Durante grande parte do século XX, o lagostim-de-patas-brancas (Austropotamobius pallipes) fazia parte da fauna de água doce portuguesa. A documentação do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas indica que, até à década de 1980, a maioria das populações conhecidas em Portugal se concentrava no Nordeste, particularmente em Trás-os-Montes.
Depois, a situação alterou-se profundamente.
A degradação dos habitats aquáticos contribuiu para a pressão sobre a espécie, mas um dos acontecimentos mais importantes foi a expansão de lagostins exóticos de origem norte-americana. Entre eles destaca-se o lagostim-vermelho-da-louisiana (Procambarus clarkii), atualmente uma das espécies invasoras mais disseminadas nos sistemas de água doce de Portugal continental.
O problema não se resume à competição entre duas espécies de lagostim.
Os lagostins norte-americanos podem transportar Aphanomyces astaci, o agente da afanomicose, também conhecida como peste do lagostim. Este organismo pode provocar doença grave nos lagostins europeus suscetíveis e desempenhou um papel central no declínio de várias populações nativas na Europa.
A história portuguesa do lagostim-de-patas-brancas tornou-se, assim, um exemplo de como introduções biológicas, doenças emergentes, alterações de habitat e atividades humanas podem interagir e transformar rapidamente um ecossistema de água doce.
Índice
- O lagostim-de-patas-brancas em Portugal
- A chegada do lagostim-vermelho-da-louisiana
- Porque a espécie invasora conseguiu expandir-se
- Afanomicose: a doença que alterou as populações europeias
- Como ocorre a transmissão
- Porque os lagostins norte-americanos podem funcionar como reservatórios
- Outros impactos ecológicos do lagostim-vermelho
- Uma espécie invasora que passou a integrar a cadeia alimentar
- O que sabemos sobre a situação do lagostim-de-patas-brancas em Portugal
- Prioridades de conservação e biossegurança
- Controlar não é o mesmo que erradicar
- Perguntas frequentes
- Conclusão
O lagostim-de-patas-brancas em Portugal
O lagostim-de-patas-brancas é um crustáceo de água doce europeu associado sobretudo a rios, ribeiros e outros habitats aquáticos adequados à sua biologia.
Historicamente, Portugal encontrava-se numa das extremidades da sua distribuição europeia.
Segundo a ficha de caracterização disponibilizada pelo ICNF, até à década de 1980 a maioria das populações portuguesas conhecidas encontrava-se no Nordeste, em Trás-os-Montes. A espécie era particularmente conhecida na bacia do Sabor e chegou a ser tradicionalmente pescada em alguns locais.
A mesma documentação, contudo, descrevia posteriormente uma situação radicalmente diferente.
A espécie tinha sofrido uma regressão muito acentuada e era considerada extinta ou próxima da extinção em Portugal. A ficha mencionava apenas a possibilidade de persistirem pequenas bolsas na bacia do Douro, próximas da fronteira espanhola.
É importante sublinhar que esta documentação não constitui prova de populações atualmente existentes. Sem monitorização recente que confirme a presença da espécie, não é rigoroso afirmar que essas populações continuam hoje presentes.
A chegada do lagostim-vermelho-da-louisiana
O lagostim-vermelho-da-louisiana é originário da América do Norte.
A sua chegada à Península Ibérica esteve associada à atividade humana.
De acordo com o Plano de Ação Nacional para o controlo da espécie, aprovado pelo Governo português, Procambarus clarkii foi introduzido localmente em Espanha com objetivos de produção comercial e dispersou-se posteriormente pela Península Ibérica.
O primeiro registo português
Em Portugal, o primeiro registo documentado ocorreu em 1979, no rio Caia.
Depois disso, a expansão foi rápida.
A documentação oficial portuguesa atribui essa dispersão tanto à capacidade natural de movimentação da espécie como ao transporte realizado por pessoas. Atualmente, o lagostim-vermelho encontra-se propagado em grande escala no território continental.
Esta cronologia é importante porque evita uma simplificação frequente: a espécie não deve ser descrita simplesmente como tendo sido introduzida intencionalmente em Portugal para aquicultura.
