Plantas que deves deixar por cortar no jardim durante o inverno

Quando chega o outono, é comum surgir a vontade de “limpar” completamente o jardim. Cortam-se flores secas, retiram-se caules castanhos, podam-se plantas até junto ao solo e recolhe-se praticamente toda a matéria vegetal que deixou de parecer verde.

Para um jardim convencional, esta limpeza pode transmitir uma sensação imediata de ordem. Para a biodiversidade, porém, um jardim excessivamente limpo pode perder precisamente alguns dos seus recursos mais importantes durante os meses frios.

Cabeças de sementes secas fornecem alimento a aves. Folhagem e caules criam abrigo. Hastes ocas podem servir de refúgio a pequenos invertebrados. A própria Royal Horticultural Society recomenda deixar plantas herbáceas saudáveis e plantas com hastes ocas sem cortar até ao início da primavera, precisamente porque podem abrigar insetos durante o inverno.

Escolher algumas plantas não cortar inverno jardim não significa abandonar a manutenção. Significa mudar o calendário e perceber que uma planta seca nem sempre é uma planta sem utilidade.

Índice

  1. Porque não devemos “limpar” todo o jardim no outono?
  2. Plantas que vale a pena deixar durante o inverno
  3. Lavanda
  4. Equinácea
  5. Alecrim
  6. Ervas ornamentais
  7. Girassóis
  8. Hastes ocas: pequenos abrigos para insetos
  9. Sementes secas como alimento para aves
  10. Como equilibrar estética e biodiversidade
  11. Perguntas frequentes
  12. Conclusão

Porque não devemos “limpar” todo o jardim no outono?

Num ecossistema natural praticamente não existe uma limpeza geral de outono.

As folhas caem e permanecem no solo. As flores transformam-se em sementes. Os caules morrem mas continuam de pé durante meses. Ramos partidos acumulam-se e começam lentamente a decompor-se.

Tudo isto cria habitat.

No jardim, temos tendência para interromper esse processo porque associamos caules castanhos, folhas secas e flores passadas a desleixo.

Contudo, a RHS salienta que deixar plantas perenes sem cortar durante o inverno permite que as hastes ocas proporcionem abrigo a invertebrados, enquanto as sementes constituem alimento para aves.

A RSPB recomenda igualmente resistir à tentação de cortar imediatamente as cabeças de sementes depois da floração. Além de constituírem alimento natural para aves e outros animais durante o inverno, as estruturas secas podem proteger o solo e dar interesse visual aos canteiros.

Isto não significa que nenhuma planta deva ser cortada.

Material claramente doente, tecidos afetados por determinados problemas fitossanitários ou plantas que exigem uma poda específica continuam a necessitar de intervenção.

O objetivo da jardinagem para a biodiversidade não é deixar de cuidar do jardim. É distinguir aquilo que realmente precisa de ser removido daquilo que pode continuar a desempenhar uma função ecológica.

Plantas que deves deixar por cortar durante o inverno

Nem todas as espécies proporcionam exatamente os mesmos benefícios.

Algumas conservam sementes. Outras criam estruturas onde pequenos animais encontram proteção. Certas plantas permanecem verdes e continuam a oferecer cobertura.

Estas cinco são particularmente interessantes.

Lavanda: menos poda no outono, mais estrutura no jardim

A lavanda é uma planta mediterrânica perene e lenhosa, portanto não deve ser tratada exatamente como uma herbácea que seca completamente no final do verão.

Depois da floração, uma poda ligeira pode ser adequada para conservar uma forma compacta, dependendo da espécie, variedade e clima. O que deve ser evitado é uma intervenção tardia e excessivamente severa, sobretudo cortando profundamente a madeira velha.

Deixar a planta com a sua estrutura durante o inverno oferece volume e cobertura num período em que muitas outras espécies desapareceram quase completamente da paisagem.

A lavanda também é particularmente valiosa durante a época de floração, quando fornece recursos a diferentes polinizadores.

No contexto de um jardim amigo da fauna no inverno, a ideia não é necessariamente conservar todas as flores secas da lavanda durante meses, mas evitar a obsessão de reduzir todas as plantas a estruturas mínimas antes da chegada do frio.

