Estas coberturas vegetais substituem a relva e quase não precisam de água

Um relvado verde e uniforme continua a ser uma imagem associada ao jardim tradicional, mas manter esse tapete de relva durante o verão português pode exigir regas frequentes, cortes regulares, fertilização e outros cuidados. Num país com verões cada vez mais quentes e longos períodos sem precipitação, vale a pena reconsiderar se toda a superfície do jardim precisa realmente de ser ocupada por relva.

A escolha de plantas para substituir a relva permite criar espaços verdes mais adaptados ao clima local, reduzir a manutenção e, em muitos casos, diminuir consideravelmente a necessidade de rega depois de as plantas estarem estabelecidas.

Esta opção é particularmente interessante no Centro e Sul de Portugal, mas também pode funcionar no Norte, desde que as espécies sejam escolhidas de acordo com a drenagem, exposição solar e precipitação local.

Índice

  1. Porque substituir a relva?
  2. Critérios para escolher plantas tapetantes
  3. Tomilho-rasteiro
  4. Sedum
  5. Alecrim-rasteiro
  6. Camomila-romana
  7. Trevo-branco
  8. Erva-cidreira-rasteira e alternativas comercializadas como Lippia
  9. Que plantas escolher em cada região de Portugal?
  10. Como preparar o solo para substituir a relva
  11. Perguntas frequentes
  12. Conclusão

Porque procurar plantas para substituir a relva?

O problema não está necessariamente na relva em si, mas na utilização de espécies e modelos de manutenção pouco adaptados às condições mediterrânicas.

Durante grande parte do verão, muitas regiões portuguesas recebem pouca chuva. Para manter um relvado convencional permanentemente verde durante esse período é geralmente necessário recorrer à rega.

A importância desta questão ficou particularmente evidente durante períodos de escassez hídrica no Algarve. Em 2024, por exemplo, foram adotadas medidas oficiais destinadas a reduzir o consumo de água, incluindo restrições relacionadas com a rega de jardins e espaços relvados.

A própria campanha de eficiência hídrica promovida pela Agência Portuguesa do Ambiente e outras entidades recomenda que jardins e plantas sejam regados durante as horas de menor calor.

Substituir parte da relva por coberturas vegetais de jardim resistentes à seca pode, portanto, ser uma decisão simultaneamente estética e funcional.

Não significa transformar obrigatoriamente o jardim numa superfície árida. Tomilhos, sedums, trevos e outras plantas rasteiras conseguem criar tapetes verdes, floridos ou aromáticos com características muito diferentes.

Critérios para escolher plantas para substituir a relva

Não existe uma cobertura vegetal perfeita para todos os jardins. Antes de remover o relvado, é essencial observar três fatores.

Exposição solar

Um jardim orientado a sul e exposto ao sol durante praticamente todo o dia apresenta condições muito diferentes de um espaço sombreado por árvores ou edifícios.

Tomilho-rasteiro, sedum e alecrim-rasteiro estão particularmente bem adaptados a posições soalheiras.

A camomila-romana prefere igualmente boa luminosidade, embora possa tolerar alguma sombra ligeira. O trevo-branco é mais flexível e consegue integrar-se em diferentes situações.

Tipo de solo

A drenagem é fundamental.

Tomilho, sedum e alecrim não gostam de permanecer com as raízes em solos encharcados. Num terreno argiloso e compacto, a simples substituição da relva por plantas mediterrânicas pode resultar em perdas durante o inverno.

Antes de plantar, convém perceber se a água desaparece rapidamente depois de uma chuva forte ou permanece acumulada durante muitas horas.

Tráfego pedonal

Esta é provavelmente a questão mais esquecida.

Uma planta ser “tapetante” não significa que suporte crianças a correr, animais, cadeiras, mesas e passagens diárias.

Para uma zona utilizada intensamente, pode ser preferível manter uma pequena área de relva resistente ou instalar lajes e deixar as plantas tapetantes crescerem entre elas.

Nas zonas essencialmente decorativas, as possibilidades aumentam bastante.

Tomilho-rasteiro: aromático e resistente à seca

O tomilho-rasteiro, sobretudo espécies e cultivares de Thymus de crescimento baixo, é uma das alternativas mais interessantes para jardins mediterrânicos.

Forma pequenos tapetes aromáticos e pode produzir numerosas flores, muito visitadas por abelhas e outros insetos.

O Thymus serpyllum, por exemplo, prefere solos bem drenados e posições soalheiras. A Royal Horticultural Society indica-o para jardins de gravilha, jardins costeiros, taludes e espaços destinados à vida selvagem, referindo também a sua tolerância à seca.

