À primeira vista, uma duna costeira pode parecer simplesmente um monte de areia acumulado pelo vento. Na realidade, é um ecossistema dinâmico, onde areia, vento, sal, plantas e relevo estão constantemente a interagir.
Para uma planta, sobreviver aqui não é fácil.
O substrato retém pouca água, o vento pode ser intenso, partículas de areia atingem folhas e caules, a salinidade representa um desafio e a própria superfície onde a planta cresce pode deslocar-se. Uma tempestade pode retirar areia de uma zona e depositá-la noutra.
Apesar destas condições, várias plantas especializaram-se precisamente neste ambiente.
Nas dunas portuguesas encontramos espécies como o estorno (Ammophila arenaria), o cardo-marítimo (Eryngium maritimum) e o feno-das-areias (Elymus farctus). Não ocupam exatamente a mesma posição nem desempenham todas a mesma função, mas participam num processo fundamental: transformar areia móvel numa estrutura progressivamente mais estabilizada.
As raízes e os rizomas prendem o substrato. Os caules e folhas reduzem localmente a velocidade do vento e favorecem a deposição de areia. À medida que a vegetação se estabelece, o sistema dunar ganha estrutura.
É uma forma de proteção costeira construída, em parte, por plantas.
Índice
- Porque as dunas são ecossistemas frágeis
- Estorno: o grande construtor da duna primária
- Cardo-marítimo: sobreviver ao sal, vento e seca
- Feno-das-areias: colonizar a areia junto ao mar
- Como as raízes ajudam a estabilizar a areia
- A importância da parte aérea das plantas
- Pisoteio e destruição da vegetação
- Urbanização e transformação do litoral
- Alterações climáticas e erosão costeira
- Como Portugal protege e recupera sistemas dunares
- Perguntas frequentes
- Conclusão
Porque as dunas são ecossistemas frágeis
Uma duna não é uma estrutura rígida.
A areia desloca-se continuamente sob a ação do vento e das ondas. Durante condições favoráveis, sedimentos transportados pelo vento podem acumular-se na zona posterior da praia. Durante tempestades, parte dessa areia pode ser removida ou redistribuída.
Esta mobilidade é natural.
O problema surge quando a capacidade do sistema para se reorganizar é reduzida pela destruição da vegetação, ocupação do território ou interrupção dos processos naturais de transporte de sedimentos.
As plantas dunares são particularmente importantes porque vivem precisamente na interface entre areia móvel e duna estabilizada.
Na Reserva Natural das Dunas de São Jacinto, por exemplo, o ICNF identifica na duna primária espécies como estorno, cardo-marítimo, cordeiros-da-praia, couve-marítima, eruca-marítima e narciso-das-areias.
O acesso a essa zona é condicionado porque o pisoteio destrói a vegetação que ajuda a sustentar as areias e a proteger a costa.
Estorno: o grande construtor da duna primária
O estorno (Ammophila arenaria) é uma das plantas mais características das dunas costeiras portuguesas.
A Flora-On identifica-o como uma espécie própria de dunas e refere que é frequentemente dominante na duna primária, ocorrendo também nas cristas de dunas secundárias.
Esta localização diz muito sobre a sua ecologia.
A duna primária encontra-se exposta a areia móvel, vento, sal e condições de seca. Muitas plantas teriam dificuldade em sobreviver num substrato que pode literalmente começar a enterrá-las.
O estorno está adaptado a esta dinâmica.
Folhas preparadas para conservar água
As folhas são estreitas e podem enrolar-se, reduzindo a superfície diretamente exposta ao ar.
Esta característica ajuda a limitar a perda de água num ambiente onde o solo arenoso possui baixa capacidade de retenção.
O problema das dunas não é necessariamente ausência de chuva durante todo o ano. É a dificuldade em conservar água disponível junto das raízes.
A areia drena rapidamente e o vento aumenta a evaporação.
Uma planta que suporta a acumulação de areia
Uma das características ecológicas mais importantes do estorno é a capacidade de continuar a crescer quando areia nova se deposita em redor da planta.
Enquanto outras espécies poderiam ficar sufocadas pelo enterramento, o estorno consegue responder ao aumento do substrato e continuar a produzir crescimento acima da nova superfície.
Isto cria um ciclo muito interessante.
A planta abranda o vento e captura areia. A areia acumula-se. O estorno continua a crescer através dessa acumulação. A vegetação volta a capturar mais areia.