Além disso, a silhueta prateada da lavanda pode continuar bastante ornamental no jardim de inverno.

Equinácea: sementes e estrutura até à primavera

A equinácea (Echinacea spp.) é um dos melhores exemplos de uma planta que perde a flor mas não perde imediatamente a sua função.

Quando as pétalas desaparecem, permanece a cabeça central seca, onde se encontram as sementes.

Em vez de cortar todas estas estruturas no final do verão, podemos deixar pelo menos algumas durante o outono e inverno.

A RSPB inclui especificamente a equinácea entre as plantas recomendadas pelas suas cabeças de sementes de inverno.

A RHS também aconselha permitir que flores tardias de equinácea e outras herbáceas produzam sementes, criando alimento para aves durante o inverno e simultaneamente estruturas utilizadas por invertebrados.

Existe ainda uma vantagem estética.

Cobertas por gotas de orvalho ou geada numa manhã fria, as cabeças secas das equináceas podem transformar-se num dos elementos mais interessantes de um canteiro.

A planta pode ser cortada mais tarde, no final do inverno ou início da primavera, quando começa a aproximar-se o novo ciclo de crescimento.

Alecrim: uma estrutura permanente no jardim

Tal como a lavanda, o alecrim é diferente de uma herbácea caduca.

É uma planta perene e lenhosa que pode manter folhagem durante todo o ano. Não existe, portanto, qualquer razão ecológica ou hortícola para o reduzir drasticamente simplesmente porque chegou o outono.

Um alecrim adulto cria uma estrutura densa de ramos e folhas.

Essa estrutura acrescenta cobertura ao jardim durante os meses em que muitas outras plantas ficam praticamente despidas.

Além disso, quando floresce durante períodos amenos, pode oferecer recursos florais numa altura em que a disponibilidade de flores é menor.

A poda deve ser realizada principalmente para controlar a dimensão, remover ramos danificados ou manter a forma desejada.

Evite transformar a “limpeza de outono” numa poda severa automática.

Num jardim mediterrânico, conservar arbustos como o alecrim ajuda também a manter estrutura visual durante todo o ano.

Ervas ornamentais: movimento, sementes e abrigo

As gramíneas ornamentais são provavelmente um dos melhores argumentos contra cortar tudo no outono.

Quando as folhas e inflorescências começam a adquirir tonalidades de palha, muitas continuam perfeitamente firmes durante meses.

Em vez de serem um elemento morto, tornam-se parte do jardim de inverno.

A RHS recomenda deixar no lugar durante o inverno a folhagem e as cabeças de sementes das gramíneas ornamentais caducas. Estas estruturas acrescentam movimento e interesse ao jardim, enquanto as sementes podem alimentar aves e a folhagem proporciona abrigo a insetos e outros pequenos animais.

Só antes de os novos rebentos começarem a desenvolver-se na primavera é que o crescimento velho deve normalmente ser removido nas espécies caducas.

Esta estratégia é especialmente interessante com géneros ornamentais como Miscanthus, Pennisetum e outras gramíneas que mantêm estruturas secas atraentes.

No entanto, a manutenção deve ser adaptada à espécie, sobretudo no caso das gramíneas perenes que permanecem verdes.

Girassóis: não retires imediatamente as cabeças secas

Quando um girassol termina a floração, a enorme cabeça castanha pode parecer pronta para o composto.

Para as aves, pode representar exatamente o contrário.

As sementes de girassol são uma fonte de alimento conhecida para várias aves granívoras. A RHS recomenda deixar cabeças de girassol disponíveis, referindo que pardais e outras aves podem retirar diretamente as sementes.

Se cultivaste girassóis e não precisas de recolher todas as sementes para o ano seguinte, deixa algumas cabeças secas no jardim.

Não é necessário conservar todas.

Podes recolher parte das sementes para futura sementeira e deixar outras para a fauna.

Esta combinação entre produção e biodiversidade é frequentemente mais útil do que pensar no jardim em termos absolutos: ou tudo para as pessoas ou tudo para a natureza.

