significativamente para a polinização.
Cada fêmea trabalha essencialmente para o seu próprio ninho, em vez de integrar uma colónia como a da abelha-doméstica.
Num jardim diversificado podem existir diferentes espécies de abelhas solitárias utilizando simultaneamente solo, madeira morta, caules ocos e outras pequenas cavidades.
Algumas podem passar despercebidas durante anos.
Os recortes nas folhas são uma das raras pistas visuais que revelam diretamente a sua atividade.
Como distinguir este dano de pragas verdadeiramente problemáticas
Nem todos os buracos numa folha foram feitos por uma abelha-cortadeira.
A forma do dano é uma das melhores pistas.
Abelhas-cortadeiras
Procura recortes limpos e regulares.
Frequentemente parecem ter sido retirados da margem da folha com um pequeno furador ou tesoura.
Não costuma existir uma grande área de tecido raspado ou mastigado em redor.
Lagartas
Lagartas podem produzir buracos de formas muito diferentes.
As margens tendem a ser mais irregulares e a quantidade de tecido consumido pode aumentar rapidamente quando existem muitos indivíduos.
Em algumas plantas é possível encontrar diretamente a lagarta, excrementos ou folhas unidas por seda.
Lesmas e caracóis
Os danos provocados por gastrópodes tendem a apresentar contornos irregulares.
São particularmente comuns em tecidos tenros e plantas jovens, sobretudo em condições húmidas.
Também podem existir vestígios de muco.
Escaravelhos e outros insetos mastigadores
Vários grupos de insetos conseguem perfurar ou mastigar folhas.
Alguns produzem numerosos pequenos orifícios. Outros raspam superfícies ou consomem grandes áreas entre as nervuras.
Por isso, um buraco isolado não é suficiente para diagnosticar a causa.
O padrão geral é mais informativo.
Uma sucessão de recortes muito limpos e aproximadamente semicirculares ao longo das margens das folhas é muito mais compatível com uma abelha-cortadeira.
Porque as roseiras aparecem tantas vezes com estes cortes
As roseiras são um dos exemplos clássicos.
A RHS refere explicitamente que as fêmeas recolhem frequentemente fragmentos das folhas de roseiras em jardins.
Isto explica por que razão tantas pessoas descobrem as abelhas-cortadeiras precisamente depois de observar uma roseira.
Mas a preferência não é exclusiva.
Outras plantas de folha larga podem fornecer material adequado.
A escolha pode depender da espécie de abelha, disponibilidade de plantas e propriedades físicas da folha.
A presença dos recortes também não significa que exista algo de errado com a roseira.
Pelo contrário, a planta simplesmente forneceu um material que a abelha considerou adequado para construir o ninho.
É necessário controlar a abelha-cortadeira?
Na maioria dos jardins, não.
A recomendação da RHS é particularmente clara: devido ao valor destas abelhas como polinizadores e ao caráter geralmente superficial dos danos, não devem ser tratadas como uma praga que precisa de controlo.
Inseticidas são especialmente difíceis de justificar neste contexto.
Estaríamos a expor um polinizador a um produto para evitar um dano predominantemente estético.
Também não é necessário destruir o ninho.
Se os cortes estiverem limitados a algumas folhas de uma planta vigorosa, a opção mais simples é aceitar o padrão como parte da atividade biológica do jardim.
Se a planta tiver especial valor ornamental
Quem cultiva uma roseira especificamente para exposição pode não apreciar folhas recortadas.
Nesse caso, a solução deve privilegiar métodos físicos e preventivos que não prejudiquem as abelhas.
Ainda assim, num jardim comum, alguns recortes dificilmente justificam intervenção.
As folhas continuam funcionais.
E a abelha está a utilizar apenas uma pequena quantidade de material para produzir a geração seguinte.
Abelhas-cortadeiras e hotéis de insetos
Algumas espécies de Megachile podem utilizar estruturas artificiais com cavidades adequadas.
É por isso que podem aparecer em hotéis de insetos.
Mas instalar um hotel não garante automaticamente uma melhoria para os polinizadores.
Dimensões inadequadas, materiais que acumulam humidade e falta de manutenção podem favorecer parasitas ou doenças.
A Xerces Society salienta que as abelhas que nidificam em cavidades também utilizam recursos naturais como madeira morta, caules ocos e pequenos espaços protegidos.
Num jardim, conservar alguns destes micro-habitats pode ser tão importante como instalar uma estrutura artificial.
Se encontrares um tubo fechado com fragmentos de folhas, não o abras para ver o interior.
