À primeira vista, a chicória-selvagem parece apenas mais uma planta das bermas. Cresce em terrenos abertos, pousios, pastagens e margens de caminhos, lugares por onde passamos frequentemente sem reparar nas pequenas flores azuladas que surgem sobre os seus caules.
Mas quem observar a mesma planta em diferentes momentos do dia pode descobrir um comportamento curioso. As flores da chicória tendem a abrir durante a manhã e podem estar já fechadas por volta do meio do dia, sobretudo dependendo das condições ambientais. Esta relação entre as flores e o ciclo diário transforma uma espécie aparentemente vulgar num excelente exemplo de como as plantas respondem ao tempo, à luz e ao ambiente.
A chicória-selvagem flor horário é, por isso, uma boa porta de entrada para um fenómeno botânico muito mais amplo: os movimentos diários das plantas.
Índice
- O que é a chicória-selvagem?
- Porque é que algumas flores abrem e fecham todos os dias?
- Nictinastia: quando as plantas parecem seguir um relógio
- A chicória tem realmente uma hora certa para fechar?
- Onde encontrar chicória-selvagem em Portugal
- Quando procurar as flores
- Outras plantas com comportamentos horários semelhantes
- Usos tradicionais e culinários da chicória
- Como observar este fenómeno na natureza
- Perguntas frequentes
- Conclusão
O que é a chicória-selvagem?
A chicória-selvagem (Cichorium intybus) pertence à família Asteraceae, a mesma grande família botânica dos dentes-de-leão, margaridas e muitas outras plantas que produzem aquilo que, à primeira vista, parece ser uma única flor.
Em Portugal, pode ser conhecida simplesmente como chicória, almeirão ou chicória-do-café. O Flora-On, portal da Sociedade Portuguesa de Botânica, classifica Cichorium intybus como autóctone em Portugal continental e apresenta numerosos registos da espécie.
As flores — mais corretamente, capítulos florais formados por várias pequenas flores — apresentam normalmente tons azulados muito característicos.
Quando está florida, a planta pode destacar-se facilmente no meio da vegetação seca de verão. Contudo, existe um pequeno problema para quem decide procurá-la mais tarde durante o dia: algumas das flores que estavam abertas de manhã podem já ter fechado.
É aqui que começa a parte mais interessante da história.
Nictinastia: porque algumas plantas parecem seguir um relógio
As plantas não caminham nem mudam de lugar como os animais, mas isso não significa que sejam organismos imóveis.
Folhas, flores e outras estruturas vegetais podem alterar a sua posição em resposta à luz, temperatura, humidade, contacto físico ou outros estímulos.
Um dos fenómenos associados aos ciclos entre dia e noite é conhecido como nictinastia.
Em sentido geral, os movimentos nictinásticos são movimentos rítmicos de folhas ou flores relacionados com o ciclo diário e frequentemente associados ao relógio circadiano das plantas. Em algumas espécies, folhas fecham durante a noite e voltam a abrir de manhã. Noutras, são as estruturas florais que apresentam ciclos de abertura e encerramento.
O fenómeno não funciona exatamente da mesma forma em todas as plantas.
Nas leguminosas clássicas usadas para estudar a nictinastia das folhas, existem estruturas especializadas e alterações de turgescência celular que permitem movimentos bastante evidentes. A investigação mostra também que estes ritmos podem ser controlados pelo relógio biológico interno da planta.
No caso das flores, a abertura e o encerramento podem igualmente estar associados a diferentes sinais ambientais.
Uma revisão sobre a ecologia térmica das flores refere que movimentos de abertura e encerramento floral ocorrem em numerosas famílias botânicas, incluindo precisamente as Asteraceae. Luz, temperatura e humidade podem participar na regulação destes movimentos.
Por isso, dizer simplesmente que uma flor “fecha porque anoiteceu” pode ser uma simplificação excessiva.
Um relógio interno combinado com sinais do ambiente
Os ritmos das plantas são particularmente interessantes porque não dependem necessariamente de um único estímulo externo.
Existem mecanismos circadianos — ciclos internos aproximadamente diários — que permitem às plantas coordenar vários processos com a alternância previsível entre dia e noite.
Ao mesmo tempo, o ambiente ajuda a ajustar esses ritmos.
A intensidade da luz, a temperatura e outras condições podem alterar o comportamento observado num determinado dia.
Isto explica por que razão falar de uma “hora exata” de abertura ou encerramento deve ser feito com cuidado.
A chicória tem realmente uma hora certa para fechar?
É aqui que o título “a flor que segue um horário diário” precisa de uma pequena explicação.
A chicória-selvagem apresenta um padrão diário evidente, mas não devemos imaginar cada planta equipada com um despertador programado para uma determinada hora.