Hastes ocas: pequenos abrigos para insetos durante o inverno

Uma haste seca pode parecer completamente vazia.

Para um pequeno invertebrado, essa cavidade pode representar um espaço protegido.

A RHS recomenda deixar perenes sem cortar durante o inverno precisamente porque as hastes ocas podem proporcionar abrigo a invertebrados.

É importante, contudo, não simplificar demasiado este fenómeno.

Nem todos os insetos “hibernam” da mesma forma e nem todas as hastes ocas são utilizadas pelas mesmas espécies.

Dependendo do inseto, da fase do ciclo de vida e das condições locais, estruturas vegetais podem ser utilizadas como locais de repouso, proteção ou desenvolvimento.

Algumas abelhas solitárias utilizam cavidades em caules para nidificar. A RHS refere especificamente que hastes ocas constituem um recurso importante para abelhas que nidificam em cavidades, incluindo grupos de abelhas-pedreiras e abelhas-cortadeiras.

Por isso, cortar todas as plantas rente ao solo no outono e enviar imediatamente os caules para resíduos verdes pode eliminar micro-habitats antes de sabermos se estão ocupados.

Uma estratégia simples é deixar parte das hastes até à primavera.

Mesmo quando for finalmente necessário cortar, alguns caules podem permanecer no jardim, colocados num local protegido ou integrados num pequeno abrigo de biodiversidade.

Esta prática complementa perfeitamente um hotel de insetos.

Na realidade, um jardim cheio de diferentes estruturas naturais — caules, madeira, folhas e pequenas cavidades — pode oferecer uma diversidade de micro-habitats que um único hotel artificial dificilmente consegue reproduzir.

Aves que se alimentam das sementes secas no inverno

As sementeiras secas para aves são outro motivo importante para adiar a tesoura.

Muitas plantas continuam a guardar sementes depois de perderem as flores.

Durante o inverno, essas sementes transformam o canteiro numa espécie de comedouro natural.

A RHS recomenda deixar cabeças de sementes durante o máximo de tempo possível, tanto pelas sementes como pelos insetos que podem ser encontrados entre as estruturas vegetais.

A RSPB faz uma recomendação semelhante e destaca que plantas secas e cabeças de sementes podem atrair aves como pintassilgos, pardais e chapins.

Os girassóis são o exemplo mais óbvio, mas não são os únicos.

Equináceas, cardos ornamentais, algumas gramíneas, rudbéquias e diversas plantas anuais e perenes conseguem conservar sementes durante bastante tempo.

Isto não significa que uma cabeça seca de determinada planta vá necessariamente atrair uma determinada espécie de ave ao teu jardim.

A presença de aves depende da região, habitat envolvente, disponibilidade de alimento, abrigo e muitos outros fatores.

O princípio importante é criar diversidade.

Um jardim com sementes, bagas, insetos, vegetação densa, água e diferentes alturas oferece mais oportunidades à fauna do que uma superfície completamente limpa e podada.

Como equilibrar estética e ecologia

Um jardim amigo da fauna no inverno não precisa de parecer abandonado.

Na realidade, um dos métodos mais interessantes consiste em escolher deliberadamente aquilo que fica e aquilo que sai.

Faz uma poda parcial

Em vez de cortar um canteiro inteiro, mantém as plantas com estruturas mais interessantes.

Deixa equináceas, gramíneas e outras plantas com boas cabeças de sementes.

Retira apenas os caules que tombaram sobre caminhos ou estão claramente degradados.

Esta seleção cria uma aparência intencional.

Mantém as margens organizadas

Um truque simples é conservar caminhos, entradas e limites dos canteiros bem definidos.

Mesmo quando o interior contém folhas e plantas secas, uma bordadura limpa transmite a sensação de que o espaço está a ser gerido.

O resultado pode ser simultaneamente naturalista e cuidado.

Corta plantas doentes quando necessário

“Não cortar” não deve transformar-se numa regra absoluta.

Se determinada planta apresenta material afetado por uma doença que pode persistir nos restos vegetais, a remoção pode fazer parte de uma gestão sanitária adequada.

