O ciclo de vida da libelinha: da água ao voo

Quando vemos uma libelinha a patrulhar um lago, uma ribeira ou um pequeno charco, estamos a observar apenas a fase mais visível da sua existência.

Antes de possuir asas, o mesmo animal viveu debaixo de água como predador. Durante esta fase aquática, caça outros pequenos animais com uma estrutura bucal extraordinariamente especializada. Quando chega o momento da transformação, abandona a água, fixa-se numa planta, pedra ou outro suporte e realiza a última muda.

Não existe casulo nem fase de pupa.

Da antiga pele da ninfa emerge diretamente o adulto alado.

Este ciclo liga dois ambientes completamente diferentes. A primeira parte da vida decorre na água; a segunda acontece sobretudo no ar e na vegetação das margens.

Em Portugal, onde existem libélulas e libelinhas associadas a rios, ribeiras, lagoas, albufeiras, charcos temporários e outros habitats aquáticos, compreender este ciclo ajuda também a perceber por que razão conservar apenas o inseto adulto não é suficiente. Para existir uma população de libelinhas, é necessário conservar a água onde começa a sua vida.

Índice

  1. Libélulas e libelinhas: o que estamos realmente a observar
  2. O início do ciclo: ovos associados à água
  3. A longa fase larvar aquática
  4. Como respira e vive uma ninfa de libelinha
  5. A máscara labial: uma arma de caça subaquática
  6. O que comem as ninfas
  7. Crescer através de sucessivas mudas
  8. O momento de abandonar a água
  9. A emergência do adulto
  10. As primeiras horas depois da transformação
  11. A vida adulta e o regresso à água
  12. Porque diferentes espécies precisam de habitats diferentes
  13. Como observar o ciclo sem perturbar
  14. Perguntas frequentes
  15. Conclusão

Libélulas e libelinhas: o que estamos realmente a observar

Libélulas e libelinhas pertencem à ordem Odonata.

Em linguagem corrente, os nomes podem ser utilizados de forma pouco rigorosa, mas os odonatos incluem dois grandes grupos ainda existentes: Anisoptera, que reúne as libélulas propriamente ditas, e Zygoptera, frequentemente chamadas libelinhas ou cavalinhos-do-diabo.

Existem diferenças no corpo, olhos, asas e comportamento, mas ambos partilham o mesmo princípio geral de desenvolvimento.

São insetos de metamorfose incompleta.

Isto significa que não passam por uma fase de pupa como uma borboleta.

O ciclo pode ser resumido em três grandes etapas: ovo, ninfa aquática e adulto alado.

A mudança entre as duas últimas é uma das transformações mais impressionantes que podemos observar junto de uma massa de água.

O início do ciclo: ovos associados à água

Tudo começa com a reprodução dos adultos.

Depois do acasalamento, as fêmeas colocam os ovos em locais que permitirão às futuras ninfas chegar à água.

A estratégia varia conforme a espécie.

Algumas inserem os ovos diretamente em tecidos vegetais. Outras depositam-nos na água ou junto dela. Existem ainda espécies com estratégias muito específicas.

Em Portugal, por exemplo, materiais educativos do TAGIS descrevem Chalcolestes viridis como uma espécie cujas fêmeas inserem os ovos em ramos vivos pendentes sobre cursos de água. Com as chuvas, o desenvolvimento posterior fica associado ao meio aquático.

Esta diversidade é importante porque mostra que não existe uma única maneira de uma libelinha iniciar a vida.

O elemento comum é a ligação estreita com ambientes de água doce.

A longa fase larvar aquática

Depois da eclosão começa uma fase que muitas pessoas nunca chegam a observar.

A ninfa vive debaixo de água.

Dependendo da espécie e das condições ambientais, esta etapa pode representar uma parte muito significativa da vida total do inseto.

O guia de libélulas do TAGIS refere, por exemplo, que as ninfas de Aeshna cyanea podem permanecer durante anos em pequenos charcos, tanques ou reservatórios.

Noutras espécies, o desenvolvimento é mais rápido.

Por isso, não existe uma duração única aplicável a todas as libélulas portuguesas.