A introdução comercial documentada ocorreu em Espanha. Em Portugal, o primeiro registo conhecido surge posteriormente, no rio Caia.
Porque o lagostim-vermelho conseguiu expandir-se
O sucesso de uma espécie invasora raramente resulta de uma única característica.
O lagostim-vermelho apresenta uma combinação de características ecológicas que facilita a ocupação de diferentes habitats e a expansão através das bacias hidrográficas.
A própria documentação oficial portuguesa destaca a capacidade de mobilidade e dispersão da espécie. A atividade humana acelerou ainda mais este processo através da deslocação de animais entre locais.
Quando uma espécie exótica se estabelece numa nova bacia, pode também interagir com as espécies locais através da competição por alimento e abrigo, predação e transmissão de agentes patogénicos.
No caso dos lagostins europeus, esta última componente revelou-se particularmente grave.
Afanomicose: a doença que alterou as populações europeias
A afanomicose, frequentemente designada peste do lagostim, é uma doença provocada por Aphanomyces astaci.
Apesar de ser por vezes descrito informalmente como um “fungo”, o agente pertence aos oomicetas. A Organização Mundial de Saúde Animal descreve A. astaci como o agente patogénico responsável pela doença.
O problema está intimamente associado à introdução de lagostins norte-americanos na Europa.
Espécies norte-americanas e A. astaci possuem uma longa história evolutiva conjunta. Como resultado, esses lagostins conseguem frequentemente albergar infeções sem sofrer as consequências devastadoras observadas em espécies europeias suscetíveis.
Isso permite que funcionem como portadores ou reservatórios.
O lagostim-vermelho-da-louisiana encontra-se entre as espécies invasoras norte-americanas confirmadas como hospedeiras de A. astaci.
Como ocorre a transmissão da afanomicose
O mecanismo torna-se especialmente preocupante porque o agente não precisa de passar diretamente de um lagostim para outro através de contacto físico.
Um animal infetado pode libertar zoósporos para a água.
Estes estádios móveis conseguem deslocar-se na coluna de água e aderir a lagostins suscetíveis. A Organização Mundial de Saúde Animal descreve precisamente a libertação de zoósporos por animais infetados e a sua fixação em novos hospedeiros como um mecanismo fundamental de transmissão.
A água pode transportar o agente
Isto significa que uma população nativa não precisa necessariamente de entrar em confronto direto com um lagostim invasor para ficar exposta.
A água pode funcionar como meio de transmissão.
O movimento de lagostins infetados entre massas de água aumenta obviamente o risco, mas existe outro fator importante: equipamentos molhados.
Redes, armadilhas, botas e outros materiais utilizados numa massa de água e transferidos para outra sem limpeza e secagem adequadas podem contribuir para transportar o agente. A literatura científica e as orientações sanitárias internacionais reconhecem este mecanismo de disseminação.
É por isso que a biossegurança é tão importante na conservação dos lagostins nativos.
Porque os lagostins norte-americanos podem sobreviver
Ser portador não significa ser completamente imune.
A relação entre A. astaci e os diferentes lagostins norte-americanos é mais complexa do que uma divisão simples entre “imunes” e “suscetíveis”.
A literatura científica mostra, contudo, que espécies norte-americanas funcionam frequentemente como portadoras latentes, enquanto os lagostins europeus são, de forma geral, muito mais vulneráveis à doença.
Para uma população nativa, isto cria uma enorme desvantagem.
A espécie invasora pode estabelecer-se, reproduzir-se e manter o agente patogénico no ambiente. Quando lagostins europeus suscetíveis são expostos, podem ocorrer episódios de mortalidade muito graves.
A expansão de uma invasora pode assim representar simultaneamente competição ecológica e introdução de doença.
Outros impactos ecológicos do lagostim-vermelho
A afanomicose não é o único problema.
Procambarus clarkii é uma espécie omnívora capaz de consumir uma grande variedade de recursos.
A sua presença em densidades elevadas pode afetar vegetação aquática, invertebrados e outros componentes dos ecossistemas de água doce.
Existe também competição por recursos e abrigo com outros organismos.