Gradualmente, a duna ganha altura e volume.
Rizomas debaixo da areia
Grande parte do trabalho ocorre fora da nossa vista.
O estorno desenvolve um sistema subterrâneo que permite ocupar e consolidar volumes consideráveis de areia.
Os rizomas ligam diferentes rebentos e permitem à planta expandir-se através do substrato.
A rede subterrânea não transforma a duna numa massa rígida, mas aumenta a coesão da camada superficial e ajuda a manter a estrutura vegetal capaz de continuar a capturar sedimentos.
É por isso que destruir uma mancha de estorno não significa apenas perder algumas folhas.
Pode significar interromper um sistema subterrâneo que estava a contribuir para a construção da duna.

Cardo-marítimo: sobreviver ao sal, vento e seca
O cardo-marítimo (Eryngium maritimum) é uma das plantas mais reconhecíveis das praias e dunas portuguesas.
As folhas espessas, rígidas e frequentemente azuladas ou verde-acinzentadas conferem-lhe uma aparência muito diferente da vegetação típica de solos férteis.
Essa aparência está relacionada com as condições extremas do litoral.
O ICNF identifica o cardo-marítimo como uma espécie das areias marítimas presente ao longo de grande parte do litoral português.
Folhas resistentes à perda de água
As folhas coriáceas ajudam a enfrentar um ambiente onde a água disponível pode ser limitada.
A superfície foliar robusta reduz os danos associados ao vento, à abrasão da areia e à perda excessiva de água.
A tonalidade glauca também é característica de muitas plantas adaptadas a ambientes expostos.
O cardo-marítimo demonstra uma regra importante da ecologia dunar: as plantas não precisam apenas de tolerar sal.
Precisam de suportar simultaneamente vento, elevada exposição solar, areia móvel e escassez fisiológica de água.
Uma raiz preparada para procurar recursos
O sistema radicular permite à planta explorar camadas mais profundas do substrato arenoso.
Isto aumenta a capacidade de obter água em condições em que a superfície seca rapidamente.
Ao mesmo tempo, as raízes contribuem para manter areia em redor da planta.
O cardo-marítimo não deve ser visto como o principal “construtor” da duna da mesma forma que o estorno, mas faz parte da comunidade vegetal que aumenta a diversidade estrutural e biológica do sistema.
Mais do que uma barreira contra o mar
As dunas não existem apenas para proteger infraestruturas humanas.
São habitats.
O cardo-marítimo e outras plantas sustentam comunidades de insetos e outros organismos e fazem parte de um ecossistema especializado que existe precisamente porque as condições são tão particulares.
Conservar uma duna significa, portanto, conservar simultaneamente uma estrutura costeira e um habitat.
Feno-das-areias: colonizar a areia junto ao mar
O feno-das-areias (Elymus farctus) desempenha um papel particularmente interessante nas fases iniciais da formação dunar.
A Flora-On identifica a espécie em areias marítimas, praias, dunas e arribas e refere que pode constituir um dos elementos dominantes da duna embrionária.
A expressão “duna embrionária” é essencial para compreender a sua função.
Antes de existir uma grande duna coberta de estorno, pequenas acumulações de areia podem começar a formar-se junto da vegetação pioneira.
Uma planta na linha da frente
O feno-das-areias consegue instalar-se em zonas muito expostas e relativamente próximas da praia.
Quando o vento transporta areia seca, os caules e folhas criam obstáculos.
A velocidade do ar diminui imediatamente em redor desses obstáculos e parte dos grãos transportados deposita-se.
Uma pequena planta pode, assim, originar uma pequena acumulação.
Várias plantas próximas podem favorecer depósitos maiores.
Com tempo suficiente e fornecimento adequado de sedimentos, estas pequenas acumulações podem contribuir para o desenvolvimento das formas dunares seguintes.
Rizomas e expansão lateral
Tal como acontece com outras gramíneas dunares, a capacidade de expansão através do substrato é fundamental.
O crescimento subterrâneo permite que a planta ocupe progressivamente novas áreas de areia.
Isto ajuda a criar uma cobertura descontínua que captura sedimentos em diferentes pontos.
O feno-das-areias demonstra que uma duna não aparece simplesmente porque o vento empurrou areia para um determinado local.
A vegetação pode participar ativamente na sua formação.
Como as raízes estabilizam a areia
A expressão “as raízes seguram a duna” é correta, mas simplifica um processo mais interessante.