Uma pequena predadora escondida no fundo

A ninfa não se parece muito com o adulto elegante que veremos posteriormente.

Não possui asas funcionais e o corpo está adaptado ao ambiente aquático.

Pode permanecer entre plantas submersas, sedimentos, raízes ou detritos, dependendo da espécie.

A camuflagem é importante.

Em vez de perseguir continuamente as presas através da água, muitas ninfas permanecem relativamente discretas e atacam quando outro pequeno animal se aproxima suficientemente.

É aqui que entra uma das estruturas mais extraordinárias dos odonatos.

A máscara labial: uma arma de caça subaquática

A cabeça da ninfa possui um lábio inferior profundamente modificado.

Esta estrutura é frequentemente chamada máscara labial porque, quando está recolhida, permanece dobrada junto da parte inferior da cabeça.

Durante um ataque, porém, transforma-se numa ferramenta de captura extremamente rápida.

Como funciona

Quando uma presa se aproxima, a ninfa projeta o lábio para a frente.

Na extremidade existem estruturas capazes de agarrar ou prender o animal.

Depois da captura, o conjunto é recolhido novamente em direção à boca.

A ninfa consegue assim atacar uma presa sem precisar de deslocar todo o corpo até ela.

Esta adaptação é característica das larvas de Odonata e ajuda a explicar o seu sucesso como predadores aquáticos.

Não é uma mandíbula extensível

A descrição popular de uma “mandíbula que dispara” é visualmente apelativa, mas anatomicamente imprecisa.

A estrutura projetável corresponde ao lábio inferior modificado.

As verdadeiras mandíbulas continuam a participar na alimentação depois de a presa ser aproximada da boca.

Distinguir estas estruturas torna a explicação mais correta sem retirar nada de extraordinário ao mecanismo.

O que comem as ninfas

As ninfas de libélulas são predadoras.

A dieta depende muito do tamanho da espécie, da idade da ninfa e das presas disponíveis.

Pequenos invertebrados aquáticos constituem uma parte importante da alimentação. Ninfas maiores podem capturar presas maiores quando surge a oportunidade.

Esta função predatória começa, portanto, muito antes de vermos uma libélula adulta a capturar pequenos insetos em voo.

A relação com o ecossistema aquático também explica por que razão alterações profundas num charco ou ribeira podem afetar uma população mesmo quando ainda vemos adultos a voar nas proximidades.

Os adultos podem deslocar-se.

As ninfas não podem simplesmente abandonar a água e voar para outro habitat.

Crescer através de sucessivas mudas

O exoesqueleto dos insetos não cresce continuamente como a pele de um vertebrado.

Para aumentar de tamanho, a ninfa precisa de realizar mudas.

Forma um novo exoesqueleto e abandona o anterior.

Este processo repete-se várias vezes durante o desenvolvimento.

A cada estádio, o animal aproxima-se da forma necessária para realizar a transformação final.

Dentro do corpo vão também ocorrendo mudanças que prepararão estruturas utilizadas na fase adulta.

As asas, por exemplo, não aparecem subitamente do nada no momento da emergência. Os seus precursores desenvolvem-se durante os últimos estádios da ninfa.

A última muda será, contudo, completamente diferente das anteriores.

Desta vez, o animal não continuará a viver debaixo de água.

O momento de abandonar a água

Quando o desenvolvimento larvar está completo e as condições são adequadas, a ninfa aproxima-se da margem ou da superfície.

Procura um suporte.

Pode ser um caule de planta aquática, uma pedra, uma raiz, madeira ou outra estrutura firme.

Depois sobe para fora da água.

Esta curta deslocação representa uma mudança radical.

Até esse momento, toda a vida do animal decorreu como organismo aquático. A partir daí, prepara-se para funcionar como inseto aéreo.

A escolha de um suporte seguro é essencial porque a transformação seguinte deixa o animal temporariamente muito vulnerável.

A emergência do adulto

Depois de se fixar, começa a última muda.

O exoesqueleto da ninfa abre-se e o adulto começa lentamente a sair.

Primeiro surge parte do corpo.

