Ao anoitecer, algumas flores do jardim parecem ganhar uma segunda vida. O perfume intensifica-se, as pétalas claras tornam-se mais visíveis na penumbra e começam a aparecer visitantes que durante o dia passam praticamente despercebidos.
Entre os mais impressionantes estão as mariposas-esfinge, insetos da família Sphingidae. Algumas aproximam-se das flores com um voo rápido e preciso, permanecem suspensas no ar e desenrolam uma probóscide comprida para alcançar o néctar sem necessariamente pousarem.
O comportamento é tão invulgar que certas espécies são facilmente confundidas, à primeira vista, com pequenos colibris. A comparação é particularmente conhecida no caso da esfinge-beija-flor, Macroglossum stellatarum, espécie registada em Portugal. Mas estamos perante um inseto, não uma ave, e a semelhança resulta de evolução convergente: animais muito diferentes desenvolveram soluções funcionais semelhantes para explorar flores. (naturdata.com)
A extraordinária probóscide de algumas esfinges permite-lhes alcançar néctar escondido no fundo de flores tubulares onde muitos outros visitantes não chegam. Esta relação entre a forma das flores e a anatomia dos polinizadores constitui um dos exemplos mais fascinantes da evolução das interações entre plantas e animais.
Índice
- A probóscide: uma estrutura feita para alcançar néctar profundo
- Voo estacionário: porque uma esfinge parece um colibri
- Flores tubulares e esfinges: uma relação moldada pela evolução
- Madressilvas e outras flores adaptadas à noite
- Como tornar o jardim atrativo para polinizadores noturnos
- Perguntas frequentes
- Conclusão
A probóscide: uma estrutura feita para alcançar néctar profundo
Aquilo que frequentemente chamamos “língua” da mariposa é, mais corretamente, uma probóscide.
É uma peça bucal especializada que funciona como um tubo comprido através do qual o inseto consegue obter líquidos, nomeadamente néctar.
Quando não está a alimentar-se, a probóscide pode permanecer enrolada. Ao aproximar-se de uma flor adequada, a mariposa desenrola-a e introdu-la no tubo floral até alcançar a zona onde se encontra o néctar.
O Natural History Museum de Londres destaca precisamente a longa probóscide das esfinges como uma adaptação que lhes permite chegar ao néctar localizado profundamente nas flores. (nhm.ac.uk)
Esta característica é particularmente importante porque as flores não oferecem todas o néctar da mesma maneira.
Numa flor aberta, muitos insetos conseguem alcançar facilmente a recompensa. Numa flor com uma corola comprida e tubular, o acesso pode ficar limitado aos visitantes capazes de penetrar suficientemente fundo.
É aqui que determinadas esfinges possuem uma vantagem.
Nem todas as esfinges têm a mesma probóscide
Convém evitar uma generalização frequente.
A família Sphingidae inclui muitas espécies diferentes. A Naturdata regista várias esfinges em Portugal, incluindo Macroglossum stellatarum, Agrius convolvuli, Acherontia atropos e diferentes espécies dos géneros Hyles, Sphinx e Deilephila. (naturdata.com)
As suas peças bucais, hábitos e dietas não são idênticos.
Algumas esfinges adultas alimentam-se ativamente de néctar e possuem probóscides muito desenvolvidas. Noutras, os adultos podem alimentar-se pouco ou mesmo não se alimentar.
Por isso, a expressão “a mariposa com a língua mais longa” deve ser entendida como referência às extraordinárias especializações encontradas em certas esfinges, e não como uma característica igual em todas as espécies portuguesas.

Voo estacionário: porque uma esfinge parece um colibri
Uma esfinge alimentando-se é uma demonstração impressionante de controlo de voo.
Em vez de pousar na flor, algumas espécies conseguem manter-se aproximadamente na mesma posição enquanto batem rapidamente as asas.
A probóscide permanece estendida para a frente e entra na flor enquanto o corpo continua suspenso.
Segundos depois, o inseto pode recuar, deslocar-se lateralmente e visitar outra flor.
Este comportamento é particularmente evidente na esfinge-beija-flor.
O nome não é acidental. O seu modo de alimentação recorda o dos colibris, pequenas aves americanas capazes de permanecer suspensas diante das flores enquanto recolhem néctar.
