Como instalar um comedouro de aves seguro antes do inverno

Quando os dias ficam mais curtos e as temperaturas descem, muitas aves passam uma parte maior do dia à procura de alimento. Insetos tornam-se menos abundantes, algumas plantas deixam de produzir sementes e determinados frutos silvestres desaparecem progressivamente.

Um comedouro pode oferecer uma fonte suplementar de alimento durante este período. Em Portugal, contudo, é importante colocar esta ajuda em perspetiva.

A Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) explica que as temperaturas relativamente amenas do país permitem que, mesmo durante o inverno, continuem disponíveis fontes naturais de alimento para muitas das espécies que visitam jardins. Ainda assim, quem desejar pode oferecer um complemento alimentar.

Mais importante do que simplesmente colocar sementes no exterior é fazê-lo de forma segura.

Um comedouro mal localizado pode facilitar ataques de gatos. Alimentos húmidos podem deteriorar-se. Restos acumulados atraem outros animais e superfícies contaminadas por saliva e excrementos podem favorecer a transmissão de doenças.

Instalar um comedouro seguro significa, portanto, pensar simultaneamente em localização, alimento, desenho e higiene.

Índice

  1. Alimentação suplementar no inverno
  2. Onde instalar o comedouro
  3. Como reduzir o risco provocado por gatos
  4. Comedouro suspenso ou plataforma
  5. Que alimentos oferecer
  6. Sementes de girassol
  7. Bolas de gordura e alimentos energéticos
  8. Cereais e misturas de sementes
  9. Alimentos que devemos evitar
  10. Higiene e prevenção de doenças
  11. O que fazer quando aparece uma ave doente
  12. Água: tão importante como alimento
  13. Perguntas frequentes
  14. Conclusão

Alimentação suplementar não substitui um jardim saudável

Um comedouro deve funcionar como complemento.

As aves continuam a precisar dos recursos naturais existentes no território: insetos, aranhas, sementes, bagas, frutos e outros alimentos que fazem parte da dieta de cada espécie.

É por isso que um jardim favorável às aves não deve ser organizado apenas em redor de um recipiente cheio de sementes.

Sebes, árvores, arbustos com fruto, plantas produtoras de sementes, folhas caídas e pequenas zonas menos intervencionadas podem disponibilizar alimento natural e abrigo.

Em Portugal, esta abordagem é especialmente pertinente porque, como salienta a SPEA, muitas aves encontram recursos naturais mesmo no inverno.

O comedouro acrescenta uma oportunidade de alimentação. Não transforma todas as espécies em dependentes nem substitui a conservação de habitat.

Altura e localização ideal do comedouro

Escolher o local correto é uma das decisões mais importantes.

As aves precisam de conseguir aproximar-se, alimentar-se e abandonar rapidamente o comedouro quando detetam perigo.

Um espaço completamente fechado por vegetação densa pode parecer protegido, mas pode também permitir que um gato se aproxime sem ser visto.

No extremo oposto, um comedouro colocado numa área totalmente exposta e muito distante de qualquer vegetação pode deixar pequenas aves sem um refúgio próximo.

A solução está no equilíbrio.

Alto e fora do alcance de gatos

Sempre que possível, o comedouro deve ficar suficientemente elevado para dificultar o acesso de gatos e outros predadores terrestres.

Um poste metálico liso pode dificultar a escalada. Existem também barreiras físicas próprias para postes.

É importante verificar igualmente o que existe ao lado.

De pouco serve colocar o comedouro alto se estiver encostado a um muro, árvore, banco ou estrutura que permita a um gato saltar diretamente para ele.

A RSPB recomenda colocar os comedouros suficientemente altos para ficarem fora do alcance de predadores terrestres e afastados de vegetação densa que possa servir como ponto de emboscada.

Próximo de abrigo, mas não demasiado próximo

As aves pequenas beneficiam da existência de arbustos ou árvores relativamente próximos.

Se surgir uma ave de rapina ou outro perigo, podem refugiar-se rapidamente.

Mas essa vegetação não deve estar imediatamente debaixo ou ao lado do comedouro.