Depois libertam-se progressivamente as restantes estruturas.

As asas que inicialmente parecem pequenas, enrugadas e moles expandem-se. O abdómen também assume gradualmente a forma alongada característica do adulto.

É um processo de emergência, não uma passagem por uma pupa.

A exúvia permanece no local

Depois de o adulto partir, fica para trás a antiga pele larvar.

Esta estrutura vazia chama-se exúvia.

Encontrar exúvias presas a plantas, pedras ou estruturas junto à água é uma das melhores formas de confirmar que uma determinada massa de água está realmente a servir como local de desenvolvimento.

Um adulto observado junto de uma lagoa pode ter chegado de outro local.

Uma exúvia demonstra que uma ninfa completou ali o desenvolvimento e saiu da água.

É por isso que estes vestígios são particularmente interessantes para o estudo dos odonatos.

As primeiras horas depois da transformação

O adulto recém-emergido ainda não está pronto para a vida normal.

As asas precisam de se expandir e endurecer.

O corpo também vai adquirindo progressivamente a coloração e consistência características.

Durante este período, o inseto encontra-se particularmente vulnerável.

Ainda não possui a capacidade de voo de um adulto plenamente funcional e não consegue escapar facilmente de predadores ou perturbações.

Por isso, tocar num indivíduo que acabou de emergir ou mexer no caule onde está pousado pode interferir com uma fase delicada do desenvolvimento.

A melhor observação é feita à distância.

A vida adulta e o regresso à água

Depois de ganhar capacidade de voo, começa a fase que conhecemos melhor.

Os adultos são predadores aéreos.

Capturam outros insetos durante o voo ou a partir de pontos de pouso, dependendo da espécie e da estratégia utilizada.

Nesta fase ocorre também a dispersão.

Alguns indivíduos afastam-se do local onde nasceram antes de atingirem maturidade sexual.

Mais tarde, os adultos reprodutores voltam a procurar habitats adequados para acasalamento e postura.

O ciclo regressa assim ao ambiente aquático.

Água, vegetação marginal e espaço aéreo não são habitats independentes para uma libelinha.

São diferentes partes do mesmo ciclo biológico.

Diferentes espécies precisam de habitats diferentes

Dizer que as libelinhas vivem “junto da água” é correto, mas insuficiente.

As espécies portuguesas apresentam preferências muito diferentes.

A libelinha-comum (Coenagrion puella) está associada a sistemas de águas paradas, como lagos, lagoas e albufeiras com vegetação marginal.

A libelinha-anã (Ischnura pumilio) consegue utilizar ambientes variados, incluindo ribeiras, lagoas, açudes e charcos temporários, e pode colonizar corpos de água recentemente formados.

Calopteryx virgo está associada sobretudo a pequenos cursos de água corrente, frios e oxigenados, com vegetação ribeirinha.

Calopteryx xanthostoma, por sua vez, ocorre em rios, ribeiras e riachos, preferindo setores relativamente abertos e calmos.

Mesmo dentro de Portugal, portanto, conservar uma lagoa não substitui a conservação de uma ribeira, e proteger uma albufeira não garante habitat para espécies dependentes de águas correntes e bem oxigenadas.

A importância da vegetação das margens

Uma margem completamente limpa pode parecer mais arrumada, mas nem sempre é biologicamente melhor.

A vegetação aquática e ribeirinha oferece estrutura ao habitat.

Pode servir de abrigo às ninfas, proporcionar locais para oviposição e fornecer suportes para a emergência.

Quando chega o momento de abandonar a água, muitas ninfas dependem precisamente de caules e outras estruturas verticais para completar a última muda.

Isto não significa que todas as margens tenham de permanecer cobertas por vegetação densa.

Significa que a gestão deve reconhecer que a fronteira entre terra e água faz parte do habitat.

Como observar o ciclo sem perturbar

Um pequeno lago ou charco pode permitir observar diferentes fases dos odonatos sem capturar os animais.

Durante os meses de atividade, procura adultos patrulhando a água ou pousados na vegetação.

Junto à margem, observa caules que emergem da água.