Rega

Depois de bem estabelecido, o tomilho necessita normalmente de pouca água. As plantas jovens devem, no entanto, ser regadas durante o período de instalação.

Regar demasiado pode ser mais prejudicial do que permitir algum período seco, especialmente em terrenos onde a drenagem é deficiente.

Resistência

Tolera calor, seca e solos relativamente pobres.

Também suporta algum pisoteio ocasional. O próprio Thymus serpyllum é utilizado entre pavimentos, onde as folhas libertam aroma quando são pisadas.

Não deve, contudo, ser tratado como um relvado destinado a utilização desportiva.

Para um tomilho rasteiro no jardim, uma boa solução consiste em combiná-lo com pedras de passagem.

Sedum: excelente opção para um jardim seco

Os sedums incluem numerosas plantas suculentas capazes de armazenar água nas folhas e caules.

Algumas espécies apresentam crescimento baixo e formam rapidamente pequenas manchas ou tapetes, tornando-se particularmente interessantes num sedum de jardim seco.

Entre os exemplos de crescimento rasteiro encontram-se Sedum acre, Sedum spurium e outras espécies adaptadas a solos pobres e drenantes.

O Sedum spurium ‘Red Rock’, por exemplo, é descrito pela RHS como uma planta tapetante e tolerante à seca, indicada para pleno sol e solos bem drenados.

Rega

Após o estabelecimento, as necessidades são muito reduzidas.

Em muitos jardins, a chuva e regas ocasionais durante períodos extremamente secos podem ser suficientes, dependendo naturalmente do solo, temperatura e espécie escolhida.

O maior perigo pode ser precisamente o excesso de água.

Resistência

Excelente resistência ao calor e à seca, mas baixa tolerância ao pisoteio frequente.

O sedum funciona melhor em taludes, canteiros, jardins de gravilha, zonas junto a pedras e superfícies onde praticamente ninguém caminha.

Espécies como Sedum acre são extremamente adaptáveis, embora possam espalhar-se bastante quando encontram condições favoráveis.

Alecrim-rasteiro: ideal para taludes e grandes superfícies soalheiras

O alecrim-rasteiro — atualmente incluído botanicamente no género Salvia, embora continue frequentemente comercializado como Rosmarinus officinalis Prostratus Group — é outra excelente escolha mediterrânica.

Ao contrário do tomilho, não forma um tapete extremamente baixo. Produz ramos compridos que se estendem horizontalmente e podem cobrir grandes superfícies.

É particularmente interessante em taludes, muros, jardins costeiros e zonas de gravilha.

A RHS recomenda formas prostradas de alecrim para posições soalheiras, solos leves e bem drenados e jardins de clima mediterrânico.

Rega

Durante o primeiro ano, é importante assegurar água suficiente para o desenvolvimento das raízes.

Uma vez estabelecido, o alecrim é muito mais tolerante a períodos secos. Evite manter constantemente húmida a zona das raízes.

Resistência

A resistência ao calor e à seca é elevada, mas a resistência ao pisoteio é baixa.

Não é uma planta para atravessar diariamente. É melhor utilizá-la em zonas decorativas, encostas ou margens de caminhos.

Camomila-romana: um tapete aromático para zonas de pouco tráfego

A camomila-romana (Chamaemelum nobile) é tradicionalmente utilizada para criar pequenos “relvados” aromáticos.

Para este objetivo, uma das formas mais conhecidas é a cultivar não florífera ‘Treneague’, que permanece baixa e cria um tapete aromático.

Segundo a RHS, esta camomila funciona melhor em áreas soalheiras, com tráfego pedonal ligeiro e solos leves e bem drenados.

Rega

Aqui existe uma diferença importante relativamente ao tomilho e ao sedum.

A camomila necessita de alguma disponibilidade de humidade. Durante períodos prolongados de seca pode precisar de rega, sobretudo em regiões de baixa precipitação.

A RHS chega a recomendar o tomilho como alternativa mais adequada quando o solo é extremamente drenante, a precipitação é baixa ou não existe possibilidade de regar.

Resistência

Tolera pisoteio ligeiro, mas não tráfego intenso.

Pode ser uma excelente solução junto a bancos, entre pedras ou numa pequena área aromática do jardim, sobretudo no Norte e Centro litoral.

Trevo-branco: resistente e fácil de estabelecer

O trevo-branco (Trifolium repens) é uma das alternativas mais simples quando o objetivo é conservar uma aparência semelhante à de um relvado.

