Antes de o frio se instalar, a natureza começa muitas vezes a mudar de ritmo. No jardim, essas alterações podem ser discretas: uma ave que aparece com maior frequência junto às plantas com sementes, um ouriço-cacheiro que passa mais tempo à procura de alimento ou uma lagartixa que deixa de surgir nas horas mais frescas.
Os animais não “preveem” o tempo como se estivessem a consultar um calendário. O que fazem é responder a mudanças no ambiente. A duração do dia, a temperatura, a disponibilidade de alimento, a humidade e outros sinais sazonais influenciam o comportamento de muitas espécies.
É particularmente interessante observar estas mudanças no final do verão e durante o outono em Portugal. Algumas espécies migradoras começam a abandonar os locais onde passaram a época de reprodução; outras procuram alimentar-se mais antes dos períodos de menor disponibilidade; e alguns animais reduzem progressivamente a sua actividade.
Mas há uma ressalva importante: um comportamento isolado não é uma previsão meteorológica. Um jardim pode apresentar condições diferentes de outro situado apenas algumas dezenas de quilómetros mais longe. Além disso, temperaturas invulgarmente amenas, falta de alimento, perturbações humanas ou alterações do habitat podem modificar o comportamento dos animais.
Por isso, mais do que procurar um “sinal certo” de que o frio está a chegar, vale a pena aprender a reconhecer os padrões sazonais que tornam a vida selvagem do jardim tão fascinante.
Índice
- Andorinhas e o início da migração
- Formigas e o reforço do formigueiro
- Ouriços e o aumento da actividade alimentar
- Aves de jardim e a alimentação intensificada
- Lagartixas e a redução da actividade
- Abelhas e o último pico de recolha de pólen
- Comportamento sazonal normal ou sinal de stress ambiental?
- Perguntas frequentes
- Conclusão
Andorinhas e o início da migração
Poucos acontecimentos tornam tão evidente a mudança de estação como o desaparecimento progressivo das andorinhas. Estas aves migradoras estão entre os exemplos mais conhecidos de animais que ligam o seu ciclo de vida às estações do ano.
A andorinha-das-chaminés, por exemplo, é uma espécie migradora transaariana. A sua presença em Portugal está fortemente associada à época de reprodução e à disponibilidade de alimento, sobretudo insectos voadores. A SPEA destaca precisamente a importância da migração das aves e explica que as andorinhas se deslocam entre diferentes regiões ao longo do ano.
À medida que o verão termina, podem surgir sinais que parecem anunciar a partida. É possível observar grupos maiores reunidos em fios, telhados ou outros pontos elevados, sobretudo antes dos movimentos migratórios. Nem todas as aves partem exactamente ao mesmo tempo, e a data pode variar conforme a espécie, o local e as condições ambientais.
Também é importante não interpretar cada concentração de aves como uma partida iminente. As andorinhas podem reunir-se por razões relacionadas com alimentação, descanso ou interacções sociais.
A migração é uma estratégia complexa, influenciada por vários factores. A duração do dia, as condições meteorológicas e a disponibilidade de alimento fazem parte do conjunto de sinais ambientais que as aves utilizam.
Por isso, quando os fios começam a ficar silenciosos e as andorinhas deixam de aparecer no jardim, podemos estar perante um dos sinais mais bonitos da transição para a estação fria.

Formigas e o reforço do formigueiro
As formigas também podem tornar-se particularmente visíveis durante determinadas fases do ano. Nos jardins, é comum encontrá-las junto a vasos, relvados, canteiros, compostores e zonas onde exista alimento disponível.
A actividade das formigas está relacionada com a temperatura e com o funcionamento da colónia. A Royal Horticultural Society indica que as formigas de jardim são geralmente mais activas entre a primavera e o outono e explica que as operárias desempenham tarefas como a manutenção e expansão do ninho e a recolha de alimento.
É tentador dizer que, antes do frio, “as formigas reforçam o formigueiro para o inverno”. Esta frase é uma simplificação. Diferentes espécies têm ciclos diferentes e não existe um único comportamento de preparação para o frio que possa ser aplicado a todas.
O que podemos observar é uma alteração gradual da actividade à medida que as temperaturas descem. Os formigueiros podem tornar-se menos movimentados e, durante períodos frios, a actividade exterior tende a diminuir.
Assim, uma grande movimentação de formigas no jardim não deve ser apresentada como uma previsão garantida de frio. É muito mais correcto vê-la como parte da actividade normal de uma colónia num período em que ainda existem condições favoráveis.
Ouriços e o aumento da actividade alimentar
Se tiver a sorte de receber um ouriço-cacheiro no jardim, o final do verão e o outono podem ser uma altura particularmente interessante para o observar.
