Quando os dias começam a arrefecer, é possível encontrar algo curioso numa fenda de madeira, entre folhas secas, num muro ou até num canto protegido de uma construção: várias joaninhas reunidas no mesmo local.
Esta concentração não significa necessariamente que exista uma infestação. Muitas espécies de joaninhas passam o período frio como adultas em locais protegidos e algumas podem formar agregações durante a invernada. A Royal Horticultural Society (RHS) refere que a maioria das joaninhas adultas passa o inverno em locais abrigados, frequentemente em grupos.
Para quem cultiva uma horta ou pretende manter um jardim mais biodiverso, preservar estes pequenos refúgios pode ter consequências interessantes na primavera. Muitas joaninhas são predadoras de pulgões e outros pequenos insetos, fazendo parte dos mecanismos naturais que ajudam a equilibrar as suas populações.
Por isso, quando falamos de joaninhas hibernação jardim, ajudar pode significar sobretudo uma coisa: não eliminar todos os lugares onde estes insetos conseguem atravessar o inverno.
Índice
- O que acontece às joaninhas durante o inverno
- Porque algumas joaninhas passam o inverno em grupo
- Onde procuram abrigo
- O papel das joaninhas no controlo dos pulgões
- Como criar refúgios naturais para o inverno
- Folhas secas, madeira e muros de pedra
- Hotéis de insetos: úteis, mas não obrigatórios
- Porque evitar pesticidas nesta altura
- O que fazer quando aparecem joaninhas dentro de casa
- Perguntas frequentes
- Conclusão
A biologia da hibernação em grupo das joaninhas
As joaninhas pertencem à família Coccinellidae, um grupo bastante mais diverso do que sugere a imagem clássica da pequena joaninha vermelha com pintas pretas.
Existem espécies de diferentes tamanhos e cores. Nem todas apresentam sete pintas e nem todas são vermelhas. Algumas são amarelas, castanhas ou negras, enquanto o número e a disposição das manchas variam conforme a espécie e, em certos casos, dentro da própria espécie.
Também não têm todas exatamente a mesma alimentação. Muitas são predadoras de pulgões e outros pequenos insetos, enquanto algumas se alimentam de fungos e outras de matéria vegetal.
Apesar desta diversidade, existe um comportamento importante para quem observa joaninhas no jardim durante o outono.
À medida que as condições mudam, muitas joaninhas adultas procuram locais protegidos onde possam passar o período desfavorável. A RHS descreve a invernada de adultos em locais abrigados, muitas vezes formando grupos.

Porque se juntam várias joaninhas?
A formação de agregações de inverno varia entre espécies e não deve ser explicada por uma única razão universal.
Em termos gerais, a chegada do período frio coincide com condições menos favoráveis à atividade normal: temperaturas mais baixas, dias mais curtos e menor disponibilidade de algumas presas.
As joaninhas procuram então micro-habitats protegidos onde conseguem permanecer relativamente resguardadas.
Algumas espécies podem formar agregações particularmente evidentes. A joaninha-asiática (Harmonia axyridis), por exemplo, é conhecida por formar grandes concentrações no outono e utilizar edifícios como locais de invernada.
Isso não significa que todas as joaninhas apresentem agregações igualmente grandes nem que todos os indivíduos utilizem os mesmos refúgios.
O princípio útil para o jardineiro é mais simples: locais secos ou relativamente protegidos, cavidades e outras estruturas abrigadas podem funcionar como refúgios durante os meses frios.
Hibernar não significa desaparecer
Durante o inverno, estes insetos podem passar despercebidos precisamente porque permanecem escondidos.
A primavera muda novamente as condições.
Segundo a RHS, os adultos que passaram o inverno emergem dos seus refúgios, dispersam-se, reproduzem-se e, nas espécies predadoras, as fêmeas tendem a colocar os ovos em plantas onde existem colónias de pulgões ou outras presas adequadas.
É aqui que preservar uma joaninha durante o inverno pode ganhar importância para a horta na estação seguinte.
O papel ecológico das joaninhas no controlo de pulgões
Os pulgões são pequenos insetos sugadores de seiva muito comuns em jardins e hortas.