Além disso, a atividade de escavação característica destes lagostins pode modificar fisicamente determinadas margens e habitats.
Por isso, Portugal classifica Procambarus clarkii como espécie exótica invasora, e a espécie encontra-se igualmente incluída na lista de espécies exóticas invasoras que suscitam preocupação na União Europeia.
Impactos que se propagam pelo ecossistema
Quando uma espécie abundante altera simultaneamente vegetação, disponibilidade de presas e estrutura física do habitat, os efeitos podem estender-se para além dos organismos diretamente consumidos.
As redes alimentares aquáticas estão interligadas.
Alterar um componente pode produzir consequências indiretas noutros níveis do ecossistema.
É por esta razão que a gestão de uma espécie invasora não deve ser avaliada apenas pelo número de indivíduos capturados.
O objetivo final é reduzir impactos ecológicos.
Uma espécie invasora que também se tornou presa
Existe, contudo, uma nuance ecológica importante.
Depois de décadas de presença, o lagostim-vermelho também passou a ser consumido por fauna autóctone.
O próprio Plano de Ação Nacional português reconhece esta realidade.
O documento procura reduzir os impactos da espécie e controlar as suas populações, mas menciona igualmente a necessidade de considerar o seu papel enquanto presa na dieta de fauna nativa.
Isto não transforma o lagostim-vermelho numa espécie nativa nem elimina os seus impactos.
Mostra apenas que ecossistemas invadidos mudam com o tempo.
Uma espécie introduzida pode causar efeitos negativos importantes e, simultaneamente, acabar incorporada nas relações alimentares estabelecidas depois da invasão.
A gestão precisa de considerar ambas as realidades.
O que sabemos atualmente sobre o lagostim-de-patas-brancas em Portugal
Este é um ponto em que é particularmente importante evitar afirmações excessivas.
A documentação histórica disponibilizada pelo ICNF descreve um declínio dramático em Portugal e refere a espécie como extinta ou próxima da extinção, mencionando a possibilidade de pequenas bolsas residuais na bacia do Douro.
Essa fonte é valiosa para reconstruir o declínio, mas não deve ser utilizada isoladamente para afirmar que existem atualmente populações portuguesas confirmadas.
Por isso, a formulação mais rigorosa é distinguir três coisas:
o lagostim-de-patas-brancas teve presença histórica documentada em Portugal;
sofreu uma regressão extremamente grave;
a confirmação de populações atuais exige dados recentes de monitorização.
Esta distinção é especialmente importante quando se comunica conservação de espécies raras.
Prioridades de conservação
Para espécies de lagostins nativos vulneráveis à afanomicose, prevenir a chegada do agente a populações ainda saudáveis é fundamental.
Biossegurança
Equipamento utilizado em rios, ribeiros ou lagos não deve ser transferido descuidadamente entre massas de água.
Redes, botas, armadilhas e outros materiais húmidos podem contribuir para a disseminação de A. astaci.
Limpeza, desinfeção adequada quando aplicável e secagem completa do equipamento são, portanto, componentes importantes da prevenção.
Nunca transportar lagostins entre rios
Mover um lagostim invasor para uma nova massa de água pode criar uma nova população e transportar agentes patogénicos.
Mesmo uma deslocação aparentemente pequena pode atravessar barreiras hidrográficas que o animal não conseguiria ultrapassar sozinho.
A expansão documentada de Procambarus clarkii em Portugal envolveu tanto dispersão natural como transporte humano.
Proteger o habitat
Conservar uma espécie não significa apenas protegê-la diretamente.
Qualidade da água, estrutura das margens, disponibilidade de refúgios e integridade dos cursos de água também determinam se uma população consegue sobreviver.
Num cenário de múltiplas pressões, recuperar habitats adequados pode aumentar a resiliência das espécies nativas.
Controlar não é o mesmo que erradicar
Quando uma espécie invasora ocupa uma área pequena e é detetada cedo, a erradicação pode por vezes ser considerada.
O cenário do lagostim-vermelho em Portugal continental é muito diferente.
O Plano de Ação Nacional aprovado em 2021 reconhece explicitamente que a espécie está propagada em grande escala e que a sua erradicação no território continental não é considerada possível.
