No final do verão e início do outono, há uma imagem que se repete em muitas paisagens portuguesas: dezenas de andorinhas alinhadas em fios elétricos, antenas, vedações ou outros pontos elevados. Algumas permanecem quase imóveis, enquanto outras levantam voo, perseguem insetos e regressam pouco depois ao grupo.
Esta concentração não significa necessariamente que todas vão partir naquele momento. Faz parte de um período mais amplo de preparação para uma das etapas mais exigentes do seu ciclo anual: a migração para África.
A andorinhas migração Portugal é particularmente visível nesta altura porque aves que durante a época de reprodução estavam distribuídas por quintas, aldeias e campos começam a formar grupos maiores, alimentando-se intensamente e utilizando dormitórios coletivos antes de prosseguirem para sul.
O comportamento é simultaneamente uma despedida sazonal e uma demonstração impressionante de como uma pequena ave insetívora se prepara para atravessar regiões e continentes.
Índice
- Porque se juntam as andorinhas antes da migração?
- O que fazem tantas andorinhas nos fios elétricos?
- De Portugal até África: como decorre a migração
- Porque é Gibraltar importante?
- O papel ecológico das andorinhas
- Principais ameaças
- Como podemos ajudar
- Perguntas frequentes
- Conclusão
Porque se juntam as andorinhas antes da migração?
Durante a primavera e o verão, a vida das andorinhas está fortemente ligada à reprodução.
A andorinha-das-chaminés (Hirundo rustica), uma das espécies mais familiares em Portugal, utiliza frequentemente construções humanas para nidificar. Celeiros, garagens, alpendres, estábulos e outras estruturas abrigadas podem oferecer locais adequados para construir os característicos ninhos de lama.
Quando as crias ficam independentes e a época de reprodução se aproxima do fim, essa organização começa a mudar.
As aves passam progressivamente a reunir-se em grupos.
Este comportamento de agregação pré-migratória é bem conhecido na espécie. O British Trust for Ornithology (BTO) desenvolveu inclusivamente um projeto específico dedicado aos dormitórios pré-migratórios de andorinhas, acompanhando a formação e utilização destes locais antes da partida para sul.
Os grupos não servem apenas para criar aquela imagem tão característica nos fios.
Este período coincide com uma fase em que as aves precisam de se alimentar intensamente e acumular reservas suficientes para suportar as etapas seguintes da viagem.
As andorinhas são migradoras diurnas. Ao contrário de algumas pequenas aves que realizam grande parte das deslocações durante a noite, podem viajar durante o dia, fazendo paragens frequentes para se alimentar.
Antes de grandes barreiras geográficas, como o Mediterrâneo ou o Saara, a acumulação de reservas energéticas torna-se particularmente importante. O BTO refere que as andorinhas podem passar vários dias a alimentar-se antes de enfrentar estas barreiras.
O que fazem tantas andorinhas nos fios elétricos?
Os fios oferecem algo extremamente simples: um local elevado, aberto e relativamente conveniente onde muitas aves podem pousar simultaneamente.
Daí nasceu uma das imagens mais reconhecíveis da migração de aves no outono.
Uma fileira de andorinhas num cabo elétrico não é, contudo, equivalente a uma “fila de embarque” em que todas estão prestes a partir juntas para África.
Algumas podem permanecer na região durante mais tempo. Outras podem ter chegado recentemente de zonas situadas mais a norte. E diferentes indivíduos podem continuar a alimentar-se e deslocar-se antes de iniciarem uma etapa migratória mais longa.
Durante esta fase, é normal observar grupos que levantam voo quase simultaneamente, dispersam-se pelos campos à procura de insetos e voltam a reunir-se.
Ao aproximar-se a noite, as concentrações podem deslocar-se para dormitórios coletivos.
Caniçais e determinadas culturas agrícolas podem proporcionar dormitórios utilizados por grandes grupos durante a migração. O comportamento gregário não termina necessariamente quando começa a viagem: as andorinhas também podem reunir-se em grandes dormitórios durante as deslocações e nas áreas africanas onde passam o período não reprodutor.
Por isso, quando observamos andorinhas nos fios elétricos, estamos a assistir apenas à parte mais visível de uma organização social e migratória muito mais complexa.
De Portugal até África: como decorre a migração das andorinhas
Portugal encontra-se numa posição privilegiada para observar movimentos migratórios entre a Europa e África.
Depois da reprodução, muitas andorinhas europeias deslocam-se progressivamente para sul e sudoeste.
A Península Ibérica faz parte desse sistema migratório. Portugal não recebe apenas as aves que aqui nidificaram: durante os períodos migratórios podem também atravessar a região indivíduos provenientes de outras zonas europeias.
A SPEA — Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves — resume precisamente esta estratégia migratória lembrando que as andorinhas chegam na primavera para se reproduzir e depois migram para África para passar o inverno.
A viagem não deve, porém, ser imaginada como uma linha única desenhada no mapa.