Mas esfinges e colibris não são parentes próximos.
Um é um inseto da ordem Lepidoptera; o outro é uma ave.
Um exemplo de convergência evolutiva
A semelhança funcional é um exemplo de evolução convergente.
Este processo ocorre quando organismos pertencentes a linhagens evolutivas diferentes desenvolvem características ou soluções semelhantes perante desafios ecológicos semelhantes.
O Natural History Museum utiliza precisamente colibris e esfinges como exemplo: ambos conseguem alimentar-se de néctar mantendo-se em voo diante das flores, apesar de terem chegado a essa solução através de histórias evolutivas completamente diferentes. (nhm.ac.uk)
As asas de uma mariposa e as asas de uma ave têm origens anatómicas muito diferentes.
O mesmo acontece com as estruturas utilizadas para chegar ao néctar. O colibri utiliza o bico e a língua; a esfinge utiliza uma probóscide.
A função, contudo, pode ser surpreendentemente semelhante.
Este tipo de alimentação permite explorar flores sem depender necessariamente de uma superfície adequada onde pousar.
Flores tubulares e esfinges: uma relação moldada pela evolução
A longa probóscide torna-se ainda mais interessante quando observamos as flores visitadas pelas esfinges.
Algumas plantas escondem o néctar no fundo de estruturas tubulares muito profundas.
Para um inseto de peças bucais curtas, essa recompensa permanece inacessível. Para uma esfinge com uma probóscide suficientemente comprida, representa uma fonte de alimento disponível.
Enquanto procura o néctar, o corpo do inseto pode entrar em contacto com as estruturas reprodutoras da flor.
O pólen adere ao animal e pode ser transportado para outra flor da mesma espécie.
É assim que uma visita motivada pela procura de alimento pode transformar-se num serviço de polinização.
Coevolução entre flores e polinizadores
Ao longo das gerações, plantas e polinizadores podem exercer pressões seletivas uns sobre os outros.
Este processo é conhecido como coevolução.
O Natural History Museum explica que as flores evoluíram características de forma, cor e aroma capazes de favorecer determinados polinizadores, enquanto os próprios polinizadores desenvolveram adaptações que lhes permitem explorar os recursos das flores. (nhm.ac.uk)
Um exemplo clássico vem de fora de Portugal.
A famosa orquídea de Darwin, Angraecum sesquipedale, de Madagáscar, possui um esporão extraordinariamente comprido, com o néctar localizado profundamente no seu interior.
Darwin, ao observar esta estrutura floral, previu que deveria existir um animal com uma probóscide suficientemente comprida para alcançar o néctar. Uma esfinge capaz de realizar essa função seria posteriormente conhecida pela ciência.
O exemplo continua a ser utilizado para explicar como características de flores e polinizadores podem ficar estreitamente relacionadas ao longo da evolução. (nhm.ac.uk)
Não significa que todas as flores tubulares dependam exclusivamente de uma espécie de esfinge ou que todas as probóscides compridas tenham evoluído através de uma relação exclusiva com uma única planta.
Na natureza, as redes de polinização podem envolver múltiplas espécies.
Madressilvas e outras flores adaptadas à noite
O anoitecer modifica completamente a forma como uma planta pode anunciar a sua presença.
Durante o dia, cores intensas podem funcionar como importantes sinais visuais para insetos. À noite, essa estratégia torna-se menos eficaz.
Muitas flores associadas à polinização por mariposas apresentam por isso características diferentes.
Cores brancas ou pálidas destacam-se melhor em condições de pouca luz. Perfumes fortes podem funcionar como sinais químicos que ajudam os insetos a localizar as flores.
A Butterfly Conservation refere que flores adaptadas à visita de mariposas são frequentemente brancas, lilases ou rosa-pálido e podem libertar aromas mais intensos depois de escurecer. (butterfly-conservation.org)
A madressilva
As madressilvas são um excelente exemplo da associação entre flores tubulares, perfume e visitantes noturnos.
As flores apresentam uma estrutura alongada que permite às mariposas de probóscide comprida explorar o néctar.
A Butterfly Conservation inclui a madressilva entre as plantas particularmente