A estratégia passa, portanto, pelo controlo e contenção.
Entre os objetivos encontram-se reduzir a abundância em áreas ecologicamente sensíveis, minimizar prejuízos e utilizar captura como instrumento de gestão.
Esta diferença é fundamental.
“Controlar” significa procurar diminuir populações ou impactos até níveis definidos de gestão.
“Erradicar” significa eliminar completamente a espécie de determinada área.
Quando uma invasora já se encontra amplamente distribuída através de numerosas bacias hidrográficas, estas duas metas podem ter graus de viabilidade completamente diferentes.

Perguntas frequentes
O lagostim-de-patas-brancas é nativo de Portugal?
A espécie teve presença histórica documentada em Portugal, sobretudo no Nordeste. A documentação do ICNF descreve, contudo, um declínio extremo e considera-a extinta ou próxima da extinção no território português.
Quando apareceu o lagostim-vermelho-da-louisiana em Portugal?
O primeiro registo documentado em Portugal ocorreu em 1979, no rio Caia.
Foi introduzido diretamente em Portugal para produção comercial?
A documentação oficial portuguesa refere uma introdução local em Espanha para produção comercial, seguida de rápida dispersão pela Península Ibérica. Posteriormente, a expansão em Portugal ocorreu através de dispersão natural e transporte humano.
O que é a afanomicose?
É uma doença dos lagostins causada pelo oomiceta Aphanomyces astaci, também conhecida como peste do lagostim. Espécies europeias, incluindo Austropotamobius pallipes, são altamente suscetíveis.
Como passa de um animal para outro?
Animais infetados podem libertar zoósporos na água. Estes conseguem deslocar-se e aderir a novos lagostins. Água e equipamento húmido contaminado também podem contribuir para transportar o agente entre locais.
O lagostim-vermelho transmite sempre a doença?
Procambarus clarkii é um hospedeiro confirmado de A. astaci, mas isso não significa que todos os indivíduos estejam necessariamente infetados. A presença da espécie representa um risco epidemiológico, não uma garantia de infeção em cada animal.
É possível eliminar o lagostim-vermelho de Portugal?
O plano nacional considera que, devido à sua ampla distribuição em Portugal continental, a erradicação já não é possível à escala territorial. A estratégia oficial centra-se no controlo e contenção.
Podemos transportar lagostins de um rio para outro?
Não se deve deslocar lagostins entre massas de água. Além do risco de introduzir uma espécie invasora numa nova área, o transporte pode contribuir para disseminar agentes patogénicos.
Conclusão
A história do lagostim-de-patas-brancas em Portugal demonstra como uma invasão biológica pode ser muito mais complexa do que a simples chegada de uma nova espécie.
O lagostim-vermelho-da-louisiana chegou à Península Ibérica através da atividade humana, foi registado em Portugal em 1979 e expandiu-se por grande parte do território continental.
Com ele surgiu também um problema que os nossos olhos não conseguem observar diretamente: o risco associado a Aphanomyces astaci.
Para lagostins europeus suscetíveis, a exposição ao agente da afanomicose pode ter consequências devastadoras. Os lagostins norte-americanos, pelo contrário, conseguem frequentemente funcionar como portadores, permitindo que o agente persista e se disperse.
Décadas depois da invasão, o problema tornou-se ainda mais complexo. O lagostim-vermelho está amplamente estabelecido e passou também a fazer parte da dieta de animais nativos. A estratégia portuguesa já não é uma tentativa de erradicação nacional, mas de controlo dos impactos e proteção das áreas mais sensíveis.
Para o lagostim-de-patas-brancas, a situação portuguesa permanece particularmente delicada. A documentação oficial histórica disponível descreve um declínio extremo, e qualquer afirmação sobre populações sobreviventes atualmente deve apoiar-se em monitorização recente.
A principal lição é preventiva.
Não transportar animais entre rios, impedir novas introduções, aplicar medidas de biossegurança ao equipamento utilizado em água doce, controlar invasoras onde isso seja ecologicamente útil e conservar habitats adequados são medidas muito mais eficazes do .