Estudos baseados em recuperação de aves anilhadas mostram que a andorinha-das-chaminés utiliza diferentes trajetos através da Europa e do Mediterrâneo.
Uma análise científica de dados de anilhagem europeus publicada no Journal of Ornithology identificou Gibraltar como uma das grandes portas utilizadas entre a Europa ocidental e África, mas também encontrou movimentos através de outras regiões do Mediterrâneo. As rotas de outono apresentaram, de forma geral, padrões semelhantes aos observados durante a migração de primavera.
Porque é Gibraltar importante?
Para aves que percorrem o sudoeste da Península Ibérica, a região do Estreito de Gibraltar representa uma passagem particularmente importante entre os dois continentes.
É uma zona onde Europa e África estão geograficamente muito próximas.
Muitas aves migradoras convergem para esta região antes de continuar para território africano. No caso das andorinhas, contudo, é importante não afirmar que todos os indivíduos passam obrigatoriamente por Gibraltar.
As rotas variam.
Depois de entrarem em África, as andorinhas continuam para diferentes áreas de invernada. Algumas populações europeias realizam viagens de enorme distância, chegando à África subsaariana e, no caso de certas populações do norte e oeste europeu, até à África austral. O BTO, por exemplo, documenta que muitas andorinhas britânicas passam o inverno na África do Sul.
Isto significa que uma pequena ave observada num fio em setembro pode ainda ter pela frente uma extraordinária sucessão de paisagens, zonas de alimentação e barreiras naturais.
A importância ecológica das andorinhas no controlo de insetos
A migração impressiona pela distância, mas a alimentação das andorinhas é igualmente extraordinária.
Estas aves são insetívoras aéreas.
Grande parte da alimentação é capturada durante o voo. As asas longas e pontiagudas e a extraordinária capacidade de manobra permitem-lhes perseguir pequenos insetos sobre campos, pastagens, cursos de água e outras zonas abertas.
O BTO descreve a andorinha como uma ave capaz de voar muito perto do solo sobre os seus habitats de alimentação enquanto captura insetos em pleno voo.
Esta dieta significa que as andorinhas fazem parte dos mecanismos naturais de regulação das comunidades de insetos.
É tentador traduzir este serviço ecológico em frases como “uma andorinha elimina milhares de mosquitos por dia”, mas números deste género circulam frequentemente sem contexto científico suficiente.
Não é necessário exagerar.
O facto importante é que uma população saudável de aves insetívoras retira continuamente insetos do ambiente enquanto se alimenta.
Além disso, a relação funciona nos dois sentidos.
As andorinhas precisam de paisagens onde exista alimento suficiente. Campos, pastagens, zonas húmidas, margens de rios, pequenos sistemas agrícolas e outras áreas ricas em insetos podem tornar-se locais importantes de alimentação.
Conservar andorinhas significa, portanto, pensar não apenas nos ninhos, mas também nos habitats onde encontram alimento.
Ameaças: quando desaparecem ninhos e insetos
A extraordinária capacidade migratória das andorinhas não as torna independentes das alterações humanas.
Pelo contrário, muitas espécies deste grupo desenvolveram uma relação muito próxima com edifícios e paisagens rurais.
Perda de locais de nidificação
A andorinha-das-chaminés utiliza frequentemente interiores ou zonas protegidas de construções rurais.
Celeiros, estábulos, anexos agrícolas, garagens e outras estruturas tradicionais podem fornecer superfícies e abrigos adequados para os ninhos.
Quando edifícios antigos são demolidos, completamente fechados ou renovados de forma que elimine os acessos utilizados pelas aves, podem desaparecer locais de reprodução que foram usados durante sucessivas épocas.
A conservação de construções rurais compatíveis com a nidificação pode, por isso, ter importância local.
Outras espécies vulgarmente chamadas andorinhas podem utilizar partes exteriores dos edifícios, pelo que é importante identificar a espécie antes de tomar qualquer decisão relativamente a um ninho.
Pesticidas e redução de alimento
Outro problema é a disponibilidade de insetos.
Uma ave que depende de insetos capturados durante o voo precisa de encontrar paisagens onde essas presas continuem disponíveis.
A utilização intensiva de inseticidas e a simplificação dos habitats agrícolas podem reduzir a abundância e diversidade de insetos em determinados locais.
Para as andorinhas, isso significa potencialmente menos oportunidades de alimentação durante a reprodução, preparação migratória e viagem.
A conservação destas aves está, portanto, ligada a uma questão mais ampla: manter ecossistemas agrícolas e rurais capazes de sustentar biodiversidade.

Como ajudar as andorinhas em Portugal
Uma das ações mais simples é também uma das mais importantes: tolerar os ninhos sempre que seja possível fazê-lo em segurança.
Se um ninho está ocupado, não deve ser simplesmente retirado porque provoca alguma sujidade.
É possível instalar uma pequena prateleira ou placa por baixo para recolher os dejetos, mantendo uma distância adequada do ninho e evitando perturbar as aves.
