Quando pensamos numa abelha, a imagem mais imediata costuma ser a da abelha-doméstica, Apis mellifera: colmeias organizadas, uma rainha, milhares de operárias, produção de mel e apicultores a cuidar das colónias.
Mas esta é apenas uma das muitas formas de ser abelha.
Em Portugal existe uma fauna diversificada de abelhas silvestres. Muitas espécies não vivem em grandes colónias, não possuem uma casta de operárias e não produzem reservas de mel comparáveis às de uma colmeia. Em vez disso, cada fêmea constrói e abastece o seu próprio ninho.
São as chamadas abelhas solitárias.
Estudos realizados em ambientes portugueses mostram como esta diversidade pode estar presente mesmo dentro das cidades. Uma investigação na Tapada da Ajuda, em Lisboa, identificou 66 espécies de abelhas, sendo a maioria das espécies amostradas solitárias. Outro estudo em hortas urbanas do centro de Lisboa identificou 58 espécies, novamente com predominância de espécies solitárias entre as registadas. Estes números pertencem a locais e amostragens específicos e não devem ser interpretados como uma contagem total das espécies existentes em Portugal.
Conhecer estas abelhas muda também a forma como pensamos a conservação dos polinizadores. Instalar uma colmeia e criar habitat para abelhas silvestres são ações muito diferentes.
Índice
- O que significa ser uma abelha solitária
- Colónia versus ninho individual
- Como funciona o ciclo de uma abelha solitária
- Abelhas solitárias e eficiência de polinização
- Abelhas solitárias que podemos encontrar em Portugal
- Abelhas-pedreiras e outras espécies que utilizam cavidades
- Abelhas que nidificam no solo
- Como apoiar abelhas solitárias no jardim
- Hotéis de insetos: quando são realmente úteis
- Plantas e alimento ao longo do ano
- Perguntas frequentes
- Conclusão
Colónia versus ninho individual: a diferença fundamental
A diferença mais importante entre uma abelha solitária e a abelha-doméstica não é necessariamente o tamanho, a cor ou a quantidade de pelos.
É a organização social.
Como vive a abelha-doméstica
A Apis mellifera é uma espécie altamente social.
Uma colónia possui uma rainha reprodutora e numerosas operárias que desempenham diferentes funções. As operárias recolhem alimento, alimentam as larvas, defendem a colónia, regulam as condições dentro do ninho e constroem e mantêm os favos.
A sobrevivência depende da colónia como unidade.
A produção e armazenamento de mel também estão ligados a esta estratégia. A colónia precisa de reservas energéticas que lhe permitam atravessar períodos em que as flores são escassas.
Como vive uma abelha solitária
A estratégia é muito diferente.
De forma geral, uma fêmea de uma espécie solitária constrói o próprio ninho e prepara sozinha as células onde se desenvolverá a descendência.
Não existe uma grande população de operárias a trabalhar para uma rainha.
A fêmea procura um local apropriado, constrói ou ocupa uma cavidade, recolhe pólen e néctar e coloca provisões dentro das células. Depois deposita os ovos.
Dependendo da espécie, as células podem ser separadas utilizando lama, fragmentos vegetais ou outros materiais.
Isto não significa que todas as abelhas classificadas como solitárias vivam necessariamente muito afastadas umas das outras.
Algumas podem formar agregações, com numerosos ninhos individuais concentrados numa área favorável. Cada fêmea continua, porém, responsável pelo seu próprio ninho.

Como funciona o ninho de uma abelha solitária
Existe uma diversidade extraordinária de estratégias.
Algumas espécies escavam galerias no solo.
Outras utilizam caules ocos, cavidades existentes na madeira, buracos em estruturas ou outras pequenas cavidades.
As abelhas-cortadeiras do género Megachile, por exemplo, são conhecidas por recortarem pequenos fragmentos de folhas ou pétalas que utilizam na construção das células.
Espécies do género Osmia, frequentemente designadas abelhas-pedreiras, podem utilizar cavidades existentes e construir divisórias entre as células.