O material pode estar a proteger células com ovos ou larvas.
Um pequeno recorte pode contar uma história inteira
Há uma diferença importante entre olhar para uma folha como objeto ornamental e observá-la como parte de um ecossistema.
No primeiro caso, o círculo em falta parece simplesmente um defeito.
No segundo, funciona como pista.
Algures nas proximidades, uma fêmea encontrou uma cavidade.
Depois procurou uma folha adequada.
Cortou um fragmento.
Transportou-o até ao ninho.
Construiu parte de uma célula.
Visitou flores para recolher pólen e néctar.
Regressou ao ninho.
Preparou alimento para uma larva que ainda nem tinha nascido.
Um pequeno semicírculo numa roseira pode ser o vestígio visível de todo este processo.
Perguntas frequentes
Quem faz buracos circulares nas folhas das roseiras?
Quando os recortes são muito limpos, regulares e aproximadamente circulares ou semicirculares, uma possibilidade forte é a atividade de abelhas-cortadeiras do género Megachile. Outros animais também danificam folhas, por isso é importante observar o padrão completo.
A abelha come o pedaço da folha?
Não é esse o objetivo principal. As fêmeas utilizam os fragmentos para construir e revestir células do ninho.
Os buracos prejudicam a roseira?
Normalmente são danos cosméticos. Numa planta saudável e estabelecida, os pequenos fragmentos retirados geralmente não comprometem o vigor.
Devo aplicar inseticida?
Não há normalmente justificação para controlar abelhas-cortadeiras por causa destes recortes. São polinizadores e o dano causado às plantas é geralmente pequeno.
Onde fazem o ninho?
Dependendo da espécie, podem utilizar caules ocos, cavidades existentes em madeira, pequenos túneis, solo ou estruturas artificiais apropriadas para abelhas solitárias.
Vivem em colmeias?
Não. São abelhas solitárias. Cada fêmea prepara o seu próprio ninho, embora vários indivíduos possam encontrar locais de nidificação adequados na mesma área.
As abelhas-cortadeiras são polinizadoras?
Sim. As fêmeas visitam flores para recolher pólen e néctar destinados às células do ninho e, durante essas visitas, transportam pólen entre flores.
Como distingo os cortes de danos de lagartas?
As abelhas-cortadeiras tendem a deixar margens muito limpas e recortes regulares. Lagartas produzem frequentemente áreas mastigadas mais irregulares e podem deixar outros sinais da sua presença.
Um hotel de insetos pode receber abelhas-cortadeiras?
Algumas espécies utilizam cavidades artificiais adequadas. No entanto, um hotel de insetos deve ser corretamente concebido e mantido. Caules ocos e cavidades naturais também são recursos importantes.
Devo cortar as folhas danificadas?
Não é necessário apenas por causa dos recortes. A parte restante da folha continua a funcionar e remover folhas saudáveis pode causar uma perda de área fotossintética maior do que aquela provocada pela própria abelha.
Conclusão
Buracos circulares nas folhas das plantas parecem, à primeira vista, o início de uma infestação.
Muitas vezes contam uma história completamente diferente.
As abelhas-cortadeiras retiram cuidadosamente pequenos fragmentos de folhas para construir as células onde a geração seguinte irá desenvolver-se.
Não estão a destruir a planta para se alimentar.
Não estão a formar uma colónia dentro da roseira.
E, numa planta saudável, os recortes são geralmente demasiado pequenos para causar um problema significativo.
Ao mesmo tempo, estas abelhas visitam flores, recolhem pólen e néctar e participam na polinização.
O que parece ser apenas uma folha imperfeita é, portanto, uma evidência visível da presença de um polinizador solitário.
Naturalmente, nem todos os buracos devem ser ignorados.
Folhas intensamente mastigadas, perda rápida de tecido, deformações generalizadas ou plantas que começam a perder vigor justificam uma observação mais cuidadosa para identificar lagartas, lesmas, escaravelhos, doenças ou outros problemas.
A chave está no padrão.
Recortes limpos, aproximadamente circulares ou semicirculares, sobretudo nas margens de folhas de roseira e outras plantas de folha larga, são característicos da atividade das abelhas-cortadeiras.
Quando esse padrão aparece, a resposta mais adequada costuma ser também a mais simples.
Não fazer nada.
Deixar a abelha continuar o seu trabalho significa aceitar uma pequena imperfeição estética em troca de espaço para um dos muitos polinizadores solitários que partilham os jardins portugueses.