Preservar acessos utilizados pelas andorinhas em anexos, celeiros ou outras construções também pode ajudar quando isso é compatível com a utilização e segurança do edifício.
A questão da remoção de ninhos merece particular atenção.
Em Portugal, o ICNF dispõe de um procedimento específico de licença de remoção de ninhos. O manual oficial indica inclusivamente uma época definida para a remoção autorizada de ninhos de andorinhas e estabelece que os pedidos têm de ser justificados de acordo com a legislação aplicável.
O ICNF mantém atualmente formulários próprios para pedidos relacionados com espantamento de aves e remoção de ninhos.
Portanto, perante obras ou um conflito com um ninho, a abordagem correta não é destruí-lo por iniciativa própria, sobretudo quando está ocupado.
Deve procurar-se informação junto das autoridades competentes e planear eventuais intervenções para uma altura legal e biologicamente adequada.
Também é útil:
- reduzir a utilização desnecessária de inseticidas;
- conservar zonas de vegetação natural e habitats ricos em insetos;
- manter pontos de água e pequenas zonas húmidas quando apropriado;
- evitar perturbar dormitórios onde grandes concentrações de aves passam a noite;
- programar obras em edifícios utilizados para nidificação fora da época reprodutora e de acordo com as regras aplicáveis.
Pequenas decisões tomadas numa casa, quinta ou exploração agrícola podem manter disponíveis locais utilizados pelas aves ano após ano.
Perguntas frequentes sobre andorinhas e migração em Portugal
Porque ficam tantas andorinhas alinhadas nos fios?
Os fios proporcionam locais elevados e abertos onde muitas aves conseguem pousar. No final da época reprodutora, as andorinhas tornam-se particularmente gregárias e formam concentrações associadas à alimentação, repouso e preparação para a migração.
Ver muitas andorinhas num fio significa que vão partir nesse dia?
Não necessariamente.
A formação dos grupos faz parte de um período pré-migratório que pode prolongar-se. As aves podem continuar a alimentar-se, utilizar dormitórios coletivos e deslocar-se pela região antes de avançar para a etapa seguinte.
Todas as andorinhas portuguesas atravessam Gibraltar?
Não devemos assumir uma única rota para todos os indivíduos.
Gibraltar é uma importante passagem migratória entre a Península Ibérica e África, mas estudos de anilhagem demonstram que as andorinhas europeias utilizam diferentes trajetos através do Mediterrâneo.
Para onde vão as andorinhas no inverno?
Muitas populações europeias deslocam-se para África subsaariana. As áreas exatas dependem da população de origem e do indivíduo.
A migração pode abranger distâncias muito grandes e algumas populações europeias chegam à África austral.
As andorinhas comem mosquitos?
Podem capturar mosquitos e muitos outros pequenos insetos voadores.
A dieta não é composta exclusivamente por mosquitos. O importante é entender que são predadores especializados em capturar insetos durante o voo.
Posso retirar um ninho vazio de andorinha?
A remoção de ninhos de aves selvagens está sujeita a regras próprias.
O ICNF possui um procedimento de licenciamento específico para a remoção de ninhos e disponibiliza formulários oficiais. Antes de qualquer intervenção, sobretudo no contexto de obras, deve confirmar-se a legislação e os procedimentos aplicáveis.
As andorinhas regressam ao mesmo local na primavera?
Existe fidelidade aos locais de reprodução em Hirundo rustica, pelo que determinadas aves podem regressar à mesma região e voltar a utilizar locais conhecidos.
É uma das razões pelas quais preservar locais de nidificação adequados pode ter valor para as populações locais.
Conclusão: os fios são apenas o início da viagem
Quando dezenas de andorinhas aparecem alinhadas num fio no final do verão, não estamos simplesmente perante aves que decidiram pousar juntas.
Estamos a observar uma fase de transição.
A reprodução terminou ou aproxima-se do fim, os juvenis tornaram-se independentes e começa a preparação para uma viagem que ligará novamente a Europa a África.
Durante este período, as andorinhas alimentam-se, formam concentrações e utilizam dormitórios coletivos. Depois seguem progressivamente para sul, com a Península Ibérica e Gibraltar a integrarem uma das importantes rotas entre a Europa ocidental e o continente africano.
A andorinhas migração Portugal é, assim, uma oportunidade para observar um dos grandes ciclos naturais sem sair de uma aldeia, de uma quinta ou até de uma rua.
Também é um lembrete de que a viagem depende de muito mais do que a capacidade de voar.
As andorinhas precisam de insetos para se alimentar, habitats onde possam repousar e edifícios ou outras estruturas onde consigam reproduzir-se. Preservar ninhos, reduzir perturbações e favorecer paisagens ricas em biodiversidade são formas simples de contribuir para a conservação de andorinhas.
Quando os fios voltarem a encher-se no próximo fim de verão, vale a pena olhar durante alguns minutos.
Aquelas pequenas silhuetas podem estar apenas a descansar — mas algumas encontram-se já a preparar uma viagem entre continentes.