O ouriço-cacheiro é sobretudo nocturno e alimenta-se de vários invertebrados, incluindo minhocas e escaravelhos. Em regiões onde ocorre hibernação, o outono é um período importante de alimentação antes da entrada no período de menor actividade.
É por isso que um ouriço pode parecer especialmente ocupado durante algumas noites de outono, explorando folhas, vegetação, sebes e outros locais onde encontra alimento.
Mas também aqui devemos evitar transformar uma tendência geral numa regra absoluta. Um jardim com muita matéria orgânica, vegetação espontânea e abundância de invertebrados pode atrair ouriços durante todo o período em que estes estão activos.
Se aparecer um ouriço, a melhor ajuda é normalmente tornar o espaço mais favorável à vida selvagem: manter alguns recantos naturais, evitar eliminar todos os esconderijos e permitir que existam locais onde os invertebrados possam viver.
As folhas caídas também podem desempenhar um papel importante como abrigo para pequenos animais e invertebrados durante os meses frios.
Aves de jardim e a alimentação intensificada
Quando os dias começam a ficar mais curtos e frios, encontrar alimento pode tornar-se mais exigente para muitas aves.
Algumas espécies que permanecem activas durante o inverno precisam de obter energia suficiente para manter a temperatura corporal, especialmente durante as noites frias. Por isso, é possível observar maior movimento junto a plantas com sementes, frutos ou outros recursos alimentares.
A presença de aves num jardim também pode mudar conforme a estação. Algumas espécies residentes permanecem durante todo o ano, enquanto outras aparecem ou desaparecem de acordo com os seus movimentos sazonais.
O ICNF mantém informação sobre numerosas espécies de aves presentes em Portugal e sobre o seu estatuto e ocorrência.
No outono, uma boa estratégia para quem pretende observar aves é olhar para o jardim como um pequeno ecossistema. Plantas que produzem sementes, arbustos com frutos e zonas com insectos podem oferecer recursos naturais.
Deixar algumas plantas completar o seu ciclo e produzir sementes pode ser mais útil para a biodiversidade do que cortar tudo assim que as flores desaparecem.
A alimentação suplementar de aves deve, contudo, ser feita com responsabilidade. O objectivo não deve ser transformar o jardim numa fonte artificial permanente de alimento, mas criar condições que favoreçam a presença de fauna selvagem.
Lagartixas e a redução da actividade
As lagartixas são excelentes exemplos de animais cujo comportamento está fortemente condicionado pela temperatura.
Quem vive em Portugal está habituado a vê-las junto a muros, pedras, paredes, canteiros e outros locais onde conseguem aproveitar o calor. Nos dias mais quentes, podem ser extremamente activas.
Quando as temperaturas descem, a sua actividade exterior tende a diminuir. O metabolismo dos répteis depende fortemente da temperatura ambiente, pelo que os períodos frios condicionam os momentos em que conseguem movimentar-se e procurar alimento.
O ICNF regista várias espécies de répteis na fauna portuguesa, incluindo lagartixas e lagartos presentes em diferentes regiões.
Assim, o desaparecimento gradual das lagartixas do jardim pode ser uma das mudanças mais fáceis de notar no outono.
Ainda assim, não significa necessariamente que tenham desaparecido. Podem simplesmente estar menos activas ou permanecer escondidas durante períodos mais longos.
Num jardim naturalizado, folhas, pedras, muros e pequenas zonas de abrigo podem proporcionar refúgios importantes para diferentes espécies durante os meses menos favoráveis.
Abelhas e o último pico de recolha de pólen
As abelhas e outros polinizadores também respondem fortemente à disponibilidade de flores.
No final da época quente, ainda podemos encontrar bastante actividade junto de plantas que continuam a florescer. Dependendo da região e das condições meteorológicas, determinadas espécies de abelhas podem continuar a recolher néctar e pólen durante o outono.
É importante, porém, evitar a ideia de que existe sempre um único “último pico” de recolha de pólen imediatamente antes do frio. A actividade varia muito entre espécies, colónias, regiões e plantas disponíveis.
No caso dos abelhões, por exemplo, o ciclo das colónias muda durante o outono. Em muitas espécies, a colónia termina o seu ciclo e novas rainhas sobrevivem para passar o inverno, embora existam diferenças entre espécies e regiões.
A disponibilidade de flores é, portanto, essencial. Algumas plantas que florescem no outono podem continuar a fornecer néctar e pólen numa altura em que os recursos começam a escassear.
Para quem tem jardim, isto significa que não é preciso transformar o outono num deserto de plantas floridas. Manter alguma diversidade de flores pode ajudar os polinizadores que continuam activos.
Também é uma excelente oportunidade para observar quais são as plantas mais procuradas e planear futuras plantações com base naquilo que realmente acontece no jardim.