Espalha-se através de caules rasteiros, permanece relativamente baixo e adapta-se a vários tipos de solo, desde que não sejam excessivamente ácidos ou permanentemente encharcados.

Sendo uma leguminosa, estabelece uma relação com bactérias capazes de fixar azoto atmosférico, característica que pode reduzir a necessidade de adubação azotada.

Rega

Apresenta alguma tolerância à seca, mas não deve ser confundido com uma suculenta mediterrânica.

Em períodos de calor e seca prolongada pode perder qualidade visual ou entrar em stress, recuperando quando regressam condições mais favoráveis.

Resistência

É mais tolerante ao pisoteio do que muitas plantas ornamentais tapetantes e pode ser integrado em misturas de relva e coberturas floridas.

As flores são também utilizadas por polinizadores.

Se houver crianças pequenas a brincar descalças ou pessoas sensíveis a picadas, é importante recordar que uma superfície com trevo florido pode receber abelhas.

Erva-cidreira-rasteira: atenção ao nome comercial

Aqui é importante esclarecer a identificação botânica.

O nome “erva-cidreira-rasteira” não identifica de forma suficientemente consistente uma única espécie no comércio hortícola português. A verdadeira erva-cidreira, Melissa officinalis, não é normalmente utilizada como substituto rasteiro de relva.

Uma planta comercializada em Portugal especificamente como alternativa ao relvado é Phyla nodiflora, ainda frequentemente vendida sob o antigo nome Lippia nodiflora. Viveiros portugueses apresentam-na como cobertura vegetal rasteira, resistente ao calor e adequada a zonas de baixa manutenção.

Se esta for a planta pretendida quando se utiliza a designação “erva-cidreira-rasteira”, pode constituir uma alternativa interessante.

Rega

Depois de estabelecida, Phyla nodiflora apresenta boa tolerância à seca e necessita geralmente de menos água do que um relvado convencional.

Durante a instalação, porém, necessita de regas regulares suficientes para permitir que os caules enraízem e fechem os espaços entre plantas.

Resistência

Uma das suas vantagens é tolerar algum pisoteio, além de permanecer muito baixa.

Pode ser utilizada entre pavimentos ou como cobertura de superfícies onde se pretende reduzir ou eliminar os cortes.

Antes de comprar qualquer planta apresentada simplesmente como “erva-cidreira-rasteira”, confirme sempre o nome botânico na etiqueta.

Alentejo e Algarve ou Norte: que plantas escolher?

As plantas para substituir a relva devem ser escolhidas de acordo com o microclima e não apenas com a aparência.

Alentejo e Algarve

Em jardins muito soalheiros e secos, a prioridade deve ser reduzir as necessidades de água.

Tomilho-rasteiro, sedums, alecrim-rasteiro e, quando apropriada ao local, Phyla nodiflora são candidatos interessantes.

Um projeto particularmente eficiente pode combinar diferentes coberturas em vez de procurar uma única espécie para toda a propriedade.

Por exemplo, pode utilizar alecrim nos taludes, sedum nas zonas pedregosas, tomilho junto aos caminhos e pavimento permeável nas áreas de circulação.

Esta abordagem aproxima-se mais de um verdadeiro jardim sem rega frequente do que a simples substituição de uma relva por outra monocultura.

Mesmo as espécies resistentes à seca necessitam, contudo, de água durante o estabelecimento.

Norte e zonas mais húmidas

No Norte litoral e em outros locais com maior disponibilidade de humidade, trevo e camomila podem ser opções particularmente interessantes.

Já os sedums, tomilhos e alecrins continuam a poder crescer muito bem, desde que tenham drenagem adequada.

O desafio pode ser o inverno.

Um terreno pesado que permanece saturado durante semanas pode provocar podridões nas raízes de espécies mediterrânicas que tolerariam perfeitamente a seca de verão.

Por isso, “resistente à seca” não significa automaticamente “adequada a qualquer jardim português”.

Como preparar o solo para passar da relva para cobertura vegetal

Uma transição bem preparada reduz problemas durante vários anos.

Comece por decidir se vai substituir toda a relva ou apenas as áreas que recebem menos utilização. Muitas vezes, a segunda opção é mais prática.

Retire a relva existente juntamente com as raízes e rizomas mais persistentes. Não plante simplesmente as novas espécies no meio de uma camada espessa de relva competitiva.

Depois, elimine cuidadosamente ervas infestantes perenes.