Fontes hortícolas da North Carolina State University descrevem as flores de Cichorium intybus como flores que normalmente fecham por volta do meio do dia.
Isso não significa que todas as flores de chicória em Portugal fechem exatamente à mesma hora.
As condições meteorológicas, exposição solar, temperatura, localização e estado da própria planta podem influenciar aquilo que observamos.
Assim, é mais rigoroso falar num ritmo diário de abertura e encerramento do que atribuir à espécie um horário universal rígido.
E isso torna a observação ainda mais interessante.
Quem encontrar uma chicória florida pela manhã pode regressar ao mesmo local algumas horas depois e comparar o estado dos capítulos.
É uma pequena experiência de botânica que não exige equipamento.
Onde encontrar chicória-selvagem em Portugal
Apesar do aspeto delicado das flores, a chicória não precisa de um habitat particularmente remoto.
Pelo contrário.
O Flora-On regista Cichorium intybus em campos agrícolas cultivados ou abandonados, pousios, pastagens, baldios urbanos e bermas de caminhos, descrevendo-a como uma espécie ruderal associada também a solos relativamente enriquecidos em nutrientes.
Isto significa que não é necessário organizar uma caminhada por uma reserva natural para ter possibilidade de a encontrar.
Pode aparecer junto de caminhos rurais, em terrenos não cultivados e em espaços alterados pela atividade humana.
Existem, por exemplo, registos documentados na região da Arrábida-Espichel, onde o Flora-On mostra a espécie em vários pontos.
A distribuição real não deve, contudo, ser inferida apenas a partir de um mapa de observações. Registos botânicos dependem também da intensidade de amostragem e das observações comunicadas.
Quando procurar chicória em Portugal?
O período de floração pode variar conforme região, altitude, clima e condições de cada ano.
Para observar o comportamento diário das flores, o mais importante é encontrar primeiro plantas em floração e visitá-las de manhã.
Durante períodos quentes e ensolarados, as flores azuis destacam-se facilmente sobre os caules.
Se regressarmos mais tarde, podemos encontrar a mesma planta com um aspeto surpreendentemente diferente.
Esta é uma das razões pelas quais identificar plantas apenas por uma visita ocasional pode ser enganador: aquilo que vemos depende também do momento em que observamos.
Outras plantas com comportamentos horários semelhantes
A chicória está longe de ser uma exceção.
A abertura e o encerramento das flores ocorrem em diferentes grupos de plantas. Uma revisão científica sobre o assunto refere o fenómeno em famílias tão diferentes como Asteraceae, Gentianaceae, Geraniaceae, Iridaceae, Malvaceae, Ranunculaceae e Rosaceae.
Algumas flores permanecem abertas principalmente durante períodos luminosos. Outras abrem ao final da tarde ou durante a noite.
Também existem plantas em que são as folhas, e não as flores, que apresentam movimentos diários particularmente visíveis.
As leguminosas estão entre os exemplos clássicos estudados pela ciência. Em determinadas espécies, os folíolos alteram claramente a posição entre o dia e a noite através de mecanismos controlados por ritmos circadianos.
Não existe, portanto, um único “relógio das flores” válido para todas as espécies.
Cada planta resulta de uma história evolutiva própria e responde ao ambiente através de mecanismos que podem ser diferentes.
Porque fechar uma flor?
Não existe necessariamente uma única resposta.
Dependendo da espécie, o encerramento floral pode estar relacionado com condições ambientais, proteção das estruturas reprodutivas ou interação com os períodos de atividade dos polinizadores.
Também pode modificar as condições térmicas dentro da própria flor.
A literatura científica mostra que abertura e encerramento podem estar associados à luz, humidade e temperatura, mas as vantagens ecológicas específicas não estão completamente esclarecidas para todas as espécies.
É precisamente por isso que devemos evitar explicações demasiado simples como “a flor fecha para dormir”.
É uma metáfora simpática, mas a fisiologia vegetal é mais complexa.
Chicória-selvagem: muito mais do que uma flor azul
Muito antes de o comportamento diário das suas flores despertar curiosidade botânica, a chicória já tinha uma longa relação com a alimentação humana.
Diferentes variedades e formas cultivadas de Cichorium são utilizadas como hortícolas.
Na chicória, tanto folhas como raízes têm utilização alimentar.
Folhas de chicória em saladas
As folhas são comestíveis e apresentam um sabor caracteristicamente amargo.
Folhas jovens podem ser consumidas em saladas, enquanto a confeção pode ajudar a suavizar parte do amargor. A North Carolina State University Extension inclui tanto as folhas como as raízes entre as partes com utilização alimentar.
É importante, contudo, distinguir informação sobre comestibilidade de um convite à recolha indiscriminada de plantas silvestres.