Um estudo realizado em pomares de Pêra Rocha na região Oeste registou Osmia bicornis e Osmia caerulescens a utilizar ninhos artificiais. No estudo, O. bicornis utilizou lama para separar células, enquanto O. caerulescens utilizou material vegetal.
Dentro de cada célula fica alimento para a futura larva.
Quando o ovo eclode, a larva não necessita de uma comunidade de operárias para lhe trazer constantemente alimento: encontra as provisões que a mãe deixou.
Esta diferença estrutural explica grande parte da biologia das abelhas solitárias.
Abelhas solitárias e eficiência de polinização
A comparação entre abelhas solitárias e abelhas-domésticas exige algum cuidado.
Não é cientificamente correto afirmar simplesmente que “uma é sempre melhor polinizadora do que a outra”.
A eficiência depende da espécie de abelha, da planta, da estrutura da flor, das condições meteorológicas, do comportamento de visita e de muitos outros fatores.
A abelha-doméstica é uma polinizadora extremamente importante em numerosos contextos agrícolas. Vive em colónias grandes, recruta outras operárias para fontes de alimento e pode visitar enormes quantidades de flores.
Mas as abelhas silvestres oferecem uma diversidade de comportamentos e morfologias que complementa a atividade da Apis mellifera.
Diferentes flores, diferentes polinizadores
Nem todas as flores funcionam da mesma maneira.
Uma abelha pequena pode aceder a estruturas florais que uma espécie maior utiliza de outra forma. Algumas abelhas recolhem pólen em regiões específicas do corpo; outras possuem comportamentos de forrageamento diferentes.
Até a forma como o corpo da abelha toca nos estames e no estigma pode alterar a transferência de pólen.
Por isso, falar em “polinização por abelhas” como se todas as espécies fossem funcionalmente equivalentes simplifica demasiado o processo.
A diversidade de polinizadores importa precisamente porque plantas diferentes podem beneficiar de visitantes diferentes.
A abelha-doméstica não substitui toda a diversidade silvestre
Colocar uma colmeia num jardim não equivale a conservar as abelhas nativas.
Uma colmeia apoia Apis mellifera. Para apoiar abelhas silvestres é necessário conservar alimento e, sobretudo, os diferentes tipos de habitat utilizados para nidificação.
Isto inclui solo exposto em alguns locais, caules ocos, madeira morta apropriada, pequenas cavidades e uma diversidade de plantas com flor.
A conservação deve, portanto, considerar tanto alimento como locais de reprodução.
Espécies solitárias comuns em jardins portugueses
Identificar uma pequena abelha até à espécie através de uma fotografia pode ser difícil. Em muitos grupos, a identificação rigorosa exige observar características morfológicas específicas.
Por isso, no jardim, é frequentemente mais útil começar por reconhecer grupos e comportamentos.
Estudos portugueses ajudam-nos a perceber quais podem ocorrer em ambientes agrícolas e urbanos.
Abelhas-pedreiras — Osmia
As espécies de Osmia estão entre as abelhas solitárias mais associadas a cavidades.
Algumas aceitam estruturas artificiais, razão pela qual podem surgir em hotéis de abelhas bem construídos.
Nos pomares de Pêra Rocha estudados no Oeste português, foram registadas Osmia bicornis e Osmia caerulescens em ninhos artificiais construídos com canas.
O facto de aceitarem cavidades artificiais não significa, contudo, que um hotel seja suficiente para assegurar a sua presença. As abelhas também precisam de recursos florais adequados nas proximidades e de materiais necessários à construção das células.
Abelhas-cortadeiras — Megachile
As Megachile são outro grupo facilmente reconhecível pelo comportamento.
As fêmeas de várias espécies cortam pedaços aproximadamente circulares ou ovais das folhas e transportam-nos para o ninho, onde os utilizam na construção das células.
Encontrar recortes muito regulares nas margens de algumas folhas pode, portanto, indicar atividade destas abelhas.
Não é normalmente necessário tratar a planta. A retirada de pequenas porções de folha faz parte do comportamento natural destas polinizadoras.