Observe a textura do solo e, sobretudo, a drenagem. Para tomilhos, sedums e alecrins, solos muito compactados podem precisar de ser melhorados estruturalmente. Não basta colocar uma fina camada de areia sobre argila pesada; é necessário criar condições para que a água consiga efetivamente infiltrar-se e sair da zona radicular.

Adicione matéria orgânica quando for apropriado para a espécie e para o solo, mas evite transformar uma área destinada a plantas mediterrânicas num terreno excessivamente rico e húmido.

Nivele o espaço e instale as plantas respeitando o seu tamanho adulto.

Durante os primeiros meses, mantenha uma vigilância regular sobre a humidade. Mesmo uma espécie extremamente resistente à seca ainda não possui um sistema radicular desenvolvido imediatamente após a plantação.

Uma rega profunda e espaçada tende a ser preferível a molhar superficialmente o solo todos os dias, embora a frequência exata dependa da estação, solo, espécie e condições meteorológicas.

À medida que as plantas se expandem e fecham os espaços, a evaporação direta do solo e a emergência de algumas infestantes também podem diminuir.

Para grandes jardins, vale a pena realizar primeiro uma experiência numa área pequena. Depois de um verão e um inverno completos, será muito mais fácil perceber quais as espécies que realmente se adaptam ao microclima da propriedade.

Perguntas frequentes

É possível substituir completamente a relva?

Sim, sobretudo em áreas de baixo tráfego. Contudo, num jardim utilizado diariamente para jogos, animais ou refeições ao ar livre, pode ser mais funcional combinar pequenas áreas resistentes ao tráfego com coberturas vegetais, caminhos e pavimentos permeáveis.

Qual é a planta que precisa de menos água?

Entre as opções apresentadas, os sedums e os tomilhos encontram-se entre as mais resistentes à seca depois de estabelecidos. O alecrim-rasteiro também apresenta excelente adaptação a ambientes mediterrânicos.

A escolha depende sempre da drenagem e das condições locais.

Qual suporta melhor o pisoteio?

Trevo-branco e Phyla nodiflora podem tolerar algum tráfego melhor do que sedum ou alecrim-rasteiro.

Tomilho e camomila suportam passagem ocasional, mas não devem ser comparados com uma relva preparada para utilização intensiva.

É possível ter um jardim totalmente sem rega?

Em determinadas situações, plantas mediterrânicas bem estabelecidas podem sobreviver longos períodos apenas com precipitação natural.

Isso não significa que qualquer jardim possa ser garantidamente mantido sem água. Plantas recém-instaladas necessitam de rega e períodos extremos de calor ou seca podem justificar regas de sobrevivência.

O objetivo mais realista da jardinagem sustentável em Portugal é reduzir a necessidade de água e adaptá-la às condições reais do local.

É preciso cortar estas coberturas como a relva?

Na maioria dos casos, muito menos.

Sedums praticamente não necessitam de corte. Tomilhos podem beneficiar de uma ligeira poda depois da floração. Alecrins podem ser aparados para controlar a forma.

O trevo pode ser cortado ocasionalmente quando se pretende manter uma superfície mais baixa ou limitar a floração.

Posso misturar várias espécies?

Sim, e em muitos jardins essa é uma solução melhor.

Uma única propriedade pode apresentar áreas soalheiras e secas, zonas parcialmente sombreadas, taludes e locais de passagem.

Criar um mosaico de espécies adaptadas a cada situação aumenta a diversidade visual e permite utilizar a água de forma mais eficiente.

Conclusão: um jardim português não precisa de imitar um relvado do Norte da Europa

Substituir a relva não significa abdicar de um jardim verde.

Significa questionar se faz sentido utilizar água, energia e tempo para manter uma superfície uniforme quando existem plantas para substituir a relva muito mais adaptadas a determinadas condições portuguesas.

Tomilho-rasteiro e sedum destacam-se nos locais mais secos e soalheiros. Alecrim-rasteiro funciona particularmente bem em taludes e zonas mediterrânicas. Camomila oferece um tapete aromático onde existe alguma disponibilidade de água. Trevo-branco adapta-se melhor a áreas com algum tráfego, enquanto Phyla nodiflora merece consideração como alternativa rasteira em climas quentes.

A solução mais sustentável raramente consiste em substituir uma monocultura por outra em todo o jardim.

Combinar plantas tapetantes, espécies mediterrânicas, caminhos permeáveis, zonas de biodiversidade e uma rega ajustada às estações permite criar um jardim mais resistente, diversificado e adequado ao clima português.

O resultado pode exigir menos manutenção e menos água — sem deixar de ser um espaço verde, confortável e cheio de vida.