Comportamento sazonal normal ou sinais de stress ambiental?
Esta é talvez a distinção mais importante quando observamos animais.
Uma mudança de comportamento pode ser perfeitamente normal e estar relacionada com a estação. Mas também pode indicar que alguma coisa mudou no ambiente.
O desaparecimento das lagartixas à medida que as temperaturas descem é compatível com a sua biologia. Uma maior actividade alimentar do ouriço no outono também pode fazer parte do seu ciclo natural.
Por outro lado, alterações muito invulgares, persistentes ou acompanhadas por sinais de doença ou ferimentos merecem atenção.
Entre os possíveis factores ambientais estão:
- falta de alimento;
- perda de abrigo;
- alterações na vegetação;
- utilização intensiva de pesticidas;
- perturbação humana;
- temperaturas anormalmente elevadas ou baixas;
- seca prolongada;
- perda de locais de reprodução;
- fragmentação do habitat.
A situação das aves comuns mostra por que razão devemos olhar para os padrões com cuidado. A SPEA tem documentado alterações nas populações de várias aves em Portugal e salienta que as espécies comuns podem fornecer sinais importantes sobre o estado dos ecossistemas.
Por isso, um comportamento observado num único jardim não é suficiente para concluir que existe um problema ambiental.
A melhor abordagem é observar ao longo do tempo, comparar diferentes períodos e, quando necessário, consultar informação de entidades especializadas.
Perguntas frequentes
Os animais conseguem prever a chegada do frio?
Não no sentido de preverem o futuro. Muitos animais conseguem detectar alterações ambientais, como mudanças de temperatura, duração do dia e disponibilidade de alimento. Essas informações influenciam o seu comportamento sazonal.
Ver muitas formigas significa que vai chegar frio?
Não necessariamente. A actividade das formigas depende de vários factores e varia entre espécies. Uma maior concentração de formigas pode simplesmente reflectir condições favoráveis para a colónia.
Porque é que vejo mais ouriços no outono?
Uma explicação possível é o aumento da actividade de procura de alimento antes dos períodos de menor actividade. O ouriço-cacheiro alimenta-se sobretudo de invertebrados e é mais activo durante a noite.
Para onde vão as andorinhas?
Muitas andorinhas que passam a época de reprodução em Portugal são migradoras e deslocam-se para regiões africanas durante o período não reprodutor. Contudo, os movimentos variam conforme a espécie e não devem ser reduzidos à ideia de que todas as aves fazem exactamente a mesma viagem.
Porque deixam de aparecer as lagartixas?
A diminuição da temperatura reduz a actividade dos répteis. Por isso, quando chega o tempo mais frio, podem passar mais tempo escondidas e tornar-se muito menos visíveis.
Devemos alimentar os animais selvagens quando chega o frio?
Nem sempre. A melhor primeira medida é proporcionar habitat: vegetação diversificada, abrigo, folhas, sebes e água quando apropriado. A alimentação artificial pode ter riscos e deve ser ponderada de acordo com a espécie e as orientações de entidades de conservação.
Um animal activo no inverno significa que algo está errado?
Não. Invernos amenos podem permitir que algumas espécies permaneçam activas durante períodos em que normalmente estariam menos visíveis. O comportamento deve ser interpretado tendo em conta a espécie, o clima local e o contexto.
Conclusão: observar sem interferir
O jardim pode funcionar como uma pequena janela para as mudanças que acontecem na natureza.
As andorinhas que começam a desaparecer, as aves que procuram alimento com maior frequência, os ouriços que exploram o chão durante a noite e as lagartixas que deixam progressivamente de aparecer contam, cada uma à sua maneira, uma parte da história da mudança de estação.
Mas o mais interessante não é tentar transformar estes sinais num calendário infalível.
É observar.
Um jardim em Portugal não é igual em setembro, outubro ou novembro. Também não é igual no Minho, no interior transmontano, em Lisboa, no Alentejo ou no Algarve. A altitude, a exposição, a chuva, a temperatura e a vegetação alteram aquilo que os animais encontram e a forma como respondem ao ambiente.
Por isso, em vez de perseguir certezas, vale a pena criar o hábito de reparar nos pequenos acontecimentos: quem aparece, quem desaparece, quem procura alimento, quem fica mais silencioso e quem muda de horário.
E, sobretudo, observar sem interferir.
Não devemos perseguir animais, mexer em ninhos, capturar répteis ou perturbar locais de abrigo. Para ajudar a fauna, é geralmente mais útil conservar pequenos espaços naturais, manter diversidade de plantas e evitar transformar o jardim num espaço excessivamente limpo e artificial.
A próxima vez que notar uma mudança no comportamento dos animais do seu jardim, pare alguns minutos e observe.
Talvez esteja simplesmente a assistir à chegada de uma nova estação.