A areia seca é constituída por partículas relativamente soltas. Quando o vento ultrapassa determinada intensidade, os grãos podem começar a deslocar-se.
As raízes introduzem uma estrutura física dentro desse substrato.
Uma rede subterrânea
Raízes e rizomas atravessam diferentes camadas de areia e criam uma rede tridimensional.
Essa rede aumenta a resistência local à erosão e ajuda a manter agregadas zonas ocupadas pela vegetação.
Quanto mais a planta cresce e se ramifica, maior pode tornar-se essa estrutura subterrânea.
Contudo, a estabilização não ocorre apenas debaixo do solo.
A parte aérea também captura areia
Folhas e caules alteram o movimento do ar.
Quando o vento encontra vegetação, perde velocidade localmente e muda de direção.
Os grãos de areia transportados pelo ar têm então maior probabilidade de cair.
É por isso que podemos observar pequenas acumulações de areia em redor das plantas pioneiras.
O mecanismo cria uma relação de engenharia natural:
a vegetação captura areia;
a acumulação de areia cria relevo;
plantas adaptadas ao enterramento continuam a crescer;
mais vegetação captura mais areia.
É esta interação entre processos físicos e biológicos que permite a construção progressiva do cordão dunar.
Pisoteio: um impacto aparentemente pequeno
Uma pessoa atravessar uma duna pode parecer irrelevante.
Centenas ou milhares de passagens repetidas pelo mesmo percurso são diferentes.
O ICNF é explícito na Reserva Natural das Dunas de São Jacinto: o acesso à duna primária é condicionado porque o pisoteio mata a vegetação que sustém as areias.
Quando as plantas desaparecem, o vento volta a atuar diretamente sobre o substrato.
Um trilho estreito pode progressivamente alargar-se e transformar-se num corredor de erosão.
É precisamente por isso que os passadiços não são apenas estruturas de conveniência para chegar à praia.
São também instrumentos de conservação.
Concentrando a circulação num percurso elevado e definido, reduzem a pressão sobre a vegetação circundante.
Urbanização e transformação do litoral
Os sistemas dunares precisam de espaço para funcionar.
A construção junto ao litoral pode limitar esse espaço e fragmentar habitats.
Estradas, estacionamentos, edifícios e outras infraestruturas também aumentam a pressão humana sobre áreas anteriormente ocupadas pelo sistema praia-duna.
A APA inclui a proteção da integridade biofísica e dos valores ambientais entre os objetivos dos Programas da Orla Costeira.
Estes instrumentos definem áreas de proteção, medidas de conservação e propostas de intervenção, incluindo reforço do cordão dunar.
Outro problema é a presença de plantas exóticas invasoras.
Espécies introduzidas capazes de formar coberturas densas podem competir com a vegetação característica das dunas e modificar a estrutura natural das comunidades.
Alterações climáticas e erosão costeira
As dunas existem num ambiente naturalmente sujeito a erosão e reconstrução.
As alterações climáticas acrescentam novas pressões a este sistema.
A subida do nível médio do mar e o agravamento esperado de determinados fenómenos de erosão e galgamento costeiro tornam particularmente relevante conservar a capacidade natural de adaptação das praias e dunas.
A Agência Portuguesa do Ambiente considera medidas como alimentação artificial de praias e reforço dunar instrumentos de adaptação às consequências das alterações climáticas.
Mas uma duna saudável precisa de mais do que areia.
Precisa também da vegetação capaz de colonizar, capturar e estabilizar essa areia.
Iniciativas de proteção dunar em Portugal
A conservação das dunas portuguesas envolve várias estratégias complementares.
Passadiços e controlo de acessos
Uma das medidas mais visíveis é a instalação de passadiços.
Ao encaminhar os visitantes por percursos definidos, reduz-se o pisoteio sobre a vegetação sensível.
Em projetos de recuperação analisados pela APA, o ordenamento dos acessos, instalação de passadiços e colocação de informação para impedir a circulação sobre o cordão dunar fazem parte das medidas utilizadas.
Paliçadas e regeneradores dunares
Estruturas permeáveis feitas de madeira, canas ou outros materiais podem ser colocadas estrategicamente para diminuir a velocidade do vento e favorecer a deposição de areia.
Estas estruturas imitam, em parte, a função física desempenhada pela vegetação.
A areia acumulada pode depois ser colonizada por plantas adaptadas ao ambiente dunar.