Como referência prática, a RSPB sugere cerca de dois metros entre o ponto de alimentação e vegetação densa. É suficientemente perto para permitir uma fuga rápida, mas cria algum espaço aberto que dificulta uma aproximação escondida por parte de gatos.

Não é uma medida universal que tenha de ser aplicada ao centímetro. A configuração de cada jardim é diferente.

O princípio é mais importante: boa visibilidade em redor do comedouro, sem eliminar completamente o acesso rápido a abrigo.

Evitar locais de passagem intensa

Um local constantemente atravessado por pessoas, cães ou veículos pode ser pouco atrativo.

Uma zona relativamente tranquila, protegida dos ventos mais fortes e onde as aves consigam observar a área envolvente é normalmente mais adequada.

Também convém evitar colocar o comedouro diretamente por baixo de locais onde muitas aves pousam ou dormem, porque os excrementos podem contaminar o alimento.

Comedouro suspenso ou plataforma

Nem todas as aves se alimentam da mesma maneira.

Algumas utilizam facilmente tubos suspensos. Outras preferem superfícies horizontais ou procuram alimento no solo.

Historicamente, isso levou à utilização de diferentes tipos de comedouros.

Contudo, existe hoje uma consideração adicional: doença.

Comedouros suspensos

Para sementes, um comedouro tubular suspenso apresenta várias vantagens.

Mantém melhor o alimento separado dos excrementos, pode protegê-lo parcialmente da chuva e limita a quantidade de aves que conseguem alimentar-se simultaneamente na mesma superfície.

Também pode ser colocado num poste ou pendurado de forma a dificultar o acesso de gatos.

O desenho deve permitir drenagem e limpeza fácil.

Não escolha apenas pela aparência. Um modelo que não pode ser desmontado e lavado adequadamente acabará por acumular restos de sementes, gordura e matéria orgânica.

Plataformas: práticas, mas com maior cuidado sanitário

As plataformas permitem acesso a aves que não utilizam facilmente tubos suspensos.

No entanto, alimento, patas e excrementos podem entrar em contacto com a mesma superfície.

Orientações recentes do British Trust for Ornithology indicam que comedouros de superfície plana apresentam maior risco de transmissão de doenças do que comedouros suspensos e recomendam evitá-los quando possível.

Para um novo ponto de alimentação, um comedouro suspenso bem desenhado, drenável e fácil de limpar é, portanto, uma opção prudente.

Nunca utilizar redes de nylon para bolas de gordura

Algumas bolas de gordura são comercializadas dentro de redes.

Não pendure essas redes diretamente.

As patas podem ficar presas e algumas aves podem também prender o bico ou a língua. A RSPB recomenda retirar a rede e utilizar um suporte rígido apropriado para bolas de gordura.

Alimentos adequados para o inverno

Um bom alimento deve fornecer nutrientes adequados, estar fresco e ser apresentado numa forma segura.

A SPEA recomenda sementes como uma opção apropriada e refere que misturas comercializadas para aves, como as destinadas a canários, podem ser apreciadas por diferentes aves de jardim.

A diversidade de alimentos também determina quais espécies aparecem.

Sementes de girassol sem sal

As sementes de girassol são uma opção comum para aves granívoras.

Podem ser oferecidas com casca ou descascadas. Os chamados corações de girassol reduzem a quantidade de cascas acumuladas debaixo do comedouro, embora sejam normalmente mais caros.

O ponto fundamental é não utilizar sementes temperadas para consumo humano.

Devem ser naturais e sem sal.

Produtos salgados não são adequados para aves silvestres.

Um comedouro tubular próprio para sementes ajuda a manter o alimento relativamente seco e limita a quantidade libertada de cada vez.

Bolas de gordura

Durante períodos frios, alimentos ricos em gordura podem fornecer uma fonte energética concentrada.

Bolas de gordura ou produtos de sebo formulados para aves podem ser utilizados em suportes próprios.

A investigação e as recomendações atuais do BTO continuam a considerar alimentos gordos apropriados, particularmente durante os meses frios.

É importante observar o estado do alimento.

Se apresentar bolor, odor estranho ou sinais evidentes de deterioração, deve ser eliminado.

