Durante o outono, é comum imaginar um esquilo simplesmente a recolher alimento para sobreviver aos meses mais difíceis. Mas há muito mais a acontecer. Quando um esquilo apanha uma bolota, uma noz ou outra semente e desaparece entre as árvores, pode estar a participar num processo ecológico importante: o armazenamento disperso de alimentos e, indiretamente, a dispersão de sementes.
Em vez de colocar toda a reserva num único esconderijo, muitos esquilos distribuem o alimento por numerosos locais. Algumas sementes são recuperadas e consumidas posteriormente. Outras permanecem no solo e, quando encontram condições adequadas, podem germinar.
Desta forma, um comportamento desenvolvido principalmente para garantir alimento também pode contribuir para a regeneração e dinâmica das florestas.
O que é o armazenamento disperso dos esquilos
O comportamento é conhecido em inglês como scatter-hoarding, expressão que pode ser traduzida como armazenamento ou aprovisionamento disperso.
A estratégia consiste em dividir uma reserva alimentar por muitos esconderijos, em vez de concentrá-la num único local.
Para um pequeno mamífero, esta abordagem apresenta uma vantagem evidente: se outro animal descobrir um esconderijo, apenas uma parte das reservas é perdida.
Os esquilos podem transportar sementes para longe do local onde as encontraram, escolher um ponto adequado e enterrá-las no solo ou escondê-las entre folhas, raízes e outros elementos da vegetação.
Mais tarde, regressam a muitos desses locais para recuperar o alimento.
Porque não guardar tudo no mesmo sítio
Uma grande reserva concentrada seria mais fácil de defender, mas também representaria um risco considerável.
Um concorrente que descobrisse esse depósito poderia consumir grande parte do alimento acumulado.
Ao criar muitos pequenos esconderijos, o esquilo distribui o risco. Perder uma bolota ou uma noz não significa perder toda a reserva.
Esta estratégia torna-se especialmente importante quando existe competição por alimentos energéticos e relativamente duradouros, como sementes e frutos secos.
Como os esquilos encontram novamente as sementes
Existe uma ideia popular segundo a qual os esquilos enterram centenas de sementes e depois simplesmente se esquecem delas. A realidade é mais interessante.
Estes animais conseguem recuperar uma parte importante dos alimentos armazenados recorrendo à memória espacial e a pistas presentes no ambiente.
Árvores, troncos, pedras, caminhos e outros elementos podem ajudar a orientar a procura.
O olfato também pode desempenhar um papel importante, sobretudo quando o alimento está enterrado sob folhas ou numa camada superficial do solo.
Isto significa que os esconderijos não são simplesmente distribuídos ao acaso.
Uma memória adaptada ao ambiente
Para um animal que depende de numerosos depósitos alimentares, recordar a localização aproximada de recursos pode representar uma vantagem significativa.
Ao longo do tempo, indivíduos capazes de utilizar eficazmente informação espacial têm melhores condições para recuperar alimento durante períodos de menor disponibilidade.
Mesmo assim, nenhum sistema é perfeito.
Algumas sementes não são recuperadas porque o animal muda de território, morre, encontra outras fontes de alimento ou simplesmente deixa determinado esconderijo por explorar.
É precisamente aqui que começa uma segunda história: a da semente.
De reserva alimentar a futura árvore
Uma bolota enterrada pelo esquilo não foi colocada no solo com a intenção de produzir um carvalho.
Para o animal, continua a ser alimento.
Mas uma semente que permanece esquecida pode beneficiar da situação.
Ao ser transportada para longe da árvore que a produziu, deixa de competir diretamente com uma enorme concentração de sementes junto da planta-mãe. Se for enterrada a uma profundidade adequada e encontrar humidade, temperatura e solo favoráveis, pode germinar.
O esquilo transforma-se assim num dispersor de sementes sem que esse seja o objetivo do seu comportamento.
Como o armazenamento disperso contribui para a floresta
A dispersão de sementes é uma etapa fundamental no ciclo de vida de muitas plantas.
Uma árvore adulta pode produzir grandes quantidades de sementes, mas simplesmente deixá-las cair não garante o estabelecimento de novas árvores.
Muitas permanecem demasiado próximas da planta-mãe. Outras são consumidas, atacadas por organismos ou encontram condições inadequadas para germinar.
Os animais podem alterar completamente esse cenário.
Ao recolher e transportar sementes, roedores capazes de armazenamento disperso deslocam-nas horizontalmente pela paisagem e podem enterrá-las em novos locais.
Estudos ecológicos sobre roedores que fazem scatter-hoarding mostram que este processo pode constituir um verdadeiro serviço de dispersão de sementes e contribuir para a regeneração florestal.
Nem todas as sementes escondidas se tornam árvores
É importante evitar uma simplificação frequente: uma semente esquecida não equivale automaticamente a uma nova árvore.
Depois de permanecer no solo, ainda enfrenta muitas dificuldades.