Uma exúvia castanha e vazia presa a um caule pode passar facilmente despercebida, mas é uma prova direta de emergência.

Também pode ser possível encontrar um adulto recém-emergido perto da antiga pele.

Nesse caso, não lhe toques.

Não puxes o caule para obter uma fotografia melhor e não tentes abrir as asas manualmente.

A transformação deve decorrer sem interferência.

Observar este processo é precisamente mais interessante quando percebemos que aquele inseto passou de predador aquático para predador aéreo sem qualquer fase de pupa entre os dois mundos.

Perguntas frequentes

Libélulas e libelinhas passam por uma fase de lagarta?

Não. Os jovens são ninfas ou larvas aquáticas com uma forma completamente diferente das lagartas de borboletas e traças.

Existe uma fase de pupa?

Não. Os odonatos apresentam metamorfose incompleta. A ninfa aquática transforma-se em adulto durante a última muda, sem formar uma pupa.

Quanto tempo vivem debaixo de água?

Depende da espécie e das condições ambientais. Algumas desenvolvem-se relativamente depressa, enquanto noutras a fase larvar pode prolongar-se durante anos. Não existe um único valor válido para todas as libélulas.

As ninfas são predadoras?

Sim. Caçam pequenos animais aquáticos e possuem um lábio inferior especializado que pode ser projetado rapidamente para capturar presas.

A “máscara” é realmente uma mandíbula?

Não. A estrutura projetável corresponde ao lábio inferior modificado. É frequentemente chamada máscara labial.

Porque encontramos peles vazias nas plantas junto de um lago?

Provavelmente são exúvias deixadas depois da última muda. A ninfa sobe para fora da água, o adulto emerge e a antiga cutícula permanece presa ao suporte.

Uma exúvia significa que a espécie se reproduziu naquele local?

A presença de uma exúvia confirma que pelo menos um indivíduo completou ali a fase aquática e realizou a emergência. É uma evidência muito mais direta de desenvolvimento local do que observar simplesmente um adulto em voo.

Todas as espécies vivem em lagoas?

Não. Algumas preferem águas paradas, enquanto outras estão associadas a rios e ribeiras. Existem ainda espécies capazes de utilizar charcos temporários, açudes, albufeiras e outros sistemas.

As libelinhas são úteis no jardim?

São predadores tanto na fase aquática como adulta e fazem parte das redes alimentares naturais. A sua presença também demonstra que existe habitat aquático ou ribeirinho adequado nas proximidades, embora não deva ser utilizada isoladamente como uma medição simples da “qualidade” da água.

Devo retirar as larvas de libelinha de um lago de jardim?

Num lago destinado à biodiversidade, não existe normalmente razão para retirar uma ninfa apenas porque é predadora. A predação faz parte do funcionamento natural destes pequenos ecossistemas.

Conclusão

A libelinha que vemos voar sobre um charco começou a vida num mundo completamente diferente.

Durante a fase aquática, a ninfa vive escondida entre vegetação, sedimentos e outras estruturas. É já um predador eficiente e utiliza uma das adaptações mais características dos odonatos: o lábio inferior transformado numa máscara projetável capaz de capturar presas.

À medida que cresce, realiza sucessivas mudas.

Quando o desenvolvimento está completo, aproxima-se finalmente da superfície, abandona a água e fixa-se num suporte.

Começa então a transformação mais visível.

O exoesqueleto abre-se. O adulto emerge. As asas expandem-se e endurecem. A antiga pele fica para trás como uma exúvia que regista silenciosamente a passagem entre duas fases da mesma vida.

Não houve pupa.

Não houve casulo.

Uma ninfa aquática tornou-se diretamente um inseto voador.

Mais tarde, o adulto regressará à proximidade da água para reproduzir-se e iniciar uma nova geração.

É esta ligação que torna as libelinhas particularmente interessantes do ponto de vista ecológico. Para proteger os adultos que vemos no verão, precisamos também de proteger aquilo que muitas vezes não vemos: charcos, lagoas, rios, ribeiras, vegetação aquática e margens onde as ninfas passam a primeira parte da vida.

Conservar uma libelinha começa, muitas vezes, debaixo de água.