E, novamente, as bolas devem ser retiradas das redes plásticas ou de nylon antes de serem disponibilizadas.

Cereais e misturas de sementes

Misturas comerciais de qualidade podem combinar diferentes sementes e cereais.

A vantagem é permitir que várias espécies selecionem os componentes que conseguem consumir.

A desvantagem aparece quando uma mistura contém grandes quantidades de ingredientes pouco procurados. As aves retiram aquilo que querem e deixam o resto cair.

Esses resíduos acumulam-se no chão, podem deteriorar-se e criar condições sanitárias indesejáveis.

Por isso, observe o que realmente é consumido.

Comprar uma mistura mais barata não representa economia se metade acabar abandonada debaixo do comedouro.

Ofereça inicialmente pequenas quantidades e ajuste conforme a procura.

O que evitar

O pão é provavelmente o exemplo mais conhecido.

A SPEA desaconselha-o, explicando que enche as aves sem lhes fornecer a qualidade nutricional de alimentos mais apropriados.

Também devem ser evitados alimentos salgados.

Restos de refeições humanas, aperitivos salgados, sementes temperadas e alimentos muito processados não são uma boa forma de alimentar aves selvagens.

Evite ainda:

alimento com bolor;

sementes húmidas ou com cheiro desagradável;

gordura rançosa;

alimentos excessivamente salgados;

grandes quantidades de restos domésticos;

comida deixada durante longos períodos sem ser consumida.

O objetivo não é transformar o jardim num local de deposição de restos alimentares.

Higiene: a parte mais importante do comedouro

Um comedouro reúne aves que, em condições naturais, poderiam alimentar-se em locais diferentes.

Isto cria oportunidades para transmissão de agentes patogénicos.

O alimento pode ser contaminado por saliva, excrementos ou restos regurgitados. Quando outra ave utiliza o mesmo ponto, pode entrar em contacto com esse material.

O BTO destaca precisamente a concentração de aves nos comedouros como um fator capaz de aumentar o risco de transmissão de doenças.

Limpar regularmente

Uma boa rotina é limpar e desinfetar o equipamento aproximadamente uma vez por semana.

Primeiro devem remover-se restos de alimento e sujidade. Depois, o comedouro pode ser lavado e desinfetado com um produto apropriado, seguindo as instruções do fabricante.

O BTO recomenda enxaguar completamente o equipamento depois da desinfeção e deixá-lo secar ao ar antes de voltar a colocar alimento.

Utilize luvas.

Tenha escovas exclusivamente destinadas aos comedouros e faça a limpeza no exterior, longe das superfícies onde prepara alimentos.

Lave cuidadosamente as mãos depois de terminar.

Pouco alimento de cada vez

Não é necessário encher completamente um grande comedouro se poucas aves o visitam.

O BTO recomenda disponibilizar alimento fresco em quantidades que sejam consumidas num período relativamente curto e retirar restos não consumidos, em vez de colocar alimento novo por cima do antigo.

Isso reduz o tempo durante o qual sementes ficam expostas a humidade e contaminação.

Limpar debaixo do comedouro

A higiene não termina no recipiente.

Cascas, sementes, excrementos e alimento húmido podem acumular-se no solo.

Varra ou remova regularmente esses resíduos.

Outra estratégia útil é mudar periodicamente o comedouro entre diferentes pontos seguros do jardim. O BTO recomenda esta rotação para reduzir a acumulação de material contaminado num único local.

O que fazer se aparecerem aves doentes

Uma ave imóvel, com plumagem permanentemente eriçada, dificuldade em engolir, alimento junto ao bico ou comportamento anormal pode estar doente.

Se observar várias aves doentes ou mortas associadas ao ponto de alimentação, não continue simplesmente a encher o comedouro.

A recomendação do BTO é suspender temporariamente a alimentação quando existem sinais suspeitos de doença, permitindo que as aves se dispersem, e limpar cuidadosamente os equipamentos antes de voltar a utilizá-los.

Isto é particularmente relevante para doenças transmitidas em locais onde muitas aves se alimentam juntas.

A trichomonose, por exemplo, pode afetar diferentes aves e disseminar-se através de material contaminado com saliva ou alimento regurgitado.