Pode ser encontrada por outro animal, atacada por fungos, perder a capacidade de germinação ou encontrar condições inadequadas de luz, temperatura e humidade.
Mesmo depois da germinação, a jovem planta precisa de sobreviver à seca, herbivoria, competição e outras pressões ambientais.
Por isso, o papel dos esquilos deve ser entendido como parte de uma rede ecológica muito maior.
Eles podem aumentar as oportunidades de determinadas sementes chegarem a locais favoráveis, mas não controlam o resultado final.
Esquilos e carvalhos: uma relação particularmente interessante

As bolotas são um bom exemplo para compreender este processo.
São sementes relativamente grandes, nutritivas e demasiado pesadas para serem transportadas pelo vento a grandes distâncias.
Sem a intervenção de animais, muitas acabariam perto do carvalho que as produziu.
Um esquilo pode alterar essa distribuição ao apanhar uma bolota e transportá-la antes de a esconder.
Se não regressar para consumi-la, essa semente passa a ter a possibilidade de germinar longe da árvore de origem.
Processos semelhantes ocorrem com outros frutos e sementes consumidos ou armazenados por pequenos mamíferos.
A composição da floresta, a espécie de árvore, a disponibilidade alimentar e a comunidade local de animais determinam a importância deste mecanismo em cada ecossistema.
O esquilo-vermelho em Portugal
O esquilo-vermelho (Sciurus vulgaris) é a espécie de esquilo nativa presente em Portugal continental.
Segundo o Livro Vermelho dos Mamíferos de Portugal Continental, encontra-se atualmente classificado como Pouco Preocupante (LC). A sua presença está especialmente associada a habitats florestais, e a conservação de áreas com coníferas e espécies arbóreas autóctones é importante para manter alimento, abrigo e conectividade entre populações.
A espécie ocorre sobretudo no norte e centro de Portugal continental, embora a sua distribuição tenha sofrido alterações históricas.
O Museu Virtual da Biodiversidade da Universidade de Évora refere a presença do esquilo-vermelho em bosques e florestas de coníferas e de folha caduca, mas também em ambientes humanizados, incluindo jardins e parques urbanos.
Um regresso importante
A história do esquilo-vermelho em Portugal é particularmente interessante porque a espécie desapareceu de grande parte do território durante um período histórico e voltou posteriormente a expandir-se.
Atualmente, a expansão portuguesa da espécie continua a despertar interesse científico. Investigação ligada ao Departamento de Biologia da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e ao CIBIO/BIOPOLIS tem estudado a estrutura genética e a expansão do esquilo-vermelho em Portugal.
Esta recuperação mostra também a importância da continuidade dos habitats florestais.
Uma floresta não funciona apenas como um conjunto de árvores isoladas. Para animais arborícolas, a existência de corredores e manchas de habitat adequadas influencia a possibilidade de deslocação, alimentação e expansão.
Onde observar esquilos em Portugal
Observar um esquilo-vermelho não exige necessariamente entrar numa floresta remota.
A espécie pode utilizar florestas de coníferas, bosques de folha caduca, zonas arborizadas, jardins e parques.
No entanto, encontrar um depende bastante da região, do habitat e da hora do dia.
Em Portugal, as probabilidades tendem a ser maiores no norte e centro continental, onde a espécie apresenta uma distribuição mais ampla.
Procurar primeiro os sinais
Nem sempre é necessário ver diretamente o animal.
Um dos métodos mais interessantes de observação da natureza consiste em procurar vestígios da sua presença.
Cones de coníferas roídos, restos de sementes e cascas abertas podem indicar atividade de pequenos mamíferos.
Também é possível observar movimentos rápidos entre os ramos, especialmente em locais tranquilos com árvores maduras.
A cauda longa e muito peluda é uma das características mais fáceis de reconhecer quando o animal atravessa um tronco ou salta entre ramos.
Como observar o comportamento de armazenamento
O outono é uma época particularmente interessante porque muitas árvores produzem sementes e frutos ricos em energia.
Em locais frequentados por esquilos, pode ser possível observar indivíduos a descer ao solo, apanhar alimento e transportá-lo para outro ponto.
O mais importante é manter distância.
Seguir um esquilo demasiado perto pode alterar o seu comportamento e fazer com que abandone temporariamente a atividade.
Binóculos permitem acompanhar o animal sem interferir.
Também é preferível observar em silêncio e evitar aproximar-se de ninhos ou locais de abrigo.
Não é necessário alimentar os animais
A melhor observação de vida selvagem acontece quando o comportamento permanece natural.
Oferecer comida pode alterar hábitos, aumentar a concentração de animais num determinado local e modificar as interações entre indivíduos.
É mais interessante observar como o esquilo utiliza os recursos que o próprio habitat oferece.
Manter árvores, arbustos e zonas verdes diversificadas também beneficia muitas outras espécies.