Retira o material problemático de acordo com a doença em causa e limpa as ferramentas quando necessário.

O objetivo é conservar estruturas saudáveis, não preservar problemas fitossanitários.

Deixa algumas folhas

Também não é necessário recolher todas as folhas caídas.

Nos caminhos e relvados pode ser útil removê-las, mas parte pode ser colocada debaixo de arbustos e sebes.

A RSPB recomenda precisamente conservar alguma matéria vegetal morta e folhas, porque estas criam habitat para pequenos organismos e podem fornecer locais onde as aves procuram alimento durante o inverno.

Faz a grande limpeza na primavera

Para muitas herbáceas, o início da primavera é um momento mais adequado para retirar os caules secos.

A RSPB recomenda deixar as cabeças de sementes durante o inverno e cortá-las quando chega a primavera e o novo crescimento começa a desenvolver-se.

A RHS sugere igualmente deixar muitas perenes em pé durante o inverno e realizar o corte posteriormente.

Assim, aquilo que tradicionalmente chamamos “limpeza de outono” pode simplesmente tornar-se uma limpeza seletiva, seguida de uma intervenção maior no final do inverno ou início da primavera.

Perguntas frequentes

Devo deixar todas as plantas secas durante o inverno?

Não.

Deixa principalmente estruturas saudáveis que proporcionem sementes, abrigo ou interesse ornamental. Material doente, plantas que representem um problema de segurança e espécies com necessidades específicas de poda devem ser tratadas de acordo com cada situação.

Quando devo cortar as plantas que deixei durante o inverno?

Para muitas herbáceas caducas, o final do inverno ou início da primavera é uma boa altura, antes ou durante o início do novo crescimento.

O momento exato depende da espécie e do clima local.

As hastes ocas têm realmente insetos?

Podem ter.

As cavidades vegetais constituem locais de abrigo e nidificação para diferentes invertebrados. A RHS recomenda especificamente conservar hastes ocas e outras estruturas vegetais para aumentar as oportunidades de abrigo no jardim.

Devo deixar os girassóis inteiros?

Podes deixar algumas cabeças com sementes disponíveis para as aves e recolher outras para sementeira.

Se uma planta tombar ou ficar instável, podes cortar a cabeça e colocá-la num local seco e acessível à fauna em vez de a eliminar imediatamente.

Um jardim com plantas secas vai parecer desarrumado?

Não necessariamente.

Gramíneas, equináceas e outras plantas podem criar silhuetas muito interessantes durante o inverno. A RHS destaca precisamente o valor ornamental das cabeças de sementes durante esta estação.

Manter caminhos e bordaduras organizados ajuda a criar uma aparência naturalista mas intencional.

Isto substitui um hotel de insetos?

Não necessariamente, mas complementa-o.

Um hotel de insetos pode fornecer cavidades específicas, enquanto plantas, folhas, madeira morta e caules criam uma variedade maior de habitats naturais.

Conclusão: no inverno, uma planta seca ainda pode estar cheia de vida

Durante décadas, a imagem do jardim bem cuidado esteve associada a uma limpeza quase completa no outono.

Mas aquilo que parece desnecessário aos nossos olhos pode continuar a desempenhar funções importantes.

Uma cabeça de equinácea pode guardar sementes. Um girassol seco pode alimentar aves. Uma gramínea aparentemente morta pode proteger pequenos animais. Uma haste oca pode transformar-se num micro-habitat.

Por isso, escolher plantas não cortar inverno jardim não significa deixar tudo ao acaso.

Significa praticar uma manutenção mais seletiva.

Mantém as estruturas saudáveis e úteis, conserva algumas sementes, evita podas desnecessárias e remove apenas aquilo que realmente precisa de desaparecer.

Na primavera haverá tempo para cortar grande parte do crescimento seco e abrir espaço para os novos rebentos.

Durante o inverno, porém, vale a pena permitir que uma parte do jardim permaneça em pé.

É uma mudança pequena na forma como fazemos jardinagem, mas ajuda a transformar um espaço ornamental num verdadeiro jardim amigo da fauna no inverno — um lugar onde beleza e biodiversidade podem existir lado a lado.