Podem aparecer em rebentos jovens, roseiras, árvores de fruto, hortícolas e inúmeras plantas ornamentais. Populações elevadas podem provocar crescimento deformado, redução do vigor e acumulação de melada, uma substância açucarada sobre a qual podem desenvolver-se fumaginas. Algumas espécies também conseguem transmitir vírus entre plantas.
No entanto, os pulgões também desempenham outro papel: são alimento.
Joaninhas, larvas de sirfídeos, crisopas, vespas parasitoides, tesourinhas e outros organismos utilizam-nos como recurso alimentar.
É precisamente aqui que as joaninhas se tornam parte da fauna benéfica da horta.
Adultos e larvas podem ser predadores
Muitas pessoas reconhecem imediatamente uma joaninha adulta, mas não identificam a sua larva.
As larvas apresentam um corpo alongado, frequentemente escuro, com diferentes padrões claros, amarelos ou alaranjados conforme a espécie. Algumas parecem ter pequenos espinhos.
O seu aspeto é tão diferente do adulto que podem ser confundidas com um inseto prejudicial.
Nas espécies predadoras, tanto larvas como adultos podem alimentar-se de pulgões. A RHS inclui precisamente as joaninhas entre os principais predadores naturais destes insetos.
Eliminar uma larva por engano pode, portanto, significar eliminar um dos predadores que estava a ajudar a controlar a colónia observada na planta.
Nem todos os pulgões precisam de ser eliminados imediatamente
Esta ideia parece contraditória, mas é importante para compreender o equilíbrio ecológico.
Se eliminarmos cada pulgão assim que aparece, reduzimos também a disponibilidade de alimento para os seus inimigos naturais.
A RHS recomenda, sempre que possível, tolerar alguma presença de pulgões e favorecer os seus predadores. Na primavera, as populações de pulgões podem aumentar antes de existirem predadores em número suficiente, mas estes inimigos naturais frequentemente contribuem depois para reduzir as colónias.
Isto não significa ignorar uma infestação que esteja a comprometer seriamente uma cultura.
Significa observar primeiro e intervir proporcionalmente.
Como criar refúgios de inverno naturais para joaninhas
Não é necessário construir uma estrutura sofisticada para ajudar joaninhas no inverno.
Na realidade, alguns dos melhores refúgios podem já existir no jardim.
O problema é que muitas vezes são eliminados precisamente durante a grande “limpeza” de outono.
Folhas são recolhidas, caules secos cortados, madeira retirada, muros limpos e todos os pequenos cantos reorganizados.
Para o jardineiro, o resultado parece arrumado.
Para um inseto que procura um abrigo de inverno, pode significar a perda de grande parte dos micro-habitats disponíveis.
Manter alguns montes de folhas
Não é necessário deixar todas as folhas espalhadas pelo jardim.
Uma solução equilibrada consiste em retirar folhas de locais onde podem causar problemas — caminhos escorregadios, sistemas de drenagem ou áreas onde uma camada excessivamente compacta não é desejável — e concentrar parte delas em zonas menos intervencionadas.
Debaixo de arbustos, junto de sebes ou num canto protegido, a manta de folhas cria um ambiente estruturalmente muito diferente de um solo completamente limpo.
A matéria vegetal caída também beneficia muitos outros pequenos organismos associados à decomposição e às cadeias alimentares do jardim.
A RHS recomenda preservar habitats de inverno e salienta que pilhas de troncos, manta de folhas e outras estruturas podem favorecer diferentes invertebrados.
O objetivo não é criar um monte enorme junto das plantas mais sensíveis.
É simplesmente permitir que algumas zonas mantenham a complexidade natural que normalmente existiria no solo.
Preservar madeira e pequenas cavidades
Madeira antiga, casca solta e pequenas fendas podem criar espaços protegidos.
Um pequeno monte de troncos colocado numa zona estável do jardim oferece inúmeros micro-habitats que uma superfície completamente lisa não proporciona.
Também não é necessário retirar imediatamente cada ramo morto de uma área onde não representa perigo.
A diferença está entre madeira estruturalmente perigosa — que naturalmente deve ser tratada — e pequenos elementos de madeira morta que podem permanecer em segurança numa zona destinada à biodiversidade.