Esquilos como pequenos engenheiros da paisagem
É tentador chamar aos esquilos “jardineiros da floresta”, e existe uma base ecológica para essa comparação, desde que seja entendida como metáfora.
Os animais não plantam árvores intencionalmente.
Estão simplesmente a tentar garantir alimento.
O resultado involuntário, porém, pode beneficiar algumas plantas.
Ao transportar sementes, enterrá-las e deixar uma parte sem recuperar, os esquilos e outros roedores podem alterar a localização onde essas plantas têm oportunidade de germinar.
É um exemplo de como uma floresta resulta de milhares de interações entre organismos.
Árvores alimentam animais. Animais transportam sementes. Algumas sementes germinam. As novas árvores criam alimento e abrigo para futuras gerações de animais.
Nenhuma dessas relações funciona isoladamente.
Porque este comportamento é importante para a conservação
Compreender a dispersão de sementes ajuda também a perceber por que razão conservar uma floresta significa muito mais do que proteger árvores adultas.
Para existir regeneração natural, sementes precisam de ser produzidas, dispersas, depositadas em locais adequados e sobreviver até se transformarem em plantas estabelecidas.
A fragmentação do habitat pode interferir nesses processos.
Uma investigação arquivada pela Universidade de Oxford, por exemplo, analisou como estradas podem perturbar serviços de dispersão de sementes realizados por roedores que praticam armazenamento disperso.
Em Portugal, o ICNF salienta que a conservação do esquilo-vermelho depende da preservação de áreas florestais adequadas e da conectividade entre habitats.
Proteger estes animais significa, portanto, proteger também algumas das interações ecológicas das quais fazem parte.
FAQ — Perguntas frequentes sobre esquilos e sementes
Os esquilos lembram-se de todas as sementes que escondem?
Não. Os esquilos conseguem recuperar muitos alimentos utilizando memória espacial e outras pistas, mas uma parte dos esconderijos pode não ser recuperada. Essas sementes podem ser consumidas por outros animais, deteriorar-se ou, em condições adequadas, germinar.
Os esquilos plantam árvores de propósito?
Não. O objetivo é armazenar alimento. A dispersão de sementes e eventual germinação são consequências ecológicas involuntárias desse comportamento.
Que sementes os esquilos escondem?
A alimentação varia com a espécie, habitat e estação. Sementes, frutos secos e sementes de árvores podem representar recursos importantes. O esquilo-vermelho também utiliza recursos provenientes de coníferas e árvores de folha caduca.
Existem esquilos selvagens em Portugal?
Sim. O esquilo-vermelho (Sciurus vulgaris) está presente em Portugal continental e ocorre principalmente no norte e centro, embora possa ser encontrado noutras áreas adequadas.
Onde é mais fácil observar um esquilo-vermelho?
Bosques, florestas, parques e jardins arborizados podem proporcionar observações. Locais tranquilos com árvores maduras e disponibilidade natural de alimento são particularmente interessantes.
O esquilo-vermelho está ameaçado em Portugal?
Na avaliação apresentada no Livro Vermelho dos Mamíferos de Portugal Continental, a espécie encontra-se classificada como Pouco Preocupante (LC). A preservação e conectividade dos habitats florestais continuam, contudo, a ser importantes para a espécie.
Conclusão
Um esquilo a atravessar uma floresta com uma bolota na boca pode parecer apenas um animal à procura da próxima refeição. Na realidade, esse pequeno movimento faz parte de uma cadeia ecológica muito maior.
O armazenamento disperso permite ao esquilo distribuir as suas reservas por numerosos esconderijos e reduzir o risco de perder todo o alimento acumulado.
Algumas dessas sementes nunca voltam a ser recuperadas.
Quando uma delas permanece num local adequado, sobrevive e germina, aquilo que começou como uma reserva alimentar pode terminar como uma nova árvore.
Os esquilos não conhecem este resultado e não precisam de o conhecer. É precisamente isso que torna o processo tão fascinante: a regeneração das florestas depende, em parte, de relações que surgem das atividades quotidianas dos animais que nelas vivem.
Fontes
Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) — Livro Vermelho dos Mamíferos de Portugal Continental: Sciurus vulgaris — Esquilo-vermelho. A ficha nacional descreve a distribuição, conservação, habitat e estatuto da espécie em Portugal.
Universidade de Évora — Museu Virtual da Biodiversidade — Sciurus vulgaris. Informação sobre identificação, habitat, distribuição portuguesa e conservação do esquilo-vermelho.
Faculdade de Ciências da Universidade do Porto / CIBIO-BIOPOLIS — investigação sobre a expansão e estrutura genética do esquilo-vermelho (Sciurus vulgaris) em Portugal.
University of Oxford — Oxford University Research Archive — Cui et al. (2018), Roads disrupt rodent scatter-hoarding seed-dispersal services: implication for forest regeneration. Estudo sobre armazenamento disperso por roedores e os seus efeitos na dispersão de sementes e regeneração florestal.