Estudos em hortas urbanas de Lisboa encontraram uma diversidade particularmente elevada dentro da família Megachilidae, à qual pertencem estas abelhas.
Andrena: especialistas em escavar
Nem todas as abelhas solitárias procuram buracos na madeira.
Muitas constroem os ninhos no solo.
O género Andrena inclui numerosas abelhas escavadoras. Pequenas entradas rodeadas por terra removida podem revelar os locais de nidificação.
No estudo realizado em pomares de Pêra Rocha foram identificadas várias espécies deste género, incluindo Andrena agilissima e Andrena thoracica.
Anthophora e outros grupos
O mesmo estudo registou também espécies de Anthophora, Eucera, Halictus, Hoplitis, Lasioglossum e Tetraloniella associadas a locais de nidificação no solo.
Esta lista ilustra um ponto essencial: “abelha solitária” não descreve um único tipo de animal.
Existe uma grande variedade de tamanhos, formas, épocas de atividade e estratégias de nidificação.
Como apoiar abelhas solitárias no jardim
A primeira reação de muitas pessoas é comprar um hotel de insetos.
Pode ser útil, mas não deve ser a primeira nem a única medida.
Um jardim favorável às abelhas precisa de duas coisas fundamentais: alimento e locais adequados para completar o ciclo de vida.
Cultivar diversidade floral
Quanto maior for a continuidade de flores disponíveis durante os períodos de atividade das diferentes espécies, maior será a possibilidade de encontrar alimento.
Um estudo realizado na Tapada da Ajuda concluiu que a riqueza florística foi o fator que mais aparentou influenciar o número de espécies de abelhas encontrado entre os locais amostrados. Os autores sugeriram, entre outras medidas, aumentar a diversidade floral e de plantas nativas.
No jardim português, faz sentido privilegiar uma mistura de plantas adaptadas às condições locais e garantir sucessão de florações em vez de concentrar todas as flores numa única época.
Plantas aromáticas mediterrânicas e outras espécies adequadas à região podem integrar essa estratégia, desde que se evitem generalizações: diferentes abelhas utilizam diferentes recursos florais.
Manter alguns locais de solo descoberto
Esta medida é frequentemente esquecida.
Um jardim totalmente coberto por relva densa, plástico, pavimento, casca ou gravilha pode eliminar oportunidades de nidificação para espécies que escavam no solo.
A investigação realizada no Oeste português encontrou diversas espécies que utilizavam este tipo de ninho e indicou a cobertura vegetal e a textura do solo entre os fatores relevantes na seleção dos locais.
Uma pequena área ensolarada de solo pouco perturbado pode, por isso, ser mais útil para determinadas espécies do que um grande hotel de insetos.
Hotéis de insetos: úteis, mas não universais
Um hotel para abelhas solitárias imita sobretudo cavidades utilizadas por determinadas espécies.
Não ajuda diretamente as muitas espécies que escavam os próprios ninhos no solo.
Um modelo simples pode utilizar blocos de madeira não tratada com orifícios lisos ou tubos apropriados. A RHS recomenda cavidades com diferentes diâmetros, bordos sem farpas e profundidade suficiente, protegidas da chuva.
A manutenção também importa.
Estruturas húmidas, degradadas ou permanentemente preenchidas não devem ser tratadas como elementos decorativos que permanecem indefinidamente sem inspeção.
E existe outra regra fundamental: nunca recolher ninhos ocupados ou abrir células apenas para observar o interior.
Deixar caules e madeira apropriada
Nem todo o habitat precisa de ser construído.
Caules ocos ou com medula, madeira morta apropriada e pequenas cavidades naturais podem fornecer oportunidades de nidificação.
Uma gestão excessivamente “limpa” do jardim pode retirar precisamente estas estruturas.
Deixar parte dos caules secos durante algum tempo e manter pequenos espaços menos intervencionados ajuda a criar diversidade estrutural.
Reduzir o uso de pesticidas
Um jardim destinado a favorecer polinizadores deve reduzir ao mínimo intervenções químicas que possam afetá-los.