Plantação de vegetação nativa
A recuperação pode incluir a plantação de espécies características dos sistemas dunares.
Documentos da APA sobre adaptação costeira incluem entre as boas práticas a plantação de vegetação nativa adaptada às condições das dunas, juntamente com remoção de plantas não nativas, instalação de cercas e utilização de passadiços.
Em intervenções deste tipo, utilizar espécies ecologicamente adequadas ao local é fundamental.
Não basta plantar qualquer espécie capaz de crescer em areia.
Programas da Orla Costeira
Portugal dispõe também de instrumentos de planeamento específicos.
Os Programas da Orla Costeira enquadram medidas de proteção, conservação e valorização do litoral, incluindo propostas relacionadas com defesa costeira, transporte de sedimentos e reforço dos cordões dunares.
Monitorizar antes e depois de intervir
A proteção costeira depende igualmente de informação.
O Programa COSMO da APA realiza monitorização sistemática da faixa costeira portuguesa, incluindo praias e dunas.
Os levantamentos permitem acompanhar alterações da linha de costa, volumes de areia e evolução das zonas dunares.
Assim, conservar uma duna não significa simplesmente plantar vegetação e abandonar o local.
É necessário perceber como o sistema continua a evoluir.
Perguntas frequentes
Quais são algumas plantas características das dunas portuguesas?
Entre elas encontram-se o estorno (Ammophila arenaria), cardo-marítimo (Eryngium maritimum) e feno-das-areias (Elymus farctus), além de várias outras espécies adaptadas às areias costeiras.
O estorno é importante para formar dunas?
Sim. O estorno é frequentemente dominante na duna primária e tolera a acumulação de areia, contribuindo para a captura e estabilização dos sedimentos.
O feno-das-areias cresce mais perto do mar?
Pode ocorrer nas dunas embrionárias e noutras zonas costeiras arenosas, participando nas fases iniciais de acumulação de areia.
Porque não devemos caminhar sobre as dunas?
O pisoteio pode danificar ou matar a vegetação. Sem essa cobertura, a areia fica mais exposta à erosão e podem formar-se corredores degradados.
Os passadiços de madeira servem apenas para facilitar o acesso à praia?
Não. Também direcionam a circulação humana e ajudam a impedir que milhares de passagens atravessem diretamente a vegetação dunar.
É possível recuperar uma duna degradada?
Em determinadas situações, sim. As técnicas podem incluir controlo de acessos, paliçadas, reforço de areia, remoção de plantas invasoras e recuperação da vegetação nativa.
Plantar qualquer erva na areia ajuda?
Não. A recuperação ecológica deve utilizar espécies adequadas ao sistema dunar e, sempre que possível, material vegetal compatível com as comunidades locais.
As dunas conseguem impedir completamente a erosão costeira?
Não. São sistemas naturais dinâmicos e não constituem uma barreira absoluta. Contudo, cordões dunares bem conservados armazenam areia, reduzem a exposição das áreas interiores e aumentam a capacidade natural da costa para responder a determinados eventos.
Conclusão
As dunas portuguesas mostram como organismos aparentemente modestos podem modificar uma paisagem inteira.
O feno-das-areias consegue instalar-se nas primeiras acumulações próximas da praia. O estorno prospera onde a areia continua a mover-se e participa na construção da duna primária. O cardo-marítimo acrescenta outra estratégia de sobrevivência, com folhas robustas e adaptações a um ambiente marcado por vento, sal e escassez de água.
Debaixo da superfície, raízes e rizomas atravessam a areia.
Acima dela, folhas e caules travam o vento.
Entre ambos acontece algo extraordinário: grãos transportados pelo ar começam a acumular-se em redor da vegetação e a paisagem ganha relevo.
Mas esta engenharia natural é vulnerável.
Pisoteio repetido, urbanização, espécies invasoras, erosão costeira e alterações climáticas podem reduzir a capacidade do sistema para se recuperar.
Por isso, proteger uma duna pode exigir ações aparentemente simples: caminhar pelo passadiço, impedir veículos de atravessar a vegetação, recuperar espécies nativas, instalar estruturas de retenção de areia e deixar espaço suficiente para o sistema praia-duna evoluir.
Uma duna saudável não é apenas areia acumulada entre a praia e as construções.
É um ecossistema vivo que armazena sedimentos, alberga biodiversidade e participa na capacidade natural da costa portuguesa para responder ao vento e ao mar.