A identificação correta é indispensável antes de consumir qualquer planta recolhida na natureza.
Além disso, plantas das bermas podem estar expostas a poluição rodoviária, herbicidas, pesticidas, dejetos animais ou outras fontes de contaminação.
Observar uma chicória selvagem é muito mais simples e seguro do que decidir comê-la.
Raiz torrada como substituto do café
Outro uso histórico muito conhecido é a utilização da raiz.
As raízes de chicória podem ser secas, torradas e moídas, produzindo um ingrediente utilizado tradicionalmente como substituto ou complemento do café.
Daí um dos nomes populares registados em Portugal: chicória-do-café.
A bebida resultante não deve ser confundida com café verdadeiro, produzido a partir das sementes de espécies do género Coffea.
O interesse aqui é sobretudo histórico e gastronómico.
Não é necessário atribuir à chicória propriedades milagrosas para reconhecer que se trata de uma planta com uma longa tradição culinária.
Como observar o “relógio” da chicória
Uma das melhores características deste fenómeno é poder ser observado sem colher a planta.
Encontra uma chicória com vários capítulos florais abertos durante a manhã e fotografa-a.
Regista aproximadamente a hora.
Volta ao mesmo local algumas horas depois e observa exatamente os mesmos capítulos.
Se possível, repete a experiência noutro dia.
Ao comparar as fotografias, pode tornar-se evidente que aquilo que parecia uma flor permanentemente aberta é, na realidade, uma estrutura bastante dinâmica.
Também é útil registar se o dia estava quente, nublado ou muito soalheiro.
Com várias observações, começa a surgir uma imagem mais realista do fenómeno: não um mecanismo perfeitamente rígido, mas um ritmo biológico influenciado pelas condições ambientais.
É uma forma simples de perceber que uma berma aparentemente banal pode funcionar como um pequeno laboratório de botânica.
Perguntas frequentes
A chicória-selvagem fecha sempre à mesma hora?
Não. Existe um padrão diário de abertura e encerramento, e as flores são frequentemente descritas como fechando por volta do meio do dia, mas não existe uma hora universal aplicável a todas as plantas e condições.
O que significa nictinastia?
Nictinastia é o termo utilizado para movimentos rítmicos de plantas associados ao ciclo entre dia e noite e ao controlo circadiano. É particularmente bem estudada nos movimentos das folhas de algumas leguminosas.
A chicória é uma planta portuguesa?
Cichorium intybus está registada pelo Flora-On como espécie autóctone em Portugal continental. É conhecida em português por nomes como chicória, almeirão e chicória-do-café.
Onde cresce a chicória-selvagem?
Pode ocorrer em campos cultivados ou incultos, pousios, pastagens, baldios urbanos e bermas de caminhos. É, portanto, uma das plantas silvestres portuguesas que podemos encontrar também em ambientes bastante humanizados.
As folhas de chicória podem ser comidas?
Sim. As folhas têm utilização alimentar e podem ser consumidas cruas ou cozinhadas, embora apresentem sabor amargo. A identificação correta e a segurança do local de recolha são essenciais.
A raiz de chicória é realmente utilizada como café?
A raiz seca, torrada e moída é tradicionalmente utilizada como substituto ou complemento do café. Não é café verdadeiro e apresenta características próprias.
Todas as flores que fecham à noite apresentam exatamente o mesmo mecanismo?
Não. Os movimentos das plantas são diversos, e os mecanismos fisiológicos podem variar consideravelmente entre grupos. Luz, temperatura, humidade e relógios circadianos podem participar nesses comportamentos.
Conclusão
A chicória-selvagem demonstra como uma planta comum pode esconder um comportamento extraordinário à vista de todos.
Encontramo-la em campos, pastagens, pousios, baldios e bermas. Passamos por ela de carro ou a pé e talvez reparemos durante alguns segundos nas flores azuis. Mas, se regressarmos algumas horas depois, a planta pode já apresentar outro aspeto.
É essa dimensão temporal que torna a chicória-selvagem flor horário tão interessante.
As plantas não são elementos imóveis da paisagem. Respondem continuamente à luz, temperatura, humidade e aos seus próprios ritmos internos. Fenómenos associados à nictinastia das plantas e aos ciclos circadianos mostram que folhas e flores podem seguir padrões diários surpreendentemente organizados.
A chicória não consulta um relógio nem fecha todas as flores a uma hora matematicamente exata. O seu comportamento resulta de biologia e ambiente, e é precisamente essa combinação que merece ser observada.
Da próxima vez que encontrares uma pequena flor azul numa berma portuguesa durante a manhã, observa-a com atenção.
Talvez estejas perante uma chicória.
E algumas horas depois, a mesma flor poderá já ter terminado a sua parte visível do dia.