Não limpar excessivamente os muros de pedra
Os muros antigos apresentam centenas de pequenas irregularidades.
Fendas entre pedras, cavidades e espaços protegidos podem ser utilizados por diferentes invertebrados.
Se o muro estiver estruturalmente seguro, não existe necessidade ecológica de preencher ou limpar todas as pequenas cavidades simplesmente para obter uma superfície perfeitamente uniforme.
Isso não significa deixar um muro degradar-se.
A segurança e manutenção estrutural continuam a ser prioritárias.
A ideia é distinguir reparação necessária de limpeza excessiva. Uma pequena fenda estável pode representar um micro-habitat valioso sem comprometer a estrutura.
Deixar alguns caules até à primavera
Também vale a pena moderar a poda de toda a vegetação herbácea no outono.
A RHS recomenda deixar plantas herbáceas saudáveis e caules ocos sem cortar até ao início da primavera, uma vez que podem proporcionar locais de invernada para insetos.
Esta prática beneficia mais do que apenas joaninhas.
Diferentes insetos utilizam cavidades, vegetação seca e estruturas vegetais durante o inverno.
E os hotéis de insetos?
Um hotel de insetos pode complementar estes habitats.
A RHS inclui a instalação de estruturas para insetos em locais protegidos entre as medidas que podem ajudar joaninhas, crisopas e outros animais durante o inverno.
Mas não é necessário transformar o hotel de insetos na peça central do jardim.
Um jardim com madeira, folhas, vegetação diversificada e pequenos refúgios naturais já pode proporcionar uma enorme variedade de micro-habitats.
Aliás, preservar aquilo que já existe pode ser mais simples do que eliminar todos os abrigos naturais e depois tentar substituí-los por uma única estrutura artificial.
O hotel deve ser visto como complemento, não como substituto de um jardim estruturalmente diverso.
Porque evitar pesticidas nesta altura
Se estamos a tentar proteger joaninhas durante o inverno, é importante evitar práticas que possam prejudicá-las.
Os inseticidas não distinguem necessariamente entre o inseto que o jardineiro considera uma praga e os seus predadores naturais.
O risco depende do produto, princípio ativo, dose, modo de aplicação, organismo exposto e outras condições. Por isso, não é correto afirmar que todos os pesticidas têm exatamente o mesmo efeito.
Mas existe uma regra prática importante: aplicar um inseticida de forma indiscriminada pode atingir organismos que não eram o alvo inicial.
A RHS recomenda privilegiar métodos não químicos e utiliza precisamente as joaninhas e o controlo natural dos pulgões como exemplo de um processo que ocorre espontaneamente em jardins biologicamente funcionais.
Proteger agora os predadores que serão úteis depois
No inverno pode parecer pouco importante preservar uma joaninha imóvel numa cavidade.
Na primavera, a situação muda.
As plantas começam a produzir rebentos tenros. Os pulgões voltam a aumentar. Os predadores que sobreviveram ao inverno retomam a atividade.
Preservar locais de invernada significa, portanto, manter parte dessa comunidade de predadores disponível no próprio jardim.
Isso não garante que nunca existirão pulgões.
Um jardim biodiverso não funciona dessa forma.
Existirão presas e predadores, períodos de maior abundância e fases de menor atividade. O objetivo é favorecer uma rede alimentar suficientemente diversa para que nem todos os problemas dependam da intervenção humana.
Evitar tratamentos preventivos sem um problema identificado
Aplicar um produto “por precaução” quando não existe um problema concreto pode ser particularmente contraproducente num jardim orientado para a biodiversidade.
Antes de qualquer tratamento, identifica o organismo.
Avalia os danos.
Confirma se a população está realmente a causar um problema que justifique intervenção.
Muitas vezes, métodos físicos, remoção manual ou simplesmente algum tempo para os inimigos naturais responderem são suficientes. A RHS refere que métodos não químicos são eficazes em muitas situações de jardim e evitam os riscos associados à utilização desnecessária de pesticidas.
O que fazer se as joaninhas entrarem em casa?