Quando surge um problema numa planta, o primeiro passo deve ser identificar corretamente a causa e avaliar se uma intervenção é realmente necessária.
A RHS recomenda privilegiar métodos não químicos e controlo biológico sempre que possível para reduzir riscos para polinizadores.
Abelhas solitárias são perigosas?
A presença de dezenas de pequenas entradas no solo pode parecer alarmante para quem associa automaticamente abelhas a uma colmeia defensiva.
Mas uma agregação de ninhos individuais não funciona como uma colónia de abelhas-domésticas.
As fêmeas solitárias estão concentradas sobretudo na construção e abastecimento dos próprios ninhos e não dispõem de uma grande comunidade de operárias encarregada de defender uma colónia.
Isso não significa que se deva agarrar ou perturbar qualquer abelha. Significa apenas que a presença de abelhas solitárias num jardim deve ser compreendida dentro da sua biologia real, e não tratada automaticamente como se existisse ali uma colmeia.
Perguntas frequentes
O que é uma abelha solitária?
É uma abelha cuja fêmea, de forma geral, constrói e abastece o próprio ninho sem uma casta de operárias comparável à existente numa colónia de abelhas-domésticas.
As abelhas solitárias produzem mel?
Não produzem reservas de mel comparáveis às de uma colmeia de Apis mellifera. As fêmeas fornecem alimento às células para permitir o desenvolvimento das larvas.
Todas vivem sozinhas e afastadas umas das outras?
Não. Algumas espécies podem nidificar em agregações, com muitos ninhos individuais próximos. “Solitária” refere-se sobretudo à organização do ninho e aos cuidados com a descendência.
As abelhas-pedreiras existem em Portugal?
Sim. Um estudo realizado em pomares de Pêra Rocha no Oeste português registou Osmia bicornis e Osmia caerulescens em ninhos artificiais.
Todas as abelhas solitárias usam hotéis de insetos?
Não. Muitas nidificam no solo e outras utilizam diferentes estruturas naturais. Um hotel beneficia sobretudo espécies que aceitam cavidades adequadas.
Um hotel de insetos é suficiente para ajudar as abelhas?
Não. É necessário disponibilizar alimento, habitat e locais de nidificação adequados. Diversidade floral e diferentes micro-habitats são tão importantes como uma estrutura artificial.
Posso deixar zonas de terra sem vegetação?
Sim. Pequenas áreas de solo exposto e pouco perturbado podem proporcionar locais de nidificação para abelhas que escavam galerias.
Ter uma colmeia ajuda todas as abelhas nativas?
Não. Uma colmeia aloja Apis mellifera. Conservar abelhas silvestres exige proteger os recursos florais e os locais de nidificação utilizados pelas diferentes espécies.
Conclusão
A abelha-doméstica é apenas uma parte da história dos polinizadores.
Enquanto Apis mellifera vive numa sociedade complexa de rainha e operárias, numerosas abelhas silvestres seguem outra estratégia: cada fêmea procura o seu local, constrói ou ocupa um pequeno ninho, recolhe alimento e prepara individualmente as células onde crescerá a geração seguinte.
Algumas escavam o solo. Outras procuram cavidades. Abelhas-pedreiras podem utilizar lama para construir divisórias. Abelhas-cortadeiras transportam pedaços de folhas. E diferentes espécies visitam flores de maneiras distintas.
Esta diversidade também explica por que razão proteger polinizadores não significa simplesmente aumentar o número de colmeias.
Num jardim, algumas das medidas mais importantes são surpreendentemente discretas: conservar uma pequena área de solo descoberto, permitir a existência de caules e cavidades apropriadas, cultivar uma sucessão diversificada de flores e evitar intervenções químicas desnecessárias.
Um hotel de insetos pode completar esse habitat, mas não o substitui.
Quando começamos a observar estas pequenas abelhas como espécies diferentes, com ciclos e necessidades próprias, o jardim deixa de ser apenas um conjunto de plantas. Torna-se também habitat para uma comunidade de polinizadores que frequentemente estava presente sem que reparássemos nela.