Alimentar aves é uma intervenção humana. Se essa intervenção estiver a facilitar doença, interrompê-la temporariamente pode ser a opção mais responsável.

Água: um recurso frequentemente esquecido

Um jardim preparado para aves não precisa apenas de alimento.

A SPEA considera uma fonte de água limpa uma das melhores formas de ajudar as aves, particularmente quando a água natural é difícil de encontrar. Um recipiente adequado permite beber e também tomar banho.

A higiene aplica-se igualmente aqui.

Água contaminada pode transmitir agentes patogénicos da mesma forma que um comedouro.

Quando se disponibiliza um bebedouro, a água deve ser renovada frequentemente e o recipiente limpo regularmente.

O artigo interno sobre bebedouros de aves no jardim pode ser ligado nesta secção para aprofundar a escolha do recipiente, profundidade, localização e manutenção.

Perguntas frequentes

É necessário alimentar aves em Portugal durante o inverno?

Não é indispensável para todas as aves. A SPEA salienta que o clima português permite que muitas espécies continuem a encontrar alimento natural. Um comedouro deve ser entendido como complemento.

Qual é o melhor local para colocar um comedouro?

Num ponto relativamente tranquilo, protegido do vento forte, elevado e fora do alcance de gatos, com boa visibilidade em redor e abrigo vegetal suficientemente próximo para permitir uma fuga rápida.

Posso colocar o comedouro dentro de um arbusto?

Não é a melhor opção quando existem gatos. Vegetação muito densa imediatamente junto ao comedouro pode permitir uma aproximação escondida.

Um comedouro suspenso é melhor do que uma plataforma?

As orientações sanitárias atuais favorecem os modelos suspensos relativamente às superfícies planas, devido ao menor risco de acumulação de alimento contaminado e transmissão de doenças.

Posso dar sementes de girassol?

Sim, desde que sejam adequadas para aves e não contenham sal ou temperos.

Posso dar pão?

A SPEA recomenda evitá-lo. O pão pode saciar sem proporcionar às aves a qualidade nutricional de alimentos mais apropriados.

As bolas de gordura são adequadas?

Produtos de gordura formulados para aves podem ser utilizados, especialmente nos períodos frios. Nunca devem ser disponibilizados dentro de redes onde patas ou bicos possam ficar presos.

Com que frequência devo limpar o comedouro?

Uma limpeza regular, aproximadamente semanal, é uma boa referência. Restos de alimento e excrementos também devem ser retirados frequentemente da área inferior.

Devo continuar a alimentar se encontrar aves doentes?

Não. Se observar sinais de doença, especialmente em vários indivíduos, a recomendação é suspender temporariamente a alimentação, limpar e desinfetar os equipamentos e permitir que as aves se dispersem.

Conclusão

Instalar um comedouro antes do inverno parece uma tarefa simples: escolher um recipiente, enchê-lo de sementes e esperar pelas primeiras aves.

Um comedouro realmente seguro exige um pouco mais.

Precisa de ficar fora do alcance de gatos, mas próximo o suficiente de abrigo para permitir uma fuga rápida. O alimento deve ser apropriado, fresco, sem sal e oferecido em quantidades proporcionais ao número de visitantes. O equipamento precisa de ser fácil de desmontar, lavar e secar.

Acima de tudo, a higiene deve fazer parte da rotina desde o primeiro dia.

Os comedouros concentram animais num espaço reduzido. Isso permite observar chapins, tentilhões, pardais e outras aves a poucos metros de casa, mas também cria oportunidades para transmissão de doenças se restos de alimento e excrementos começarem a acumular-se.

Em Portugal, onde muitas aves continuam a encontrar alimento natural durante o inverno, a melhor estratégia não é tentar substituir esses recursos.

É complementá-los.

Um jardim com árvores, arbustos, sementes, frutos, insetos, abrigo e água limpa oferece muito mais do que qualquer recipiente isolado.

O comedouro pode fazer parte desse habitat — desde que seja tratado não como uma decoração permanente, mas como um equipamento que exige localização segura, alimento adequado e manutenção regular.