Algumas joaninhas procuram edifícios como locais de invernada.
Este comportamento é particularmente evidente na joaninha-asiática, que pode formar agregações numerosas dentro de casas e outras construções.
Encontrar várias junto de uma janela não significa que estejam a reproduzir-se dentro da casa nem que estejam a destruir madeira, tecidos ou alimentos.
A RHS indica que estas agregações não representam perigo dentro dos edifícios, embora algumas joaninhas possam libertar um líquido amarelado capaz de manchar superfícies. Quando necessário, podem ser recolhidas cuidadosamente e removidas.
Evita esmagá-las ou pulverizar inseticida sobre uma agregação.
Se for necessário deslocá-las, a manipulação cuidadosa é uma solução muito mais seletiva.
Perguntas frequentes
As joaninhas hibernam realmente?
Muitas espécies passam o inverno como adultas em locais protegidos. É frequente encontrá-las isoladas ou em grupos em cavidades, estruturas naturais e, por vezes, edifícios.
Porque aparecem muitas joaninhas juntas no outono?
Algumas espécies formam agregações quando procuram locais adequados para passar o período frio. A joaninha-asiática é particularmente conhecida por formar grandes grupos em estruturas e edifícios.
Devo deixar folhas no jardim durante o inverno?
Não é necessário deixar todas as folhas onde caíram. Contudo, manter alguma manta de folhas em zonas adequadas aumenta a diversidade de micro-habitats e pode beneficiar diferentes invertebrados.
Um hotel de insetos ajuda as joaninhas?
Pode oferecer abrigo adicional. A RHS refere que estruturas para insetos colocadas em posições protegidas podem ser utilizadas por joaninhas e crisopas durante o inverno.
As joaninhas comem pulgões?
Muitas espécies comem. Tanto adultos como larvas de várias joaninhas predadoras alimentam-se de pulgões e outros pequenos insetos. Existem, contudo, joaninhas com dietas diferentes.
Devo eliminar todos os pulgões para proteger as plantas?
Nem sempre. Pequenas populações constituem alimento para numerosos predadores. Quando os danos são toleráveis, permitir algum tempo para a ação dos inimigos naturais pode ajudar a manter um sistema mais equilibrado.
Encontrei joaninhas dentro de casa. São perigosas?
Normalmente não. Algumas espécies utilizam edifícios como locais de invernada. Podem ser toleradas ou recolhidas cuidadosamente quando precisam de ser removidas.
Devo comprar joaninhas para libertar na horta?
Num jardim exterior, criar habitat e favorecer populações que já existem localmente costuma ser uma abordagem mais coerente do que depender da libertação de adultos, que podem simplesmente dispersar-se. A prioridade deve ser oferecer alimento, diversidade vegetal e locais protegidos.
Conclusão
Ajudar as joaninhas a atravessar o inverno não exige transformar o jardim num espaço abandonado.
Exige sobretudo aceitar que um jardim biologicamente funcional não precisa de estar completamente limpo.
Uma pequena camada de folhas debaixo de uma sebe, madeira mantida num canto protegido, alguns caules deixados até à primavera e as cavidades naturais de um muro podem criar aquilo que muitos insetos procuram quando chegam os meses frios: abrigo.
No caso das joaninhas hibernação jardim, estes pequenos espaços podem permitir que adultos sobrevivam ao período desfavorável e regressem à atividade quando as temperaturas aumentam.
Na primavera, muitas dessas joaninhas voltarão a procurar alimento. E, para as espécies predadoras, os pulgões estarão frequentemente entre as presas disponíveis.
A relação não deve ser simplificada como uma guerra entre insetos “bons” e “maus”. Os próprios pulgões fazem parte da cadeia alimentar que sustenta joaninhas, sirfídeos, crisopas, parasitoides e outros animais.
Uma horta equilibrada continua a precisar de observação e, por vezes, de intervenção. Mas preservar os predadores que já vivem nela reduz a necessidade de tratar cada inseto como um problema.
Por isso, quando encontrares joaninhas reunidas num canto protegido durante o outono ou inverno, não é necessário fazer muito.
Muitas vezes, a melhor ajuda é simplesmente deixar o abrigo onde está.